Esporte “de menina” e o preconceito russo contra os gays

Por Mariana Lajolo
Publicado na coluna Esporte Fino do portal Carta Capital

Oleksandra Sabada e Anton Timofeyev na piscina do Maria Lenk, no Rio (Foto: Satiro Sodre/SSPress)

O evento foi pequeno, pouco noticiado, mas emblemático. Na última sexta-feira, o ucraniano Anton Timofeyev entrou na piscina do Parque Aquático Maria Lenk ao lado de sua compatriota Oleksandra Sabada para se tornar o primeiro homem a apresentar uma rotina de nado sincronizado no Brasil.

Timofeyey chamou atenção da imprensa, do público e até dos cartolas. Era um homem, vestindo um maiô, participando de um esporte “de menina”.

Até o ano passado, apenas mulheres podiam disputar o nado sincronizado. Para muitos, a modalidade é feminina e delicada demais para o sexo masculino. A prática por homens é associada à homossexualidade e desperta muito preconceito. Não à toa, Timofeyey teve de responder a muitas perguntas sobre sua vida amorosa —ele é casado com uma mulher.

“Havia preconceito, mas sou um homem forte. Eu faço o que acho que é bom para mim. Tenho uma meta e a persigo. O que os outros falam ou pensam não me importa”, disse.

A Federação Internacional de Natação (Fina) decretou no fim de 2014 a inclusão dos duetos mistos em seus eventos —agora, a ginástica rítmica é a única modalidade olímpica que não permite homens em competições oficiais; as mulheres podem competir em todas.

Aprovado pelos dirigentes filiados à Fina e aplaudida por confederações e entidades do mundo todo, a inclusão das duplas mistas no nado sincronizado já provocou reações adversas na Rússia, trazendo novamente a discriminação contra homossexuais no esporte à tona.

O nado sincronizado misto estreará no programa de provas do Mundial de Desportos Aquáticos em agosto. O palco será a cidade russa de Kazan. Receber homens em um evento “de menina” gerou revolta nos russos, que também se preocupam com o fato de, por conta desse preconceito em seu país, não serem capazes de manter seu domínio no quadro de medalhas, já que não devem ter atletas no mesmo nível de seus rivais. Em Londres-2012, as russas ganharam as duas medalha de ouro em disputa, nas duplas e por equipe.

“Eu provavelmente votaria contra isso [inclusão das duplas mistas]”, disparou Angelika Timanina, campeã olímpica em 2012 e oito vezes campeã mundial com a seleção da Rússia, à Associated Press.

“Nado sincronizado deveria ser um esporte puramente feminino e introduzir as duplas mistas é um erro”, afirmou à agência R-Sport o ministro do esporte russo, Vitaly Mutko.
Essas manifestações fazem eco a outras que envolveram os gays e o esporte russo nos últimos anos.

No Mundial de atletismo de 2013, atletas e dirigentes russos se manifestaram publicamente contra a presença de gays no esporte. O torneio aconteceu em meio à polêmica da aprovação de uma lei contra homossexuais no país. Os Jogos de Inverno de 2014, em Sochi, também foram disputados sob a sombra do preconceito.

A Fina deu um importante passo ao aprovar as duplas mistas. A entidade já havia percebido que utilizar provas com homens e mulheres juntos pode ser uma forma de atrair público e praticantes —os revezamentos mistos da natação têm feito sucesso em seus campeonatos, por exemplo. Quanto mais audiência e mais atletas, melhor. É esse o pensamento dos cartolas da Fina. Que ajuda o esporte a dar um grande passo pela inclusão de todos.

Oleksandra Sabada e Anton Timofeyev devem representar a Ucrânia no Mundial (Foto: Satiro Sodre/SSPress)

 

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