Depoimento de assassino confesso não deixa dúvidas: morte de João Donati foi crime homofóbico

“Ele quis fazer gracinha comigo”, disse o lavrador ao admitir o crime

Por Felipe Martins, publicado em 13 de setembro de 2014

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Morte de adolescente repercutiu no Brasil e no exterior. Protestos estão marcados para este final de semana.

Nesta sexta-feira, foi finalmente preso o assassino do garçom João Donati, 18 anos. Como você leitor deste artigo já deve saber, o garoto homossexual foi encontrado morto em um terreno baldio na cidade goiana de Inhumas. O autor do crime, o lavrador Andrie Maycon Ferreira, 20 anos, prestou depoimento à delegacia da cidade. Contou que manteve relações sexuais com o adolescente e o matou porque ele insistiu para ser ativo na relação. o delegado que investiga o caso, no entanto, descartou a hipótese de homofobia e trabalha com a de ‘crime passional’ (oi?).

Eu não matei ele por ele ser gay. Eu até gosto, não tenho nada contra eles. O problema foi que ele quis fazer gracinha comigo”, disse o lavrador no depoimento, conforme revelou o jornal ‘O Popular’. A ‘gracinha’, segundo ele, era a penetração no ato sexual.

Mesmo com o caso ainda em andamento e ainda a tramitar pela Justiça, vamos tomar como base esse trecho do depoimento. A leitura de um apressado pode resultar nas seguintes perguntas com respostas prontas e superficiais. Onde está a homofobia? O cara não deixou claro que não tem problemas com gays? Pois bem, a última frase do depoente deixa clara a questão homofóbica. Mas vamos aos fatos.

1) A forma como o crime foi cometido não deixa dúvidas quanto ao ódio impregnado em sua prática. De acordo com o mesmo delegado, João e Andrie se conheceram no mesmo dia do crime. Primeiro, o adolescente foi enforcado até desmaiar e, em seguida, o assassino ainda colocou papéis na boca para provocar a asfixia. “Eu não queria matá-lo, foi por causa do calor da briga, um momento de descuido”, disse o lavrador. Qualquer leitor primário percebe a brutalidade do crime. Não bastou apenas enforcar, era necessário também provocar a asfixia lenta e com requintes de crueldade, com papeis colhidos ao redor do corpo de João Donati e colocados em sua boca.

2) A tese da luta corporal é frágil diante das evidências, o laudo do IML apontou que o garçom tinha vários hematomas no rosto e no resto do corpo, enquanto que o assassino, segundo o delegado “tinha alguns arranhões”. Que luta corporal é essa que só deixa marcas em um dos agredidos?

3) O renomado professor da Universidade de Paris, Daniel Borrillo, especialista em sexualidade, escreve em seu fundamental livro ‘Homofobia’, palavras que remetem diretamente ao crime cometido no centro-oeste brasileiro: “muitos homens que assumem um papel ativo na relação com outros homens não se consideram homossexuais (…). Mas não basta ser ativo, é preciso que a penetração não seja acompanhada de afeto, pois isso coloca em perigo a imagem de sua masculinidade. Eis então como, a partir de uma negação, vários homens, mesmo tendo relações homossexuais regulares, podem recusar toda e qualquer identidade gay e ser homofóbicos. O ódio serve à reestruturação de uma masculinidade frágil, que necessita se reafirmar por meio do desprezo dos outros-não-viris: o frouxo e a mulher”.

4) O assassino nega ser homossexual apesar de admitir que se relacionou outras vezes com homens. Ele repete aquele chavão comum na sociedade do “homem que come viado”: um ser que seria pertencente a uma categoria diferente, para não dizer, separada dos homossexuais. Ele responde a um desejo social que hierarquiza as “perversões”, classificando o homem penetrado como em um nível mais baixo àquele que penetra outro homem. Não é incomum quando um filho assume ser homossexual para a família, um pai ou uma mãe a ele perguntar se dá ou come, assim como também não é incomum que, numa roda de amigos heterossexuais, um cara que “come viado” seja ainda aceito entre eles, mas, se um dia num porre de sinceridade resolver admitir que já deu a bunda, será excluído para sempre entre seus pares.

5) Levando em consideração seu depoimento, o lavrador levou ao extremo o discurso machista e homofóbico persistente em nossa sociedade: tomou para si a vítima como objeto simultâneo de desejo e repulsa e a descartou no momento em que esta o afetou em seu frágil papel de macho, no momento em que tentou lhe tirar o exercício de poder, de domínio delegado somente ao homem heterossexual. “Ser homem é antes de tudo não ser mulher”, como escreveu Borillo. A penetração, na visão machista e homofóbica, iguala o homem aos papéis que cabem apenas a seres inferiores, a mulher e o viado.

Urge acabar com a morte de LGBTs em todo o país. Isso não é pedir privilégios. É apenas o direito à proteção contra o esmagamento diário reproduzido em lares, locais de trabalho, espaços públicos e privados de convívio coletivo. Por isso, urge uma lei que criminalize a homofobia neste país. Mas, acima disso, urge um projeto de sociedade com respeito às diferenças, com direitos e deveres iguais para todos.

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