Eu queria ter sido um gay de 15 anos

Por Marcelo Elídio
Publicado pelo site Tradicionalmente, em 8 de novembro de 2016

Eu morro de amores quando estou na rua e passa por mim um casal gay com 15 anos de idade, de mãos dadas. Com 15 anos eu estava tão confuso, reprimido, tão entorpecido, solitário, com tanto medo e tão deprimido, que eu nem lembro direito da minha vida naquela época. Então eu acho lindo quando eu vejo esses casais: eles já estão esclarecidos o suficiente pra ter uma adolescência mais normal.

Nessa idade, quando você é um gay que não se descobriu 100% ainda, parece que sua vida acontece em um universo paralelo ao das demais pessoas, da sua idade, ao seu redor. Todo mundo estava sorridente, tendo namorinhos, indo em festinhas, fazendo as coisas normais de adolescentes. E eu lá, sozinho em casa, chorando ouvindo música e lendo Flaubert. Pensando que eu era uma aberração, o único no mundo assim, tendo muita dificuldade em controlar minha ansiedade e projetar uma imagem que eu acreditava ser mais correta.

Ter 15 anos e ter uma consciência de si o suficiente para se entender como gay e ter um namoradinho é muito lindo. Economiza muita dor e sofrimento para aquele jovem. Aprendi muito levando socos da vida, mas teria aprendido mais coisas (e coisas mais legais) se meu ponto de partida fosse outro, se eu estivesse em um ambiente que me aceitasse melhor e mais cedo – ou se, pelo menos, tivesse sido impactado por mais imagens positivas da comunidade gay.

Quando a gente fala que representatividade é importante, é por causa disso. Não é para doutrinar ninguém, não é para a marca ou o programa de televisão pagaram de moderninhos, não é para ensinar as crianças a serem gays – isso não se ensina (do mesmo jeito que me ensinaram a ser hetero e desde sempre soube que não era pra mim isso). É para que esses jovens fiquem um pouquinho mais tranquilos com essa coisa dentro deles que causa tanta estranheza e que, por eles acharem que devem esconder, traz também tanta dor. É para ajudar a naturalizar algo que já existe nessa criança: ela mesma.

Acredite em mim: o preconceito e o ódio ao redor nos leva de cara a um caminho de auto-negação, pois queremos ser aquilo que os outros esperam de nós, e muita gente morre nesse processo, por dentro e por fora. Morrem pois matam sua essência, morrem pois se escondem atrás de hobbies e profissões e roupas e comportamentos que na verdade não gostam, morrem pois se matam. E morrem pois são assassinados também.

Quando você tem um segredo que pode te custar sua vida, não existe infância, não existe adolescência, não existe a vida direito. Eu me escondi na minha coleção de discos, mas tem gente que se esconde nas drogas, na criminalidade, na prostituição, e até na homofobia. A lista é infinita.

A próxima vez que você passar por um casal gay de 15 anos de mãos dadas na rua, lembre-se disso tudo que falei aqui. Não é por ser modinha, não é influência da novela e não é, necessariamente, um jovem sexualmente precoce. São apenas pessoas aprendendo, com erros e acertos, sobre o amor, sobre viver em sociedade, sobre ser humano, sobre ser quem elas são de verdade.

E, no meio do caminho, ainda dando a cara a tapa, mostrando pra esse mundo cheio de preconceito e ódio que mesmo que eles ainda não tenham se encontrado por completo, eles já sabem o lugar deles: onde eles quiserem estar.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *