Em nome de Deus as portas das escolas estão fechadas para todas as famílias

(Imagem: Jornalistas Livres)

Por Elizabete Franco*
publicado pelo site Viomundo, em 24 de agosto de 2015

Acompanhando um movimento que existiu em várias cidades do país, segmentos religiosos se opõem à presença da palavra gênero no Plano Municipal de Educação de São Paulo. Na votação realizada no dia 11 de agosto na Câmara Municipal observamos manifestações públicas conclamando o “povo de Deus” a dizer “não ao gênero”. Com gritos de “aleluia, aleluia”,  orações e uma faixa com os dizeres “Gênero não é de Deus”, manifestantes religiosos apoiavam a maioria dos vereadores que votou pela exclusão do termo no texto do Plano.

O argumento central desta perspectiva é que gênero é uma ideologia que representa uma ameaça para a família e para as crianças e, por isso, não deve estar presente nas escolas.

Neste enunciado religioso, transmitido em missas, cartilhas, câmaras municipais e redes virtuais, temos o entrelaçamento de vários conceitos – ideologia, gênero, família, crianças, escola e educação – que são objeto de pesquisa e análise de diferentes áreas do conhecimento científico.

Pelos limites de espaço e foco deste texto, me limitarei a comentar apenas o conceito de gênero. A construção discursiva que atribuiu ao gênero o lugar de ideologia tem a perspectiva de diminuir sua seriedade, validade. O vocábulo ideológico é utilizado – justamente por quem sustenta o discurso da fé, da doutrina –  como o elemento que tenta desqualificar o que há de científico no termo relações de gênero.

Este discurso religioso faz sistematicamente a oposição entre gênero e família. Tal construção é equivocada porque o conceito de gênero está reduzido à população LGBTT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais) e família reduzida à família heterossexual.

O conceito de gênero não é o que este discurso anuncia mas, mesmo que fosse, causa estranhamento que religiões que pregam o amor queiram eliminar a presença da diversidade na escola e mais estranhamento ainda que um Estado laico possa ter um conjunto de representantes eleitos que parecem mais preocupados com a permanência no poder do que com a qualidade na produção da educação na cidade e no País.

Gênero – mais precisamente  “relações de gênero” – é uma categoria analítica das ciências humanas e sociais que, tal como classe, raça/etnia e geração é utilizada para o desenvolvimento de pesquisas que buscam compreender as sociedades contemporâneas. O conceito envolve a dimensão relacional, histórica e cultural de saberes e poderes que se entrelaçam na produção dos sentidos ao redor do masculino e do feminino.

A inclusão de disciplinas de educação para a sexualidade, equidade de gênero e raça nos currículos de educação infantil até a universidade é uma demanda antiga que vem sendo gradualmente trabalhada e conquistada no País e no processo de formação de professores e professoras. Isto não retira o lugar da família no processo de formação moral, mas sinaliza que a escola precisa ser um espaço no qual se aprende bem mais que matemática e português.

Neste cenário, vale refletir que recentemente tivemos noticias de situações de violência em várias universidades paulistas, inclusive casos de estupro cometidos por alunos da USP. Não podemos deixar de pensar a respeito do fato de que estudantes universitários com competência para aprovação em  grandes universidades públicas chegam ao ensino superior com valores assustadoramente desrespeitosos em relação a mulheres, homossexuais, travestis e negros.

Ao mesmo tempo, sabemos que estudantes gays, travestis, transexuais, portadores de HIV/AIDS, e também mulheres,negros, indígenas e portadores de deficiências sofrem vários tipos de estigma e discriminação no cotidiano das escolas.

Não cairia aqui na armadilha de universalizar “os católicos” e “os evangélicos”. Essa postura maniqueísta e binária de lideranças e segmentos dentro das religiões não revela a posição da totalidade dos fiéis. Contudo, o discurso religioso cria um “nós” do bem  e um “ eles” do mal, que incita a violência e a fixação de identidades.

Pluralidade, respeito à diferença e à diversidade de pensamento é o que precisamos ensinar para estudantes em todas as faixas etárias. A diferença entre as pessoas não é algo a ser eliminado.  Crianças e jovens socializados  para a diversidade não serão pessoas confusas. As experiências já exitosas nessa área mostram que serão pessoas menos ocupadas com a perseguição e violência diante da identidade e subjetividade alheia. A paz é também uma construção que se ensina na escola e ela não poderá existir enquanto a uniformidade entre os humanos for colocada como o ideal a ser alcançado.

O pensador francês Michel Foucault, em famoso prefácio do livro Anti Édipo, de G. Deleuze e F. Guattari, nos convida a pensar numa “vida não fascista”. O autor não se refere apenas ao fascismo histórico de Hitler e Mussolini, mas também ao fascismo que nos habita, que vive nas práticas cotidianas.Nas palavras do autor é essencial “a perseguição a todas as formas de fascismo, desde aquelas, colossais, que nos rodeiam e nos esmagam até aquelas formas pequenas que fazem a amena tirania de nossas vidas cotidianas.”

Uma educação, com práticas cotidianas não fascistas é  elemento que pode contribuir para a construção de uma vida não fascista. Resta saber se a sociedade brasileira permanecerá atenta para entender que o apagamento das diferenças – disputado nas palavras que podem ser ditas e escritas num plano de educação – é um dos elementos que, como água gotejando, vai minando as reservas da pluralidade, na tentativa de tornar universais e homogêneas as formas de existir.

O risco é o fascismo que já existe no preconceito e na violência do cotidiano não encontrar na escola  discursos que o questionem. É preciso ouvir o grito daqueles que  não se opõem à família, mas tentam trazer para a escola todas as famílias.

Gênero, diversidade, pluralidade são palavras que devem permanecer na educação. Fascismo, racismo, violência, preconceito são as palavras que devemos apagar.

É ainda em Foucault que encontramos a amizade como uma possibilidade para a tessitura da vida. E o que está em jogo é exatamente isto: que vida queremos produzir e ensinar no âmbito da educação brasileira. Resta a esperança nas pessoas que vivem dentro e fora das escolas, que sabem que uma bela estética da existência para a educação, e para a vida em nosso País, só poderá ser escrita e tecida nas tintas e fios da diferença.

* Elizabete Franco Cruz é professora da Escola de Artes Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo

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1 Response

  1. Sim, é exatamente isso! Eliminar o pensamento e comportamentos fascistas nas escolas, é um importante passo para a criação de uma sociedade mais coesa e livre de preconceitos. Uma sociedade que saiba conviver, aceitar e respeitar as singularidades de cada pessoa, independente de etnia, classe social, religião, orientação sexual, ou identidade de gênero, começa não nas famílias que já andam contaminadas pelo preconceito secular e condicionadas a terem uma visão estreita do que é o ser humano, mas nas escolas, que irão ensinar às crianças e aos jovens, a terem uma mente aberta e uma visão ampla de todas as particularidades da existência humana, sem que se construam paradigmas, regras e preconceitos em torno disso. As famílias também deveriam ser educadas nesse sentido, mas infelizmente a grande maioria das pessoas preconceituosas são irredutíveis! Não podemos consertar o estrago feito no passado, que formou essas gerações de pessoas misóginas e LGBTfóbicas, mas podemos remoldar o nosso presente para garantir um futuro diferente, melhor, mais humano.

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