Cristiano Ronaldo, o pós-metrossexual

Por Cynara Menezes

Publicado no blog Socialista Morena, em 20 de junho de 2014

Cristiano Ronaldo em anúncio da Armani. Foto: divulgação

Enquanto as pessoas civilizadas do mundo inteiro deploram as demonstrações de homofobia nos estádios, inclusive durante a Copa, e a questão da homossexualidade entre os jogadores permanece um segredo guardado a sete chaves, o português Cristiano Ronaldo se destaca como exemplo de liberdade masculina num meio machista como o do futebol. Ele simplesmente não abre mão de ser quem é, alheio às opiniões e fofocas sobre sua vida e sua sexualidade. Eu acho admirável.

Como dizem no Brasil, “tô nem aí”. Não me importo com aquilo que as pessoas pensam de mim, aquilo que opinam. Para mim isso não é importante. O importante é fazer as coisas bem dentro de campo, disse Cristiano, em entrevista recente.

No final dos anos 1990, o surgimento dos “metrossexuais”, homens vaidosos e super bem-vestidos que admitiam usar cremes, depilar-se e utilizar tratamentos estéticos abalou as certezas do mundo masculino. Até então, a regra era clara: para ser “homem”, “macho”, era preciso “parecer homem” e abrir mão de qualquer vaidade, como se fossem uns Amélios. “Homem que é homem não passa nem protetor solar”, pregavam os defensores da virilidade perdida.

Por ironia do destino, veio justamente do futebol o grande ícone metrossexual, o inglês David Beckham. Bonitão, casado e pai de quatro filhos, Beckham expôs uma realidade que muitos preferem ignorar: aparência, trejeitos e guarda-roupa não querem dizer muita coisa quando se trata de definir a sexualidade de alguémembora Beckham tampouco tenha escapado das insinuações sobre ser gay.

Desde que ficou famoso jogando bola, Cristiano Ronaldo tem elevado o conceito de metrossexualidade aos píncaros e obviamente sua orientação sexual volta e meia é questionada. O craque de 29 anos cuida muito do corpo, faz as sobrancelhas, se depila, pinta as unhas dos pés e não se frustra em usar as roupas que deseja, até mesmo shorts coladinhos e flor no cabelo.

A flor no cabelo…

…e o esmalte nos pés: os tablóides fazem a festa

Cristiano tem namorada (a modelo russa Irina Shayk) e um filho de 4 anos, Cristiano Jr. (concebido por barriga de aluguel, segundo a imprensa europeia, mas ele não confirma). No ano passado, o atleta lançou sua própria marca de roupas íntimas, a CR7, para a qual posou, como sempre, com seu corpão e em trajes sumários. O narcisismo do jogador, misturado à sua escassa preocupação com a opinião alheia, favorecem as especulações. Mas ele não parece fazer a menor questão de se definir sexualmente ou de sequer falar sobre o assunto. É problema dele, ou não é?

A beleza e a vaidade de Cristiano Ronaldo, ao que tudo indica, tocam em algum ponto incômodo aos homens heterossexuais, talvez por plantar dúvidas em seu próprio conceito de masculinidade. Para as mulheres, no entanto, Cristiano é nada menos que um deus grego. A movimentação de fãs durante sua estada no Brasil para a Copa do Mundo comprova isso. É possível que para os gays ele também seja objeto de desejo. Quem sabe algum dia não namorará meninos? E daí? Quem é que tem alguma a coisa a ver com isso? Cristiano não está nem aí: ele está além.

Após a derrota para a Alemanha na Copa, as piadinhas sobre o craque português vieram de todo lado, com o foco muito mais em sua aparência do que no esporte que pratica e que jogou, mal, na estreia. Os “memes” se espalharam pela rede, e até o cabelo desarrumado no final da partida foi zoado. Mas o preconceito explícito partiria de uma mulher, a namorada do zagueiro alemão Matts Hummels, que comparou Cristiano a “uma modelo”.

Vi sua comemoração depois da vitória na Liga dos Campeões. Não havia um grama de gordura, mas também não tinha nenhum pelo. Em minha opinião, é um tipo de visão que não tem nada de masculino. Não gosto de homem que tem as pernas mais lisas que eu. Cada um é como é, mas prefiro um gladiador a uma top model, alfinetou a moça, machista que só.

O que ela quis dizer com isso? Que homens musculosos e peludos não podem ser gays? Que homens depilados não podem ser heterossexuais? Que o que a pessoa usa do lado de fora representa o que ela é por dentro? Mas se somos iguais, por que as mulheres podem ser vaidosas e os homens não? E mais: qual é, afinal, a necessidade de alguém se definir sexualmente para os outros? É da conta de alguém com quem outra pessoa se deita? Acho tudo isso tão provinciano e antiquado… Cristiano, felizmente, parece concordar comigo.

Ainda que não jogue nada nesta Copa (e eu estou torcendo para que jogue), Cristiano Ronaldo continuará um símbolo de liberdade para o homem que deseja ser quem é, sem ceder à repressão. Sim, homens também são reprimidos (inclusive por mulheres). Sou sua fã, gajo.

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