Necropolíticas de um psicopata

O vídeo acima (clique na imagem) é um típico vídeo 4 em 1. Foram tantos acontecimentos do desgoverno bosta n’água em tão pouco tempo e todos correlatos, que eu fui obrigado a fazer um único vídeo, porque eu não tenho condição de produzir um a cada dia, o que seria o caso.

Os quatro assuntos são correlatos justamente porque são reveladores da necropolítica institucional. Ei-los:

1. Desgoverno só compra vacina se houver demanda. Então o desgoverno desconhece os quase 45 mil novos casos de COVID-19 no Brasil? Está à espera de um milagre que erradique a doença no País, inclusive acreditando que a pandemia está chegando no finalzinho? Talvez por isso não possui quantidade suficiente de seringas e agulhas se tivesse um plano de vacinação.

2. Desgoverno deixa contrato vencer e exames de HIV e hepatite C pelo SUS são suspensos. Seguramente porque ainda acredita que HIV é coisa de homossexuais. Alguém precisa alertá-lo que a disseminação do vírus se dá em maior número entre heterossexuais, se considerarmos valores absolutos.

3. Desgoverno revogará portarias e encerrará programas de saúde mental no SUS. Essa iniciativa tem endereço certo: habilitar os “centros de recuperação” comandados por religiosos, especialmente evangélicos, que estavam fora dos CAPs (Centros de Atenção Psicossocial), por estarem irregulares, por adotarem métodos de tratamento questionáveis e até mesmo criminosos, entre outras razões.

d) Desgoverno isentará armas de imposto de importação. Aí eu já considero um problema no nível do fetiche psicopata, além de querer transformar o país em uma praça de guerra. Até hoje, ele não entende que violência gera violência, por mais exemplos que tenhamos flagrados por câmeras de segurança e/ou registrados em boletins de ocorrência. Simples assim.

Depressão e suicídio

Aqui eu abordo dois temas cáusticos sob uma ótica muito pessoal: depressão e suicídio.

Tenho recebido várias mensagens de apoio, nas quais as pessoas afirmam ser apenas uma fase. Sim, eu tenho a mais absoluta certeza de que a depressão pela qual eu passo agora é mais uma fase, como também foi a depressão que tive em maio e junho de 2019. Tal certeza se dá pelo meu diagnóstico de transtorno bipolar, em que a minha mente intercala fases de ansiedade e depressão com regularidade.

Sobre o vídeo, é uma característica minha transformar em bandeiras todos os meus problemas ou aquilo que em mim as pessoas consideram um problema. Outros tantos vídeos virão com o mesmo propósito. Partilhar conhecimento é bom para ajudar pessoas em situações semelhantes ou idênticas.

Neste vídeo, por exemplo, eu deixou como recado a necessidade de fortalecer elos afetivos para pessoas depressivas encontrarem razão para não tomar atitudes drásticas, mesmo que eu não considere essas atitudes censuráveis, pois cada um sabe a dor que tem e qual sua capacidade de suportá-la.

Gésner Braga
2 de novembro de 2020

Escritora Van Amorim perde Processo de Transfobia contra a Unifacs e diz que vai recorrer ao STF

“Quero que a justiça seja feita e que isso nunca mais aconteça com ninguém.”

Escritora Van Amorim perde processo de transfobia contra a Unifacs e diz que vai recorrer ao STF (Supremo Tribunal Federal), na 3ª instância. “Quero que a justiça seja feita e que isso nunca mais aconteça com ninguém.”

Publicado pelo portal Salvador Notícias, em 22 de julho de 2020

O processo de transfobia movido pela escritora Van Amorim ganha seu mais novo e dramático capítulo. Vanessa tem 27 anos e obteve êxito no processo em primeira instância. A juíza de direito do Juizado Especial de Defesa do Consumidor condenou a Unifacs a pagar R$ 8 mil em indenização por danos morais, ocorre que a universidade recorreu ao processo e acabou vencendo na 2° instância. A Turma Recursal ENTENDEU que “NÃO HOUVE TRANSFOBIA POR PARTE DA UNIVERSIDADE” e “MUITO MENOS DANOS MORAIS.” Os juízes deram provimento ao recurso da FACS, suspendendo a indenização outrora concedida em primeiro grau. Agora eu te pergunto… COMO NÃO HOUVE TRANSFOBIA, meretíssimos?

Vanessa Amorim teve o nome retificado em novembro de 2018, um  mês após a juíza de primeiro grau conceder uma liminar para a universidade alterar o seu nome em todos os assentamentos e, mesmo assim, enfrentou uma série de constrangimentos dentro e fora da universidade, principalmente quando o caso foi noticiado nos principais veículos de comunicação da Bahia e do País, como: Põe na Roda, Uol/Universa, G1, Bocão News, Leia Mais Bahia, LFnews, Salvador Notícias e entre outros. Van chegou a conceder uma hora de entrevista ao vivo no programa “Entre Elas”, da rádio TV/Câmara Salvador, para esclarecer o ocorrido. Ela conta que foi constrangedor porque é uma artista e ao invés de estar falando sobre sua arte, falou sobre transfobia e não sobre literatura.

A escritora já era pessoa pública e militante dos direitos da comunidade LGBTQ+ e usou a sua imagem e influência para denunciar e chamar a atenção da imprensa. Hoje, Colunista Policial do Salvador Notícias, Vanessa só espera o final da pandemia para lançar o seu primeiro livro físico, “O Eclipse”, um romance policial que se passa na capital baiana e será publicado através da Chiado, uma editora portuguesa, sediada em Lisboa.

Vanessa ficou um mês sem assistir a aulas. Ela conta que, depois da exposição da sua vida na mídia, passou a sentir medo de sofrer rejeição no banheiro em que estava acostumada a transitar NORMALMENTE antes e depois de assistir as aulas ou fazer as provas.

Procurada pelo Bocão News, a advogada da estudante, Fernanda Correa, afirmou que, na época da matrícula, Vanessa tinha nome social, mas não tinha feito a retificação no RG, possuía apenas um cartão do Sistema Único de Saúde (SUS). “A negativa por parte da faculdade ensejou o ajuizamento da demanda, vindicando, sobretudo, a obtenção de uma medida liminar para mudança imediata nos assentamentos/sistemas da faculdade. Juntamos aos autos algumas telas do sistema eletrônico da faculdade demonstrando que ainda estavam utilizando o nome de nascimento dela. Não a identificavam como Vanessa. A decisão liminar prolatada, bem como a sentença de primeiro grau revelam-se como uma grande conquista para o gênero, a qual poderá, inclusive, inibir futuras condutas similares por parte das instituições de ensino.” — Disse a advogada.

“Se eu utilizar esse nome em qualquer outro lugar, eu sou presa, porque não tenho nenhum documento que prove que aquele nome foi meu. E existe uma portaria do MEC que permite que a pessoa trans possa usar o nome social, só que eu não tenho mais nome social. Mesmo que eu tivesse, como pode uma instituição criar sua própria política?” — questiona a estudante. A própria nota da Unifacs divulgada pela imprensa diz que a mesma adota o procedimento de uso de nome social no ato da matrícula “QUANDO DEMANDADA PELO ESTUDANTE, bem como a mudança do nome civil, desde que apresentada documentação comprobatória.”

Relembre o caso: 

No momento em que Van foi fazer a matrícula para a bolsa de 100% no curso de Letras Vernáculas (Literatura Brasileira) pelo PROUNI (Programa Universidade Para Todos), ouviu que a universidade não estava preparada para recebê-la, pois “NAO TINHA COMO” e nem “SISTEMA” para realizar a matrícula com nome social. Era o último dia para a entrega das documentações da bolsa e na hora de assinar os documentos, a escritora foi constrangida e obrigada a assinar o contrato POR EXTENSO, sendo que a sua identidade era rubricada justamente para evitar o constrangimento de assinar seu antigo nome civil. “Se você não desistir de mudar o nome, você vai perder a bolsa”, disse a funcionária da instituição.

Antes de ir para o primeiro dia de aula, Van conta ter recebido a ligação de um representante da instituição, dizendo que estaria a sua espera e que iria com ela até a sala para conversar com o professor e garantir, pelo menos, que ela seria tratada pelo nome correto nas chamadas. Vanessa conta que, quando chegou à Unifacs, perguntou pelo representante com quem conversou e foi informada na sala dele por outros funcionários de que ele já havia ido embora. “Fiquei a ver navios. Passei uns 25 minutos em frente à porta da sala de aula, travada, sem coragem de entrar e sem saber o que fazer”, disse.

Vanessa tinha uma narrativa do dia em que sofreu transfobia logo depois, agora por parte dos seguranças. Ela escreveu suas emoções/aflições e depois arquivou no e-mail e SÓ AGORA decidiu publicar, e é exatamente aí que está o X da questão: Teria mesmo Vanessa sofrido transfobia DENTRO DA UNIFACS?

Narrativa Jurídica: Salvador-BA, 29/11/2018, quinta-feira. Universidade Salvador, Torre Norte.

Estava muito feliz por ter chegado com segurança na universidade, para a almejada aula do tema “Evasão Escolar”. Nunca imaginei que, lá na frente, na recepção, aconteceria o que eu mais temia em toda minha vida: a exposição do antigo nome civil publicamente por parte dos seguranças.

Entrei rapidamente e me aproximei da recepção já constrangida, pois sabia que teria que apresentar minha identidade. Havia dois seguranças atrás do balcão. Eles eram negros, altos e fortes. Todos bem vestidos de terno preto. Um deles era mais velho, pois sua cabeça era inteiramente coberta por cabelos grisalhos. Me aproximei deles e disse:

— Boa tarde! Sou “ALUNA” da universidade e preciso que liberem a minha entrada, por gentileza.

O segurança mais jovem rapidamente hesitou:

— Preciso do seu documento com foto.

Apesar de conhecer o procedimento da universidade, tinha esperança de que eles me liberassem sem ao menos checar o meu documento, pois estavam acostumados a me ver entrar desde o dia 8 de agosto. Mas, para a minha surpresa, enquanto remexia a minha bolsa em busca da identidade, o segurança grisalho falou de longe em alto bom som:

— É Ivanilson, não é? Acho que esse é o nome “DELE” — Disse com tamanha satisfação.

Esse não era o meu nome antigo nome, claro, mas, quando ele disse isso, eu paralisei. Senti meu corpo tremer e gelar completamente, enquanto subia um frio dos pés à cabeça, eu quase não consegui falar, apenas expressei insatisfação com os olhos no primeiro momento.

Aquele segurança me perseguia. Ora, por que se daria ao trabalho de memorizar o meu antigo nome civil dentre milhares de alunos? Olhei para ele revoltada e disse:

— Desculpa! Mas o senhor está equivocado. Esse não é o meu nome. — Falei entregando a minha identidade para o outro. O segurança grisalho ficou perplexo me encarando. Parecia mesmo ter absoluta certeza de que aquele realmente era o meu nome. Mas rapidamente o outro esclareceu a sua dúvida dizendo:

— Hehe. Você chegou perto, cara. O nome “DELE” é Vanildo. — Disse alto, rindo.

Nessa hora eu perdi o controle e disse que eles não podiam fazer isso, pois já havia processado a universidade por esse erro e que agora eles estavam me dando mais um motivo. E quando falei isso, o segurança mais velho, “primeiro agressor”, aproximou-se rapidamente tentando conversar comigo e reverter a situação calamitosa que criou. Ele disse:

— Calma. Não precisa se exaltar. “Estou tentando ser seu amigo.” — Disse liberando a catraca.

— Infelizmente, o senhor não conseguiu. Só precisava ser profissional. — Falei morrendo de raiva.

Nessa hora, antes que eu pudesse passar a catraca, o segurança mais jovem disse bem alto:

— É cara. NÃO CUSTA NADA TE LEMBRAR SEU NOME. — Disse com PRAZER e ironia.

Quando ouvi isso, para mim foi mais uma dor profunda e incomparável. O chão parecia nunca ter existido. Olhei à minha volta rapidamente e vários universitários me olhavam perplexos, tentando entender o que estava acontecendo. Então… Hesitei nervosa:

— Eu já disse. Esse não é o meu nome. Meu nome está junto com o RG, escrito no cartão do sus. — Falei passando a catraca.

“Eu ponho o cartão do sus retificado em cima da foto do RG para escondê-la, mantendo o nome social para cima, de fácil acesso.”

Após ter transpassado, o segurança mais velho se aproximou tentando manter um diálogo e me acalmar. Eu continuei andando, enquanto ele me seguia. Ele tentou falar comigo de novo e cega de raiva disse:

— Eu vou resolver isso judicialmente, não se preocupem. — Falei seguindo na direção do elevador.

— Então vá lá. Boa sorte. — GRITOU ríspido. Finalizei a discussão dizendo:

— Já ganhei. Obrigada!

Dei as costas e entrei no elevador. Fui para a minha sala, no 4° andar da torre norte, ainda em choque e incrédula com o que acabara de acontecer. Sentei no banco e comecei a chorar no final do corredor. Eu chorei muito!

Um grupo de universitários que saíram da sala ao lado em prova me olharam e ficaram distantes. Duas garotas cochicharam, se aproximaram de mim e sentaram ao meu lado, mas não tiveram coragem de falar comigo, talvez por eu ter conseguido me controlar. Depois, por fim, peguei um livro de Machado de Assis na minha bolsa para disfarçar uma leitura, mas não conseguia ler uma frase sem me lembrar de me sentir vazia, diminuída, como um lixo. Foi quando recebi uma ligação do meu ex-marido, Guto Cardoso (hoje meu Agente Literário) onde pude verter toda minha dor até ele conseguir me acalmar e fazer eu me sentir especial de novo antes de começar a aula.

Para a minha surpresa, procurei a professora no final da aula para pedir ajuda e relatar o que havia acontecido, mas ela já sabia. Mas como? Ela disse que o segurança mais velho havia lhe procurado para contar a sua versão, mas que ela não poderia conversar comigo naquele momento porque não daria tempo de fazer o amigo secreto, mas que, na próxima aula, com certeza sentaria para me ouvir e me dizer o que ele disse.

Como que eles sabiam que aquela mulher era a minha professora? Como não me sentir perseguida por eles depois de tudo? Por fim, me pergunto angustiada: como entrarei na universidade novamente para a próxima aula? Me sinto constrangida, com medo e intimidada por eles.

Na próxima aula, a professora foi me encontrar na saída e me disse que estava muito triste com o que tinha acontecido e lamentou muito. Ela disse que, antes de tudo acontecer, no início do semestre, ela procurou o segurança mais velho (grisalho) para informá-lo que tinha uma aluna trans e que se ele encontrasse alguma coisa divergente na minha documentação, que era para ele liberar a minha entrada, porque a universidade tinha cometido um erro nos meus documentos e estava corrigindo. Ela disse que chegou a falar sobre o processo, tramitando judicialmente.

Se eles já sabiam de tudo, por que criaram toda essa situação de constrangimento? — Questionou.

A professora ficou chocada e nervosa… Pediu a minha identidade nova, minha certidão de nascimento e levou para a diretoria da universidade, e lá ela conseguiu alterar meu nome no Portal do Aluno, mesmo depois da juíza ter concedido uma liminar para que a universidade alterasse o meu nome em todos os sistemas da FACS e, mesmo com uma liminar judicial, eles não alteraram. A minha professora quem conseguiu fazer isso. Na mesma noite, ela me disse que, se eu precisasse que ela testemunhasse ou desse entrevista a meu favor, que ela prestaria.

Eu disse: — Mas isso não vai te prejudicar na universidade? Você pode ser demitida, professora.

— E quem disse que estou preocupada com isso? — Retrucou rapidamente.

Ela falou que não tinha medo e que estava do lado da verdade, que era uma professora séria e muito competente, e que se fosse demitida, seguiria a vida dando aula em outras universidades, como ela sempre fez, desde Minas Gerais, de onde veio. Mas ela não iria admitir e nem compactuar com nada que fosse de cunho desreipeitoso e desumano.

Uma semana depois, mudaram a professora de Campus…

Breve Biografia

A estudante tem todos os documentos retificados desde o início de 2019. Mas Vanessa sempre foi Vanessa. Nas duas primeiras ultrassonografias, o seu sexo deu feminino. Sua mãe, Vânia de Jesus Amorim, escolheu o nome “Vanessa” para quem seria a sua primeira filha. Mais tarde, no último mês de gestação, Manoel Santos de Jesus, pai da escritora, decidiu fazer mais um exame, pois, durante os dois últimos, ela estava o tempo todo sentada, de pernas cruzadas, em posição considerada DELICADA E FEMININA pelos especialistas da época, então os médicos mais experientes disseram que se tratava de uma menina. Quando saiu o resultado da última ultrassom, o casal descobriu que, na verdade, a chegada era socialmente de um “menino” por causa do órgão de reprodução masculina. Manoel e Vânia já haviam comprado e ganhado tudo, “absolutamente TUDO” para a chegada dela. Hoje, Vânia conta que não deu mais trabalho porque a filha tinha ganhado muitas roupas brancas e amarelas, e que serviria para “ELE.” Falou também que Vanessa não sofreria violência psicológica por parte do pai, pois Manoel começou a chamá-la de Van desde bebê, e que só teriam apenas que passar a tratá-la e chamá-la no gênero feminino, ao qual, na verdade, a escritora sempre pertenceu.

“Me lembro bem que quando eu era criança e ia brincar com os meninos, eu era sempre rejeitada. Eles diziam que lá não era o meu lugar, que eu tinha que brincar com as meninas, porque meninas brincam com meninas. Eu ficava confusa, porque, mesmo passando a maior parte brincando com elas, meus pais e o meu irmão mais velho sempre disseram que era para eu brincar com os meninos, pois lá que era o meu lugar. Quando eles finalmente me deixavam brincar, se fosse de Power Rangers, eu era sempre a rosa ou amarela, não porque queria, mas porque era a única condição imposta por eles. Eu era sempre elegida a ser às personagens femininas da turma em todas as brincadeiras. Cresci jogando vídeo game com eles e sendo sempre as personagens femininas lá também. Por que será que os meninos sempre me excluíram das atividades masculinas e diziam que era para eu brincar com as meninas desde criança? Seria mesmo tão explícita assim a minha feminilidade?” — inquiriu.

Maria das Neves, mãe de Vânia, foi a primeira pessoa a quem a escritora levou o laudo endócrino para mostrar. Vanessa sempre teve uma relação linda e forte com a avó, uma senhora de 70 anos. Maria disse que a única preocupação dela era o que a neta iria fazer com o órgão e com a complexidade da cirurgia. Ela foi a pessoa mais velha que Van procurou para juntar o quebra-cabeça do seu passado e confirmar essa história. Maria falou que a família realmente estava preparada para recebê-la, e que de repente tudo mudou, que a melhor parte foi ela manter o nome dado pelos pais, continuar sendo chamada de Van e não ter escolhido outro, como costuma acontecer com outras pessoas trans. Ela confessou também que teria dificuldade em se adaptar a um nome diferente, e que Vanessa deve erguer a cabeça, seguir em frente e sempre se sentir abençoada, pois nem todas as mulheres trans tem a sorte de nascer com tantos privilégios genéticos e sociais como ela. — conta.

Foto em comemoração ao primeiro ano de transição

Laudo Endócrino

A escritora é um caso intrigante na medicina, pois tem laudo endócrino e psicológico que atestam que ela é uma mulher transexual. Vanessa chegou aos 26 anos tendo apenas produzido em toda sua vida 1,728nmol/L de Testosterona TOTAL, sem uso de bloqueadores, sendo que, HOMENS de 18 a 30 anos, tem que ter de 8,98 nmol/L a 28,31 nmol/L e MULHERES de 0,00 nmol/L a 2,60 nmol/L, tendo Vanessa A VIDA INTEIRA, naturalmente, estado dentro dos padrões hormonais femininos, como consta no resultado do laudo abaixo:

O resultado da testosterona LIVRE de Vanessa foi: 0,027 nmol/L. Referência: HOMENS saudáveis de 17 a 65 anos: Menor igual a 0,637 nmol/L e MULHERES saudáveis de 17 a 50 anos: Menor igual a 0,039 nmol/L.

A endocrinologista Dra. Luciana Borges Oliveira ficou impressionada com os resultados dos exames dela, dizendo que Vanessa é um caso raro na medicina e que, se fosse em uma avaliação, ela teria nota máxima, pois seu laudo endócrino e os exames físicos comprovaram a sua existência. No exame físico, atestou ainda que, por falta de testosterona no corpo, havia uma deficiência na genitália da escritora, pois sua miniatura de testículo e do órgão genital nunca haviam desenvolvido. A médica usou um orquidômetro (aparelho medidor de testículos) para examiná-la e concluiu que se trata de hipogonadismo hipogonadotrófico.

O Hipogonadismo é uma doença na qual as gônadas (testículos nos homens e ovários nas mulheres) não produzem quantidades adequadas de hormônios sexuais, como a testosterona nos homens e o estrogênio nas mulheres. Além dos hormônios, os testículos podem não produzir espermatozoides adequadamente. Geralmente ocorre quando a testosterona está menor que 300 ng/dl e/ou livre menor que 6,5 ng/dl. Van tem quase nível zero: Livre: 0,027 nmol/L e Total: 1,728nmol/L.

Antes de mais nada, é preciso lembrar que as gônadas funcionam comandadas por uma outra glândula chamada hipófise. Esta glândula fica na base do cérebro e produz hormônios (FSH e LH), que fazem os testículos e ovários funcionarem. Sendo assim, podemos começar a pensar que a causa do mal funcionamento das gônadas da escritora advém da hipófise, por isso ela não produziu hormônio masculino e nem passou pela puberdade na adolescência.

Contudo, para a endocrinologista, não restou dúvidas de que Vanessa nasceu para ser uma mulher Cisgênero: “Não tenho nenhuma dúvida de que você nasceu para ser XX.”

A estudante tomou a primeira injeção da hormonioterapia no dia 01/07/2018, de forma avulsa, pois o ministério da saúde adverte que os endocrinologistas só devem atender e tratar pessoas trans com laudos psicológicos em mãos. O problema é que não existe uma regra e um número de sessões exatas para obter o laudo psicológico. Cada psicólogo precisa ouvir o suficiente para emitir o laudo de transexualidade de acordo com a DEMANDA e disforia que a pessoa traz.

Laudo Psicológico

O Dr. Maurício Cana Brasil, psicólogo da escritora desde 5 de outubro de 2018, disse, no primeiro dia de psicoterapia, que, se dependesse dele, o laudo dela seria emitido naquele mesmo instante, pois, por conta da DEMANDA que ela trouxe, segundo ele, com tudo que ouviu, não lhe restou dúvidas de que estava diante de uma mulher. Mas ela só obteve o primeiro 1/2 laudo psicológico no final de abril de 2019, por isso só começou o tratamento endócrino oficial em julho, um ano após sua primeira aplicação avulsa.

Vanessa completou 2 anos de transição na última quarta-feira 01/07/2020 e hormonalmente está apta para passar pela cirurgia, mas só vai obter o seu último laudo psicológico 2/2, que permite fazer CRS, cirurgia de redesignação sexual (mudança de sexo), em outubro de 2020, quando finalmente completará o tempo de tratamento psicológico e endócrino exigido pelo protocolo da OMS (Organização Mundial da Saúde). Após usar as técnicas (escuta clínica, entrevista estruturada e observação), o psicólogo concluiu no laudo que Vanessa Amorim encontra-se EGOSSINTÔNICA em relação aos seus sentimentos, imagem e comportamentos identificatórios, afastando a existência de QUALQUER quadro psicopatológico.

Egossintônico é um termo que se refere a comportamentos, valores e sentimentos que estão em harmonia com ou aceitáveis para as necessidades e objetivos do ego, ou consistente com o próprio ideal da autoimagem. Entende-se por egossintonia as ideias ou impulsos que são admitidos tanto pelo ego como pelo superego e que se coadunam com o ego ideal, essa imagem do eu que existe isenta de qualquer crítica. Em egossintonia, a atividade mental está em conformidade com o ego. Nestes casos, um sentimento é egossintônico quando está em consonância com a representação que o indivíduo tem de si mesmo. Sendo assim, conclui-se que não há possibilidade de Vanessa não ser uma mulher, pois se encontra egossintônica, segundo o Dr. Maurício Brasil Cana Souza.

Procurada pelo Salvador Notícias, Fernanda Correa, advogada da estudante, preferiu não se manifestar sobre o caso.

A outra parte

Em nota enviada por e-mail à Universa, a UNIFACS disse que adota o procedimento de uso de nome social no ato da matrícula “quando demandada pelo estudante, bem como a mudança do nome civil, desde que apresentada documentação comprobatória.”

Leia a nota:

“Há muitos anos, a UNIFACS desenvolve o fomento à cultura da diversidade envolvendo a área acadêmica e colaboradores, por meio do Comitê da Diversidade, Direitos Humanos e Cultura da Paz, que conta com membros da universidade e representantes da sociedade civil. O Comitê foi reconhecido pelo trabalho que desenvolve, tendo recebido o Prêmio de Honra ao Mérito Cultural LGBTTQIA, concedido pelo Grupo Gay da Bahia (GGB).”

Pandemia antecipa aprovação de PrEP injetável de longa duração

Por Vino
Publicado pelo portal Pheeno, em 19 de maio de 2020

 

O Conselho de Monitoramento de Dados e Segurança, nos Estados Unidos, anunciou a eficácia do cabotegravir injetável de ação prolongada na prevenção da contaminação pelo HIV.

Estudos comprovam que o cabotegravir injetável de ação prolongada, também conhecido como PrEP de longa duração, é seguro e eficaz na prevenção do HIV. O estudo da Rede de Ensaios de Prevenção ao HIV, ‘HPTN 083’, acompanhou quase 4.600 pessoas que não vivem com HIV de mais de 40 locais na América do Norte e do Sul, da Ásia e da África.

A profilaxia pré-exposição (PrEP) – medicamento antirretroviral usado por pessoas que não vivem com HIV para prevenir a infecção pelo vírus – é um elemento importante na prevenção combinada do HIV. A PrEP permite que as pessoas reduzam o risco de serem infectadas pelo HIV.

O ‘HPTN 083’ teve início no final de 2017 em diversas cidades brasileiras e foi direcionado para mulheres trans e homens que fazem sexo com homens. O estudo deveria continuar por pelo menos mais um ano em todas as entidades que fazem parte da pesquisa. Porém, devido a uma possível interrupção dos testes e aos resultados satisfatórios na primeira análise intermediária, comprovando a eficácia do medicamento contra a contaminação do vírus, o PrEP de longa duração passou para a etapa final de pesquisa.

Depois de sua aprovação regulatória e quando a produção de cabotegravir acessível puder ser ampliada, homens que fazem sexo com outros homens terão três opões altamente eficazes de PrEP: pílulas diárias, pílulas tomadas antes e depois da atividade sexual (PrEP sob demanda) ou uma injeção a cada dois meses.

As mulheres trans poderão escolher entre injeções ou pílulas diárias, uma vez que a Organização Mundial da Saúde não recomenda a PrEP sob demanda devido a possíveis interações medicamentosas com alguns hormônios. As injeções de cabotegravir a cada dois meses são uma opção importante para as pessoas que acham difícil tomar uma pílula todos os dias.

O estudo adicional ‘HPTN 084’ está em andamento para estabelecer a eficácia do medicamento injetável de longa duração em mulheres cis. Mais de 3.000 mulheres sexualmente ativas em sete países africanos se inscreveram para o estudo. Os resultados deste estudo são esperados para novembro deste ano.

  • Vino é arquiteto, DJ, VJ, Produtor de Eventos e redator colaborador de conteúdos sobre diversidade LGBTI+ do portal Pheeno.com.br

Supremo Tribunal Federal derruba restrições à doação de sangue por homens gays

Atualmente, bancos de sangue rejeitam a doação de homossexuais que tenham feito sexo com outros homens nos 12 meses anteriores à coleta.

Por Rosanne D’Agostino e Mateus Rodrigues
Publicado pelo portal G1, em 9 de maio de 2020

O Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu nesta sexta-feira (8), por maioria de votos, derrubar restrições à doação de sangue por homens gays. O julgamento, que terminou às 23h59 desta sexta, foi feito pelo plenário virtual da Corte. A maioria dos ministros decidiu que normas do Ministério da Saúde e da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) que limitam a doação de sangue por homens gays são inconstitucionais. Atualmente, bancos de sangue rejeitam a doação de homossexuais que tenham feito sexo com outros homens nos 12 meses anteriores à coleta. Votaram a favor da possibilidade da doação os ministros Edson Fachin, Luiz Fux, Luís Roberto Barroso, Rosa Weber, Gilmar Mendes, Dias Toffoli, Cármen Lúcia e Alexandre de Moraes.

O advogado Rafael Carneiro, um dos autores da ação, comemorou o resultado. Para ele, o Supremo reafirmou o papel de protetor dos direitos fundamentais das minorias. “Um sopro de solidariedade em tempos de pandemia”, afirmou. “Essa ação foi fruto de pesquisas e diálogos com vários segmentos da sociedade e especialistas da área médica. Percebemos que a norma se baseava em premissa discriminatória e preconceituosa de que os homossexuais são grupo de risco. Arriscada é a conduta de cada um, não a orientação sexual. Todo sangue é testado por determinação legal, não há risco para a qualidade e segurança do sistema de doação de sangue”, disse o advogado.

Autor da ação, o Partido Socialista Brasileiro (PSB) apontou “absurdo tratamento discriminatório” por parte do poder público. O partido diz que, na prática, as normas barram “permanentemente” gays com “mínima atividade sexual”.

Na última quinta (30), a Advocacia-Geral da União (AGU) pediu que o STF rejeitasse a ação – ou seja, nem chegasse a analisar o tema. A Defensoria Pública da União (DPU), em contrapartida, enviou um posicionamento pedindo agilidade no julgamento diante da pandemia de coronavírus, que reduziu o ritmo de doações e resultou na queda dos estoques de sangue no país.

Votos dos ministros

julgamento começou em 2017, em plenário físico, com o voto do ministro relator, Edson Fachin. Ele afirma que as normas geram uma “discriminação injustificada” e ofendem o princípio da dignidade da pessoa humana e da igualdade perante outros doadores. “Orientação sexual não contamina ninguém. O preconceito, sim.”

Ao apresentar o voto que retomou a análise do caso em ambiente virtual, o ministro Gilmar Mendes afirmou que é “nítida” a discriminação das normas e que há tratamento distinto entre homens que têm relações sexuais com homens e com mulheres. “Os primeiros são inaptos à doação de sangue, ainda que adotem medidas de precaução, como o uso de preservativos, enquanto os últimos têm uma presunção de habilitação, ainda que adotem comportamentos de risco, como fazer sexo anal sem proteção”, diz o ministro.

Segundo Gilmar Mendes, em meio à epidemia do coronavírus, “a anulação de impedimentos inconstitucionais tem o potencial de salvar vidas, sobretudo numa época em que as doações de sangue caíram e os hospitais enfrentam escassez crítica, à medida que as pessoas ficam em casa e as pulsações são canceladas por causa da pandemia de coronavírus”. O ministro destacou ainda, lembrando casos recentes, como a criminalização da homofobia e transfobia, o casamento gay e o uso do nome social, que foi preciso que a “Corte interviesse para garantir direitos básicos que qualquer um de nós pode exercer sem óbices”. “A orientação sexual e afetiva há de ser considerada como o exercício de uma liberdade fundamental, de livre desenvolvimento da personalidade do indivíduo, a qual deve ser protegida, livre de preconceito ou de qualquer outra forma de discriminação”, afirmou o ministro. “Esta Corte tem um dever de proteção em relação às minorias discriminadas.”

Ministros do STF votam para impedir restrições à doação de sangue por gays

 

HAMILTON FERRARI

Publicado pelo portal Poder 360, em 1º de maio de 2020

A maioria dos ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) votou para impedir restrições à doação de sangue por homens gays no país. Dos 11 ministros, 6 já votaram favoravelmente pelo fim dos critérios estabelecidos pelo Ministério da Saúde. A votação é no plenário virtual, em que os ministros votam quando quiserem dentro de determinado prazo, que será encerrado na próxima 6ª feira (8 de maio de 2020).

A ação direta de inconstitucionalidade foi protocolada a pedido do PSB (Partido Socialista Brasileiro) em 2016. Edson Fachin é o ministro relator do caso. O partido questiona a portaria 158/2016 do Ministério da Saúde (íntegra) e a resolução 34/2014 da Anvisa – Agência Nacional de Vigilância Sanitária (íntegra).

O PSB sustenta que “essa situação escancara absurdo tratamento discriminatório por parte do Poder Público em função da orientação sexual, o que ofende a dignidade dos envolvidos e retira-lhes a possibilidade de exercer a solidariedade humana com a doação sanguínea”.

O governo considera como “inaptos” por 12 meses os homens que “tiveram relações sexuais com outros homens e/ou parceiras sexuais destes”. O Ministério da Saúde justifica a restrição baseado em dados epidemiológicos que apontam o aumento de risco de infecções desse grupo – como os casos de HIV (vírus da Aids).

Movimento de aids considera crime e retrocesso a decisão de Bolsonaro de retirar Cartilha do Adolescente de circulação

Publicado pela Agência de Notícias da Aids, em 8 de março de 2019

O presidente Jair Bolsonaro afirmou, no último dia 7, em transmissão ao vivo em uma rede social, que vai reeditar a “Caderneta de saúde da adolescente”, impressa pelo Ministério da Saúde para meninas de 10 a 19 anos, para retirar informações que considera inadequadas ao público-alvo. Enquanto o novo modelo não chega, Bolsonaro sugeriu que os pais rasguem as páginas onde estão as ilustrações mais incômodas, dedicadas a explicações sobre educação sexual. Ativistas ouvidos pela Agência de Notícias da Aids consideraram a decisão um retrocesso na luta contra a aids. “É necessário ter coragem para admitir que o sexo e a sexualidade integram a vida dos adolescentes e jovens. O governo deve se apropriar do seu papel de, além de garantir serviços de prevenção e tratamento, fazer circular informações sobre sexo mais seguro para todas as pessoas, em especial as mais afetadas pela epidemia, no caso – jovens e adolescentes, disse o escritor Salvador Corrêa.

O infectologista Vinícius Borges também concordou: “Num país em que a informação já não chega de maneira homogênea a todas as populações, uma medida como essa pode ter consequências catastróficas.” Na opinião do jovem Carlos Henrique, do Coletivo Loka de Efavirenz, “deixar as e os adolescentes sem acesso à informação e sem políticas de prevenção é um verdadeiro crime, pois os deixarão muito mais vulneráveis às IST/aids e hepatites virais.” Para o ativista José Araújo Lima Filho, coordenador do Mopaids (Movimento Paulistano de Luta Contra a Aids): “o presidente a cada dia mostra sua linha ditadora. Entrar na vida privada mostra o lado mais perverso de um político. A sociedade deve criar um força de resistência para proteger os direitos individuais. A possibilidade de intervenção na educação sexual é partidarizar a educação dentro de um mundo fundamentalista.”

Leia o que dizem os ativistas a seguir:

Vanessa Campos, representante estadual da Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV/Aids Amazona e membro do Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas, vive com HIV há 29 anos:

“Era outubro de 1989, aos 17 anos, quando iniciei a minha vida sexual, na época namorava. Três meses depois observei que os gânglios aumentados no pescoço e na virilha, tive febre altíssima e um cansaço sem igual. Procurei um médico e fui examinada minuciosamente, inclusive fizeram testes de mononucleose e toxoplasmose. O diagnóstico: uma virose terrível. Depois de 2 anos o namoro terminou e uns meses depois o meu ex-namorado morreu de meningite criptocócica. Nisso, fui chamada para fazer exame de HIV e informada que ele morreu de aids! Recebi o resultado positivo no dia 04 de abril de 1992, aos 19 anos. Fui infectada aos 17 (enfim a explicação da tal virose) e só descobri aos 19. E hoje aos 46 anos refaço um pouco deste caminho e vou explicar o porquê: Numa época em que Aids era coisa de “bichas, putas e drogadxs”, lá estava eu, adolescente de 17 anos passando batida sem um teste de HIV porque eu não fazia parte do chamado “grupo de risco”. Hoje, em pleno 2019, um dia antes do Dia Internacional da Mulher, o presidente Bolsonaro vem a público exigir a retirada de imagens da Caderneta de Saúde do Adolescente a que ensinam o uso do preservativo masculino e prevenção às IST/HIV/aids. Temos o preservativo feminino e nem consta na caderneta. Já dizia Cazuza: “Eu vejo o futuro repetir o passado…” Queremos que a política de aids alcance nossos jovens. Não podemos retroceder, e esse conservadorismo doentio é mortal.”

Beto de Jesus, diretor da AHF Brasil:

“E um acinte e uma irresponsabilidade a decisão do presidente da república de recolher a caderneta de saúde que ensina os e as jovens sobre uso de preservativos, de prevenção de IST/aids, de gravidez indesejada…  mais uma vez o obscurantismo violando direitos. É inadmissível tolher processos educativos por visões moralistas pessoais e arcaicas. O cuidado para com as pessoas deve ser a primeira obrigação de um presidente e interesses ou crenças pessoais não devem estar à frente dos interesses da coletividade. A escola tem o papel de ensinar, de trazer conteúdos que fortaleçam a autonomia e cidadania dos e das jovens. Essa iniciativa além de ser um desserviço, ajudará a aumentar os índices de gravidez indesejada, de infecções de transmissão sexual e do HIV/Aids numa população já bastante vulnerável e extremamente violentada. Vemos isso com muita tristeza!

Marta McBritton, presidente do Instituto Cultural Barong:

“A idade média em que o adolescente geralmente inicia a vida sexual é entre 13 e 14 anos. A última Pesquisa de Conhecimentos, Atitudes e Práticas na População Brasileira revelou que quase 40% deles não usam preservativos nas primeiras relações sexuais. Tirar da cartilha do adolescente uma informação como essa é não saber interpretar dados. O conteúdo não é ofensivo, apenas explica como usar corretamente o preservativo, isso não incomoda. Até entendo que alguns adultos fiquem constrangidos, mas ai é uma questão que cada precisa resolver sozinho. A sexualidade faz parte da vida e ela precisa fazer parte da educação do ser humano desde sempre. Consigo entender um pai que fique perplexo com uma imagem como essa porque ele tem que aceitar a sexualidade do filho (a), mas de um educador não. Ele precisa ter instrumentos para isso. O que falta é consultar os profissionais da área no geral.”

Dr. Vinícius Borges, idealizador do Canal Doutor Maravilha:

“Num país em que a informação já não chega de maneira homogênea a todas as populações, uma medida como essa pode ter consequências catastróficas. Além de termos altos índices de gestação na adolescência, vivemos uma epidemia de sífilis, de gonorreia resistente e a prevalência de HIV na faixa etária mais jovem aumentou 700% nos últimos dez anos. Jovens que já têm menos acessibilidade à informação sobre direito reprodutivo e sexual agora contam com a censura na sua própria caderneta de saúde. É um absurdo. Absurdo.”

Maria Luiza Eluf é psicóloga social, feminista, especialista em educação sexual e reprodutiva no Brasil há 40 anos:

“O presidente sugeriu para que os pais decidissem arrancar as páginas se fossem contra a publicação, porém o que mais me chocou foi quando questionado pelo presidente o senhor ministro da Saúde respondeu que recolheria todas publicações e distribuiria livretos mais simples e baratos. Fecha os olhos para a realidade negando a olhos vistos a calamidade que se encontram os adolescentes frente a necessidade de educação sexual.”

José Araújo Lima Filho, coordenador do Mopaids (Movimento Paulistano de Luta Contra a Aids):

“O presidente a cada dia mostra sua linha ditadora. Entrar na vida privada mostra o lado mais perverso de um político . A sociedade deve criar um força de resistência para proteger os direitos individuais. A possibilidade de intervenção na educação sexual é partidarizar a educação dentro de um mundo fundamentalista.”

Rodrigo Pinheiro, presidente do Foaesp (Fórum de ONGs/Aids do Estado de São Paulo):

“Mais uma ação de retrocesso deste governo, que ao invés de investir na informação sobre prevenção, prefere omitir colocando em risco a saúde da população brasileira e consequentemente aumentando o custo do orçamento do SUS que não recebe mais incentivos há muito tempo.”

Rafael Sann, membro do Colegiado da Rede de Jovens de Minas Gerais:

“Lamentável! A caderneta da saúde do adolescente é uma forte aliada da atenção básica, através de programas como PSE, para diminuir a evasão dos adolescentes do sistema de saúde. A caderneta segue o passo a passo do crescimento do adolescente, fala de saúde bucal, passando pela nutrição e a evolução da vida sexual do adolescente. É uma forte aliada na luta contra a Aids, pois trabalha a sexualidade de forma lúdica, acompanhando o crescimento do adolescente. É uma das poucas ferramentas que temos para  trabalhar o conceito de autocuidado integral do adolescente. É mais um grande retrocesso desse governo, o que enfatiza a necessidade de união dos movimentos sociais e ONGs Aids de todo Brasil, para juntos continuarmos trabalhando de forma paralela aos retrocessos do governo.”

Salvador Campos Corrêa, escritor e ativista do Movimento de Aids e coordenador de treinamento e capacitação da ABIA (Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids):

“A resposta e o controle da epidemia de HIV/aids depende de grandes ações de prevenção e tratamento. Historicamente, o Brasil tem conseguido dialogar com a sociedade civil, academia e profissionais da saúde para a tomada de decisão na gestão de ações preventivas. Nos últimos anos percebemos que a epidemia tem afetado adolescentes e jovens no início de sua vida. Apenas o diálogo e a construção coletiva de ações – incluindo os grupos mais afetados – poderiam apontar caminhos para seguirmos inovando nas formas de prevenção. É necessário ter coragem para admitir que o sexo e a sexualidade integram a vida dos adolescentes e jovens. O governo deve se apropriar do seu papel de, além de garantir serviços de prevenção e tratamento, fazer circular informações sobre sexo mais seguro para todas as pessoas, em especial as mais afetadas pela epidemia, no caso – jovens e adolescentes. É preciso tirar o medo de prevenir do armário, e ter ousadia para estimular debates, acertando, errando e sempre aprimorando. O que será feito em substituição as informações que circulavam nessa cartilha? Como garantir que ações para sexo mais seguro alcance as pessoas mais afetadas? Como ampliar o debate sobre prevenção nas escolas? O que pode ser feito para discutir diversidade (incluindo sexuais e de gênero) no autocuidado para jovens diversos? Não podemos fechar os olhos para a realidade! Alta epidemia de IST, HIV, gravidez não planejada. Somente uma política forte de saúde sexual e saúde reprodutiva poderá garantir melhor qualidade de saúde dos adolescentes e jovens brasileiros.

Moysés Toniolo, representante do Movimento Aids no Conselho Nacional de Saúde:

“É lamentável a figura de um Presidente da República querer interferir com sua opinião pessoal sobre coisas que foram construídas através do diálogo social, participativo e cidadão. Além do ridículo de se intrometer em questões das políticas públicas relacionadas a saúde da mulher, mostrando despreparo e desconhecimento por uma Política Nacional de Saúde Integral das Mulheres, o mesmo remete seu julgamento contra o direito à autonomia que cada criança, adolescente, jovem e demais gerações de mulheres devem ter sobre o seu corpo, e ao conhecimento necessário para fazer frente aos desafios impostos por uma sociedade machista e muitas vezes misógina. Infelizmente, sob a falsa alegação de que certas informações da Cartilha seriam impróprias para adolescentes e jovens mulheres. As considerações rasas e sem embasamento técnico e científico do nosso presidente somente contribuirão para mais piadas sobre o atual governo brasileiro e sua tentativa de impor uma agenda fundamentalista religiosa sobre o exercício pleno da cidadania. Salientamos que conhecer o próprio corpo, aprender a lidar com ele com responsabilidade e com noções claras e objetivas que remete ao autocuidado promovem subsídios para uma vida mais saudável, portanto não cabe intromissões pessoais, ao que conclamamos a toda a sociedade a conhecer a cartilha referenciada, e assim inclusive as famílias – pais, mães e responsáveis poderão certamente aprender muito sobre o que ensinar aos seus filhos e filhas quanto a sexualidade e seu exercício responsável e seguro, mas sem intervencionismo atrapalhado de governantes e suas opiniões. Lembramos a todos e todas que seguramente o Relatório da 2a Conferência Nacional de Saúde da Mulher será também uma maravilhosa fonte de informações sobre como a sociedade sabe expressar suas necessidades quanto à saúde das mulheres brasileiras, e poderão servir para expandir ainda mais os direitos humanos e de cidadania feminina no Brasil, neste ano em que realizaremos a 16a Conferência Nacional de Saúde  – 8a + 8, rumo a afirmação dos direitos das mulheres em nossa sociedade como marco civilizatório que não se pode deixar retroceder. Cabe ainda salientar que não é papel de um governante mandar rasgar páginas ou desconsiderar uma caderneta inteira por questões da falta de entendimento sobre a sexualidade e direitos sexuais e reprodutivos que todos adolescentes e jovens, principalmente mulheres tem direito através da Cartilha. O custo de tal medida seria um prejuízo aos cofres públicos, apenas pela opinião unilateral de um Presidente que sequer utilizou das vias corretas para tratar do assunto, como efetivamente deveria ter consultado ao Ministério da Saúde, antes de emitir sua posição em uma fala carregada de decisão autoritária. Isto só mostra o caráter de censura deste governo cujas medidas se afastam de uma sociedade democrática e participativa.”

Regiane Garcia, sexóloga e especialista em saúde sexual do adolescente:

“Falar de métodos contraceptivos e prevenção a ISTs é falar de sexualidade. Falar de sexualidade é falar da vida. Sou profissional da saúde mental e especialista em sexualidades, portanto uma profissional técnica e não gostaria de ouvir pessoas não técnicas falando do que não entendem.”

Carlos Henrique Oliveira, do Coletivo Loka de Efavirenz e membro da Rede de Jovens São Paulo Positivo:

“O mesmo presidente que é tão ávido em publicar vídeo com conteúdo impróprio para redes sociais, com o intuito de ridicularizar e perseguir não só as pessoas do vídeo como toda a comunidade LGBTI+, esse mesmo presidente quer retirar a caderneta de prevenção e que fala sobre direitos sexuais e reprodutivos básicos. Isso é o controle total sobre a autonomia das pessoas, é o todo moralismo da extrema-direita num nível máximo. Deixar as e os adolescentes sem acesso à informação e sem políticas de prevenção é um verdadeiro crime, pois os deixarão muito mais vulneráveis às IST/aids e hepatites virais. Isso sim é transmissão intencional de infecção sexualmente transmissível, e não atos sexuais consensuais — como gosta de fazer crer a bancada que é base desse governo neo-obscurantista.”

Vando de Oliveira, da Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV Ceará:

“Nada mais surpreende vindo deste presidente que desde sua campanha já via a aids como um problema das pessoas e não do governo.  Se na campanha de carnaval viu apenas homens de 15 a 34 Anos, agora, com esse posicionamento, ele deixa claro o que já prevíamos: a prevenção não tem importância para o atual governo e isso gera mais falta de informação a população, contribuindo ainda maus para o adoecimento das pessoas. Já temos uma epidemia de aids e uma politica marcada por retrocesso diários. A decisão do Bolsonaro vai contribuir ainda mais para os altos índices de casos de HIV e óbitos por aids.”

 

Governo exonera diretora do departamento de prevenção ao HIV

O ministro da pasta já havia mostrado descontentamento com ações de prevenção e disse ser necessária adoção de estratégias que não “ofendessem” as famílias

Publicado pelo portal Exame, em 11 de janeiro de 2019, com informações do Estadão Conteúdo

Adele Benzaken médica sanitarista, foi exonerada da direção do Departamento de Vigilância, Prevenção e Controle das ISTs, do HIV e Hepatites Virais do Ministério da Saúde. (José Cruz/Agência Brasil)

Brasília — A médica sanitarista Adele Benzaken foi exonerada da direção do Departamento de Vigilância, Prevenção e Controle das ISTs, do HIV e Hepatites Virais do Ministério da Saúde.

A decisão foi tomada nesta quinta (10), em meio a uma série de manifestações pela permanência da médica no cargo e uma semana depois da polêmica em torno da cartilha, lançada há seis meses para homens trans. Assume a diretoria seu adjunto, Gerson Pereira. O Ministério da Saúde atribuiu a mudança a uma renovação da equipe e informou que Adele foi convidada para continuar a contribuir para formulação de políticas para o setor.

Adele assumiu a direção do departamento em 2016. Em sua gestão, o país começou a adotar a profilaxia pré-exposição (PrEP), que prevê o uso de antirretrovirais não como tratamento do HIV, mas para prevenir a infecção. Com amplo apoio de organizações não governamentais, a permanência de Adele era considerada como uma garantia da manutenção de ações modernas de prevenção, de combate ao preconceito e de promoção dos direitos humanos.

Os sinais de que a gestão de Adele estavam sob risco começaram ainda antes da posse do presidente Jair Bolsonaro e do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. Antes de assumir a pasta, Mandetta mostrou descontentamento com as ações de prevenção e disse ser necessária a adoção de estratégias que não “ofendessem” as famílias.

Cientistas do Instituto Pasteur obtiveram sucesso em destruir células infectadas pelo HIV

Publicado pela Agência de Notícias da AIDS, em 23 de dezembro de 2018

A cura para a aids pode finalmente estar ao alcance, uma vez que os cientistas destruíram com sucesso as células infectadas com o vírus, o que constitui um potencial avanço na luta contra o HIV/aids. Pesquisadores do Instituto Pasteur de Paris afirmam ter destruído células infectadas com o vírus, que é tipicamente tratado com drogas anti-retrovirais. As drogas são incapazes de remover o vírus do corpo, mas o jornal científico Cell Metabolism, publicado em 20 de dezembro, anunciou que os cientistas descobriram uma maneira de eliminar as células infectadas do “reservatório”.

Em um comunicado à imprensa disponibilizado para o site EurekaAlert, um porta-voz do Instituto Pasteur disse: “o tratamento antirretroviral usado hoje é projetado para bloquear a infecção pelo HIV, mas não é capaz de eliminar o vírus do corpo. O vírus permanece em reservatórios – as células do sistema imunológico de linfócitos T CD4, os principais alvos do HIV. Graças aos inibidores da atividade metabólica, os pesquisadores conseguiram destruir essas células infectadas, ou ‘reservatórios , ex vivo.’”

Ele conclui afirmando que a pesquisa abre a possibilidade de novos caminhos para a remissão, eliminando as células do “reservatório”. O próximo passo na pesquisa será avaliar o potencial de inibidores metabólicos “in vivo” – testados em organismos vivos.

Deve-se ressaltar que o HIV atinge células com alta atividade metabólica e “seqüestra” sua energia para se multiplicar. Em teoria, se a carga viral for baixa o suficiente, destruir a célula onde o HIV se esconde e extrair energia pode impedí-la de se espalhar pelo corpo e, talvez, erradicá-la completamente, espera-se.

Fonte: 360 News

Jornalista divulga que tem HIV para 200 mil seguidores, supera preconceito e roda o país dando palestras

Publicado pelo portal TNH1, em 10 de dezembro de 2018

Foto: Agência do Rádio Mais

Uma história de como um exame pode transformar uma vida. Francisco Garcia, mais conhecido como “tio Francisco”, de 27 anos, está entre as 866 mil pessoas que vivem com HIV no Brasil. O jornalista, da cidade de Balsas, interior do Maranhão, descobriu a sorologia em julho deste ano. Febre, manchas na pele e perda de peso repentina, foram alguns sintomas que fizeram o jovem realizar uma bateria de exames. O resultado do diagnóstico de HIV positivo veio acompanhado do medo e da insegurança, já que para ele, o vírus e a aids estavam imediatamente relacionadas com a morte.

“Estava sentindo alguns sintomas como febre, perda de peso, dor de garganta, machas na pele, foi quando eu decidi fazer uma bateria de exames. E, dentro dos exames, estava o de HIV. Receber o diagnóstico não é fácil, porque é praticamente uma sentença de morte, já que o que eu ouvia sobre HIV/aids é que matava. Eu tive meu momento de luto e de desespero, mas aí eu decidi estudar sobre o assunto, foi quando, por meio do conhecimento, eu perdi o medo de morrer, e não só isso eu decidi transformar o meu diagnóstico em ação social.”

Francisco fez do limão uma limonada. O jornalista apresentava um programa em uma emissora de televisão do Maranhão e estava no começo da vida como digital influencer, quando, então, decidiu divulgar o diagnóstico para os mais de 200 mil seguidores nas redes sociais. O resultado foi surpreendente, e em menos de um mês, a vida de Francisco mudou, literalmente, de rota. Pediu demissão do emprego, adesivou o carro e escolheu viajar pelas estradas do Brasil, para palestrar sobre superação, prevenção e preconceito do HIV/aids.

“Com o momento de desespero, eu percebi que, com a informação, esse medo tinha passado, e aí eu pensei da seguinte forma: se eu conseguir levar, com as informações que eu tive, mais conhecimento para mais pessoas, eu vou conseguir fazer com que o preconceito diminua, porque descruzar os braços e ser a mudança nesse mundo que a gente quer que tanto mude faz a diferença, e esse fazer a diferença me motivou a pegar meu carro e sair falando com as pessoas sobre prevenção, preconceito e como consegui superar tudo isso.”

O projeto conhecido como: “Tio Francisco Pela Estrada” já passou por mais de 60 cidades brasileiras, entre escolas, igrejas e presídios. Todo o custo é financiado por parceiros que decidem contratar Francisco para palestras e eventos sobre HIV/aids. Ele, que é formado em comunicação, há cinco meses transformou a experiência pessoal em um novo volante para trilhar novos caminhos.

“Muitas pessoas me procuram para dizer que iam cometer suicídio, mas que graças à minha história, elas tiveram forças de vontade para continuar. Outras pessoas que assistiram a palestras tiveram coragem para fazer o exame, e deu positivo, mas decidiram se cuidar. Diariamente recebo relatos de pessoas que dizem que, depois que conheceram a minha história, tentam superar o vírus e seguir adiante com uma autoestima e aceitação bem melhor.”

Francisco ainda tem muito chão para percorrer pelas estradas do Brasil a fim de alertar sobre a importância da prevenção. Os projetos para 2019 vão sair do papel para iniciarem uma nova viagem. E o destino final, que para ele é um mundo sem preconceito, ainda está bem longe de chegar. Mas, como em toda estrada, o jornalista para em um pequeno posto de gasolina para abastecer não só o carro, como também o amor que move o motor do seu coração.

“É muito importante que as pessoas percam esse medo de fazer o exame, para viver bem, de forma melhor e se prevenir. E a mensagem que eu deixo é isso: a gente precisa de mais amor, menos julgamento e mais prevenção.”

“Jovens não recebem informação sobre HIV nem na família nem na escola”

Vice-presidente da Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids fala sobre a importância da conscientização dos adolescentes

Por Afonso Ribeiro
Publicado pelo portal Destak, em 26 de novembro de 2018

(Foto: Reprodução)

Nos últimos dez anos, foram notificados pelo Ministério da Saúde mais de 136.945 casos de infecção pelo HIV no Brasil. Mais da metade ocorreram em pessoas na faixa etária de 20 a 34 anos. Nos últimos cinco anos, o Brasil registrou média anual de 41,1 mil casos de Aids.

Para Veriano Terto Jr., vice-presidente da ABIA (Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids), o aumento do número de jovens portadores de HIV ocorre porque eles não recebem informações adequadas das instituições de ensino e muito menos da família.

“Os adolescentes não escutam falar sobre camisinha nas escolas. Uma família conservadora também não fala. O jovem acaba recebendo conteúdo na internet de forma fragmentada. Um dos melhores medicamentos contra o HIV é a informação e, infelizmente, a informação tem sido pouca” afirma o psicólogo.

Terto ainda critica a falta de políticas públicas, em nível estadual e municipal destinadas a essa parte da população. “São, no máximo, campanhas, não tem um programa efetivo, capilarizado, que chegue efetivamente nos jovens”, completa Veriano, que diz temer um recrudescimento da prevenção com um potencial avanço do projeto “escola sem partido” no Congresso.

Sobre o jovem que se descobre portador do HIV, o psicólogo afirma que não é preciso achar que é o fim do mundo. “É possível viver com o vírus. A primeira coisa é procurar um médico de sua confiança e buscar ONGs, que podem auxiliar nessa busca. É importante estar bem informado e junto com as pessoas. É mais fácil enfrentar com solidariedade do que com isolamento e medo”.

Curso para jovens pretende acelerar resposta à AIDS e sífilis em Salvador

O projeto Viva Melhor Sabendo Jovem Salvador realizará uma nova ação com o objetivo de acelerar e fortalecer a resposta ao HIV/AIDS e sífilis na capital baiana, principalmente, entre adolescentes e jovens. Com esse fim, capacitará 30 jovens para a testagem de fluído oral por meio do Curso Aids, Gênero e Sexualidade, Direitos Humanos e Manejo do Teste de Fluido Oral.

Com duração de 40 horas, o curso estará dividido em três módulos: básico (16h), específico (16h) e prático (8h). Ele será ministrado nos dias 24 e 25 de agosto de 2018, em local ainda a definir, e também entre os dias 28 e 31 do mesmo mês, no turno vespertino, na sede do Grupo de Apoio à Prevenção à Aids da Bahia – GAPA Bahia, que fica na Rua Ribeiro dos Santos (Rua do Passo), n. 45-47, Carmo, no Pelourinho. As inscrições estão sendo feitas pela internet, com preenchimento de formulário eletrônico disponível no link: https://goo.gl/forms/Akd5vSV7HM4JmGhg1. Mais informações pelo e-mail vivamelhorsabendojovemssa@gmail.com.

O projeto Viva Melhor Sabendo Jovem Salvador é uma realização do GAPA Bahia, Secretária Municipal de Saúde, Unicef e UNAIDS.

Estudo sobre PrEP injetável de longa duração chega a São Paulo

Publicado pela Agência de Notícias da Aids, em 10 de agosto de 2018

Na  segunda semana de agosto, iniciou-se um novo estudo de Profilaxia Pré-Exposição ao HIV (PrEP), na Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) em São Paulo, que utiliza a nova medicação injetável de longa duração chamada Cabotegravir. Uma injeção intramuscular da droga, aplicada a cada 2 meses, é capaz de manter níveis adequados do medicamento no sangue dos seus usuários e pretende revolucionar o mundo da prevenção do HIV.

Mas porque seria necessária uma PrEP injetável num mundo em que já existe a PrEP com comprimidos tomados diariamente, com excelente proteção contra o HIV e já distribuída gratuitamente pelo SUS? Porque as pessoas desse mundo não são todas iguais e, portanto, adaptam-se de maneira diferente às estratégias disponíveis de prevenção.

Quanto mais opções de prevenção contra o HIV existirem, maiores as chances de se contemplar, com alguma delas, todos os diferentes contextos de vida. Nesse sentido, além do Cabotegravir, outras drogas estão sendo estudadas ao redor do mundo como candidatas a PrEP, com diferentes intervalos e vias de administração.

Uma vez que o sucesso da PrEP na prevenção do HIV depende de uma boa adesão ao medicamento utilizado, diversos trabalhos já demonstraram que alguns subgrupos, como os indivíduos mais jovens e as travestis/mulheres trans, por conta de uma pior adesão aos comprimidos da PrEP, atingem menores níveis de proteção ao HIV. Para eles e outros que tenham dificuldades em tomar comprimidos diariamente, a PrEP injetável de longa duração pode ser uma solução promissora de prevenção.

O novo estudo, chamado HPTN083, está sendo realizado simultaneamente em 7 países – Brasil, Estados Unidos, Argentina, Peru, África do Sul, Tailândia e Vietnã – e pretende demonstrar que as aplicações do Cabotegravir injetável funcionam tão bem para prevenção do HIV quanto o uso diário dos comprimidos já disponíveis da PrEP.

No Brasil, são participantes, além da FMUSP, Centro de Referência e Treinamento DST/Aids (‘Santa Cruz’), também em São Paulo, o Instituto de Pesquisa Clínica Evandro Chagas (IPEC) da Fiocruz, no Rio de Janeiro, e o Hospital Nossa Senhora da Conceição, em Porto Alegre.

Todos os participantes incluídos nesse projeto de pesquisa receberão injeções e comprimidos. Depois de um sorteio eletrônico no momento da entrada no estudo, metade deles passará a receber injeções de Cabotegravir e comprimidos de placebo, enquanto a outra metade vai receber injeções de placebo e comprimidos da PrEP já consagrada e disponível no SUS. Ninguém receberá apenas placebo e ninguém saberá em que grupo cada indivíduo está até o final do estudo.

É assim que são feitas as pesquisas clínicas de PrEP. Sempre se baseando em resultados animadores de estudos realizados anteriormente com a droga, seja em macacos ou em grupos menores de pessoas.

Além das injeções e dos comprimidos, todos os participantes receberão o pacote tradicional de prevenção, com aconselhamento sobre vulnerabilidade, preservativos, lubrificantes, vacinas e rastreamento para as outras infecções sexualmente transmissíveis (ISTs).

São público alvo desse estudo homens gays/bissexuais e travestis/mulheres trans maiores de 18 anos de idade, que não vivem com HIV, mas que se encontram em risco significativo de se infectarem. São escolhidos esses grupos por conta de suas maiores vulnerabilidades à infecção no Brasil.

As pessoas de São Paulo interessadas devem entrar em contato com o Centro de Pesquisa Clínica da FMUSP por meio do agendamento.estudo@gmail.com ou da página do seu Programa de Educação Comunitária para agendar uma consulta de triagem e tirar todas as suas dúvidas. Em breve o CRT Santa Cruz estará também agendando pelo pesquisa@crt.saude.sp.gov.br. No Rio de Janeiro, isso pode ser feito através do hptn083rio@gmail.com e, em Porto Alegre, do poapreprs@gmail.com.

Fonte: UOL Viva Bem

Aids, é preciso assumir o fracasso da prevenção no Brasil

Publicado por Vilma Reis, no portal da Associação Brasileira de Saúde Coletiva – ABRASCO, em 25 de junho de 2018

Diante dos números alarmantes sobre a prevalência de HIV no Brasil, a Abrasco conversou com Richard Parker, Professor Visitante Senior do Instituto de Estudos de Saúde Coletiva da Universidade Federal do Rio de Janeiro – IESC/UFRJ além de Diretor-Presidente da Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS – ABIA e Professor Titular Emérito da norte-americana Columbia University. Parker tem sido uma referência emblemática para o pensamento sobre sexualidade e sobre o impacto causado pelo HIV/AIDS no Brasil nos últimos anos. O professor pontua na entrevista a necessidade de se construir uma “pedagogia da prevenção” capaz de reconhecer a legitimidade de todas as expressões da sexualidade e do gênero, e capaz de respeitar as realidades mais diversas, garantindo a todos o acesso à informação e aos insumos necessários para as pessoas construírem a prevenção nas suas vidas.

Confira a entrevista:

Abrasco – Diante desta grave situação da epidemia no país, pode dar sua opinião sobre a falência total da prevenção dos mais vulneráveis?

Richard Parker – Diante dos resultados de pesquisas recentes – como por exemplo, os estudos de soro-prevalência entre gays e outros homens que fazem sexo com homens – acho que é preciso assumir o fracasso da prevenção no Brasil, pelo menos durante a última década. Nos anos 1990 e no começo dos anos 2000, construímos uma resposta à epidemia do HIV com base nos princípios éticos e políticos dos direitos humanos. Neste período, o Brasil demonstrou liderança mundial no enfrentamento e controle da epidemia. Já no final dos anos 2000 (e ao longo desta década) o Brasil começou a importar um modelo de ‘prevenção biomédico’, trocando a defesa dos direitos humanos e o enfrentamento das vulnerabilidades estruturais para estratégias rasas como ‘testar e tratar’ e ‘tratamento como prevenção’.

Pior ainda: diversos governos se entregaram às pressões de forças conservadoras – como, por exemplo, a bancada religiosa no Congresso Nacional que pressionou, com êxito, pela censura às campanhas de prevenção para gays, pessoas trans, e prostitutas, entre outros grupos vulneráveis. Na época, alertamos para o grande perigo que a re-biomedicalização da resposta à epidemia e o retorno do estigma e da discriminação descarada das forças conservadoras representativas teriam para o enfrentamento da epidemia. Infelizmente, as pesquisas recentes sobre soro-prevalência dos grupos mais vulneráveis confirmaram a nossa previsão com dados empíricos.

A epidemia da infecção pelo HIV continua a transitar pelas desigualdades e exclusões sociais, afetando as populações mais marginalizadas e excluídas. A única maneira de mudar isto é fazer o enfrentamento real da marginalização e da exclusão. Sem isto, não vamos reconstruir uma resposta bem-sucedida em face da epidemia nas comunidades e populações mais vulneráveis.

Abrasco – A prevalência de HIV entre homossexuais no Brasil saltou assustadoramente para 18,4%: a cada cinco cidadãos gays, praticamente um está infectado. Como “gritar” para a sociedade estes números?

Richard Parker – É fundamental que todos os setores da sociedade sejam remobilizados para enfrentar a epidemia de todas as maneiras possíveis. É preciso reafirmar a importância fundamental do acesso ao tratamento do HIV, área em que o Brasil tem sido pioneiro. Mas também temos que reconhecer que precisamos não somente do acesso ao tratamento, mas também do acesso à prevenção. O acesso ao tratamento tem que ser garantido como um direito, mas o acesso à prevenção deve ser igualmente compreendido como um direito – e um direito de todos, não somente de alguns grupos privilegiados.

É preciso construir uma “pedagogia da prevenção” (no sentido de “pedagogia” que sempre foi defendido na educação popular) capaz de reconhecer a legitimidade de todas as expressões da sexualidade e do gênero, e capaz de respeitar as realidades mais diversas, garantindo a todos o acesso à informação e aos insumos necessários para as pessoas construírem a prevenção nas suas vidas.

A remobilização de todos os setores da saúde coletiva no Brasil, que sempre pautou o enfrentamento da desigualdade e da opressão, será da maior importância. É preciso “gritar” na mídia, nas nossas comunidades, nos serviços de saúde e nos corredores e gabinetes do poder público. Temos que convencer todos estes setores que só vamos conseguir enfrentar a epidemia se assumirmos a luta política e a defesa dos direitos humanos como ponto de partida para a prevenção.

Abrasco – Na sua opinião, temos no Brasil governantes com homofobia e negligência, diante desta nova onda da Aids?

Richard Parker – Infelizmente, a homofobia e a negligência de muitos governantes foram responsáveis pelo fracasso do enfrentamento da epidemia nos setores mais vulneráveis. Tem sido ignorada a relevância do contexto social e político no enfrentamento à epidemia de Aids. Nos períodos de redemocratização e de renovação do espírito da cidadania, foi mais fácil avançar nestas questões. No atual momento, contudo, em razão do crescimento do conservadorismo, temos assistido o ressurgimento de estigma, da discriminação e do preconceito de todos os tipos. Vamos ter que redobrar nossos esforços para enfrentar estas raízes sociais e políticas da epidemia. Existem armas importantes biomédicas e técnicas que podem nos ajudar neste enfrentamento – como, por exemplo, PEP ou PrEP, respectivamente, as profilaxias pós e pré-exposição. Mas estas armas técnicas, sozinhas, não resolvem nada. Será somente quando conseguirmos enfrentar as barreiras e as desigualdades sociais e defender a saúde e a prevenção para todos como um direito de todos que teremos condições de reconstruir uma resposta bem-sucedida para a Aids.

Ministério da Saúde autoriza habilitação do ambulatório transexualizador no Hupes

Publicado por Jorge Gauthier, no portal Me Salte, em 6 de julho de 2018

Mulheres e homens transexuais da Bahia, além de travestis, têm um motivo para comemorar. Enfim, depois de mais de dois anos de espera, o Ministério da Saúde publicou nesta sexta-feira (06) a habilitação do ambulatório transexualizador no Hospital Universitário Professor Edgar Santos (Hupes), na Bahia. Desde novembro de 2016 a habilitação estava sendo analisada pelo Ministério.

A portaria, assinada pelo ministro da saúde, Gilberto Occhi, indica que a unidade receberá repasses mensais para manutenção. “O Fundo Nacional de Saúde adotará as medidas necessárias para a transferência mensal dos recursos financeiros ao Fundo Estadual de Saúde da Bahia, em conformidade com a produção de serviços aprovada e registrada pelo gestor na Base de Dados Nacional dos Sistemas de Informações do SUS, mediante processo autorizativo encaminhado pela Secretaria de Atenção à Saúde”, diz a portaria.

Responsável pela implantação do ambulatório Transexualizador do HUPES – UFBA, a médica endrocinologista Luciana Barros Oliveira informou ao Me Salte que ainda não é possível dizer a data de inauguração pois agora precisam ser feitos os ajustes. “Agora vou reorganizar o grupo de atendimento e ver os detalhes práticos com a direção do hospital”, destacou.

Apesar de ter sido solicitada a habilitação para a parte ambulatorial e cirurgica o ministério só autoriza nessa portaria publicada hoje a habilitação ambulatorial que permite por exemplo a realização das terapias hormonais. “Já é uma conquista, mas precisamos da hospitalar para podermos fazer cirurgias”, afirma Luciana.

Antônio Purificação, responsável pela área técnica da Secretaria de Saúde do Estado (Sesab), informou que para que comece o atendimento depende agora só do Hupes. “Vamos estudar as pendências da habilitação hospitalar para a parte cirúrgica e buscar a próxima publicação”, informou.

O Me Salte fez contato com o Ministério da Saúde para saber o motivo de só ter sido liberada a habilitação parcial, mas não houve retorno até o momento da publicação dessa reportagem.

Em abril de 2017, por exemplo, faltava apenas um documento para liberar a habilitação. Na época o documento que faltava segundo a Sesab era o alvará sanitário.

De acordo com a Sesab, quando funcionar, é provável que o ambulatório trabalhe com uma lista única de marcação para permitir que a população dos 417 municípios possa ter acesso ao serviço. Essa foi uma das exigências apontadas pelo MS depois que foi feito o pedido de habilitação o que também atrasou o prazo de inauguração que deveria ter sido em janeiro de 2017.

Jorge Gauthier 
Jornalista, adora Beyoncé e não abre mão de uma boa fechação! mesalte@redebahahia.com.br