Das Compaixões Póstumas

Bruno Costa, psicólogo e membro de Igreja Cristã de Ipanema
Publicado pela Igreja Cristã de Ipanema, em 27 de abril de 2015

bandeira2Em fins do século XVIII, nos EUA, a igreja presbiteriana se dividia quanto aos rumos dos negros escravizados. A chamada Nova Escola, norte do país, condenava o regime, enquanto a Velha Escola, ao sul, lutava pela conservação do mesmo. Neste contexto, o pastor Robert Lewis Dabney lançara o livro “A Defense of Virginia, and Through Her of the South”, onde, consultando passagens bíblicas, elencava os motivos da manutenção da subserviência negra.

Do escravagista Abraão – orientado pelo Senhor a não libertar seus escravos, mas apenas circuncidá-los – às admoestações de Paulo aos escravos a que não desobedecessem seus senhores, passando pela regulamentação da escravidão pela lei de Moisés, chegando a elogios de Cristos aos escravagistas. O entrave, salvo as particularidades, atravessava disputas também entre outras denominações. Este é apenas um exemplo.

Olhando o início do século XXI, já não cabe em nossas cismas e questionamentos algo em torno deste assunto. Olhar o passado parece auxiliar na tarefa de levar nossa compaixão a quem precisa, no caso, os escravos. “Nasceram livres e assim deveriam ser”, bradamos quase três séculos depois. É fácil se compadecer dos conflitos resolvidos e escolher o lado depois da batalha vencida. Muito provavelmente, ao olhar outras passagens bíblicas, Robert Lewis Dabney e demais defensores do regime escravocrata, tenham lançado suas compaixões à mulher adúltera, aos órfãos e até mesmo aos ladrões arrependidos. Por vezes, na dinâmica do tempo, o passado fica com o que temos de melhor.

Em meados do século passado, o pastor Martin Luther King Jr. travou uma longa batalha, junto de seus compatriotas, pela conquista de direitos para os negros nos EUA. Sem acesso a cidadania, eram deitados à desventura dos sem lugar, dos irreconhecíveis, infra-humanos. Ele e os seus sentiram em seus corpos que, sem direitos, um povo inteiro é lançado à marginalidade, lugar onde a violência é protocolo de atendimento. Espancados sem reagir, conquistam facilmente nossas lágrimas sinceras, sofridas e compadecidas. Nossa compaixão atravessa algumas décadas e os abraça, inofensiva e oportunista.

Quais são, então, os embates deste nosso século frenético? Quais são as lutas que travamos? Quais são as dores de nosso tempo? Quais marginalidades vigoram, sufocando vidas?

Logicamente – e infelizmente – muitos são as máculas do mundo contemporâneo, especialmente em nosso Brasil. Dentre as violências frequentes e até institucionalizadas, seja moral ou oficialmente, uma delas tem se destacado já há algum tempo, chamando mais ainda nossa atenção por conta do que parece ser conduta e posicionamento oficiais dos protestantes para com o tema: homoafetividade. O que nos deve levar a meditar sobre isso é que, longe de ser apenas um escopo temático sobre os quais formamos opiniões e interpretamos através de conceitos mais ou menos embasados, isto seria apequenar a importância do assunto. Trata-se, antes de tudo, da vida de homens e mulheres, em suas diversas manifestações. Vida; não letra.

Pastores de grandes igrejas-corporações e evangélicos influentes acreditam serem os porta-vozes da igreja de Cristo, quando não, os sacerdotes do Senhor, quem sabe até mesmo agentes do apocalipse, que antes do fim, anunciam a condenação do outro, adiantando-se ao Juízo Final. Há os que acreditam e, assim, reproduzem as condenações com pitadas bíblicas, com a convicção do martelo condenador que Jesus não empunhara. Há, todavia, que corajosamente apanhar de volta a compaixão lançada às águas do passado e garantir o abraço ao próximo para o tempo presente. É preciso enfrentar o escriba e o fariseu que nos habita, insistindo em condenar almas ao inferno da marginalidade, enquanto se acalenta e agrada diante do espelho.

Enquanto negamos os direitos destes grupos – alguns institucionalmente, outros no campo cotidiano da moral e dos costumes -, nosso país segue na ponta da escala de violência aos homossexuais. Entre 2011 e 2014 houve aumento de mais de 450% no número de casos de violência registrados. Enquanto as igrejas, em sua grande maioria, lavam as mãos sob a síndrome de Pilatos, mais de 250 casos de assassinatos motivados por homofobia foram registrados em 2014 [1]. Parece que, quanto mais esses grupos buscam se afirmar e garantir seus direitos – exemplo disso é a maior parada gay do mundo no Brasil -, mais se ouvem gritos de NÃO a eles.

Guardadas as peculiaridades e idiossincrasias de cada caso, os grupos LGBTs tem buscado, como os negros de Luther King, romper as bordas de marginalidade a qual são lançados todos os dias, pela violência física, crueldade verbal ou indiferença mortificante. Não importa qual das três agressões são impetradas, todas fazem parte de um grande grupo que se apoia, sob à máscara da tradição e da patente divina, na perpetuação da violência, deflagrando a impossibilidade de fazer presente a compaixão do “não julgueis”.

Para isso, é preciso um mergulho nas mais cristalizadas veias da empoeirada e velha moral que nos paralisa, enquanto açoita minorias. É preciso abrir mão da tara espiritual de que tudo gira ao nosso redor, ameaçando, como fizeram com Galileu, aqueles que nos apontam o contrário. A ideia da santidade inerente nos faz sorrir em privilégios, enquanto outros sangram nas sombras. Em que momento deixamos de lado a interpretação do Espírito que vivifica, fazendo uso da letra assassina? Para que uma versão das Cruzadas da sexualidade, se podemos marchar em amor, sob a graça que alcança a todos?

A máxima de que nenhuma condenação há para quem está em Cristo, deve por efeito, trazer uma outra: nenhuma condenação traz aquele que está em Cristo. A história está a ser feita hoje, como sempre, ininterrupta. Como seremos lembrados, nos tempos vindouros: Robert Lewis Dabney ou Martin Luther King Jr.?

A Igreja Cristã de Ipanema escolhe a segunda opção.

[1] Os números podem ser conferidos no link: http://brasil.estadao.com.br/noticias/geral,a-cada-hora-1-gay-sofre-violencia-no-brasil-denuncias-crescem-460,1595752

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