As condenações das transexualidades

(Clique na imagem e acesse o vídeo)

A inspiração deste vídeo surgiu a partir do caso de Joana Magalhães, pessoa de 34 anos, que se define como alguém de gênero fluido, ou seja, que transita entre os gêneros masculino e feminino e não se identifica rigorosamente com nenhum deles. Joana foi aprovada no curso de medicina da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), na cota de pessoas trans. Sua matrícula ocorreu em maio de 2019, no campus de Teixeira de Freitas. Porém, a UFSB a cancelou no último dia 11, alegando procedimento fraudulento.
 
Joana teve sexo e gênero masculinos atribuídos ao nascer, mas hoje ostenta nome feminino, que abrevia para Jô Magalhães, nome neutro adequado à sua fluidez de gênero. Apesar do nome feminino, Joana mantém uma aparência andrógina, barba e cabelos curtos. Ela também não fez transformações corporais radicais, típicas de mulheres trans, tampouco tratamento hormonal ao que perece.
 
Em resposta a publicações que fiz no Facebook, algumas pessoas afirmaram categoricamente que se trata, sim, de um caso de fraude já comprovado, sendo Joana um “gay cis fanfarrão”. Mas quem comprovou? Se a resposta é a UFSB, está correta. Porém, as notícias a que tive acesso não trazem provas. O ideal para uma informação e afirmação PRECISAS seria o acesso ao processo administrativo que levou ao cancelamento da matrícula, mas é desnecessário dizer o quanto isso é difícil ou impossível até mesmo para a imprensa.
 
E o que eu posso afirmar de tudo isso? Como comprovei acima, não tenho instrumentos para avaliar o caso de forma objetiva e definitiva. Eu não compus a comissão que analisou a denúncia no âmbito administrativo da UFSB. As notícias a que tive acesso, como já disse, trazem depoimentos muito reticentes da instituição de ensino, que não geraram certezas absolutas em mim. Por isso, não tenho obrigação de comprar a decisão da UFSB, divulgada na mídia, sem questionamentos.
 
Eu também não convivo com Joana Magalhães para saber se o exercício do gênero fluído é uma experiência social constante que justifique sua transgeneridade. Assim, não cabe a mim concluir que a matrícula de Joana na cota de pessoas trans foi uma fraude. Isso coube à UFSB, que já julgou o caso, e caberá à Justiça, se ele for levado ao âmbito judicial.
 
Em meio às discussões no Facebook, houve quem afirmasse que a transexualidade é necessariamente binária. Discordo! A cisgeneridade corresponde a uma condição de perfeita adequação e convergência entre o sexo e gênero atribuídos no nascimento e aqueles exercidos ao longo da vida. Eu, por exemplo, sou um homem gay cisgênero. Já mulheres e homens trans são pessoas que vivem uma identidade de gênero oposta ao sexo e gênero atribuídos no nascimento. Neste sentido, eu concordo que uma MULHER TRANS é binária. Eu concordo que um HOMEM TRANS é binário. Mas afirmar que uma pessoa não binária é binária e cisgênera é paradoxal. O mesmo raciocínio se aplica ao caso de uma pessoa de gênero fluido. Binária? Cisgênera? Como assim? Uma pessoa de gênero fluído ou não binária demonstra claramente que a convergência a que me referi não existe. Portanto, são pessoas TRANSGÊNERAS.
 
Aliás, essa discussão me remeteu a um episódio em uma conferência LGBT+ na Bahia, em que uma pessoa não binária reclamava espaço e voz. Em resposta, uma mulher trans afirmou que pessoas não binárias não sabem o que querem, estão em processo de transição e que, no futuro, poderão se definir como homem ou como mulher. Ou seja, essa mulher trans, condenada ao longo da vida por preconceitos, discriminações e invisibilidade, condenou a pessoa não binária à mesma sorte. Ou melhor, azar. Porém, ela foi refutada imediatamente.
 
Por tudo isso, eu afirmo no vídeo e repito aqui: o caso de Joana Magalhães foi o meu mote para uma análise muito além do fato. Afinal, a invisibilidade, o apagamento e a condenação de pessoas transgêneras, entre elas as pessoas não binárias e de gênero fluido, são uma constante e vitima um número infinito de pessoas. É nisso que eu me prendo: na análise da precipitação dos julgamentos morais e do lamentável exercício do preconceito.
 
As transformações corporais, muitas vezes agressivas, são uma imposição social para que uma pessoa trans seja reconhecida como homem ou mulher, reforçando o conceito cultural binário de sexualidade (homem x mulher, masculino x feminino, macho x fêmea, pênis x vagina). A não binariedade e a fluidez de gênero nos liberta dessas imposições. E se essa fluidez, se essa TRANSIÇÃO é habitual em Joana, se é assim que ela se apresenta socialmente, não há o que se questionar da sua transgeneridade, justamente porque não existem apenas duas formas de vivenciá-la. Há inúmeras.
 
FRAUDE OU NÃO, o caso de Jô Magalhães traz ao debate a possibilidade de se vivenciar a sexualidade de maneira plural, porém ainda não absorvida socialmente. E, ao que tudo indica, o caminho é longo.

Escritora Van Amorim perde Processo de Transfobia contra a Unifacs e diz que vai recorrer ao STF

“Quero que a justiça seja feita e que isso nunca mais aconteça com ninguém.”

Escritora Van Amorim perde processo de transfobia contra a Unifacs e diz que vai recorrer ao STF (Supremo Tribunal Federal), na 3ª instância. “Quero que a justiça seja feita e que isso nunca mais aconteça com ninguém.”

Publicado pelo portal Salvador Notícias, em 22 de julho de 2020

O processo de transfobia movido pela escritora Van Amorim ganha seu mais novo e dramático capítulo. Vanessa tem 27 anos e obteve êxito no processo em primeira instância. A juíza de direito do Juizado Especial de Defesa do Consumidor condenou a Unifacs a pagar R$ 8 mil em indenização por danos morais, ocorre que a universidade recorreu ao processo e acabou vencendo na 2° instância. A Turma Recursal ENTENDEU que “NÃO HOUVE TRANSFOBIA POR PARTE DA UNIVERSIDADE” e “MUITO MENOS DANOS MORAIS.” Os juízes deram provimento ao recurso da FACS, suspendendo a indenização outrora concedida em primeiro grau. Agora eu te pergunto… COMO NÃO HOUVE TRANSFOBIA, meretíssimos?

Vanessa Amorim teve o nome retificado em novembro de 2018, um  mês após a juíza de primeiro grau conceder uma liminar para a universidade alterar o seu nome em todos os assentamentos e, mesmo assim, enfrentou uma série de constrangimentos dentro e fora da universidade, principalmente quando o caso foi noticiado nos principais veículos de comunicação da Bahia e do País, como: Põe na Roda, Uol/Universa, G1, Bocão News, Leia Mais Bahia, LFnews, Salvador Notícias e entre outros. Van chegou a conceder uma hora de entrevista ao vivo no programa “Entre Elas”, da rádio TV/Câmara Salvador, para esclarecer o ocorrido. Ela conta que foi constrangedor porque é uma artista e ao invés de estar falando sobre sua arte, falou sobre transfobia e não sobre literatura.

A escritora já era pessoa pública e militante dos direitos da comunidade LGBTQ+ e usou a sua imagem e influência para denunciar e chamar a atenção da imprensa. Hoje, Colunista Policial do Salvador Notícias, Vanessa só espera o final da pandemia para lançar o seu primeiro livro físico, “O Eclipse”, um romance policial que se passa na capital baiana e será publicado através da Chiado, uma editora portuguesa, sediada em Lisboa.

Vanessa ficou um mês sem assistir a aulas. Ela conta que, depois da exposição da sua vida na mídia, passou a sentir medo de sofrer rejeição no banheiro em que estava acostumada a transitar NORMALMENTE antes e depois de assistir as aulas ou fazer as provas.

Procurada pelo Bocão News, a advogada da estudante, Fernanda Correa, afirmou que, na época da matrícula, Vanessa tinha nome social, mas não tinha feito a retificação no RG, possuía apenas um cartão do Sistema Único de Saúde (SUS). “A negativa por parte da faculdade ensejou o ajuizamento da demanda, vindicando, sobretudo, a obtenção de uma medida liminar para mudança imediata nos assentamentos/sistemas da faculdade. Juntamos aos autos algumas telas do sistema eletrônico da faculdade demonstrando que ainda estavam utilizando o nome de nascimento dela. Não a identificavam como Vanessa. A decisão liminar prolatada, bem como a sentença de primeiro grau revelam-se como uma grande conquista para o gênero, a qual poderá, inclusive, inibir futuras condutas similares por parte das instituições de ensino.” — Disse a advogada.

“Se eu utilizar esse nome em qualquer outro lugar, eu sou presa, porque não tenho nenhum documento que prove que aquele nome foi meu. E existe uma portaria do MEC que permite que a pessoa trans possa usar o nome social, só que eu não tenho mais nome social. Mesmo que eu tivesse, como pode uma instituição criar sua própria política?” — questiona a estudante. A própria nota da Unifacs divulgada pela imprensa diz que a mesma adota o procedimento de uso de nome social no ato da matrícula “QUANDO DEMANDADA PELO ESTUDANTE, bem como a mudança do nome civil, desde que apresentada documentação comprobatória.”

Relembre o caso: 

No momento em que Van foi fazer a matrícula para a bolsa de 100% no curso de Letras Vernáculas (Literatura Brasileira) pelo PROUNI (Programa Universidade Para Todos), ouviu que a universidade não estava preparada para recebê-la, pois “NAO TINHA COMO” e nem “SISTEMA” para realizar a matrícula com nome social. Era o último dia para a entrega das documentações da bolsa e na hora de assinar os documentos, a escritora foi constrangida e obrigada a assinar o contrato POR EXTENSO, sendo que a sua identidade era rubricada justamente para evitar o constrangimento de assinar seu antigo nome civil. “Se você não desistir de mudar o nome, você vai perder a bolsa”, disse a funcionária da instituição.

Antes de ir para o primeiro dia de aula, Van conta ter recebido a ligação de um representante da instituição, dizendo que estaria a sua espera e que iria com ela até a sala para conversar com o professor e garantir, pelo menos, que ela seria tratada pelo nome correto nas chamadas. Vanessa conta que, quando chegou à Unifacs, perguntou pelo representante com quem conversou e foi informada na sala dele por outros funcionários de que ele já havia ido embora. “Fiquei a ver navios. Passei uns 25 minutos em frente à porta da sala de aula, travada, sem coragem de entrar e sem saber o que fazer”, disse.

Vanessa tinha uma narrativa do dia em que sofreu transfobia logo depois, agora por parte dos seguranças. Ela escreveu suas emoções/aflições e depois arquivou no e-mail e SÓ AGORA decidiu publicar, e é exatamente aí que está o X da questão: Teria mesmo Vanessa sofrido transfobia DENTRO DA UNIFACS?

Narrativa Jurídica: Salvador-BA, 29/11/2018, quinta-feira. Universidade Salvador, Torre Norte.

Estava muito feliz por ter chegado com segurança na universidade, para a almejada aula do tema “Evasão Escolar”. Nunca imaginei que, lá na frente, na recepção, aconteceria o que eu mais temia em toda minha vida: a exposição do antigo nome civil publicamente por parte dos seguranças.

Entrei rapidamente e me aproximei da recepção já constrangida, pois sabia que teria que apresentar minha identidade. Havia dois seguranças atrás do balcão. Eles eram negros, altos e fortes. Todos bem vestidos de terno preto. Um deles era mais velho, pois sua cabeça era inteiramente coberta por cabelos grisalhos. Me aproximei deles e disse:

— Boa tarde! Sou “ALUNA” da universidade e preciso que liberem a minha entrada, por gentileza.

O segurança mais jovem rapidamente hesitou:

— Preciso do seu documento com foto.

Apesar de conhecer o procedimento da universidade, tinha esperança de que eles me liberassem sem ao menos checar o meu documento, pois estavam acostumados a me ver entrar desde o dia 8 de agosto. Mas, para a minha surpresa, enquanto remexia a minha bolsa em busca da identidade, o segurança grisalho falou de longe em alto bom som:

— É Ivanilson, não é? Acho que esse é o nome “DELE” — Disse com tamanha satisfação.

Esse não era o meu nome antigo nome, claro, mas, quando ele disse isso, eu paralisei. Senti meu corpo tremer e gelar completamente, enquanto subia um frio dos pés à cabeça, eu quase não consegui falar, apenas expressei insatisfação com os olhos no primeiro momento.

Aquele segurança me perseguia. Ora, por que se daria ao trabalho de memorizar o meu antigo nome civil dentre milhares de alunos? Olhei para ele revoltada e disse:

— Desculpa! Mas o senhor está equivocado. Esse não é o meu nome. — Falei entregando a minha identidade para o outro. O segurança grisalho ficou perplexo me encarando. Parecia mesmo ter absoluta certeza de que aquele realmente era o meu nome. Mas rapidamente o outro esclareceu a sua dúvida dizendo:

— Hehe. Você chegou perto, cara. O nome “DELE” é Vanildo. — Disse alto, rindo.

Nessa hora eu perdi o controle e disse que eles não podiam fazer isso, pois já havia processado a universidade por esse erro e que agora eles estavam me dando mais um motivo. E quando falei isso, o segurança mais velho, “primeiro agressor”, aproximou-se rapidamente tentando conversar comigo e reverter a situação calamitosa que criou. Ele disse:

— Calma. Não precisa se exaltar. “Estou tentando ser seu amigo.” — Disse liberando a catraca.

— Infelizmente, o senhor não conseguiu. Só precisava ser profissional. — Falei morrendo de raiva.

Nessa hora, antes que eu pudesse passar a catraca, o segurança mais jovem disse bem alto:

— É cara. NÃO CUSTA NADA TE LEMBRAR SEU NOME. — Disse com PRAZER e ironia.

Quando ouvi isso, para mim foi mais uma dor profunda e incomparável. O chão parecia nunca ter existido. Olhei à minha volta rapidamente e vários universitários me olhavam perplexos, tentando entender o que estava acontecendo. Então… Hesitei nervosa:

— Eu já disse. Esse não é o meu nome. Meu nome está junto com o RG, escrito no cartão do sus. — Falei passando a catraca.

“Eu ponho o cartão do sus retificado em cima da foto do RG para escondê-la, mantendo o nome social para cima, de fácil acesso.”

Após ter transpassado, o segurança mais velho se aproximou tentando manter um diálogo e me acalmar. Eu continuei andando, enquanto ele me seguia. Ele tentou falar comigo de novo e cega de raiva disse:

— Eu vou resolver isso judicialmente, não se preocupem. — Falei seguindo na direção do elevador.

— Então vá lá. Boa sorte. — GRITOU ríspido. Finalizei a discussão dizendo:

— Já ganhei. Obrigada!

Dei as costas e entrei no elevador. Fui para a minha sala, no 4° andar da torre norte, ainda em choque e incrédula com o que acabara de acontecer. Sentei no banco e comecei a chorar no final do corredor. Eu chorei muito!

Um grupo de universitários que saíram da sala ao lado em prova me olharam e ficaram distantes. Duas garotas cochicharam, se aproximaram de mim e sentaram ao meu lado, mas não tiveram coragem de falar comigo, talvez por eu ter conseguido me controlar. Depois, por fim, peguei um livro de Machado de Assis na minha bolsa para disfarçar uma leitura, mas não conseguia ler uma frase sem me lembrar de me sentir vazia, diminuída, como um lixo. Foi quando recebi uma ligação do meu ex-marido, Guto Cardoso (hoje meu Agente Literário) onde pude verter toda minha dor até ele conseguir me acalmar e fazer eu me sentir especial de novo antes de começar a aula.

Para a minha surpresa, procurei a professora no final da aula para pedir ajuda e relatar o que havia acontecido, mas ela já sabia. Mas como? Ela disse que o segurança mais velho havia lhe procurado para contar a sua versão, mas que ela não poderia conversar comigo naquele momento porque não daria tempo de fazer o amigo secreto, mas que, na próxima aula, com certeza sentaria para me ouvir e me dizer o que ele disse.

Como que eles sabiam que aquela mulher era a minha professora? Como não me sentir perseguida por eles depois de tudo? Por fim, me pergunto angustiada: como entrarei na universidade novamente para a próxima aula? Me sinto constrangida, com medo e intimidada por eles.

Na próxima aula, a professora foi me encontrar na saída e me disse que estava muito triste com o que tinha acontecido e lamentou muito. Ela disse que, antes de tudo acontecer, no início do semestre, ela procurou o segurança mais velho (grisalho) para informá-lo que tinha uma aluna trans e que se ele encontrasse alguma coisa divergente na minha documentação, que era para ele liberar a minha entrada, porque a universidade tinha cometido um erro nos meus documentos e estava corrigindo. Ela disse que chegou a falar sobre o processo, tramitando judicialmente.

Se eles já sabiam de tudo, por que criaram toda essa situação de constrangimento? — Questionou.

A professora ficou chocada e nervosa… Pediu a minha identidade nova, minha certidão de nascimento e levou para a diretoria da universidade, e lá ela conseguiu alterar meu nome no Portal do Aluno, mesmo depois da juíza ter concedido uma liminar para que a universidade alterasse o meu nome em todos os sistemas da FACS e, mesmo com uma liminar judicial, eles não alteraram. A minha professora quem conseguiu fazer isso. Na mesma noite, ela me disse que, se eu precisasse que ela testemunhasse ou desse entrevista a meu favor, que ela prestaria.

Eu disse: — Mas isso não vai te prejudicar na universidade? Você pode ser demitida, professora.

— E quem disse que estou preocupada com isso? — Retrucou rapidamente.

Ela falou que não tinha medo e que estava do lado da verdade, que era uma professora séria e muito competente, e que se fosse demitida, seguiria a vida dando aula em outras universidades, como ela sempre fez, desde Minas Gerais, de onde veio. Mas ela não iria admitir e nem compactuar com nada que fosse de cunho desreipeitoso e desumano.

Uma semana depois, mudaram a professora de Campus…

Breve Biografia

A estudante tem todos os documentos retificados desde o início de 2019. Mas Vanessa sempre foi Vanessa. Nas duas primeiras ultrassonografias, o seu sexo deu feminino. Sua mãe, Vânia de Jesus Amorim, escolheu o nome “Vanessa” para quem seria a sua primeira filha. Mais tarde, no último mês de gestação, Manoel Santos de Jesus, pai da escritora, decidiu fazer mais um exame, pois, durante os dois últimos, ela estava o tempo todo sentada, de pernas cruzadas, em posição considerada DELICADA E FEMININA pelos especialistas da época, então os médicos mais experientes disseram que se tratava de uma menina. Quando saiu o resultado da última ultrassom, o casal descobriu que, na verdade, a chegada era socialmente de um “menino” por causa do órgão de reprodução masculina. Manoel e Vânia já haviam comprado e ganhado tudo, “absolutamente TUDO” para a chegada dela. Hoje, Vânia conta que não deu mais trabalho porque a filha tinha ganhado muitas roupas brancas e amarelas, e que serviria para “ELE.” Falou também que Vanessa não sofreria violência psicológica por parte do pai, pois Manoel começou a chamá-la de Van desde bebê, e que só teriam apenas que passar a tratá-la e chamá-la no gênero feminino, ao qual, na verdade, a escritora sempre pertenceu.

“Me lembro bem que quando eu era criança e ia brincar com os meninos, eu era sempre rejeitada. Eles diziam que lá não era o meu lugar, que eu tinha que brincar com as meninas, porque meninas brincam com meninas. Eu ficava confusa, porque, mesmo passando a maior parte brincando com elas, meus pais e o meu irmão mais velho sempre disseram que era para eu brincar com os meninos, pois lá que era o meu lugar. Quando eles finalmente me deixavam brincar, se fosse de Power Rangers, eu era sempre a rosa ou amarela, não porque queria, mas porque era a única condição imposta por eles. Eu era sempre elegida a ser às personagens femininas da turma em todas as brincadeiras. Cresci jogando vídeo game com eles e sendo sempre as personagens femininas lá também. Por que será que os meninos sempre me excluíram das atividades masculinas e diziam que era para eu brincar com as meninas desde criança? Seria mesmo tão explícita assim a minha feminilidade?” — inquiriu.

Maria das Neves, mãe de Vânia, foi a primeira pessoa a quem a escritora levou o laudo endócrino para mostrar. Vanessa sempre teve uma relação linda e forte com a avó, uma senhora de 70 anos. Maria disse que a única preocupação dela era o que a neta iria fazer com o órgão e com a complexidade da cirurgia. Ela foi a pessoa mais velha que Van procurou para juntar o quebra-cabeça do seu passado e confirmar essa história. Maria falou que a família realmente estava preparada para recebê-la, e que de repente tudo mudou, que a melhor parte foi ela manter o nome dado pelos pais, continuar sendo chamada de Van e não ter escolhido outro, como costuma acontecer com outras pessoas trans. Ela confessou também que teria dificuldade em se adaptar a um nome diferente, e que Vanessa deve erguer a cabeça, seguir em frente e sempre se sentir abençoada, pois nem todas as mulheres trans tem a sorte de nascer com tantos privilégios genéticos e sociais como ela. — conta.

Foto em comemoração ao primeiro ano de transição

Laudo Endócrino

A escritora é um caso intrigante na medicina, pois tem laudo endócrino e psicológico que atestam que ela é uma mulher transexual. Vanessa chegou aos 26 anos tendo apenas produzido em toda sua vida 1,728nmol/L de Testosterona TOTAL, sem uso de bloqueadores, sendo que, HOMENS de 18 a 30 anos, tem que ter de 8,98 nmol/L a 28,31 nmol/L e MULHERES de 0,00 nmol/L a 2,60 nmol/L, tendo Vanessa A VIDA INTEIRA, naturalmente, estado dentro dos padrões hormonais femininos, como consta no resultado do laudo abaixo:

O resultado da testosterona LIVRE de Vanessa foi: 0,027 nmol/L. Referência: HOMENS saudáveis de 17 a 65 anos: Menor igual a 0,637 nmol/L e MULHERES saudáveis de 17 a 50 anos: Menor igual a 0,039 nmol/L.

A endocrinologista Dra. Luciana Borges Oliveira ficou impressionada com os resultados dos exames dela, dizendo que Vanessa é um caso raro na medicina e que, se fosse em uma avaliação, ela teria nota máxima, pois seu laudo endócrino e os exames físicos comprovaram a sua existência. No exame físico, atestou ainda que, por falta de testosterona no corpo, havia uma deficiência na genitália da escritora, pois sua miniatura de testículo e do órgão genital nunca haviam desenvolvido. A médica usou um orquidômetro (aparelho medidor de testículos) para examiná-la e concluiu que se trata de hipogonadismo hipogonadotrófico.

O Hipogonadismo é uma doença na qual as gônadas (testículos nos homens e ovários nas mulheres) não produzem quantidades adequadas de hormônios sexuais, como a testosterona nos homens e o estrogênio nas mulheres. Além dos hormônios, os testículos podem não produzir espermatozoides adequadamente. Geralmente ocorre quando a testosterona está menor que 300 ng/dl e/ou livre menor que 6,5 ng/dl. Van tem quase nível zero: Livre: 0,027 nmol/L e Total: 1,728nmol/L.

Antes de mais nada, é preciso lembrar que as gônadas funcionam comandadas por uma outra glândula chamada hipófise. Esta glândula fica na base do cérebro e produz hormônios (FSH e LH), que fazem os testículos e ovários funcionarem. Sendo assim, podemos começar a pensar que a causa do mal funcionamento das gônadas da escritora advém da hipófise, por isso ela não produziu hormônio masculino e nem passou pela puberdade na adolescência.

Contudo, para a endocrinologista, não restou dúvidas de que Vanessa nasceu para ser uma mulher Cisgênero: “Não tenho nenhuma dúvida de que você nasceu para ser XX.”

A estudante tomou a primeira injeção da hormonioterapia no dia 01/07/2018, de forma avulsa, pois o ministério da saúde adverte que os endocrinologistas só devem atender e tratar pessoas trans com laudos psicológicos em mãos. O problema é que não existe uma regra e um número de sessões exatas para obter o laudo psicológico. Cada psicólogo precisa ouvir o suficiente para emitir o laudo de transexualidade de acordo com a DEMANDA e disforia que a pessoa traz.

Laudo Psicológico

O Dr. Maurício Cana Brasil, psicólogo da escritora desde 5 de outubro de 2018, disse, no primeiro dia de psicoterapia, que, se dependesse dele, o laudo dela seria emitido naquele mesmo instante, pois, por conta da DEMANDA que ela trouxe, segundo ele, com tudo que ouviu, não lhe restou dúvidas de que estava diante de uma mulher. Mas ela só obteve o primeiro 1/2 laudo psicológico no final de abril de 2019, por isso só começou o tratamento endócrino oficial em julho, um ano após sua primeira aplicação avulsa.

Vanessa completou 2 anos de transição na última quarta-feira 01/07/2020 e hormonalmente está apta para passar pela cirurgia, mas só vai obter o seu último laudo psicológico 2/2, que permite fazer CRS, cirurgia de redesignação sexual (mudança de sexo), em outubro de 2020, quando finalmente completará o tempo de tratamento psicológico e endócrino exigido pelo protocolo da OMS (Organização Mundial da Saúde). Após usar as técnicas (escuta clínica, entrevista estruturada e observação), o psicólogo concluiu no laudo que Vanessa Amorim encontra-se EGOSSINTÔNICA em relação aos seus sentimentos, imagem e comportamentos identificatórios, afastando a existência de QUALQUER quadro psicopatológico.

Egossintônico é um termo que se refere a comportamentos, valores e sentimentos que estão em harmonia com ou aceitáveis para as necessidades e objetivos do ego, ou consistente com o próprio ideal da autoimagem. Entende-se por egossintonia as ideias ou impulsos que são admitidos tanto pelo ego como pelo superego e que se coadunam com o ego ideal, essa imagem do eu que existe isenta de qualquer crítica. Em egossintonia, a atividade mental está em conformidade com o ego. Nestes casos, um sentimento é egossintônico quando está em consonância com a representação que o indivíduo tem de si mesmo. Sendo assim, conclui-se que não há possibilidade de Vanessa não ser uma mulher, pois se encontra egossintônica, segundo o Dr. Maurício Brasil Cana Souza.

Procurada pelo Salvador Notícias, Fernanda Correa, advogada da estudante, preferiu não se manifestar sobre o caso.

A outra parte

Em nota enviada por e-mail à Universa, a UNIFACS disse que adota o procedimento de uso de nome social no ato da matrícula “quando demandada pelo estudante, bem como a mudança do nome civil, desde que apresentada documentação comprobatória.”

Leia a nota:

“Há muitos anos, a UNIFACS desenvolve o fomento à cultura da diversidade envolvendo a área acadêmica e colaboradores, por meio do Comitê da Diversidade, Direitos Humanos e Cultura da Paz, que conta com membros da universidade e representantes da sociedade civil. O Comitê foi reconhecido pelo trabalho que desenvolve, tendo recebido o Prêmio de Honra ao Mérito Cultural LGBTTQIA, concedido pelo Grupo Gay da Bahia (GGB).”

LGBTs europeus convivem com o medo, mostra estudo

Pesquisa com 140 mil pessoas revela que maior parte da comunidade LGBT+ na Europa percebe aumento da intolerância, e muitos preferem esconder sua sexualidade em público. Situação é pior no Leste Europeu.

Publicado pelo portal Deutsche Welle*, em maio de 2020.

Uma em cada dez pessoas disse que foi atacada fisicamente ou sexualmente nos últimos cinco anos

A ampla maioria dos casais LGBT+ na Europa evita andar de mãos dadas em público, e um em cada cinco LGBT+ se sente discriminado no local de trabalho, segundo um estudo da Agência Europeia de Direitos Fundamentais (FRA) divulgado nesta quinta-feira (14/05). De cada dez pessoas ouvidas na União Europeia e no Reino Unido, uma disse que foi atacada fisicamente ou sexualmente nos últimos cinco anos. A pesquisa, chamada Um longo caminho até a igualdade para as pessoas LGBTI, ouviu cerca de 140 mil pessoas com 15 anos ou mais nos 27 países da União Europeia, no Reino Unido (que ainda era membro quando a pesquisa foi feita), na Sérvia e na Macedônia do Norte (que querem entrar no bloco). É a segunda pesquisa desse tipo feita pela FRA. A primeira foi realizada em 2012, mas ouviu menos pessoas e apenas maiores de idade.

“Um número muito grande de pessoas LGBT+ continua a viver na sombra, com medo de ser ridicularizada, discriminada ou mesmo agredida”, diz o diretor da FRA, Michael O’Flaherty. “Apesar de alguns países terem avançado na igualdade para os LGBT+, nossa pesquisa mostra que, no geral, houve pouco progresso real, deixando muitas pessoas LGBT+ vulneráveis. Governantes deveriam estar cientes disso e promover de forma ativa o respeito total pelos direitos das pessoas LGBT+’. Um dos responsáveis pelo estudo, Milton Pavlou afirmou que “o resultado mais alarmante é o que mostra o assédio, o medo, a falta de segurança”. Ele disse que 38% dos consultados disse ter sido vítima de assédio no último ano por ser LGBTQ+. “Isso é inaceitável. As pessoas não merecem viver assim”, afirmou.

Na União Europeia e no Reino Unido, apenas 36% dos consultados disseram perceber uma melhora na tolerância nos últimos cinco anos, e 40% disseram perceber uma piora. Cerca de um quarto não viu mudança nenhuma. Menos de um quarto dos alemães disse que a situação melhorou no país, e 45% disseram que piorou. A Polônia, majoritariamente católica e governada pelo partido conservador PiS, é um dos países onde a percepção da situação mais piorou. Mais de duas em cada três pessoas ouvidas disseram que a situação está pior no país.

A comissária europeia da Igualdade, Helena Dalli, lembrou que a Polônia recentemente criou dezenas de assim chamadas “zonas livres de ideologia LGBT+”. “Ainda mais preocupante, testemunhamos recentemente dentro da UE incidentes contra a comunidade LGBT+, como agressões em paradas, a adoção de declarações de ‘zonas livres de ideologia LGBT+’, multas para publicidades que são simpáticas ao público LGBTI e outros”, diz Dalli, sem mencionar que esses casos ocorreram na Polônia. “Qualquer pessoa na União Europeia deveria se sentir segura e livre para ser ela mesma”, afirmou Dalli. Entre as pessoas ouvidas na Polônia, 44% disseram perceber uma deterioração dramática na tolerância em relação a membros da comunidade LGBT+ nos últimos cinco anos. É a maior percentagem identificada pela pesquisa num país. Em segundo lugar está a França, com 25% dos consultados franceses dizendo que perceberam uma deterioração, dos quais 29% disseram que ela foi dramática. Mas o relatório tem também ao menos uma boa notícia: na Irlanda, 76% disseram ter visto uma melhora na tolerância no período depois de 2015, quando o país, também majoritariamente católico, aprovou o casamento entre pessoas do mesmo sexo num referendo.

A agência antidiscriminação do governo alemão afirmou que o estudo demonstra uma clara necessidade de ação, já que o país ficou na média ou apenas um pouco acima. “Quando quase metade dos consultados diz ter medo de andar de mãos dadas em público, e um em cada cinco esconde sua sexualidade no local de trabalho, isso deve nos causar enorme preocupação”, afirmou o diretor da agência alemã, Bernd Franke.

Este último aspecto é um dos que melhor mostram a linha divisória que existe entre o Leste Europeu e a parte ocidental da Europa na questão dos direitos dos LGBT+. Na Bulgária, Croácia, Chipre, Estônia, Finlândia, Grécia, Letônia, Lituânia, Polônia, Romênia, Eslováquia, Macedônia do Norte e Sérvia, apenas 10% ou ainda menos disseram ser muito francos sobre sua identidade sexual no trabalho. A média dos 27 países da UE mais o Reino Unido é de 21%.

Franke disse que está mais do que na hora de uma reviravolta nas diretrizes europeias sobre igualdade, que, segundo ele, não mudam há anos. Ele sugeriu que o Dia Internacional contra a Homofobia, Transfobia e Bifobia, em 17 de maio, seja usado para destacar as injustiças existentes, “mesmo durante a crise do coronavírus”.

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* A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
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Ensaio fotográfico queer desmistifica questões de gênero e heteronormatividade

Publicado pela Revista Lado A, em 7 de Agosto de 2019.

Rogério Amador de Melo é psicólogo e pesquisador da UNESP de Assis, em São Paulo. Como continuidade de um de seus trabalhos de pesquisa, Melo realizou um ensaio queer. A obra do autor remete a experiências e estudos sobre gênero, sexualidade e heteronormatividade. Conforme escreveu o artista e pesquisador, a inspiração para esse trabalho veio dos processos que ele mesmo enfrenta. Enquanto homem cis, “bixa”, como ele se intitula, psicólogo e pesquisador, foi possível se inspirar.

O trabalho foi inspirado também na obra “Inquietações de uma bicha: rastros de um futuro pesquisador”, que faz parte de sua pesquisa de mestrado, em 2016. Melo se apoia nessas reflexões de arte, pesquisa, possibilidades infinitas de existência para dar vida a novos trabalho. É o caso de seu ensaio fotográfico intitulado “Fazendo a lôca em uma gongação dos gêneros: um bafo de (re)existência”.

O ensaio é uma busca do autor por uma narrativa artística para problematizar e desmistificar o corpo que obedece aos padrões de gênero estabelecidos. Sua base teórica inclui as obras de Judith Butler, grande estudiosa contemporânea das questões de gênero. De acordo com Butler, não há necessidade de o gênero se limitar a dois, masculino e feminino. A autora aborda ainda a flexibilidade queer e a possibilidade de diversas interpretações de gênero. Nesse sentido, Melo buscou inspiração nessa fluidez de infinitas possibilidades para realizar suas pesquisas e seu trabalho fotográfico. “Esse posicionamento ético/político/estético vai se tornando mais explícito e contundente, ao fazer do meu corpo canal de passagem desses trânsitos, desses movimentos de (des)construções e fluxos.”, escreveu Melo.

ENSAIO 1 – Fazendo a lôca em uma gongação dos gêneros: um bafo de (re)existência

ENSAIO 2 – Avessos inauditos: @s outr@s que me habitam

 

 

 

 

 

 

 

Suicídio entre público LGBT aumenta quase quatro vezes em dois anos

Desde 2016, o Grupo Gay da Bahia (GGB) inclui o suicídio em seu levantamento de mortes violentas contra LGBTs. Naquele ano, foram 26 registros, contra 100 casos em 2018, um aumento de 284% no período

Neste mundo, não houve respostas concretas para as questões de Carlos (nome fictício) que, aos 24 anos, decidiu procurá-las em outro: suicidou-se, deixando os motivos e as desculpas como testamento. Com a alegria de um fã da cantora Beyoncé e a bravura de quem cedo aprende a ser forte, por simplesmente amar seus iguais, optou por interromper a própria presença e virar lembrança. “Respira. Vai agora não, que ainda tem jeito”, teriam lhe dito, se pudessem os que, agora, sentem sua falta.

Assim como Carlos, 100 lésbicas, gays, bissexuais e transexuais tiraram a própria vida durante o ano de 2018, conforme o relatório “Mortes Violentas de LGBT+ no Brasil”, realizado pelo Grupo Gay da Bahia (GGB). Em comparação com a primeira vez em que a prática apareceu nos registros do GGB, em 2016, os casos saltaram mais de 284%, quase quadruplicando (foram 26 suicídios no primeiro relatório). O levantamento não traz dados específicos sobre suicídios por região ou Estado, mas Téo Cândido, coordenador do Centro de Referência LGBT da Prefeitura de Fortaleza Janaína Dutra, destaca que cerca de 20% dos atendidos na unidade relataram ter sofrido adoecimento mental.

Causa

O suicídio é a quarta principal causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos no Brasil, segundo dados do Ministério da Saúde. O público LGBT tem seis vezes mais chance de cometer o ato, de acordo com a revista científica americana “Pediatrics”. Ainda para a publicação, o risco de suicídio é 21,5% maior quando LGBTs convivem em ambientes hostis à sua orientação sexual ou identidade de gênero.

Para o jornalista e ex-namorado de Carlos, Iury Figueiredo, a culpa não é somente do conservadorismo social, mas também do universo particular de cada um. “Uma vez só ele me falou que sua vida não teria muito futuro, mas era difícil de acreditar, de dar vazão”, rememora.

Grande parte dos 100 casos de LGBT aos quais o levantamento do GGB se refere foi pesquisada em “páginas de obituários que relatam mortes e perfis das vítimas nas redes sociais”. Iury, por exemplo, descobriu o suicídio de Carlos por meio de uma carta deixada na rede social Facebook. “Ele era muito forte para os outros, se metia em briga, o que fosse, para defender os amigos. Era de pegar na mão e pedir pra ficar tranquilo”, refaz Iury.

“Os dados disponibilizados pelo GGB dialogam com um contexto de pouca notificação. É uma organização civil que pauta a problemática, justamente pelas pouquíssimas informações. O suicídio entre LGBTs é extremamente subnotificado, o que perpetua a alarmante invisibilidade desse público”, aponta Téo Cândido, do Centro Janaína Dutra.

A unidade recebe vítimas de discriminação ou violência em decorrência da identidade de gênero ou orientação sexual. “É recorrente identificarmos depressão, dependência de álcool e outras drogas, transtornos de humor, dentre outros fatores de bastante risco atrelados ao suicídio”, desenvolve Téo.

Em 2018, foram 178 pessoas atendidas no Centro, cerca de 3% delas informaram pelo menos uma tentativa de suicídio ao longo da vida. O equipamento conta com uma psicóloga, que trabalha com uma escuta de psicoterapia breve. Se o atendimento contínuo for confirmado, o LGBT é encaminhado a algum serviço de saúde do Município de Fortaleza.

Índices

O Ceará cravou a quinta posição no índice de mortes violentas de LGBTs, com 23 casos em 2018. No Nordeste, o Ceará ficou atrás apenas da Bahia, que terminou o ano com 35 registros. Em todo o País, a LGBTfobia deixou 420 vítimas. Em caso de suicídio, as lésbicas representaram o maior aumento de casos de 2017 para 2018: foram 52% a mais. Gays tiveram um aumento de 45%, trans uma diminuição de 14%. Bissexuais permaneceram com 3%. “Tudo isso se deve à LGBTfobia, que repete ‘prefiro ver um filho morto a ter um filho gay’. Essa intolerância em casa, na escola, na internet provoca perdas emocionais nessas pessoas”, analisa o antropólogo e fundador do GGB, Luiz Mott.

O presidente da Associação Transmasculina do Ceará (Atrans-CE), Kaio Lemos, entende o problema como uma soma de fatores ambientais e sociais. “O ato é, inicialmente, coletivo, quando o indivíduo não se enxerga dentro dos processos de conexão social. É um estado de falta de pertencimento que leva à prática”, crê. Por duas vezes, Kaio também tentou interromper o viver. Hoje, o suicídio, para ele, virou tema para o doutorado.

Se do lado de lá, Carlos pudesse ouvir, Iury pediria para que ele valorizasse sua vida: “O que tudo isso me mostrou é que as pessoas são importantes, e que precisamos pedir e dar ajuda”. De agora em diante Iury verá Carlos apenas se acessar as memórias mais carinhosas. “Todo mundo lembra do quanto ele é feliz? aliás, era. Desculpa, eu continuo falando no presente”, admite.

Compreensão

Para a coordenadora geral do Centro de Valorização da Vida (CVV) em Fortaleza, Rejane Felipe, suicídio é a idealização de que não há mais como solucionar os problemas. “LGBTs têm ainda mais propensão, passam por muita rejeição da própria sociedade em aceitá-los. Outra preocupação é com o fato de falar de suicídio ainda ser tabu”, defende. Ela alerta para os sinais, que envolvem mudança de comportamento, frases como “não sirvo para nada”, e “não aguento mais esta carga”.

Iury ressalta a falta de políticas públicas em educação sobre o tema. “Precisamos começar cedo a entender nossa sexualidade e nosso sentimento de amor, desejo e afetos. Pesa muito termos de desvendar tudo com as próprias mãos”, salienta Iury Figueredo.

Movimento de aids considera crime e retrocesso a decisão de Bolsonaro de retirar Cartilha do Adolescente de circulação

Publicado pela Agência de Notícias da Aids, em 8 de março de 2019

O presidente Jair Bolsonaro afirmou, no último dia 7, em transmissão ao vivo em uma rede social, que vai reeditar a “Caderneta de saúde da adolescente”, impressa pelo Ministério da Saúde para meninas de 10 a 19 anos, para retirar informações que considera inadequadas ao público-alvo. Enquanto o novo modelo não chega, Bolsonaro sugeriu que os pais rasguem as páginas onde estão as ilustrações mais incômodas, dedicadas a explicações sobre educação sexual. Ativistas ouvidos pela Agência de Notícias da Aids consideraram a decisão um retrocesso na luta contra a aids. “É necessário ter coragem para admitir que o sexo e a sexualidade integram a vida dos adolescentes e jovens. O governo deve se apropriar do seu papel de, além de garantir serviços de prevenção e tratamento, fazer circular informações sobre sexo mais seguro para todas as pessoas, em especial as mais afetadas pela epidemia, no caso – jovens e adolescentes, disse o escritor Salvador Corrêa.

O infectologista Vinícius Borges também concordou: “Num país em que a informação já não chega de maneira homogênea a todas as populações, uma medida como essa pode ter consequências catastróficas.” Na opinião do jovem Carlos Henrique, do Coletivo Loka de Efavirenz, “deixar as e os adolescentes sem acesso à informação e sem políticas de prevenção é um verdadeiro crime, pois os deixarão muito mais vulneráveis às IST/aids e hepatites virais.” Para o ativista José Araújo Lima Filho, coordenador do Mopaids (Movimento Paulistano de Luta Contra a Aids): “o presidente a cada dia mostra sua linha ditadora. Entrar na vida privada mostra o lado mais perverso de um político. A sociedade deve criar um força de resistência para proteger os direitos individuais. A possibilidade de intervenção na educação sexual é partidarizar a educação dentro de um mundo fundamentalista.”

Leia o que dizem os ativistas a seguir:

Vanessa Campos, representante estadual da Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV/Aids Amazona e membro do Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas, vive com HIV há 29 anos:

“Era outubro de 1989, aos 17 anos, quando iniciei a minha vida sexual, na época namorava. Três meses depois observei que os gânglios aumentados no pescoço e na virilha, tive febre altíssima e um cansaço sem igual. Procurei um médico e fui examinada minuciosamente, inclusive fizeram testes de mononucleose e toxoplasmose. O diagnóstico: uma virose terrível. Depois de 2 anos o namoro terminou e uns meses depois o meu ex-namorado morreu de meningite criptocócica. Nisso, fui chamada para fazer exame de HIV e informada que ele morreu de aids! Recebi o resultado positivo no dia 04 de abril de 1992, aos 19 anos. Fui infectada aos 17 (enfim a explicação da tal virose) e só descobri aos 19. E hoje aos 46 anos refaço um pouco deste caminho e vou explicar o porquê: Numa época em que Aids era coisa de “bichas, putas e drogadxs”, lá estava eu, adolescente de 17 anos passando batida sem um teste de HIV porque eu não fazia parte do chamado “grupo de risco”. Hoje, em pleno 2019, um dia antes do Dia Internacional da Mulher, o presidente Bolsonaro vem a público exigir a retirada de imagens da Caderneta de Saúde do Adolescente a que ensinam o uso do preservativo masculino e prevenção às IST/HIV/aids. Temos o preservativo feminino e nem consta na caderneta. Já dizia Cazuza: “Eu vejo o futuro repetir o passado…” Queremos que a política de aids alcance nossos jovens. Não podemos retroceder, e esse conservadorismo doentio é mortal.”

Beto de Jesus, diretor da AHF Brasil:

“E um acinte e uma irresponsabilidade a decisão do presidente da república de recolher a caderneta de saúde que ensina os e as jovens sobre uso de preservativos, de prevenção de IST/aids, de gravidez indesejada…  mais uma vez o obscurantismo violando direitos. É inadmissível tolher processos educativos por visões moralistas pessoais e arcaicas. O cuidado para com as pessoas deve ser a primeira obrigação de um presidente e interesses ou crenças pessoais não devem estar à frente dos interesses da coletividade. A escola tem o papel de ensinar, de trazer conteúdos que fortaleçam a autonomia e cidadania dos e das jovens. Essa iniciativa além de ser um desserviço, ajudará a aumentar os índices de gravidez indesejada, de infecções de transmissão sexual e do HIV/Aids numa população já bastante vulnerável e extremamente violentada. Vemos isso com muita tristeza!

Marta McBritton, presidente do Instituto Cultural Barong:

“A idade média em que o adolescente geralmente inicia a vida sexual é entre 13 e 14 anos. A última Pesquisa de Conhecimentos, Atitudes e Práticas na População Brasileira revelou que quase 40% deles não usam preservativos nas primeiras relações sexuais. Tirar da cartilha do adolescente uma informação como essa é não saber interpretar dados. O conteúdo não é ofensivo, apenas explica como usar corretamente o preservativo, isso não incomoda. Até entendo que alguns adultos fiquem constrangidos, mas ai é uma questão que cada precisa resolver sozinho. A sexualidade faz parte da vida e ela precisa fazer parte da educação do ser humano desde sempre. Consigo entender um pai que fique perplexo com uma imagem como essa porque ele tem que aceitar a sexualidade do filho (a), mas de um educador não. Ele precisa ter instrumentos para isso. O que falta é consultar os profissionais da área no geral.”

Dr. Vinícius Borges, idealizador do Canal Doutor Maravilha:

“Num país em que a informação já não chega de maneira homogênea a todas as populações, uma medida como essa pode ter consequências catastróficas. Além de termos altos índices de gestação na adolescência, vivemos uma epidemia de sífilis, de gonorreia resistente e a prevalência de HIV na faixa etária mais jovem aumentou 700% nos últimos dez anos. Jovens que já têm menos acessibilidade à informação sobre direito reprodutivo e sexual agora contam com a censura na sua própria caderneta de saúde. É um absurdo. Absurdo.”

Maria Luiza Eluf é psicóloga social, feminista, especialista em educação sexual e reprodutiva no Brasil há 40 anos:

“O presidente sugeriu para que os pais decidissem arrancar as páginas se fossem contra a publicação, porém o que mais me chocou foi quando questionado pelo presidente o senhor ministro da Saúde respondeu que recolheria todas publicações e distribuiria livretos mais simples e baratos. Fecha os olhos para a realidade negando a olhos vistos a calamidade que se encontram os adolescentes frente a necessidade de educação sexual.”

José Araújo Lima Filho, coordenador do Mopaids (Movimento Paulistano de Luta Contra a Aids):

“O presidente a cada dia mostra sua linha ditadora. Entrar na vida privada mostra o lado mais perverso de um político . A sociedade deve criar um força de resistência para proteger os direitos individuais. A possibilidade de intervenção na educação sexual é partidarizar a educação dentro de um mundo fundamentalista.”

Rodrigo Pinheiro, presidente do Foaesp (Fórum de ONGs/Aids do Estado de São Paulo):

“Mais uma ação de retrocesso deste governo, que ao invés de investir na informação sobre prevenção, prefere omitir colocando em risco a saúde da população brasileira e consequentemente aumentando o custo do orçamento do SUS que não recebe mais incentivos há muito tempo.”

Rafael Sann, membro do Colegiado da Rede de Jovens de Minas Gerais:

“Lamentável! A caderneta da saúde do adolescente é uma forte aliada da atenção básica, através de programas como PSE, para diminuir a evasão dos adolescentes do sistema de saúde. A caderneta segue o passo a passo do crescimento do adolescente, fala de saúde bucal, passando pela nutrição e a evolução da vida sexual do adolescente. É uma forte aliada na luta contra a Aids, pois trabalha a sexualidade de forma lúdica, acompanhando o crescimento do adolescente. É uma das poucas ferramentas que temos para  trabalhar o conceito de autocuidado integral do adolescente. É mais um grande retrocesso desse governo, o que enfatiza a necessidade de união dos movimentos sociais e ONGs Aids de todo Brasil, para juntos continuarmos trabalhando de forma paralela aos retrocessos do governo.”

Salvador Campos Corrêa, escritor e ativista do Movimento de Aids e coordenador de treinamento e capacitação da ABIA (Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids):

“A resposta e o controle da epidemia de HIV/aids depende de grandes ações de prevenção e tratamento. Historicamente, o Brasil tem conseguido dialogar com a sociedade civil, academia e profissionais da saúde para a tomada de decisão na gestão de ações preventivas. Nos últimos anos percebemos que a epidemia tem afetado adolescentes e jovens no início de sua vida. Apenas o diálogo e a construção coletiva de ações – incluindo os grupos mais afetados – poderiam apontar caminhos para seguirmos inovando nas formas de prevenção. É necessário ter coragem para admitir que o sexo e a sexualidade integram a vida dos adolescentes e jovens. O governo deve se apropriar do seu papel de, além de garantir serviços de prevenção e tratamento, fazer circular informações sobre sexo mais seguro para todas as pessoas, em especial as mais afetadas pela epidemia, no caso – jovens e adolescentes. É preciso tirar o medo de prevenir do armário, e ter ousadia para estimular debates, acertando, errando e sempre aprimorando. O que será feito em substituição as informações que circulavam nessa cartilha? Como garantir que ações para sexo mais seguro alcance as pessoas mais afetadas? Como ampliar o debate sobre prevenção nas escolas? O que pode ser feito para discutir diversidade (incluindo sexuais e de gênero) no autocuidado para jovens diversos? Não podemos fechar os olhos para a realidade! Alta epidemia de IST, HIV, gravidez não planejada. Somente uma política forte de saúde sexual e saúde reprodutiva poderá garantir melhor qualidade de saúde dos adolescentes e jovens brasileiros.

Moysés Toniolo, representante do Movimento Aids no Conselho Nacional de Saúde:

“É lamentável a figura de um Presidente da República querer interferir com sua opinião pessoal sobre coisas que foram construídas através do diálogo social, participativo e cidadão. Além do ridículo de se intrometer em questões das políticas públicas relacionadas a saúde da mulher, mostrando despreparo e desconhecimento por uma Política Nacional de Saúde Integral das Mulheres, o mesmo remete seu julgamento contra o direito à autonomia que cada criança, adolescente, jovem e demais gerações de mulheres devem ter sobre o seu corpo, e ao conhecimento necessário para fazer frente aos desafios impostos por uma sociedade machista e muitas vezes misógina. Infelizmente, sob a falsa alegação de que certas informações da Cartilha seriam impróprias para adolescentes e jovens mulheres. As considerações rasas e sem embasamento técnico e científico do nosso presidente somente contribuirão para mais piadas sobre o atual governo brasileiro e sua tentativa de impor uma agenda fundamentalista religiosa sobre o exercício pleno da cidadania. Salientamos que conhecer o próprio corpo, aprender a lidar com ele com responsabilidade e com noções claras e objetivas que remete ao autocuidado promovem subsídios para uma vida mais saudável, portanto não cabe intromissões pessoais, ao que conclamamos a toda a sociedade a conhecer a cartilha referenciada, e assim inclusive as famílias – pais, mães e responsáveis poderão certamente aprender muito sobre o que ensinar aos seus filhos e filhas quanto a sexualidade e seu exercício responsável e seguro, mas sem intervencionismo atrapalhado de governantes e suas opiniões. Lembramos a todos e todas que seguramente o Relatório da 2a Conferência Nacional de Saúde da Mulher será também uma maravilhosa fonte de informações sobre como a sociedade sabe expressar suas necessidades quanto à saúde das mulheres brasileiras, e poderão servir para expandir ainda mais os direitos humanos e de cidadania feminina no Brasil, neste ano em que realizaremos a 16a Conferência Nacional de Saúde  – 8a + 8, rumo a afirmação dos direitos das mulheres em nossa sociedade como marco civilizatório que não se pode deixar retroceder. Cabe ainda salientar que não é papel de um governante mandar rasgar páginas ou desconsiderar uma caderneta inteira por questões da falta de entendimento sobre a sexualidade e direitos sexuais e reprodutivos que todos adolescentes e jovens, principalmente mulheres tem direito através da Cartilha. O custo de tal medida seria um prejuízo aos cofres públicos, apenas pela opinião unilateral de um Presidente que sequer utilizou das vias corretas para tratar do assunto, como efetivamente deveria ter consultado ao Ministério da Saúde, antes de emitir sua posição em uma fala carregada de decisão autoritária. Isto só mostra o caráter de censura deste governo cujas medidas se afastam de uma sociedade democrática e participativa.”

Regiane Garcia, sexóloga e especialista em saúde sexual do adolescente:

“Falar de métodos contraceptivos e prevenção a ISTs é falar de sexualidade. Falar de sexualidade é falar da vida. Sou profissional da saúde mental e especialista em sexualidades, portanto uma profissional técnica e não gostaria de ouvir pessoas não técnicas falando do que não entendem.”

Carlos Henrique Oliveira, do Coletivo Loka de Efavirenz e membro da Rede de Jovens São Paulo Positivo:

“O mesmo presidente que é tão ávido em publicar vídeo com conteúdo impróprio para redes sociais, com o intuito de ridicularizar e perseguir não só as pessoas do vídeo como toda a comunidade LGBTI+, esse mesmo presidente quer retirar a caderneta de prevenção e que fala sobre direitos sexuais e reprodutivos básicos. Isso é o controle total sobre a autonomia das pessoas, é o todo moralismo da extrema-direita num nível máximo. Deixar as e os adolescentes sem acesso à informação e sem políticas de prevenção é um verdadeiro crime, pois os deixarão muito mais vulneráveis às IST/aids e hepatites virais. Isso sim é transmissão intencional de infecção sexualmente transmissível, e não atos sexuais consensuais — como gosta de fazer crer a bancada que é base desse governo neo-obscurantista.”

Vando de Oliveira, da Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV Ceará:

“Nada mais surpreende vindo deste presidente que desde sua campanha já via a aids como um problema das pessoas e não do governo.  Se na campanha de carnaval viu apenas homens de 15 a 34 Anos, agora, com esse posicionamento, ele deixa claro o que já prevíamos: a prevenção não tem importância para o atual governo e isso gera mais falta de informação a população, contribuindo ainda maus para o adoecimento das pessoas. Já temos uma epidemia de aids e uma politica marcada por retrocesso diários. A decisão do Bolsonaro vai contribuir ainda mais para os altos índices de casos de HIV e óbitos por aids.”

 

A cuarte versus a cufobia – quem vai derrubar Bolsonaro?

Leandro Colling, professor da UFBA e coordenador do Núcleo de Pesquisa e Extensão em Culturas, Gêneros e Sexualidades (NuCuS)
Publicado pelo portal iBahia, em 9 de março de 2019

 

No finalzinho do Carnaval de 2019,  o mundo foi sacudido por um tuite do presidente Jair Bolsonaro, que comentou e replicou uma performance realizada por duas pessoas na passagem do BloCU, no centro de São Paulo. A cena já é super conhecida e nem precisa ser descrita em detalhes aqui. Os meus objetivos aqui são outros: 1) defender as pessoas artistas da performance; 2) defender o caráter político da performance; 3) defender que essa performance gerou efeitos imensos, maiores do que muitas outras petições, abaixo assinados, paradas LGBT e demais manifestações contra os preconceitos, o conservadorismo, o fundamentalismo e a eleição de Bolsonaro.

O que significa o insulto “vai tomar no cu” para quem tem o cu como um importante elemento da sua vida sexual? No Carnaval, enquanto ditos/as progressistas opositores/as do governo de Jair Bolsonaro enchiam os pulmões nos quatro cantos do país para mandar o presidente tomar no cu, duas pessoas artistas resolveram atacar o conservadorismo que se alastra no país e que se manifesta inclusive entre aqueles e aquelas que julgam combatê-lo. Vocês querem me insultar ao tomar no cu? Pois eu enfio meu dedo no meu próprio cu e gozo. Mudem os seus insultos, mudem as suas estratégias, pois elas têm um caráter cufóbico (nem se trata só de homofóbico porque milhares de pessoas heterossexuais também fazem sexo anal). A nossa luta é contra a castração dos nossos respectivos cus. Gozem sem impedimentos. Essa é a mensagem política da performance dessas duas pessoas.

Mas, ao que parece, o dedo no cu foi suplantado pela chuva dourada. O próprio presidente não sabia o que, em outros termos, tem feito na cabeça de brasileiros/as a décadas. A prática de urinar em outra pessoa, conhecida em determinados circuitos das dissidências sexuais e de gênero, das quais as pessoas artistas fazem parte, também nos dá muito sobre o que pensar. Não é incrível que em um jornal de grande circulação no país, em uma reportagem sobre o caso, um profissional do campo da saúde defenda que a prática não é uma doença e sequer transmite doenças e um conhecido militante do movimento GGGG (que se diz LGBT mas, na verdade, é gay) critica a performance das pessoas artistas? Isso nos diz muito sobre várias coisas, sobre como o conservadorismo se consolidou na mente de tantos de nós. Mas vamos para outras perguntas geradas por esse caso: por que uma chuva dourada, consentida e em um ato artístico, frisa-se, causa tanto espanto? Por que o presidente e os tais representantes dos movimentos sociais e demais pessoas ditas progressistas não se espantam e protestam quando um homem retira o coração de uma travesti para matá-la (sim, esse caso ocorreu em janeiro de 2019!!! Vejam https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/noticia/2019/01/21/homem-e-preso-em-campinas-apos-matar-e-guardar-coracao-da-vitima-em-casa.ghtml)? Por que uma mijada consentida provoca um tsunami e esse caso e centenas de outros motivados por feminicídio e transfobia já foram praticamente esquecidos? Sangue sem consentimento pode e xixi consentido não pode?

Essas e outras perguntas (vou parar por aqui) não deixam dúvidas de que as artes das dissidências sexuais e de gênero possuem um potencial imenso e inesgotável para combater o fundamentalismo e, até, pasmem, derrubar o presidente da República! Um jurista chegou a defender que Bolsonaro poderia sofrer um processo de impeachment por falta de decoro, lembrem disso. Quando foi que duas pessoas conseguiram gerar tanto debate em torno de dissidências sexuais e de gênero no Brasil? Na história recente, a travesti crucificada em um trio elétrico na parada LGBT de São Paulo talvez tenha causado impacto próximo do que vimos nesses últimos dias. Nem as históricas e louváveis manifestações do Ele Não conseguiram gerar o impacto causado pela performance tuitada por Bolsonaro. Enquanto isso, algumas pessoas ainda apostam em petições, abaixo assinados e, pasmem, tentativas de diálogo com um governo ultraconservador que zomba, diariamente, das questões de sexualidade e de gênero.

Por último, uma breve reflexão que talvez seja a mais importante e que explique muita coisa. Cada período histórico produz determinados processos de subjetivação, determinadas subjetividades, entendidas aqui em sentido amplo, em especial a produção de sentimentos, formas de ser e estar no mundo, formas de se sentir frente ao mundo. Não há dúvidas de que temos vivido, nos últimos dez anos, as consequências de uma produção de subjetividade reativa, gerada pela rearticulação das forças conservadoras e fundamentalistas, no Brasil e em várias partes do mundo, que passaram a eleger como inimigos/as especialmente as pessoas da chamada diversidade sexual e de gênero. Mas, ao mesmo tempo, um imenso grupo de artistas, ligados de formas diversas e em intensidades variadas às chamadas dissidências sexuais e de gênero, têm reagido à essa produção de subjetividades. Nesse grupo existem pessoas artistas que já chegaram a participar de programas da TV Globo. Mas existem outras pessoas artistas querem é acabar com a TV Globo. O que essa cena artística poderá gerar no futuro? Não sei, mas já sabemos o que ela gerou, e não foi pouca coisa.

OBS: optei por não revelar o nome das pessoas artistas em respeito à solicitação delas próprias, expressas em uma reportagem publicada no jornal Folha de S. Paulo.

Celso de Mello vota para que homofobia seja equiparada ao crime de racismo

Relator de ação do PPS entende que o Supremo deve criminalizar a prática até que o Congresso legisle sobre o assunto. Julgamento será retomado nesta quinta-feira (21/2)

Renato Souza
Publicado pelo portal Correio Braziliense, em 20 de fevereiro de 2019

O ministro Celso de Mello, do Supremo Tribunal Federal (STF) , votou hoje (20/2) a favor de que a prática de homofobia seja criminalizada e incluída na lei que trata do racismo. A Corte analisa, desde a quarta-feira da semana passada (13/2), uma ação direta de inconstitucionalidade por omissão (ADO), apresentada pelo PPS. O julgamento será retomado nesta quinta-feira (21/2).

Celso de Mello levou duas sessões para concluir a análise do caso. O ministro afirmou que o direito à liberdade sexual e à expressão da afetividade por pessoas do mesmo sexo integram os direitos fundamentais, garantidos pela Constituição.

Durante o julgamento, Mello destacou que as ofensas, agressões e mortes de homossexuais em razão da orientação sexual se igualam a outros tipos de preconceitos. “O problema da homofobia supera a questão gay, inscrevendo-se na mesma lógica de intolerância que produziu exclusão tanto dos escravos como de judeus e protestantes”, disse.

O ministro afirmou que a homofobia e transfobia devem ser enquadradas na lei do racismo até que o Congresso regulamente o assunto. Ele não deu prazo para isso seja feito.  A análise do pedido do PPS e de um mandado de injunção protocolado pela Associação Brasileira de Gays, Lésbicas e Transgêneros (ABGLT) será retomado nesta quinta. No fim da explanação, Celso foi parabenizado pelos ministros Luiz Fux e Dias Toffoli, pelo voto “bem fundamentado” e “que honra o tribunal”. O voto de Celso de Mello, embora não seja definidor, é o mais importante do julgamento, por ser o relator, e pode nortear o pensamento dos demais ministros.

Além da ação do PPS, os magistrados analisam também um mandado de injunção protocolado pela Associação Brasileira de Gays, Lésbicas e Transgêneros (ABGLT). Em ambos os casos, a alegação é a de que o Congresso se omitiu em garantir o combate ao preconceito por sexo, previsto na Constituição Federal. Ofensas, agressões e até assassinatos contra homossexuais em razão da orientação sexual não são considerados crime no Brasil.

Os ministros do Supremo têm pelo menos três opções em relação ao caso. É possível que o plenário decida que o Legislativo é quem deve se debruçar sobre o tema e conceda um prazo para que os projetos em torno do assunto sejam votados no parlamento.

O STF também pode criminalizar a homofobia, aceitando o mandado de injunção ou ainda atender à solicitação do PPS e incluir a prática na lei que trata do racismo. O julgamento pode ser interrompido por um pedido de vista (mais tempo para analisar o caso). O Supremo também pode entender que não existe omissão do Congresso e rejeitar as ações. A decisão afeta milhões de pessoas, sejam integrantes da comunidade LGBT ou pessoas que apoiam a causa.

A (mal-disfarçada) ideologia de gênero de Damares

Sua fala explica o óbvio: gênero e sexualidade dizem respeito às relações de poder. Não é uma discussão biológica, mas sobre quem está autorizado a decidir – e quais identidades não podem existir.

por Berenice Bento
Publicado pelo portal Outras Palavras, em 14 de janeiro de 2019

https://outraspalavras.net/feminismos/a-mal-disfarcada-ideologia-de-genero-de-damares/

“Todos os dias, nas maternidades brasileiras, mães, pais e profissionais de saúde lidam com o dilema de terem diante de si corpos que encarnam os limites do dimorfismo sexual”

Metáfora, aquilo que não é, mas torna-se por analogia.  Uma mistura de deboche e incredibilidade foram as reações às declarações efusivas da ministra Damares Alves que decretou uma Nova Era no Brasil. Seria ela uma ministra de Estado? O grotesco de sua declaração de que a Era do binarismo de gênero ocupará a centralidade de sua gestão seria apropriado para uma Ministra de Estado? Após uma onda piadas, memes e artigos a ministra explicou melhor: usou as cores (“menino usa azul, menina usa rosa”) como metáfora. O que então, a Ministra queria dizer? O que a analogia com as cores nos revela?

1º) Um recado, principalmente, para os movimentos trans, de que no governo Bolsonaro não haverá qualquer espaço para o debate ou formulação de políticas públicas para assegurar o bem-estar físico e mental desta população. A metáfora da ministra se materializou imediatamente em ato político: a não inclusão da população LGBT na nova estrutura organizacional do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos e a retirada da cartilha “Homens Trans: vamos falar sobre prevenção de infecções sexualmente transmissíveis” do site do Ministério da Saúde.

2º) Há muito que diversas correntes de feminismo vem discutindo os efeitos nefastos das assimetrias hierarquizadas de gênero. Seja nos espaços públicos ou privados, o feminino é construído como o lócus da passividade, emotividade, irracionalidade. Em contrapartida, ao masculino são reservados os espaços de poder na esfera pública porque se supõe que a masculinidade seria a morada natural dos atributos necessários para lidar com tomada de decisões (racionalidade, frieza, atividade). No entanto, a organização dos coletivos T (mulheres transexuais, homens transexuais, travestis, transgêneros) e dos não–binários empurrou o debate para outro nível. A condição para se ter reconhecimento social seria, nos termos da metáfora das cores da ministra, ter um corpo sexuado (menino-pênis, menina-vagina) que lhes daria a permissão de fala. Nos últimos anos as identidades trans e as não-binárias passaram a estruturar novas gramáticas morais que deslocam os sentidos hegemônicos das identidades de gênero. Não se trata mais de se ter um “corpo sexual coerente” que seguiria esta linha de continuidade:

vagina = mulher = feminilidade = maternidade

pênis = homem = masculinidade = paternidade

As existências trans demandam que o Estado reconheça as diferenças das identidades de gênero, sem ter como passaporte autorizativo para transitar no mundo público a posse de um corpo-sexuado “coerente”, como o defendido pelos ideólogos da “ideologia de gênero”.

3º) As políticas públicas, no que se referem ao gênero e sexualidade, estarão voltadas para pôr ordem ao caos, restabelecer o desejo da natureza, porque ela sabe tudo: os corpos são naturalmente heterossexuais. A natureza aqui pode ser substituída por “Deus”. Será que os/as porta-vozes da natureza sabem que todos os dias nas maternidades brasileiras nascem bebês sem a prevalência de características biológicas de um determinado sexo? Todos os dias, mães, pais, enfermeiras, médicos lidam com o dilema de terem diante de si corpos que encarnam os limites do dimorfismo sexual.  Nestes corpos os padrões anatômicos, a mais sólida convicção dos ideólogos da “ideologia de gênero” para se definir o sexo da criança na certidão de nascimento, evapora-se no ar. A mãe que esperou ansiosa a sábia natureza fazer seu trabalho, frustra-se. Não é uma menina porque tem o clitóris com alguns milímetros a mais do estabelecido pelo poder médico. Tampouco é menino porque tem um pênis menor do o convencionado. Esta é apenas uma das múltiplas variações dos caracteres sexuais que não estão “em conformidade” com o dimorfismo sexual hegemônico. A intersexualidade é o lugar onde a tese dos ideólogos da “ideologia de gênero” colapsa definitivamente. E quem irá “consertar” os erros da natureza? Serão as instituições sociais que se encarregarão de produzir feminilidade ou masculinidade, dependendo da escolha que se faça sobre o destino de gênero da criança.

4º) A fala da saltitante ministra explicita o óbvio: gênero e sexualidade dizem respeito às relações de poder. Aliás, a todo o momento os ideólogos da “ideologia de gênero” reafirmam o que dizem combater. Quando esbravejam: “A família é a responsável por discutir sexualidade e gênero!!”, estão reafirmando que a produção destas identidades é função de uma instituição social: a família. Não se trata de uma discussão biológica, mas de quem pode falar sobre, quem tem autorização para decidir. O que está posto é uma disputa política de quais identidades de gênero e sexuais têm direito a existência, quais serão objeto de politicas públicas. De certa forma, é um tipo de reedição dos debates que marcaram a história do Brasil sobre quais sujeitos merecem habitar o Estado-Nação, quais serão objeto de cuidado pelo Estado e quais devem ser eliminados.

5º) O que muda? Agora o Poder Executivo se posicionou abertamente a favor de uma determinada concepção de gênero e sexualidade, que tem como fundamento para suas “teorias” a Bíblia.

As cores são a metáfora de uma concepção de gênero e sexualidade que nega direitos fundamentais àqueles que divergem da posição dos ideólogos da “ideologia de gênero”. E qual seria a melhor metáfora para explicar a Ministra? Ao tentarmos encontrar uma política, uma estadista, que entende o caráter laico do Estado, nos termos da Constituição Federal, encontramos uma pastora que declarou aos gritos de “aleluia” e “glória a Deus”, que “o Estado é laico, mas esta Ministra é terrivelmente cristã”, numa alusão a orientação que deverá permear a gestão Bolsonaro nas questões que dizem respeito a laicidade do estado brasileiro. Não se trata, portanto, de uma metáfora mas de uma antítese. E aqui talvez tenhamos que sair do mundo das figuras de linguagens, para entrar no mundo das figuras grotescas.

Exclusivo: Em clínica de “restauração de sexualidade”, Damares classifica homossexualidade como aberração

Jovem homossexual, que foi abusado na infância por um pastor, relatou à Fórum como foi a “lavagem cerebral” a que foi submetido em uma dessas clínicas para deixar de ser gay e denunciou a participação de Damares, que aparece em vídeos dizendo que homossexuais são “doentes”. Assista

Por Ivan Longo
Publicado pelo portal Fórum, em 4 de janeiro de 2019

Pastora evangélica, a mulher escolhida por Jair Bolsonaro para assumir o novo Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, causou revolta a boa parte da população, nesta quinta-feira (3), ao anunciar a chegada de uma “nova era” em que “meninos vestem azul e meninas vestem rosa”.

Conhecida por seus posicionamentos homofóbicos, Damares disse, depois, que sua fala foi apenas uma metáfora para fazer uma crítica ao que chama de “ideologia de gênero” nas escolas. Para ela e boa parte dos defensores do novo governo, há no Brasil uma “doutrinação” para incentivar as crianças a se tornarem homossexuais.

Apesar de dizer, enquanto ministra, que trabalhará por essas pessoas, a atuação da pastora na esfera da igreja demonstra que sua declaração não se limita a uma simples metáfora, mas, sim, traduz o que pensa a mulher que hoje é responsável por todas as políticas de proteção de direitos LGBTI+ sobre essas pessoas.

A revista Fórum recebeu com exclusividade vídeos que mostram Damares palestrando em uma clínica de “restauração sexual” e classificando a homossexualidade como “aberração” e “doença”. Nas falas registradas, a ministra pede, inclusive, para que trechos sejam editados ou para que não filmassem alguns momentos da palestra, pois falaria coisas “sérias” e, por isso, teria “problemas”.

A denúncia partiu de um dos “pacientes” do “tratamento” que preferiu não se identificar por conta de possíveis retaliações. Nesta reportagem ele será identificado como “X”.

“Restauração de sexualidade”: pressão psicológica e lavagem cerebral

X, que hoje tem 29 anos, participou de um “tratamento” de “restauração sexual” quando tinha 24 anos. De família evangélica, o jovem foi convencido pela igreja que frequentava, no interior de São Paulo, com o apoio de seus pais, de que sofria de um transtorno por ser homossexual. Ele, então, foi internado no Seminário Intensivo de Sexualidade (SEIS), que faz parte de uma organização que tem contato com diferentes correntes de igrejas evangélicas. O nome da igreja que X frequentava, bem como o da organização que gere o SEIS, também foram preservados para a segurança da fonte.

Foi neste seminário, entre os anos de 2014 e 2015, que X assistiu às palestras de Damares Alves registradas nos vídeos.

À Fórum, X relatou que a tal “clínica” se vendia aos fiéis como uma “escola”, até com o objetivo de não chamar atenção uma vez que, desde 1990, de acordo com a Organização Mundial de Saúde, a homossexualidade não pode ser classificada como uma doença – tratamentos para reversão sexual são, portanto, ilegais

O cuidado da organização que gere o seminário é tamanho que o “tratamento” não tem local fixo e se dá de maneira itinerante: o próprio X participou de 2 módulos, um em Goiânia e outro e Curitiba.

De acordo com o jovem, compõem o seminário de sexualidade pastores evangélicos, psicólogos e advogados, que “curam” o que chamam de “transtornos sexuais”, tais como a homossexualidade, que é colocada ao lado de verdadeiros transtornos como a pedofilia e a zoofilia, por exemplo.

A “restauração” se dá através de uma espécie de confinamento dos “pacientes”, com regras rígidas de horários, saídas e de limpeza, com aulas em formatos de palestras, terapias individuais e de grupos. No local, é pregado que homossexualidade, além de ser um pecado, é algo que deva ser “curado”, um “distúrbio” e até mesmo uma “imoralidade”, resultado da suposta ausência de um pai e da presença da mãe. Os argumentos quase sempre são bíblicos.

Os que participam do seminário passam, de acordo com X, por um tipo de “lavagem cerebral” em que são condicionados a acreditar que ser homossexual ou transexual degradará suas vidas. Isso tudo seria feito a partir de muita pressão psicológica com pessoas em um estado emocional frágil. Vídeos de abusos sexual, tráfico de pessoas, pedofilia e outras atrocidades eram mostrados aos “pacientes” como maneira de “alertá-los” sobre os “riscos” da homossexualidade.

Castração, abuso e suicídio 

A pressão dos religiosos, segundo X, já veio antes mesmo de ele entrar no seminário em forma de chantagem. “Para você ter uma ideia, tinham me colocado duas opções: ou me castrar ou ir para a clínica. Diziam que eu ia para o inferno. Eu, por estar em depressão, estava até aceitando ser castrado”, revela.

Ao pensar que a castração poderia inviabilizar uma suposta futura vontade de ter filhos, X conta que repensou e decidiu entrar na clínica. Frágil emocionalmente, o jovem participou de todo o “tratamento” tomando remédios para depressão e síndrome do pânico, o que o deixava muito mais vulnerável.

“Eu tinha de 5 a 6 crises de pânico por dia, tomava remédios, e lá [na clínica] eles tratavam de assuntos muito pesados. Em um dos momentos tive uma crise de pânico e uma psicóloga renomada me obrigou a ir para a aula, mesmo no meio da crise. ‘Você vai ter a crise lá no meio’, ela disse. Me senti completamente exposto”, denunciou.

Uma das aulas que mexia com o psicológico dos “pacientes” para os convencer a serem heterossexuais era uma aula de “traumas”. Em uma delas, no entanto, X contou que conseguiu se dar conta que as “intimidades” que um pastor e o filho de outro pastor tinham com ele na infância e na adolescência se tratavam, na verdade, de abuso sexual, o que o motivou a denunciar o homem à organização e à igreja. O ato, no entanto, foi em vão.

“Eu percebi que tudo o que aconteceu comigo na infância, de um pastor, foi abuso. Mas não me deixaram expor por envolver um pastor da igreja. Assim que saí da clínica tentei denunciar, mas ninguém acreditava nas palavras de um ‘viado’. Pediam provas, mas é algo muito difícil de provar”, expõe X.

Os traumas causados pela pressão da igreja e da “clínica” fizeram X até mesmo tentar tirar a própria vida há 3 anos. “As pessoas não sabem o que é a pressão de ser gay dentro de uma igreja evangélica. Foi muito pesado para mim, eu queria morrer mesmo”, conta.

Alerta 

Totalmente afastado da igreja e ciente de que sua sexualidade não deve ser tratada com o um transtorno, X revela que resolveu expor a clínica – que, segundo ele, não é a única do país – e o envolvimento de Damares Alves pois percebeu, com a nomeação da pastora como ministra, que passaria a correr ainda mais riscos.

“Quando o Bolsonaro começou a levantar uma maré de ódio eu comecei a sofrer. Então quando a Damares foi indicada eu entendi o que iria acontecer porque eu sei o que ela pensa em relação aos homossexuais. Fiquei com mais medo ainda pois agora estamos completamente desprotegidos. Quero dizer aqui que existe, sim, essa clínica, existe isso em vários lugares do país. Quero que as pessoas vejam o que está acontecendo, que chega ao ponto de quererem castrar um homossexual”, dispara.

Após a revelação da participação de Damares neste tipo de “tratamento”, os próximos passos do jovem, seguindo orientações de sua advogada, são denunciar pastores e psicólogos envolvidos à entidades e autoridades competentes, o que será noticiado em uma próxima reportagem.

Outro lado 

Fórum não conseguiu contato com a organização do Seminário Intensivo de Sexualidade (SEIS), que não possui site oficial na internet ou números de telefone disponíveis e tem sua divulgação limitada a blogues e eventos de Facebook. Este espaço permanece aberto para eventuais posicionamentos.

A reportagem tentou ainda um posicionamento da ministra Damares Alves sobre as declarações registradas nos vídeos mas sua assessoria de imprensa não havia respondido até a divulgação desta matéria.

Depoimentos 

Confira, abaixo, depoimentos de X e de outra “paciente”, Y [ela também teve o nome preservado], que foi submetida ao mesmo tipo de “tratamento”.

Depoimento de “X”

A Religião joga tão pesado, tão sujo, deixa as pessoas tão cegas e insensíveis, que eu cresci sem pai, sem mãe, sem irmão. Mesmo os vendo todos os dias, a religião estragou minha família, destruiu nosso relacionamento. Meus pais nunca conseguiram me ver como filho antes de me ver como homossexual. Eu tive que criar um mundo paralelo para viver porque eu me sentia a pior pessoa do mundo. Minha vida sempre ficou em volta disso, o massacre da religião, minha mãe chorando todos os dias porque o filho dela vai para o inferno, meu pai pedindo para que eu seja homem, desesperado se vou ser afeminado ou não, orando para que eu tenha temor e entenda que preciso mudar de vida.

Eu cresci pensando em morrer. E pensar tanto em morrer fez com que eu nunca estivesse vivo. Infelizmente só quem sente, sabe. O resto chamam de mimimi, como acontece quando se levanta questão sobre racismo, bullying etc.

O objetivo desta matéria não é declarar uma guerra contra a religião, mas, sim, lembrar que minha vida e a de tantos outros importa. Eu não tenho o objetivo de doutrinar ninguém com minha sexualidade, eu só quero viver. 29 anos de vida, 29 anos que meus pais são infelizes, que eu fui infeliz. Não faz o menor sentido uma religião que prega sobre Cristo fazer isso com as pessoas.

Se eu puder deixar uma mensagem, é que ninguém solte a mão de ninguém. Se tivessem soltado a minha, eu já estaria morto. E para todos que sofrem com isso, saibam que dá para ser feliz, sim, que tem uma vida linda que vale a pena. Toda culpa que colocam em nós não é nossa. Levantem a cabeça, se unam mais do que nunca.

LUTAR PELA VIDA NUNCA FOI TÃO NECESSÁRIO.

Depoimento de “Y”

Eu ainda estou passando por esse processo de superar o que a igreja fez comigo.

Eu ainda tenho muito ranço, muita raiva e rancor de crente, mas, se tem uma coisa que eu tenho certeza, é que não quero fazer isso para afrontar crente por causa desse ódio e, sim, fazer por quem é diferente que nem eu, que nem nós, que nunca nos encaixamos perfeitamente e fomos extremamente invadidos e feridos pra tentar nos moldar, nos consertar.

Consertar o que nunca esteve quebrado, mas que se danificou muito nessas tentativas de correção a que fomos submetidos.

Eu também quero curar, quero ajudar a libertar, tanto do armário, quanto dessas dores causadas pela própria igreja e religião.

A gente é regido inconscientemente ainda hoje por causa dessa porra!

Mas, o primeiro passo, já demos, que é reconhecer onde está o erro.

E agora vamos dar o segundo, que é trazer luz para isso.

Damares, ao falar sobre a suposta ideologia de gênero nas escolas, classifica sexo entre mulheres como “aberração”. Ela pede, inclusive, para que o cinegrafista edite o trecho

Mensagem à ministra: “Quem definirá o que cada um será é a própria pessoa”

À Excelentíssima Sra. Ministra Damares Regina Alves

Venho, por meio desta, explicitar meu profundo lamento frente a vossa postura e fala que estão materializadas nos canais de comunicação e que copio aqui nesta mensagem (https://oglobo.globo.com/sociedade/menino-veste-azul-menina-veste-rosa-diz-damares-alves-em-video-23343024). Ao tratar da sexualidade humana, Vossa Excelência saltita e grita, em postura descabida, falando sobre cores de vestimentas e papeis a serem desempenhados por crianças.

http://www.huffpostbrasil.com/salomao-cunha-lima/o-ativismo-lgbt-comeca-na-palma-das-maos_a_22108417/

GETTY IMAGES/ISTOCKPHOTO

Infelizmente, ou a senhora não sabe nada do desenvolvimento humano e das questões de gênero ou a sua égide ideológico-religiosa lhe cega. Isso é grave, visto que, as suas funções de Ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos impossibilitam tais posturas, tais falas e tais posicionamentos. Esse agir é incongruente com o seu papel.

Essa nova pasta, que foi criada pelo atual governo, vincula nela os Direitos Humanos que, inoportunamente, recebem deboches e desdéns de muitos dos seus correligionários e de vários da bancada do atual governo. Assusta-me perceber que Vossa Excelência também debocha deles. A sua função é justamente defender esses direitos e qualquer cidadão. Independente de vestir “azul” ou “rosa” e de ser “príncipe” ou “princesa”, ele/ela precisa dessa proteção de forma igualitária. Vossa Excelência se perde e acaba sendo desnuda com tais devaneios. A referência às cores (azul e rosa) e aos títulos (príncipe e princesa) reduz as demandas de gênero a um maniqueísmo tosco, tolo e perverso.

Entenda uma coisa Excelência – não é a senhora, não sou eu e nem será ninguém os responsáveis por definir a sexualidade de alguém. Quando a senhora afirma que agora menino e menina “veste isso ou aquilo” e que serão “isso ou aquilo outro”, Vossa Excelência traz para si uma presunção arrogante de controle. Não Excelência! Quem definirá o que cada um será é a própria pessoa. E quer saber, ele e ela poderão ser o que quiserem. É direito de cada um ter o arbítrio de escolher. É direito de cada um o ato de ser feliz. É direito de cada um ser o que é. Ele e ela vestirão a cor que desejarem. As suas identidades de gênero são escolhas somente deles e tais escolhas não são formatadas e modificadas por rompantes externos. Desse modo, não há cura para aquilo que não é doença.

Então, Excelentíssima Ministra deixo aqui o meu repúdio. Quero acreditar que tal postura não paire no seu consciente, mas sim que venha por impulsos inconscientes não analisados, pois, se assim for, será menos grave. Todavia, a despeito do motivador mental da senhora, quero registar que tal postura é perversa. Já que a senhora faz analogias com cores, eu terminarei essa carta com um trecho de uma bela música, intitulada alma não tem cor, que foi cantada por vários artistas brasileiros. Portanto, Alma não tem cor. Por que eu sou branco? Alma não tem cor. Por que eu sou negro? Entenda Excelentíssima Sra. Ministra Damares Alves que nós somos multicolor, pois o amor não tem cor específica, sobretudo em se tratando de gênero.

Régis Eric Maia Barros
Médico Psiquiatra
Mestre e Doutor em Saúde Mental pela FMRP- USP

Pabllo Vittar: A voz da resistência

Após superar seus ídolos e se tornar uma estrela internacional, Pabllo Vittar usa o espaço que conquistou para defender o público LGBTQ do preconceito

André Sollitto
Publicado pelo portal IstoÉ, em 30 de novembro de 2018

Ser a drag queen mais seguida do mundo é uma responsabilidade que Pabllo Vittar leva muito a sério. Em 2018, a cantora de 24 anos, natural de São Luís, no Maranhão, consolidou uma carreira de rápida ascensão. Com sete milhões de fãs no Instagram, onde aparece tanto com quanto sem maquiagem, superou sua maior inspiração, RuPaul. Tem mais de um bilhão de visualizações em seus vídeos combinados, e lançou seu segundo disco, “Não Para Não”, que chegou ao topo das paradas brasileiras duas horas após o lançamento. Todas as 10 canções do álbum ficaram no Top 40 do Spotify brasileiro. Desfilou no Carnaval carioca pela Beija-Flor e tornou-se ainda a primeira drag queen a ser indicada para o Grammy Latino por “Sua Cara”, parceria com Anitta e Major Lazer.

Sua transformação em estrela pop e ícone midiático aconteceu ao mesmo tempo em que o preconceito direcionado a membros da comunidade LGBTQ, em sua avaliação, ficou mais forte. Pabllo se tornou a voz do que chama de “resistência”. “Ser uma artista LGBTQ no Brasil é incrível. Mas tenho que matar um leão por dia”, disse ela à “Vogue” americana. “Passei por muitas situações complicadas, mas sou grata porque elas me tornaram uma pessoa mais forte e confiante”. Em apenas três anos, desde que começou a cantar profissionalmente, fica claro seu amadurecimento profissional e pessoal.

Além da militância, Pabllo usa o espaço que conquistou como estrela da música para levar elementos da cultura brasileira para o mundo. Alguns de seus maiores sucessos mesclam a estética pop americana com batidas do tecnobrega, levando um estilo regional nascido no Pará para uma audiência internacional que a conhece principalmente pelas parcerias com artistas como Major Lazer e Charlie XCX. Em entrevista a sites internacionais ela costuma repetir que se orgulha de apresentar a cultura musical em que cresceu. “Não é suficiente amar outras culturas e ignorar a sua”, disse ao site “Remezcla”. Sente que é seu dever oferecer um modelo que ela mesma nunca teve quando cresceu, e fica feliz com as mensagens positivas que recebe. “Meu trabalho é divertido”, disse à “Vogue”, “mas saber que minha música pode mudar vidas é a melhor parte”.

“Jovens não recebem informação sobre HIV nem na família nem na escola”

Vice-presidente da Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids fala sobre a importância da conscientização dos adolescentes

Por Afonso Ribeiro
Publicado pelo portal Destak, em 26 de novembro de 2018

(Foto: Reprodução)

Nos últimos dez anos, foram notificados pelo Ministério da Saúde mais de 136.945 casos de infecção pelo HIV no Brasil. Mais da metade ocorreram em pessoas na faixa etária de 20 a 34 anos. Nos últimos cinco anos, o Brasil registrou média anual de 41,1 mil casos de Aids.

Para Veriano Terto Jr., vice-presidente da ABIA (Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids), o aumento do número de jovens portadores de HIV ocorre porque eles não recebem informações adequadas das instituições de ensino e muito menos da família.

“Os adolescentes não escutam falar sobre camisinha nas escolas. Uma família conservadora também não fala. O jovem acaba recebendo conteúdo na internet de forma fragmentada. Um dos melhores medicamentos contra o HIV é a informação e, infelizmente, a informação tem sido pouca” afirma o psicólogo.

Terto ainda critica a falta de políticas públicas, em nível estadual e municipal destinadas a essa parte da população. “São, no máximo, campanhas, não tem um programa efetivo, capilarizado, que chegue efetivamente nos jovens”, completa Veriano, que diz temer um recrudescimento da prevenção com um potencial avanço do projeto “escola sem partido” no Congresso.

Sobre o jovem que se descobre portador do HIV, o psicólogo afirma que não é preciso achar que é o fim do mundo. “É possível viver com o vírus. A primeira coisa é procurar um médico de sua confiança e buscar ONGs, que podem auxiliar nessa busca. É importante estar bem informado e junto com as pessoas. É mais fácil enfrentar com solidariedade do que com isolamento e medo”.

Conheça a multinacional que emprega 1.300 transexuais no Brasil

Os números da Atento saltam aos olhos se consideramos a realidade brasileira, na qual 90% dos transexuais atuam na prostituição.

Por Mariana Desidério
Publicado no portal Exame, em 12 de setembro de 2018

São Paulo – A Atento, gigante do call center que emprega 78 mil pessoas no Brasil, tem uma pequena multidão de transexuais entre seus funcionários. São cerca de 1.300 pessoas. A grande maioria atua como atendente de telemarketing e ganha um salário mínimo.

O número salta aos olhos se considerarmos o contexto brasileiro: somos o país que mais mata transexuais no mundo – foram ao menos 868 travestis e transexuais mortos entre 2008 e 2016, segundo a ONG europeia Transgender Europe. Outro dado mostra que 90% dos trans ganham a vida se prostituindo por falta de alternativas, segundo a Antra (Associação Nacional de Travestis e Transexuais).

Com um quadro assim, empresas que estendam a mão para esse público cumprem um papel importante. No caso da Atento, a companhia não precisou de muito de esforço para atrair esses profissionais. “Muitas empresas contratam consultorias para aumentar a diversidade. No nosso caso não foi necessário. Nossas plantas ficam nas capitais, em geral nas periferias. Eles vieram naturalmente, atraídos por uma jornada de seis horas, numa função que exige apenas o ensino médio. É um perfil de primeiro emprego”, afirma Eliane Terceiro, superintendente de responsabilidade social da Atento Brasil.

No entanto, se a chegada desses trabalhadores foi natural, o processo para incluí-los exigiu um pouco mais. A presença dos trans na Atento passou a ser notada em 2012, quando a empresa criou uma ouvidoria. “Começaram a chegar questões de pessoas trans que tinham que usar o banheiro do gênero com o qual não se identificavam”, lembra a executiva, que falou sobre a experiência da companhia durante o debate “Mercado em Transformação”, promovido pela KPMG e pelo escritório de advocacia Trench Rossi Watanabe.

O tema foi discutido no conselho de ética da empresa, que decidiu ter uma atitude mais proativa. A batalha do banheiro foi a primeira. “Fizemos um comunicado sobre o uso dos banheiros de acordo com a identidade de gênero. Mas então começamos a receber reclamações, principalmente de mulheres incomodadas com transexuais nos banheiros femininos”, conta Terceiro. Para contornar o problema, foi necessário fazer uma campanha de conscientização sobre os valores da empresa e sua política de igualdade e inclusão.

A trincheira seguinte foi abrir a possibilidade para que os funcionários usassem o nome social no crachá e no e-mail corporativo, mesmo que no RG ainda constasse o nome de outro gênero. “Entendemos que não adianta muito ter o nome no crachá , mas não no e-mail. Tivemos vários entraves na área de segurança da informação por conta disso, inclusive trazidos por clientes. Mas hoje temos pouco mais de 1.300 transexuais e travestis que solicitaram nome social no crachá”, comemora.

O próximo passo foi promover ações para os transexuais que não trabalham na empresa. A companhia faz encontros esporádicos com esse público, com aulas de informática e dicas sobre como se portar numa entrevista de emprego. “Eles saem do curso com uma gratidão enorme. Muitos deles nunca tinham entrado numa empresa na vida, a maioria mora em abrigos e trabalha na prostituição”, relata a executiva.

Alguns dos transexuais que participam desses encontros passam a trabalhar na Atento. E, segundo a companhia, o turnover desses profissionais é menor que o dos demais, mesmo num setor como o de telemarketing, que tem altos índices de rotatividade. Na Atento, enquanto a rotatividade geral foi de 5,4% nos últimos três meses, no grupo de transexuais acompanhados pela empresa o número foi de 1,7%.

Agora, o principal desafio é a negociação com as operadoras de plano de saúde sobre temas como tratamento com hormônios e cirurgias. Há ainda casos como exames barrados por conflito entre o nome do paciente e o tipo de exame solicitado. “A pessoa é trans, usa um nome de mulher, mas ainda precisa fazer exames de próstata, por exemplo”.

Segundo Terceiro, o trabalho de inclusão e respeito aos transexuais no ambiente corporativo ampliou a visão de mundo da empresa. “Antes a Atento era uma empresa mais quadrada. E com os trans, criou-se também espaço para discutirmos o papel da mulher e outras questões ligadas à igualdade. Abriu-se uma porta”, diz.

Documentário “Para Além dos Seios” agora disponível no Vimeo on Demand

“Para Além dos Seios” é uma produção cinematográfica independente e documentário memorável do cineasta Adriano Big, que vem construindo uma história de êxito desde outubro de 2015, quando foi lançado na Sala Walter da Silveira, em Salvador. Agora, o sucesso está disponível para locação no Vimeo on Demand, inclusive com legendas em inglês e francês. A locação sai por menos de R$ 10,00 e uma promoção neste mês de agosto garante 30% de desconto para quem digitar o código naoaoescolasempartido.

Clique nos links abaixo e confira:

Página em português: https://vimeo.com/ondemand/paraalemdosseios

Página em inglês: https://vimeo.com/ondemand/beyondthebreasts

Página em francês: https://vimeo.com/ondemand/audeldesseins

Em 2016, o documentário permaneceu por mais de três meses em cartaz no Cinema do Museu, na capital baiana. Também foi exibido em Belo Horizonte (MG), Brasília (DF), Joenville (SC), Natal (RN), Santa Maria (RS), Londres e Amsterdam. Curiosamente, a primeira locação do filme com legendas em inglês ocorreu na Arábia Saudita.

“Para além dos seios” discute questões de gênero num momento em que tais assuntos encaram reação refratária de um conservadorismo crescente no país. A obra aborda as relações com o corpo e gênero na contemporaneidade a partir do seio enquanto significante do feminino. O filme põe na ordem do dia assuntos como mastectomia, transgeneridade, violência contra mulher, cirurgias estéticas, amamentação, parto humanizado, entre outros. Além disso, traz à tona discussões sobre aborto, liberação da maconha e seu uso medicinal, teoria queer, representações midiáticas, opressão das ideologias religiosas sobre os corpos e tantas outras que não podem ser ignoradas.

Ao longo de aproximadamente 70 minutos, o espectador é presenteado com uma profusão de belíssimas imagens e verdades que saem das “bocas” de seios que dizem tudo aquilo que a cultura machista reprime e represa, mas que é preciso bradar a plenos pulmões. “Para além dos seios” é uma obra prima e uma abordagem altamente qualificada da sexualidade humana sob diversas óticas, todas elas com acabamento caprichoso e responsável. Altamente didático e esclarecedor, ele é capaz de abrir as visões mais resistentes ou de nos tirar da nossa zona de conforto, levando-nos a inevitáveis reflexões.