A ameaça teocrática no Brasil

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Calma! Coloquemos essa “ameaça teocrática” exatamente assim: entre aspas. Neste vídeo, eu não trato de uma iminente ameaça de mudança do regime político no País. Eu abordo o crescimento vertiginoso, há algumas décadas, de correntes religiosas e seus projetos de poder econômico e político, da sua ideologia (esta sim) teocrática e de suas práticas retrógradas e anacrônicas.

Ao apresentar os perfis (criminosos inclusive) de alguns desses religiosos/políticos (ou políticos/religiosos, como queiram), demonstro a mais absoluta contradição entre a filosofia cristã do amor ao próximo e o que realmente move a vida dessas pessoas: cobiça por poder e fortuna, infinitamente pior que as dos mercadores citados no Novo Testamento e que causaram a revolta de Jesus.

Quanto ao nosso regime político, não há qualquer ameaça à vista. Nossa Constituição Federal prevê em seu artigo 1º: “a República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito”. Ou seja, para se instituir um novo regime político no país, qualquer que seja, será necessário convocar uma nova Assembleia Nacional Constituinte, redigir uma nova Constituição e promulgá-la. Eu nem preciso dizer o quanto isso será quase impossível.

Só não digo que é totalmente impossível por que minha confiança nos parlamentares do Congresso é quase zero. Lembremos que, em novembro de 2019, quando o STF enfim reconheceu que a prisão de Lula era inconstitucional, à luz do artigo 5º, LVII (“ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória”), houve uma movimentação no Congresso por uma nova assembleia constituinte, visto que o artigo 5º é cláusula pétrea e não pode ser alterado. Ou seja, para manter Lula preso, seria necessária uma nova Constituição. Foi o que o Congresso atual tentou fazer, mas deu com os burros n’água.

Mas ainda colhendo os frutos do espírito natalino, de confraternização universal e amor ao próximo, tratarei de algo positivo, alegre, pra cima: a prisão Marcelo Crivella, prefeito do Rio de Janeiro! Sim, ele foi preso no dia 22 de dezembro de 2020, sob acusação de chefiar o “QG da Propina” na Prefeitura, tendo sido levado para a Delegacia Fazendária, na CIDPOL (Cidade da Polícia), em Jacarezinho. Veja a notícia no portal da Agência Brasil.

Porém, sabemos que Crivella é rico (muito rico) e tem grana suficiente para bancar excelentes advogados que conhecem as leis em detalhes e suas brechas. Como resultado, Crivella voltou para casa no dia seguinte à prisão, para cumprir pena domiciliar, com uso de tornozeleira eletrônica. Nem preciso dizer o quanto essa opção deve ser mais cômoda se considerarmos sua residência. Confira a notícia no portal O Dia.

Cri Cri Velinha, como passarei a tratá-lo a partir de agora, de forma simpática e respeitosa, foi preso nove dias antes de deixar o cargo de prefeito do Rio de Janeiro e passar o bastão para Eduardo Paes. Porém, descaradamente, ele tentou a reeleição, tendo chegado ao 2º turno, mas sendo derrotado felizmente. Imaginem se o plano de Cri Cri tivesse dado certo.

Além da acusação de chefiar uma quadrilha, Cri Cri Velinha é, no momento e por mais alguns dias apenas, prefeito afastado do Rio de Janeiro. Afastado, mas ainda prefeito. Ele é filiado ao partido Republicanos, foi senador e é bispo evangélico. Ele é a Universal! Por tudo isso, Cri Cri Velinha é um exemplo bem acabado do quanto o pensamento teocrático na política é socialmente nocivo, porque não tem nada de cristão, dessa história de amor ao próximo, de desapego. Tudo isso é falácia, hipocrisia. Eles querem é poder a qualquer custo, às custas do jogo sugo e até do crime. Estou fazendo pré-julgamentos? Bom, não fui eu que dei ordem de prisão a Cri Cri Velinha.

Cri Cri não está só e há outros inúmeros exemplos de religiosos que misturam descaradamente política e corrupção. Por exemplo, a deputada federal Flordelis dos Santos de Souza (PSD-RJ) é acusada de ser mandante do assassinato do próprio marido, o pastor Anderson do Carmo, morto com mais de 30 tiros, em 16 de junho de 2019. Ela é ré no processo junto com outros sete filhos e um neto, entre outros envolvidos. De todos esses, apenas ela não está presa, por ter imunidade parlamentar, mas está sendo monitorada por tornozeleira eletrônica. Por uma curiosa ironia, a igreja comandada pela deputada se chama Ministério Flordelis – Cidade do Fogo. Sim, do Fogo. Da arma de fogo que matou o marido.

Outro exemplo é o pastor Everaldo Pereira, da Assembleia de Deus, que também tem um currículo invejável. Ele foi candidato à presidência em 2014, pelo Partido Social Cristão – PSC e é apontado como líder uma organização criminosa. No dia 28 de agosto de 2020, ele e seus dois filhos foram presos na operação que apura corrupção na área da saúde no Estado do Rio de Janeiro e que afastou Wilson Witzel do governo. Leia a notícia no portal G1.

É, no mínimo, curioso observar como esses três exemplos demonstram as relações intrínsecas, imorais e nocivas entre religião, política e corrupção. Com isso, quero destacar os alguns tipos de religiosos que conquistam a carreira política no Brasil. Mas eu não devo generalizar. Eu desconheço a atuação de todos os políticos religiosos no país: no Congresso, nas assembleias legislativas, nas câmaras municipais, no comando de prefeituras e governos de estado, bem como em cargos públicos por indicação política. Deve haver pessoas com caráter, porém não se destacam tanto quanto os canalhas, cujas canalhices ganham visibilidade na mídia.

Apesar disso, os exemplos de canalhice de religiosos na política são muitos. Porém, eu quero tratar do ovo da serpente: o segmento evangélico neopentecostal, um câncer social que já deveria ter sido extirpado, mas que mantém seu projeto de poder econômico e político há décadas. É bom lembrar que, por exemplo, a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), comandada por Edir Macedo foi fundada em 9 de julho de 1977. A IURD é o exemplo mais emblemático desse projeto de poder, que gera inclusive disputas interna, cujas dissidências fizeram surgir a Igreja Mundial do Poder de Deus, comandada por Valdomiro Queiroz, que dispensa comentários, e a Igreja Internacional da Graça de Deus, comandada por R. R. Soares, cuja biografia e patrimônio acumulado merecem uma boa pesquisa.

Voltando à Universal, considero o exemplo mais emblemático de projeto de poder econômico e político da pior espécie em razão dos muitos exemplos dados ao longo da sua história, mas especialmente agora, após a perda do controle brasileiro sobre as igrejas da IURD, em Angola, por decisão do governo local, que desmascarou a ambição desmedida de Edir Macedo naquele país. Na verdade, ele apenas desmascarou o óbvio. O braço angolano da IURD foi acusado de crimes como lavagem de dinheiro, evasão de divisas e expatriação ilícita de capitais, racismo, discriminação, abuso de autoridade, entre outras denúncias. Acesse as informações no portal The Intercept.

E, como era de se esperar, Edir Macedo teve o apoio incondicional do presidente bosta n’água. Nós, no Brasil, vivemos numa democracia e não numa teocracia. Porém, isso não anula o fato de que, em inúmeros aspectos, assistimos à ascensão ao poder de correntes religiosas que produzem retrocessos e representam forte ameaça às instituições democráticas e aos direitos individuais e coletivos. Tentativas nesse sentido têm sido freadas no âmbito do Judiciário, especialmente no STF.

Em outro vídeo por mim produzido – Necropolíticas de um psicopata – eu denuncio a imensurável ameaça que significa a revogação de portarias do Ministério da Saúde e o encerramento de programas e políticas de saúde mental no SUS. Repito: tal iniciativa, se consumada, abrirá espaço para a ocupação dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPs) por instituições religiosas de caráter duvidoso e práticas igualmente duvidosas. Isso também significará aumento de rebanho dessas instituições, bem como de dízimo, de poder econômico, de poder político e de dominação.

Já elegemos uma besta quadrada como presidente. Daí a elegermos uma besta fera evangélica neopentecostal pode ser apenas um passo, visto que nosso eleitorado pode continuar a seguir o berrante em 2022.

David Miranda, do PSol, pede proteção à Câmara após ameaças

“Recebi recados na internet de que vou ser a próxima Marielle. O requerimento que a gente protocolou é de uma ameaça de que ‘viado é mais fácil de matar'”, disse suplente de Jean Wyllys.

Marcella Fernandes
Publicado pelo portal HuffPost Brasil, em 22 de fevereiro de 2019

Suplente do deputado Jean Wyllys (PSol-RJ), que deixou o País após receber ameaças, David Miranda (PSol-RJ) denuncia ter sido sido alvo de perseguições. Na semana em que o STF (Supremo Tribunal Federal) discute a criminalização da homofobia, o parlamentar, que é gay, pediu à Câmara dos Deputados medidas para reforçar sua segurança.

“A gente protocolou hoje [terça-feira, 19] um requerimento na Câmara sobre essa ação. Precisa de uma seriedade sobre isso. Até porque falaram sobre Jean que não tinha [ameaça], que não viam”, contou em entrevista ao HuffPost Brasil. Ele não chegou a registrar boletim de ocorrência em delegacia da capital, mas já marcou uma reunião com o chefe do Departamento de Polícia Legislativa.

Primeiro vereador autodeclarado gay na História do Rio, negro e nascido na favela do Jacarezinho, em 1985, Miranda aumentou a própria segurança desde a execução da vereadora Marielle Franco (PSol-RJ), em março de 2018. “Recebi recados na internet de que vou ser a próxima Marielle. O requerimento que a gente protocolou hoje é de uma ameaça dizendo que ‘viado é mais fácil de matar’, chamando a gente de pedófilo”, disse.

Na avaliação do deputado, o STF deveria igualar a homofobia ao crime de racismo. O julgamento no Supremo foi interrompido nesta quinta-feira (21), e o placar até o momento é de 4 votos favoráveis a essa equiparação. Miranda, no entanto, defende uma solução mais ampla: a criação de uma proposta nos moldes da Lei Maria da Penha, para incluir ações de ressocialização e prevenção.

O PSol também pretende acionar entidades internacionais, como ocorreu no processo da legislação sobre violência doméstica. A Lei Maria da Penha foi criada após a Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA (Organização dos Estados Americanos) responsabilizar o Estado brasileiro por omissão, em 2011.

Defensor dos direitos LGBT, David Miranda acredita no diálogo com religiosos. “Não acho que vai haver uma censura para as pessoas falarem que ‘LGBTs não são de Deus’. Essa é uma crença delas. Agora, destilar ódio, falando que LGBTs precisam morrer, isso sim se configura como LGBTfobia”, afirmou. O deputado, por outro lado, não tem intenção de se aproximar da pastora e ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, neste momento.

Integrante da oposição ao governo de Jair Bolsonaro, o deputado em primeiro mandato tem se surpreendido com o cotidiano de Brasília. “Eu estou realmente chocado de como isso daqui é, às vezes, um show de horrores, uma histeria em massa. Começa uma pessoa a falar uma asneira e vão outros falando a mesma linha de asneira, que não faz sentido nenhum”, afirmou.

Leia os principais trechos da entrevista.

“O requerimento que a gente protocolou hoje é de uma ameaça dizendo que viado é mais fácil de matar, chamando a gente de pedófilo”, disse David Miranda. (Reprodução/Facebook)

HuffPost Brasil: Qual a expectativa sobre o julgamento da criminalização da homofobia no STF?

David Miranda: A expectativa está positiva. A gente conversou com o presidente do STF, ministro Dias Toffoli, e conseguiu justificar para ele que isso pode ser feito no STF. A criminalização pelo Supremo abre precedentes para o tribunal fazer um tipo de coisa que não é de feitio do STF, mas ao mesmo tempo a Câmara vive tempos sombrios… A equiparação ao crime de racismo não seria a criação de uma punição. Seria [a alteração] já de uma legislação existente.

O voto do relator foi muito bom. A gente viu que o ministro Celso de Mello fez, apesar da ressalva [ao STF criar um tipo penal]. Mas a gente tem que ter os Três Poderes orquestrados. A gente teve o casamento igualitário. Foi o primeiro caso em que um Supremo Tribunal no mundo garantiu esse direito para a população. Sou casado por causa disso.

Precisamos ter um método para tipificar esse tipo de crime e ter parâmetros oficiais. Hoje é o terceiro setor que está fazendo a coleta de dados [da violência contra LGBT]. Com dados reais do que está acontecendo nas delegacias, a gente consegue fazer a implementação de políticas públicas melhores. A gente vai saber quais estados e municípios que estão mais matando. É de extrema importância essa criminalização agora, embora não seja o ideal.

Qual a solução ideal?

O projeto ideal, que contempla o PSol e toda a gama de pessoas que trabalham com isso, é que não seja completamente punitivista, mas de ressocialização da pessoas que cometessem alguma conduta de LGBTfobia. Seria algo nos moldes do que é hoje a Lei Maria da Penha, com várias nuances e medidas diferentes. Se o STF mandar de volta para cá [Congresso], o caminho que vai ser adotado é esse. Vou fazer a construção desse projeto com o terceiro setor, com a sociedade civil.

E também vamos fazer o mesmo caminho da Lei Maria da Penha. Levar à OEA e à ONU (Organização das Nações Unidas), pedindo para esses órgãos interferirem junto ao governo brasileiro. Esses órgãos podem adotar sanções contra o Brasil e isso pode causar problemas de importação e exportação, prejudicando o crescimento econômico que o governo quer e forçando a Câmara a fazer essa votação

A Câmara tira sua responsabilidade ao falar que votou o projeto de lei 122 (que criminaliza a homofobia e foi aprovado em 2006), mas esse projeto não contempla todo o movimento. Foi para o Senado e morreu lá.

Esse projeto de lei de combate à LGBTfobia nos moldes da Lei Maria da Penha incluiria a prevenção?

Isso. A gente vive num País onde botar mais pessoas na cadeia não vai funcionar. A gente precisa de medidas educativas e de ressocialização dessas pessoas que podem cometer LGBTfobia por ignorância ou costumes. Passar esse projeto na Câmara seria o ideal. Mas, claro, se o STF criminalizar, seria uma grande vitória.

Esse projeto mais amplo seria uma resposta ao debate, entre os militantes, de se criminalizar seria a melhor forma de lutar contra esse tipo de violência?

Exato. Agora teve o caso de uma jovem travesti que teve o coração arrancado. Normalmente a população trans, quando é assassinada, seus rostos são desfigurados, quebram pernas. Isso é um crime de ódio. Dentro da nossa própria lei, você tem tipificação de crimes, mas precisa equiparar [essas condutas]. Para as outras medidas [de combate à lgbtfobia], a gente precisa de um projeto de lei.

Como criminalizar sem impedir a liberdade religiosa? Deveria ser feita uma ressalva no projeto de lei?

A gente vive num Estado laico. As pessoas têm direito às suas religiões, mas a liberdade da vida do outro precisa ser respeitada. Precisa ter um debate real sobre o que as escrituras estão querendo dizer.

Se a pessoa dentro da crença dela acredita em algo, mas não está atacando outras pessoas, isso não vai ser criminalizado.

O que essa bancada [evangélica] levanta é que eles querem continuar destilando o ódio que sempre destilaram contra a população LGBT, criminalizando, marginalizando. É um discurso que eles utilizam para poder continuar criminalizando uma população muito fragilizada na sociedade.

Ao mesmo tempo há setores progressistas dentro das inúmeras religiões que temos no nosso País e eles vão ser consultados, estarão fazendo a construção junto com a gente.

Qual impressão sobre os primeiros dias no Congresso? Como está a articulação da oposição ao governo?

Eu estou realmente chocado de como isso daqui é, às vezes, um show de horrores, uma histeria em massa. Começa uma pessoa a falar uma asneira e vão outros falando a mesma linha de asneira, que não faz sentido nenhum.

A gente cobra um posicionamento do PSL sobre os laranjas, já que eles foram eleitos falando que não teria corrupção e usam um sistema de fraude na eleição e ainda contra as mulheres, que lutaram tanto tempo para conseguir seus espaços (…) E os caras não respondem. Respondem de forma histérica, gritando. Não sabe ser um parlamentar.

Ao mesmo tempo, isso mostra a controvérsia que existe dentro do partido e do que foi o movimento pró-Bolsonaro. Esses 2 meses mostram a máscara do próprio governo caindo, com os escândalos do partido, o filho dele [Flávio Bolsonaro] e possível envolvimento de pessoas do gabinete dele com o Escritório do Crime [milícia do Rio], que possivelmente assassinou Marielle Franco, e com a saída do Jean Wyllys do País. Isso mostra o quão frágil a democracia está, mas também a debilidade que esse governo tem de se manter (…).

Como foi a reunião da bancada do PSol com o presidente Rodrigo Maia nesta semana?

A gente debateu sobre a estrutura, a eleição da Mesa, as ameaças de morte que eu já recebi e outros parlamentares do PSol receberam e a segurança da bancada. Praticamente todos os deputados receberam algum tipo de ameaça. Eu recebi ameaça de morte na deep web. A gente protocolou hoje um requerimento [na Câmara] sobre essa ação. Precisa de uma seriedade sobre isso. Até porque falaram sobre Jean que não tinha [ameaça], que não viam.

A Câmara vai tomar alguma providência?

Eu vou ter uma reunião com o chefe do Depol [Departamento de Polícia Legislativa].

O que a Câmara pode fazer?

Pode aumentar a segurança. Podemos ter escolta. Hoje o Marcelo Freixo anda com escolta aqui dentro do tempo todo. Alguns parlamentares podem escolher isso.

Estou ficando num hotel e passei por uma situação muito complicada na semana passada. Bateram na minha porta 1h30 da manhã falando que era entrega de água. A porta estava sem olho mágico. Eu falei que não pedi água, fiz uma ocorrência no hotel e depois falaram que olharam nas câmaras e não tinha ocorrido nada. Mas vou falar com o gerente para ter acesso.

O senhor vai ter apartamento funcional?

Provavelmente sim, porque é a forma mais segura. Já fiz o requerimento semana passada. Pedi urgência.

O que aprendeu na experiência na Câmara de Vereadores do Rio? Quais entraves para avançar com direitos LGBT no Legislativo?

O que eu aprendi é que consigo ter diálogo com quase todo mundo. No Rio de Janeiro, eu passei a lei do nome social para travestis e transgêneros. Eu passei, o prefeito vetou e derrubei o veto dele. Consegui convencer pastores e outras figuras.

Aqui estou disposto a ter diálogo com todo mundo: Alexandre Frota, Kim Kataguiri e até o Eduardo [Bolsonaro]. Eu sei que os caras têm uma posição e vou ter de engolir muitos sapos, como tive de fazer no Rio de Janeiro, mas os eleitores me colocaram para representá-los aqui, então tenho que ter essa obrigação de escutar algumas piadas.

É possível um diálogo também com do governo federal, como a ministra de Direitos Humanos, Damares Alves, e com o secretário de Proteção Global da pasta, Sérgio Queiroz?

Estou primeiro mantendo a sanidade de conversar com pessoas que tenham bom senso. Estou sentindo o terreno. Acabei de chegar. Acho que é um progresso a reunião na semana passada com o presidente do STF. Tenho conversado com pessoas da Câmara e Senado. Quero ter o máximo de interação.

Não vou procurar um diálogo com ela neste momento porque há outras pessoas com quem eu posso fazer uma construção. Aqui em Brasília tempo é essencial, então vou priorizar ações com pessoas mais coerentes.

Nesta semana, o ex-deputado Jean Wyllys disse que irá continuar fazendo política, mesmo fora do Parlamento. Tem conversado com ele?

A gente não tem mantido muito contato. Falei com Wagner Moura, que falou com ele direto. Jean mudou o número de telefone antigo, por questões óbvias. Falamos por e-mail. Ele fez um comunicado de que ficou feliz ao saber que eu ia ocupar essa vaga, que sabia que era um LGBT de luta que estaria aqui. Ele também mandou mensagem para a bancada.

A gente não mantém um contato direto sobre o que vai ser feito, mas eu tenho acompanhado todas as pautas que ele estava fazendo aqui. Já falei com diversos setores, pessoas que trabalhavam com ele.

O senhor falou de ameaças recentes. Já tinha recebido antes, no Rio de Janeiro? Algo mudou depois do anúncio de que assumiria a vaga de Jean Wyllys?

Aumentou a intensidade. Recebi recados na internet de que vou ser a próxima Marielle. O requerimento que a gente protocolou hoje é de uma ameaça dizendo que viado é mais fácil de matar, chamando a gente de pedófilo. É complicado. Eu tenho 2 filhos pequenos, de 9 e 11 anos, tenho um relacionamento com o Glenn Greenwald, que também é uma figura pública. Tomei medidas de segurança ano passado após a Marielle ser assassinada e espero novas medidas agora da Câmara.

O senhor chegou a registrar ocorrência em alguma delegacia dessa ameaça recente?

Não. A gente fez um primeiro passo com a polícia aqui da Casa.

A (mal-disfarçada) ideologia de gênero de Damares

Sua fala explica o óbvio: gênero e sexualidade dizem respeito às relações de poder. Não é uma discussão biológica, mas sobre quem está autorizado a decidir – e quais identidades não podem existir.

por Berenice Bento
Publicado pelo portal Outras Palavras, em 14 de janeiro de 2019

https://outraspalavras.net/feminismos/a-mal-disfarcada-ideologia-de-genero-de-damares/

“Todos os dias, nas maternidades brasileiras, mães, pais e profissionais de saúde lidam com o dilema de terem diante de si corpos que encarnam os limites do dimorfismo sexual”

Metáfora, aquilo que não é, mas torna-se por analogia.  Uma mistura de deboche e incredibilidade foram as reações às declarações efusivas da ministra Damares Alves que decretou uma Nova Era no Brasil. Seria ela uma ministra de Estado? O grotesco de sua declaração de que a Era do binarismo de gênero ocupará a centralidade de sua gestão seria apropriado para uma Ministra de Estado? Após uma onda piadas, memes e artigos a ministra explicou melhor: usou as cores (“menino usa azul, menina usa rosa”) como metáfora. O que então, a Ministra queria dizer? O que a analogia com as cores nos revela?

1º) Um recado, principalmente, para os movimentos trans, de que no governo Bolsonaro não haverá qualquer espaço para o debate ou formulação de políticas públicas para assegurar o bem-estar físico e mental desta população. A metáfora da ministra se materializou imediatamente em ato político: a não inclusão da população LGBT na nova estrutura organizacional do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos e a retirada da cartilha “Homens Trans: vamos falar sobre prevenção de infecções sexualmente transmissíveis” do site do Ministério da Saúde.

2º) Há muito que diversas correntes de feminismo vem discutindo os efeitos nefastos das assimetrias hierarquizadas de gênero. Seja nos espaços públicos ou privados, o feminino é construído como o lócus da passividade, emotividade, irracionalidade. Em contrapartida, ao masculino são reservados os espaços de poder na esfera pública porque se supõe que a masculinidade seria a morada natural dos atributos necessários para lidar com tomada de decisões (racionalidade, frieza, atividade). No entanto, a organização dos coletivos T (mulheres transexuais, homens transexuais, travestis, transgêneros) e dos não–binários empurrou o debate para outro nível. A condição para se ter reconhecimento social seria, nos termos da metáfora das cores da ministra, ter um corpo sexuado (menino-pênis, menina-vagina) que lhes daria a permissão de fala. Nos últimos anos as identidades trans e as não-binárias passaram a estruturar novas gramáticas morais que deslocam os sentidos hegemônicos das identidades de gênero. Não se trata mais de se ter um “corpo sexual coerente” que seguiria esta linha de continuidade:

vagina = mulher = feminilidade = maternidade

pênis = homem = masculinidade = paternidade

As existências trans demandam que o Estado reconheça as diferenças das identidades de gênero, sem ter como passaporte autorizativo para transitar no mundo público a posse de um corpo-sexuado “coerente”, como o defendido pelos ideólogos da “ideologia de gênero”.

3º) As políticas públicas, no que se referem ao gênero e sexualidade, estarão voltadas para pôr ordem ao caos, restabelecer o desejo da natureza, porque ela sabe tudo: os corpos são naturalmente heterossexuais. A natureza aqui pode ser substituída por “Deus”. Será que os/as porta-vozes da natureza sabem que todos os dias nas maternidades brasileiras nascem bebês sem a prevalência de características biológicas de um determinado sexo? Todos os dias, mães, pais, enfermeiras, médicos lidam com o dilema de terem diante de si corpos que encarnam os limites do dimorfismo sexual.  Nestes corpos os padrões anatômicos, a mais sólida convicção dos ideólogos da “ideologia de gênero” para se definir o sexo da criança na certidão de nascimento, evapora-se no ar. A mãe que esperou ansiosa a sábia natureza fazer seu trabalho, frustra-se. Não é uma menina porque tem o clitóris com alguns milímetros a mais do estabelecido pelo poder médico. Tampouco é menino porque tem um pênis menor do o convencionado. Esta é apenas uma das múltiplas variações dos caracteres sexuais que não estão “em conformidade” com o dimorfismo sexual hegemônico. A intersexualidade é o lugar onde a tese dos ideólogos da “ideologia de gênero” colapsa definitivamente. E quem irá “consertar” os erros da natureza? Serão as instituições sociais que se encarregarão de produzir feminilidade ou masculinidade, dependendo da escolha que se faça sobre o destino de gênero da criança.

4º) A fala da saltitante ministra explicita o óbvio: gênero e sexualidade dizem respeito às relações de poder. Aliás, a todo o momento os ideólogos da “ideologia de gênero” reafirmam o que dizem combater. Quando esbravejam: “A família é a responsável por discutir sexualidade e gênero!!”, estão reafirmando que a produção destas identidades é função de uma instituição social: a família. Não se trata de uma discussão biológica, mas de quem pode falar sobre, quem tem autorização para decidir. O que está posto é uma disputa política de quais identidades de gênero e sexuais têm direito a existência, quais serão objeto de politicas públicas. De certa forma, é um tipo de reedição dos debates que marcaram a história do Brasil sobre quais sujeitos merecem habitar o Estado-Nação, quais serão objeto de cuidado pelo Estado e quais devem ser eliminados.

5º) O que muda? Agora o Poder Executivo se posicionou abertamente a favor de uma determinada concepção de gênero e sexualidade, que tem como fundamento para suas “teorias” a Bíblia.

As cores são a metáfora de uma concepção de gênero e sexualidade que nega direitos fundamentais àqueles que divergem da posição dos ideólogos da “ideologia de gênero”. E qual seria a melhor metáfora para explicar a Ministra? Ao tentarmos encontrar uma política, uma estadista, que entende o caráter laico do Estado, nos termos da Constituição Federal, encontramos uma pastora que declarou aos gritos de “aleluia” e “glória a Deus”, que “o Estado é laico, mas esta Ministra é terrivelmente cristã”, numa alusão a orientação que deverá permear a gestão Bolsonaro nas questões que dizem respeito a laicidade do estado brasileiro. Não se trata, portanto, de uma metáfora mas de uma antítese. E aqui talvez tenhamos que sair do mundo das figuras de linguagens, para entrar no mundo das figuras grotescas.

Exclusivo: Em clínica de “restauração de sexualidade”, Damares classifica homossexualidade como aberração

Jovem homossexual, que foi abusado na infância por um pastor, relatou à Fórum como foi a “lavagem cerebral” a que foi submetido em uma dessas clínicas para deixar de ser gay e denunciou a participação de Damares, que aparece em vídeos dizendo que homossexuais são “doentes”. Assista

Por Ivan Longo
Publicado pelo portal Fórum, em 4 de janeiro de 2019

Pastora evangélica, a mulher escolhida por Jair Bolsonaro para assumir o novo Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, causou revolta a boa parte da população, nesta quinta-feira (3), ao anunciar a chegada de uma “nova era” em que “meninos vestem azul e meninas vestem rosa”.

Conhecida por seus posicionamentos homofóbicos, Damares disse, depois, que sua fala foi apenas uma metáfora para fazer uma crítica ao que chama de “ideologia de gênero” nas escolas. Para ela e boa parte dos defensores do novo governo, há no Brasil uma “doutrinação” para incentivar as crianças a se tornarem homossexuais.

Apesar de dizer, enquanto ministra, que trabalhará por essas pessoas, a atuação da pastora na esfera da igreja demonstra que sua declaração não se limita a uma simples metáfora, mas, sim, traduz o que pensa a mulher que hoje é responsável por todas as políticas de proteção de direitos LGBTI+ sobre essas pessoas.

A revista Fórum recebeu com exclusividade vídeos que mostram Damares palestrando em uma clínica de “restauração sexual” e classificando a homossexualidade como “aberração” e “doença”. Nas falas registradas, a ministra pede, inclusive, para que trechos sejam editados ou para que não filmassem alguns momentos da palestra, pois falaria coisas “sérias” e, por isso, teria “problemas”.

A denúncia partiu de um dos “pacientes” do “tratamento” que preferiu não se identificar por conta de possíveis retaliações. Nesta reportagem ele será identificado como “X”.

“Restauração de sexualidade”: pressão psicológica e lavagem cerebral

X, que hoje tem 29 anos, participou de um “tratamento” de “restauração sexual” quando tinha 24 anos. De família evangélica, o jovem foi convencido pela igreja que frequentava, no interior de São Paulo, com o apoio de seus pais, de que sofria de um transtorno por ser homossexual. Ele, então, foi internado no Seminário Intensivo de Sexualidade (SEIS), que faz parte de uma organização que tem contato com diferentes correntes de igrejas evangélicas. O nome da igreja que X frequentava, bem como o da organização que gere o SEIS, também foram preservados para a segurança da fonte.

Foi neste seminário, entre os anos de 2014 e 2015, que X assistiu às palestras de Damares Alves registradas nos vídeos.

À Fórum, X relatou que a tal “clínica” se vendia aos fiéis como uma “escola”, até com o objetivo de não chamar atenção uma vez que, desde 1990, de acordo com a Organização Mundial de Saúde, a homossexualidade não pode ser classificada como uma doença – tratamentos para reversão sexual são, portanto, ilegais

O cuidado da organização que gere o seminário é tamanho que o “tratamento” não tem local fixo e se dá de maneira itinerante: o próprio X participou de 2 módulos, um em Goiânia e outro e Curitiba.

De acordo com o jovem, compõem o seminário de sexualidade pastores evangélicos, psicólogos e advogados, que “curam” o que chamam de “transtornos sexuais”, tais como a homossexualidade, que é colocada ao lado de verdadeiros transtornos como a pedofilia e a zoofilia, por exemplo.

A “restauração” se dá através de uma espécie de confinamento dos “pacientes”, com regras rígidas de horários, saídas e de limpeza, com aulas em formatos de palestras, terapias individuais e de grupos. No local, é pregado que homossexualidade, além de ser um pecado, é algo que deva ser “curado”, um “distúrbio” e até mesmo uma “imoralidade”, resultado da suposta ausência de um pai e da presença da mãe. Os argumentos quase sempre são bíblicos.

Os que participam do seminário passam, de acordo com X, por um tipo de “lavagem cerebral” em que são condicionados a acreditar que ser homossexual ou transexual degradará suas vidas. Isso tudo seria feito a partir de muita pressão psicológica com pessoas em um estado emocional frágil. Vídeos de abusos sexual, tráfico de pessoas, pedofilia e outras atrocidades eram mostrados aos “pacientes” como maneira de “alertá-los” sobre os “riscos” da homossexualidade.

Castração, abuso e suicídio 

A pressão dos religiosos, segundo X, já veio antes mesmo de ele entrar no seminário em forma de chantagem. “Para você ter uma ideia, tinham me colocado duas opções: ou me castrar ou ir para a clínica. Diziam que eu ia para o inferno. Eu, por estar em depressão, estava até aceitando ser castrado”, revela.

Ao pensar que a castração poderia inviabilizar uma suposta futura vontade de ter filhos, X conta que repensou e decidiu entrar na clínica. Frágil emocionalmente, o jovem participou de todo o “tratamento” tomando remédios para depressão e síndrome do pânico, o que o deixava muito mais vulnerável.

“Eu tinha de 5 a 6 crises de pânico por dia, tomava remédios, e lá [na clínica] eles tratavam de assuntos muito pesados. Em um dos momentos tive uma crise de pânico e uma psicóloga renomada me obrigou a ir para a aula, mesmo no meio da crise. ‘Você vai ter a crise lá no meio’, ela disse. Me senti completamente exposto”, denunciou.

Uma das aulas que mexia com o psicológico dos “pacientes” para os convencer a serem heterossexuais era uma aula de “traumas”. Em uma delas, no entanto, X contou que conseguiu se dar conta que as “intimidades” que um pastor e o filho de outro pastor tinham com ele na infância e na adolescência se tratavam, na verdade, de abuso sexual, o que o motivou a denunciar o homem à organização e à igreja. O ato, no entanto, foi em vão.

“Eu percebi que tudo o que aconteceu comigo na infância, de um pastor, foi abuso. Mas não me deixaram expor por envolver um pastor da igreja. Assim que saí da clínica tentei denunciar, mas ninguém acreditava nas palavras de um ‘viado’. Pediam provas, mas é algo muito difícil de provar”, expõe X.

Os traumas causados pela pressão da igreja e da “clínica” fizeram X até mesmo tentar tirar a própria vida há 3 anos. “As pessoas não sabem o que é a pressão de ser gay dentro de uma igreja evangélica. Foi muito pesado para mim, eu queria morrer mesmo”, conta.

Alerta 

Totalmente afastado da igreja e ciente de que sua sexualidade não deve ser tratada com o um transtorno, X revela que resolveu expor a clínica – que, segundo ele, não é a única do país – e o envolvimento de Damares Alves pois percebeu, com a nomeação da pastora como ministra, que passaria a correr ainda mais riscos.

“Quando o Bolsonaro começou a levantar uma maré de ódio eu comecei a sofrer. Então quando a Damares foi indicada eu entendi o que iria acontecer porque eu sei o que ela pensa em relação aos homossexuais. Fiquei com mais medo ainda pois agora estamos completamente desprotegidos. Quero dizer aqui que existe, sim, essa clínica, existe isso em vários lugares do país. Quero que as pessoas vejam o que está acontecendo, que chega ao ponto de quererem castrar um homossexual”, dispara.

Após a revelação da participação de Damares neste tipo de “tratamento”, os próximos passos do jovem, seguindo orientações de sua advogada, são denunciar pastores e psicólogos envolvidos à entidades e autoridades competentes, o que será noticiado em uma próxima reportagem.

Outro lado 

Fórum não conseguiu contato com a organização do Seminário Intensivo de Sexualidade (SEIS), que não possui site oficial na internet ou números de telefone disponíveis e tem sua divulgação limitada a blogues e eventos de Facebook. Este espaço permanece aberto para eventuais posicionamentos.

A reportagem tentou ainda um posicionamento da ministra Damares Alves sobre as declarações registradas nos vídeos mas sua assessoria de imprensa não havia respondido até a divulgação desta matéria.

Depoimentos 

Confira, abaixo, depoimentos de X e de outra “paciente”, Y [ela também teve o nome preservado], que foi submetida ao mesmo tipo de “tratamento”.

Depoimento de “X”

A Religião joga tão pesado, tão sujo, deixa as pessoas tão cegas e insensíveis, que eu cresci sem pai, sem mãe, sem irmão. Mesmo os vendo todos os dias, a religião estragou minha família, destruiu nosso relacionamento. Meus pais nunca conseguiram me ver como filho antes de me ver como homossexual. Eu tive que criar um mundo paralelo para viver porque eu me sentia a pior pessoa do mundo. Minha vida sempre ficou em volta disso, o massacre da religião, minha mãe chorando todos os dias porque o filho dela vai para o inferno, meu pai pedindo para que eu seja homem, desesperado se vou ser afeminado ou não, orando para que eu tenha temor e entenda que preciso mudar de vida.

Eu cresci pensando em morrer. E pensar tanto em morrer fez com que eu nunca estivesse vivo. Infelizmente só quem sente, sabe. O resto chamam de mimimi, como acontece quando se levanta questão sobre racismo, bullying etc.

O objetivo desta matéria não é declarar uma guerra contra a religião, mas, sim, lembrar que minha vida e a de tantos outros importa. Eu não tenho o objetivo de doutrinar ninguém com minha sexualidade, eu só quero viver. 29 anos de vida, 29 anos que meus pais são infelizes, que eu fui infeliz. Não faz o menor sentido uma religião que prega sobre Cristo fazer isso com as pessoas.

Se eu puder deixar uma mensagem, é que ninguém solte a mão de ninguém. Se tivessem soltado a minha, eu já estaria morto. E para todos que sofrem com isso, saibam que dá para ser feliz, sim, que tem uma vida linda que vale a pena. Toda culpa que colocam em nós não é nossa. Levantem a cabeça, se unam mais do que nunca.

LUTAR PELA VIDA NUNCA FOI TÃO NECESSÁRIO.

Depoimento de “Y”

Eu ainda estou passando por esse processo de superar o que a igreja fez comigo.

Eu ainda tenho muito ranço, muita raiva e rancor de crente, mas, se tem uma coisa que eu tenho certeza, é que não quero fazer isso para afrontar crente por causa desse ódio e, sim, fazer por quem é diferente que nem eu, que nem nós, que nunca nos encaixamos perfeitamente e fomos extremamente invadidos e feridos pra tentar nos moldar, nos consertar.

Consertar o que nunca esteve quebrado, mas que se danificou muito nessas tentativas de correção a que fomos submetidos.

Eu também quero curar, quero ajudar a libertar, tanto do armário, quanto dessas dores causadas pela própria igreja e religião.

A gente é regido inconscientemente ainda hoje por causa dessa porra!

Mas, o primeiro passo, já demos, que é reconhecer onde está o erro.

E agora vamos dar o segundo, que é trazer luz para isso.

Damares, ao falar sobre a suposta ideologia de gênero nas escolas, classifica sexo entre mulheres como “aberração”. Ela pede, inclusive, para que o cinegrafista edite o trecho

Mensagem à ministra: “Quem definirá o que cada um será é a própria pessoa”

À Excelentíssima Sra. Ministra Damares Regina Alves

Venho, por meio desta, explicitar meu profundo lamento frente a vossa postura e fala que estão materializadas nos canais de comunicação e que copio aqui nesta mensagem (https://oglobo.globo.com/sociedade/menino-veste-azul-menina-veste-rosa-diz-damares-alves-em-video-23343024). Ao tratar da sexualidade humana, Vossa Excelência saltita e grita, em postura descabida, falando sobre cores de vestimentas e papeis a serem desempenhados por crianças.

http://www.huffpostbrasil.com/salomao-cunha-lima/o-ativismo-lgbt-comeca-na-palma-das-maos_a_22108417/

GETTY IMAGES/ISTOCKPHOTO

Infelizmente, ou a senhora não sabe nada do desenvolvimento humano e das questões de gênero ou a sua égide ideológico-religiosa lhe cega. Isso é grave, visto que, as suas funções de Ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos impossibilitam tais posturas, tais falas e tais posicionamentos. Esse agir é incongruente com o seu papel.

Essa nova pasta, que foi criada pelo atual governo, vincula nela os Direitos Humanos que, inoportunamente, recebem deboches e desdéns de muitos dos seus correligionários e de vários da bancada do atual governo. Assusta-me perceber que Vossa Excelência também debocha deles. A sua função é justamente defender esses direitos e qualquer cidadão. Independente de vestir “azul” ou “rosa” e de ser “príncipe” ou “princesa”, ele/ela precisa dessa proteção de forma igualitária. Vossa Excelência se perde e acaba sendo desnuda com tais devaneios. A referência às cores (azul e rosa) e aos títulos (príncipe e princesa) reduz as demandas de gênero a um maniqueísmo tosco, tolo e perverso.

Entenda uma coisa Excelência – não é a senhora, não sou eu e nem será ninguém os responsáveis por definir a sexualidade de alguém. Quando a senhora afirma que agora menino e menina “veste isso ou aquilo” e que serão “isso ou aquilo outro”, Vossa Excelência traz para si uma presunção arrogante de controle. Não Excelência! Quem definirá o que cada um será é a própria pessoa. E quer saber, ele e ela poderão ser o que quiserem. É direito de cada um ter o arbítrio de escolher. É direito de cada um o ato de ser feliz. É direito de cada um ser o que é. Ele e ela vestirão a cor que desejarem. As suas identidades de gênero são escolhas somente deles e tais escolhas não são formatadas e modificadas por rompantes externos. Desse modo, não há cura para aquilo que não é doença.

Então, Excelentíssima Ministra deixo aqui o meu repúdio. Quero acreditar que tal postura não paire no seu consciente, mas sim que venha por impulsos inconscientes não analisados, pois, se assim for, será menos grave. Todavia, a despeito do motivador mental da senhora, quero registar que tal postura é perversa. Já que a senhora faz analogias com cores, eu terminarei essa carta com um trecho de uma bela música, intitulada alma não tem cor, que foi cantada por vários artistas brasileiros. Portanto, Alma não tem cor. Por que eu sou branco? Alma não tem cor. Por que eu sou negro? Entenda Excelentíssima Sra. Ministra Damares Alves que nós somos multicolor, pois o amor não tem cor específica, sobretudo em se tratando de gênero.

Régis Eric Maia Barros
Médico Psiquiatra
Mestre e Doutor em Saúde Mental pela FMRP- USP

Pastor paraibano é escolhido para pasta voltada ao público LGBT no governo Bolsonaro

Na Secretaria de Proteção Global, estarão também o combate à tortura, temas ligados à anistia e ao combate ao trabalho escravo.​

Publicado pelo portal T5, em 3 de janeiro de 2013.

https://www.portalt5.com.br/noticias/politica/2019/1/174030-pastor-paraibano-e-escolhido-para-pasta-voltada-ao-publico-lgbt-no-governo-bolsonaro

(Foto: Junior Valadares/CPIMW)

O paraibano Sérgio Queiroz assumirá a Secretaria de Proteção Global do governo de Jair Bolsonaro. O pastor será responsável pelas ações voltadas ao público LGBT. A ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, fez o anúncio nessa quarta-feira (2) durante sua posse.

Segundo a ministra, não haverá mudanças na estrutura destinada ao encaminhamento de demandas da comunidade LGBT. “As demandas da comunidade LGBT nunca foram cuidadas por uma secretaria, sempre foram cuidadas por uma diretoria. E o presidente [Jair] Bolsonaro respeitou essa estrutura. Portanto, a comunidade LGBT continua com a estrutura que tinha no ministério”, disse.

Sérgio é procurador da Fazenda, graduado em engenharia civil e de segurança, direito e liderança avançada, é mestre em filosofia e teologia e doutorando em ministério pastoral. Também é pastor da Primeira Igreja Batista do Bessamar e presidente da Fundação Cidade Viva.

Nomeação de Damares Alves é expressão perversa da política feita por homens

Em sua coluna desta semana, Debora Diniz comenta escolha da pastora para o Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos

Debora Diniz
Publicado pelo portal Marie Claire, em 11 de dezembro de 2018

A pastora Damares Alves (Foto: Daniel Marenco/Agência O Globo)

A nomeação da pastora Damares Alves como ministra é uma das expressões mais perversas da política feita por homens. Se sua presença responde ao clamor por representatividade feminina na política, por ser uma pastora, sua voz conformará o tom evangélico aos direitos humanos. O título Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos não poderia ser mais honesto para a cruzada evangelizadora – direitos humanos será apenas o cosmético vocabulário para a política familista de enquadramento das mulheres.

A pastora não esconde suas pretensões de iniciar uma “revolução cultural” e explica seus princípios – “meninos entregarão flores às meninas nas escolas” para que entendam “que meninos e meninas não são iguais”. A desigualdade a que se refere é simples: “meninas são mais frágeis que meninos”. O uso da linguagem formal de direitos humanos e, em particular, à menção ao princípio da igualdade, não é inocente. Não há teoria de gênero que sustente igualdade de matéria entre os corpos, essa é uma fantasia erótica dos que acreditaram em kit gay ou se arrepiam em imaginar que há crianças transexuais no mundo.

Mulheres são diferentes de homens, velhos de crianças. Há matéria nos corpos e ela é tangível – o que as normas de gênero nos provocam a pensar é sobre os sentidos da matéria para as formas de existir. Nem todas as mulheres terão filhos, nem todos os homens honrarão com sua responsabilidade parental. Foram os estudos de gênero que nos ajudaram a desvincular a matéria dos corpos dos destinos da reprodução – foi uma conquista civilizatória não mais morrer no parto após uma dúzia de filhos como fizeram nossas bisavós ou avós.

A confusão entre matéria e existência é um jogo de linguagem para esvaziar a luta por igualdade entre os homens e as mulheres no mundo. Por isso, não foi por acaso que as primeiras palavras da ministra foram sobre aborto e família. A centralidade da luta feminista no direito ao planejamento familiar tem uma razão evidente, pois é pela naturalização dos corpos que se controlam as mulheres, mantendo-as como cuidadoras e reprodutoras. A pastora reduz as mulheres ao seu papel reprodutivo, em uma caricatura do feminino que nem mesmo corresponde às personagens da ficção do ciclo do açúcar no Brasil – “meu sonho era ficar na rede à espera de joias do marido”, disse ela.

Não se trata apenas de uma narrativa do século 19 em uma mulher na política do século 21. Há perversidade na composição da personagem que, em sua complexidade, transforma os direitos humanos em uma cruzada evangélica sobre como devem se comportar as mulheres, como sexualidade ou aborto devem ser temas prioritários à política familista. Por isso, os primeiros pronunciamentos da ministra pastora não foram sobre os temas vergonhosos da agenda de direitos humanos no país, como o encarceramento ou a violência urbana, mas sobre gênero e sexualidade. Sua ousadia em declarar que “gravidez é um problema que só dura 9 meses, e aborto é para toda a vida” é um sinal de como ignora que a maternidade é um projeto existencial eterno para as mulheres. Ser mãe é uma decisão que só há data de início e o prazo de validade só termina com a orfandade dos filhos.

A razão de tamanha ousadia contra as mulheres é simples – haverá uma divisão de tarefas na agenda de direitos humanos. Caberá ao ministro Moro atuar no campo dos direitos humanos como política criminal; à pastora Damares, a fragmentação da agenda de direitos humanos tendo os direitos reprodutivos das mulheres como objeto da guerrilha moral. A estratégia é cruel e desonesta. O homem do combate ao crime é um herói, a mulher do cuidado da família é uma personagem caricata que balbucia princípios de direitos humanos como fingimento para as entrelinhas missionárias.

“O sangue de toda uma geração poderá cair em nossas mãos”

Carta aberta aos pastores e igrejas que apoiam Bolsonaro

Por Hermes C. Fernandes
Publicado no Facebook, em 21 de setembro de 2018

Senhores (as) líderes evangélicos, graça, paz e discernimento!

https://www.facebook.com/hermesfernandesreal/posts/1147253275434814As eleições se avizinham, e boa parte dos pastores de nosso país tem manifestado seu apoio à candidatura de Jair Bolsonaro. A maioria alega ser ele o que melhor representa os anseios do povo evangélico, principalmente devido ao seu discurso favorável à família tradicional e aos valores morais tão caros ao cristianismo.

De repente, sinto-me como se houvesse viajado no tempo e revivesse os dias da guerra fria, quando o mundo se via ameaçado pela eclosão de uma guerra nuclear envolvendo as duas potências mundiais: A União Soviética e os Estados Unidos. Colegas vociferam de seus púlpitos sobre o perigo do comunismo que ronda a nossa sociedade. Pergunto-me em que mundo estamos vivendo, afinal? Qualquer um que levante sua voz a favor do pobre, do excluído, do oprimido, logo é tachado de esquerdopata, comunista, “agente do inferno”, e coisa parecida.

Os senhores já pararam para se perguntar sobre o que estaria por trás deste discurso ultraconservador? Há uma onda conservadora varrendo a Europa e os EUA, suscitando velhos rancores contra os imigrantes, os homossexuais, as minorias, a classe operária, etc.

No meio desta avalanche de intolerância, eis que uma voz destoante se faz ouvir mundo afora. Não de um pastor como foi nos dias de Luther King nos EUA, ou de Bonhoeffer na Alemanha, mas de um Papa, líder da instituição mais conservadora do mundo. Por ironia, justamente o primeiro Papa latino-americano se levanta contra tudo e contra todos os que insistem em ressuscitar um discurso que há décadas parecia ter sido abandonado e enterrado. Enquanto isso, a igreja evangélica, que por tanto tempo esteve na vanguarda na luta pelos direitos humanos passa a se aliar com o que há de mais retrógrado e ultrapassado. Que vergonha! Tudo em nome de nossos escrúpulos moralistas.

Conseguiram a façanha de diluir o puro Evangelho da graça num discurso de ódio e intolerância.

Esquecemo-nos dos colegas que foram perseguidos, torturados, e, alguns até mortos e desaparecidos, durante o regime militar. Justificamo-nos no fato de que o tal candidato defenda os mesmos valores. Será que ser a favor da tortura soa menos cruel quando se é contrário ao aborto? Será que ser a favor do armamento da população condiz com o que foi ensinado por Jesus? Afinal, bem-aventurados são os pacificadores ou os que pretendem armar a população? Ser pela família tradicional abona a conduta de quem se revela contrário aos direitos trabalhistas conquistados a duras penas? Se você, pastor, é contra tais direitos, recomendo que não aceite mais dízimos de décimo-terceiro ou de férias de seus membros.

Não ajamos como o profeta Natan que encorajou a Davi a construir o templo, afirmando-lhe categoricamente que Deus o havia escolhido para aquela empreitada. Porém, o Senhor não o tinha autorizado a fazer tal coisa, de modo que, mesmo constrangido, teve que retornar ao rei e dizer-lhe a verdade. Por causa do sangue que havia em suas mãos, Deus não o designou para edificar Sua casa, ainda que já houvesse levantado todos os recursos para tal, e recebido do Senhor a planta, caberia ao seu sucessor tocar a obra.

Quem somos nós para abençoar o que Deus não abençoou? Quem somos nós para encorajar o que contraria frontalmente a Sua vontade?

Sei que muitos alegarão que tudo não passa de manipulação da mídia esquerdista. Mas basta assistir aos inúmeros vídeos de discursos e entrevistas do candidato para verificar que exatamente assim que ele pensa. Ele mesmo afirma que o trabalhador terá que escolher entre ter seus direitos assegurados ou o emprego. Ele é quem diz com todas as letras que o Estado não é laico, mas cristão e que as minorias terão que se dobrar à vontade das maiorias. Ele diz que seria incapaz de amar um filho homossexual e que a homossexualidade é falta de p*rrada na infância. Diz que não empregaria uma mulher, já que esta engravida. Diz que educou seu filhos para que jamais namorassem negras. Diz que em seu governo os índios não receberiam nem mais um centímetro de terra. Se ele é a favor da família tradicional, por que disse que usava o apartamento para “comer gente”? Como defender quem diz que uma mulher não merecia ser estuprada por ser feia? Como apoiar quem defende o uso da tortura se somos seguidores de um Cristo torturado e morto numa cruz? Como apoiar quem diz que ordenaria que helicópteros metralhassem uma favela se os criminosos não se rendessem? Será que na favela só mora bandido? Com que cara visitaremos os presídios para pregar o amor de Cristo depois de apoiar que tem como slogan “bandido bom é bandido morto”?

O sangue de toda uma geração poderá cair em nossas mãos!

Se você é pastor de uma pequena congregação, talvez esteja indo na onda de grandes líderes que já manifestaram seu apoio a Bolsonaro. Não seja ingênuo. Muitos deles o fazem, não por convicção, mas por conveniência, movidos por interesses nem sempre louváveis (alguns até sórdidos).

Lembre-se de quem nos considerou fiéis, pondo-nos em seu ministério (1 Timóteo 1:12), e que um dia, teremos que prestar contas (Hebreus 13:17).

Por isso, deixo aqui uma recomendação que deveria perturbar o sono de todos os que levam a sério o ministério pastoral:

“Pastoreiem o rebanho de Deus que está aos seus cuidados. Olhem por ele, não por obrigação, mas de livre vontade, como Deus quer. Não façam isso por ganância, mas com o desejo de servir. Não ajam como dominadores dos que lhes foram confiados, mas como exemplos para o rebanho.” 1 Pedro 5:2,3

Não compete a pastor algum dizer em quem seu rebanho deve votar. Mas compete-nos instrui-los a reconhecer os riscos por trás de todo discurso de ódio e intolerância.

Jesus disse que enquanto o bom pastor dá a vida pelas ovelhas, o ladrão, ao ver o lobo, foge e deixa suas ovelhas à mercê do perigo. Portanto, cumpramos nosso papel. Pois cuidar das ovelhas que nos foram confiadas é a melhor maneira de dizer: TU SABES QUE TE AMO, SENHOR.

Qual o sentido de um cristão apoiar a tortura?

Por Joel Zeferino
Publicado pelo Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil, em 11 de setembro de 2018

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Foto: Anistia Internacional

A gente sempre acha que não dá mais para se surpreender, mas se surpreende. E até se assusta. Estou assustado com a maneira avassaladora como a “igreja brasileira” – usando um termo bastante impreciso para me referir a esse grande fenômeno de massa que ocupa enormes espaços na mídia, arrebanha multidões, e que tem um projeto claro de aparelhamento dos espaços de decisão, inclusive com representações nas câmaras, parlamentos e outros espaços da política nacional, como o Judiciário – vem dando mostras escancaradas de engajamento não apenas político, mas partidário.

Pois essa “igreja brasileira” – formada por uma salada infinita, que vai do fundamentalismo protestante e seus derivados, até as novíssimas igrejas pentecostais-neo-pós-tudo, e que se somam a um grande contingente de católicos (no plural mesmo, pois longe da uniformidade pensada, o Catolicismo se constitui de numerosíssimos movimentos que guardam entre si uma relação muito mais simbólica, posto que no campo das ideias e práticas são absurdamente diferentes, divergentes e contraditórios) – está se superando a cada dia que passa em seus malabarismos bíblico-teológicos para escancarar o seu apoio a um candidato que apoia abertamente a tortura e a eliminação de grupos divergentes.

Qual o sentido de um cristão apoiar um candidato que se dizendo cristão, faz apologia à TORTURA???

Não há sentido bíblico, ao menos não à luz da pessoa e das obras do Jesus de Nazaré. Como combinar “Bandido bom é bandido morto” com o “Ouvistes o que foi dito: ‘Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo’. Eu, porém, vos digo: Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem” (Mt. 5:43-44)? Simplesmente não dá para “esticar” o texto para desdizer o óbvio ululante. Ou você apoia o candidato-torturador e abre mão de ser discípulo do nazareno, ou vice-versa.

Não há, certamente, um sentido lógico. Minimamente uma reflexão lógica há de nos fazer refletir que, por exemplo, dois erros não fazem um acerto. Não é possível achar que por termos uma situação de violência vamos aumentar a violência para diminuir a violência. Não faz sentido.

Não há sentido ético. Se pensamos ética como uma busca pela realização humana, como é possível combiná-la com ideais de eliminação da diferença, imposição de uma moral estrita, e falta de respeito às diferenças?

Resta o sentido histórico… Sim, talvez seja isso. Pois se lembrarmos que grandes porções dos “cristãos” ao longo da história apoiaram as Cruzadas, apoiaram a Inquisição, participaram das Guerras de Religião, da Caça às Bruxas, estiveram do lado de Hitler e de Mussolini, participaram e participam da “guerra contra o mal” empreendida pelo “gigante protestante” que são os EUA, matando com bombas e disfarçando com bíblias…

Sim, sim… Há um sentido histórico naqueles que cantam louvores ao Jesus, preso, torturado e morto como um bandido entre bandidos, mas que apoiam os torturadores e seus apoiadores de plantão. Talvez retorne aqui a frase de Nietzsche, que dizia lavar as mãos depois de apertar as mãos de um cristão. No caso atual, talvez seja por que essas mãos estão cobertas de sangue.

Joel Zeferino é pastor na Igreja Batista Nazareth

A história gay da Bíblia que os fanáticos religiosos fingem desconhecer

Por Kiko Nogueira
Publicado pelo portal Diário do Centro do Mundo, em 19 de novembro de 2017

Jônatas e Davi, por Gottfried Bernhard Goez, 1708-1774. A cabeça de Golias no canto inferior direito

Os evangélicos fundamentalistas que estão por trás (opa) de todas as batalhas pelo obscurantismo no Brasil usam a Bíblia a seu bel prazer. A justificativa para a “cura gay”, por exemplo, é baseada em versículos como este do Levítico: “Se um homem se deitar com outro homem como quem se deita com uma mulher, ambos praticaram um ato repugnante. Terão que ser executados, pois merecem a mor­te.”

Primeira Epístola de Paulo aos Coríntios, outro favorito da turma, ensina o seguinte: “Não errais: nem os impuros, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem malakoi, nem arsenokoitai herdarão o reino de Deus”. Os livros dos felicianos e malafaias traduzem essas palavras gregas como “efeminados e homossexuais”. Traduções mais recentes e criteriosas preferem “pervetores”, “pervertidos” ou “imorais”. Paulo, que se chamava Saulo e era um devasso antes de se converter cristão, fazia uma referência à licenciosidade do Império Romano sob Nero — o qual, segundo a tradição, o decapitou.

Mas a história que os crentes preferem ignorar é a de Davi e Jônatas, presente em Samuel I e II. Jônatas era filho do rei Saul de Israel e seu sucessor natural. Mas fez uma aliança com Davi, que acabou sendo escolhido para o trono, o que Jônatas aceitou de coração. “O que tu desejares, eu te farei”, declara.

“Jônatas o amava como à sua própria alma”, diz a Bíblia. Numa cena, ele tira a roupa e se deita com o amado. “Beijaram-se um ao outro”. É belíssimo — como, aliás, toda a saga de Davi, um homem cheio de contradições, capaz, por exemplo, de mandar um general para o front para poder ficar com a mulher dele, Betsabá. 

No sonho da quadrilha crente, as páginas com o amor de Davi e Jônatas seriam queimadas — juntamente com os gays. Jesus pregou: “E conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”. A eles não interessam nem a verdade e nem a libertação, muito menos a de si mesmos.

(1SM 18:1-4) “E sucedeu que, acabando ele de falar com Saul, a alma de Jônatas se ligou com a alma de Davi; e Jônatas o amou, como à sua própria alma. E Saul naquele dia o tomou, e não lhe permitiu que voltasse para a casa de seu pai. E Jônatas e Davi fizeram aliança; porque Jônatas o amava como à sua própria alma. E Jônatas se despojou da capa que trazia sobre si, e a deu a Davi, como também as suas vestes, até a sua espada, e o seu arco, e o seu cinto.”

(1SM 20:3) “Então Davi tornou a jurar, e disse: Teu pai sabe muito bem que achei graça em teus olhos; por isso disse: Não saiba isto Jônatas, para que não se magoe. Mas, na verdade, como vive o Senhor, e como vive a tua alma, há apenas um passo entre mim e a morte. E disse Jônatas a Davi: O que disser a tua alma, eu te farei.”

(1SM 20:41) “E, indo-se o moço, levantou-se Davi do lado do sul, e lançou-se sobre o seu rosto em terra, e inclinou-se três vezes; e beijaram-se um ao outro, e choraram juntos, mas Davi chorou muito mais.”

(2SM 1:25-26) “Como caíram os poderosos, no meio da peleja! Jônatas nos teus altos foi morto. Angustiado estou por ti, meu irmão Jônatas; quão amabilíssimo me eras! Mais maravilhoso me era o teu amor do que o amor das mulheres.”

CCJ aprova projeto que protege LGBTs contra a homofobia

Proposta tramitou por um ano na comissão e tinha resistência de vereadores ligados à igreja

Roy Rogeres
Publicado pelo colunista Levi Vasconcelos, no jornal A Tarde, em 10 de maio de 2018

Vereadora Aladilce Souza (PCdoB) é a autora do projeto (foto: Reginaldo Ipê)

Cerca de um ano após ter sido proposto na Câmara Municipal de Salvador, o Projeto de Lei (PL) 292/17 – batizado com o nome de Thadeu (Teu) Nascimento, transexual assassinado  na capital baiana em maio de 2017 – foi aprovado ontem (quarta-feira, 9 de maio de 2018) pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ).

A proposição, de autoria da vereadora Aladilce Souza (PCdoB), pretende atualizar a Lei nº 5.275/97, penalizando, inclusive com multas, todo estabelecimento comercial, industrial, entidades, representações, associações ou fundações que discriminem ou adotem atos de violência física ou verbal contra LGBTs. Conforme o segundo artigo da proposição parlamentar, os estabelecimentos infratores podem sem multados em valores entre R$ 50 e R$ 100 mil.

Porta-voz do grupo LGBT e presidente da União da Juventude Socialista (UJS) do município, o estudante Onã Rudá diz que a matéria defende a garantia de respeito à diversidade de gênero e contra o preconceito. “O que estamos tentando é atualizar uma lei que já existe, sem ferir a moral nem a crença de ninguém”, argumenta o ativista, em referência à resistência de entidades e parlamentares de orientação evangélica. Segundo Onã, o PL visa combater a violência sofrida pelo público LGBT, que contabiliza mais de 600 casos em Salvador: “Construímos um diálogo amplo com os vereadores para aprovar a matéria”.

Para isso foram realizadas alterações no PL 292/17, solicitadas pelos vereadores, membros da CCJ, Alexandre Aleluia (DEM) e Lorena Brandão(PSC), que apontaram “divergências agudas”. Segundo explicou Onã, o projeto previa, por exemplo, a criação de uma comissão para averiguar a violência contra LGBTs, item retirado.

Em nota, a vereadora Lorena, vice-presidente da CCJ, que não compareceu à sessão, mas já havia declarado que votaria contra, atribui a postura adotada ao “direito à liberdade de manifestação do pensamento, crenças, filosofias”, que consta no artigo 5º da Constituição Federal, e utiliza citações bíblicas para justificar voto contrário ao que considera “problema LGBT no Brasil”, além de apontar omissão e defesa de “um pequeno grupo” na matéria. Já o vereador Aleluia chegou a considerar a matéria “inconstitucional”.

A caça ao gênero

Por Elder Luan*
Publicado pelo portal Dois Terços, em 27 de novembro de 2017

http://www.doistercos.com.br/opiniao-a-caca-ao-genero/Em 2014, em um texto publicado em sua coluna no Jornal A Tarde, o arcebispo de Salvador, Dom Murilo Krieger, definia “Gênero” como um programa e uma política de atuação que se arquitetava tanto para impor um novo modelo de família, quanto destruir o que ele define como “família legítima”. Já naquela época, o arcebispo reforçava alguns dos que hoje aparecem entre os principais argumentos nos quais se baseiam aqueles que criticam a chamada “Ideologia de Gênero”: que sexo e gênero são biológicos, que a família só pode ser constituída por pai e mãe, e que Deus – o cristão – fez a mulher para o homem e vice-versa.

Esse discurso ganhava eco em 2014 nos debates em torno do Plano Nacional de Educação, que entrou em votação no congresso, e teve suas principais disputas em torno dos termos “igualdade de gênero” e “orientação sexual”. Uma ofensiva elaborada pela bancada cristã combatia que qualquer expressão relacionada a gênero, orientação sexual e sexualidade entrasse no Plano Nacional de Educação, o que acabou reverberando nos debates municipais e estaduais realizados para a elaboração de seus respectivos planos. De lá pra cá, as tensões em torno da chamada “Ideologia de Gênero” têm aumentado, chegando ao ponto de professoras e professores, grupos de pesquisa e estudiosas do campo de gênero e sexualidade serem ameaçadas de morte.

Os setores conservadores, com apoio das igrejas evangélicas e católica, têm incitado um pânico moral, sob a alegação de que os estudos de gênero e a inserção desse debate nas escolas objetiva a destruição da família, a imposição de uma nova ordem sexual, a eliminação da heterossexualidade, o abuso de crianças, entre outras inverdades, que não são produzidas dentro dos estudos de gênero e que, assim como o termo “Ideologia de Gênero”, foram criadas por essas pessoas que não respeitam as liberdades individuais, a democracia, e que querem impor aos nossos corpos uma lógica de funcionamento que tem como modelo central a heterossexualidade.

Esses discursos, que são veiculados através da noção de Ideologia de Gênero, em nada se relacionam com aquilo que vem se produzindo no campo dos estudos de gênero e sexualidade, além de fomentarem uma série de inverdades sobre as teorias feministas. A exemplo disso, temos o principal argumento de que haveria, nos estudos de gênero, a pretensão de destruir a família e a biologia. Ao contrário, o que os estudos de gênero e sexualidade têm apontado é que a noção de família, assim como as noções de homem e mulher, precisam ser ampliadas e não podem ser reduzidas às genitálias, ao casal heterossexual do comercial de margarina.

O que sinalizam os estudos de gênero é que existem múltiplas formas de experimentar e vivenciar a própria sexualidade, ou seja, o exercício da sexualidade não se restringe a fins exclusivamente reprodutivos. Existem também diferentes arranjos familiares, desde famílias extensas, recompostas, monoparentais femininas ou masculinas etc., assim como existem outras possibilidades de ser homem e mulher que vão além da exigência de possuir um pênis e uma vagina, e que todas essas possibilidades, precisam – e devem – ser respeitadas. Todas nós temos o direito de expressar o nosso gênero e vivenciar a nossa sexualidade da forma como nos identificamos. Se você se identifica como homem, tendo nascido em um corpo lido como masculino e escolhe manter relações com o sexo oposto, ótimo! Todavia, isso não lhe confere poder para condenar aquela/aquele que escolhe manter relações com pessoas do mesmo sexo, quem define uma identidade de gênero diferente da biológica ou mesmo quem não se define, nem delimita o sexo e o gênero de seus parceiros e parceiras.

Não somos nós, que estudamos gênero e sexualidade, que estamos propondo ou impondo uma nova norma sexual e de gênero, são os setores conservadores, através de ações desenvolvidas em igrejas cristãs, que estão lutando pela manutenção de uma norma que não permite que as pessoas vivenciem suas sexualidades e gêneros conforme escolherem e são responsáveis pelas recorrentes agressões físicas, verbais e assassinatos de pessoas LGBT e de mulheres.

A caça ao gênero, disfarçada de defesa da família, é uma caça às liberdades individuais, uma caça as pessoas LGBT, às mulheres, que já vem acontecendo e que tem aumentado drasticamente. Em setembro de 2017, o Brasil já havia ultrapassado o número total de mortes de LGBTs de 2016. É a caça ao gênero, que quer retirar do código penal o crime de feminicídio, obrigar mulheres que foram estupradas a não abortarem caso engravidem, e que passa a ameaçar de morte professores e estudiosas do campo de gênero e sexualidade, a exemplo do que vem acontecendo na UFBA e no NEIM. A caça ao gênero quer impedir que nós continuemos existindo.

Como um bom “viado”, enquanto as balas da caça não me atingem, sigo, assim como outros tantos LGBTs, resistindo e redescobrindo formas de re(existir).

*Elder Luan – Graduado em História e doutorando do Programa de Pós-graduação em Estudos Interdisciplinares sobre Gênero, Mulheres e Feminismo.

Divaldo Franco demonstra desconhecimento ao falar sobre “ideologia de gênero” e espíritas progressistas respondem

Espíritas progressistas respondem à entrevista coletiva de Divaldo Franco e Haroldo Dutra durante congresso em Goiás. Confira abaixo o teor integral da resposta.

Espíritas que somos, os abaixo-assinados, tornamos pública a nossa desaprovação a diversas opiniões que foram expostas no vídeo que circulou essa semana nas redes sociais, e que depois foi retirado do Youtube. Declaramos que elas não nos representam e não representam o espiritismo, pois são apenas opiniões pessoais de seus autores, e que, em nosso entender, carecem de fundamento teórico e científico.

Aliás, médiuns e oradores não têm autoridade para falar em nome do espiritismo. Ninguém tem essa autoridade, nem mesmo instituições federativas. O espiritismo é uma ideia livre, cuja maior referência é Kardec, mas cujos livros também não podem ser citados como bíblia. Para manifestarmos ideias e posições do ponto de vista espírita, segundo a própria metodologia proposta por Kardec, temos de dialogar com a ciência de nosso tempo, usar argumentos racionais e adotar de preferência posturas que estejam de acordo com os princípios básicos da ética espírita, que são os da liberdade de consciência, amor ao próximo, fraternidade, entre outros.

O movimento espírita brasileiro está longe da unanimidade em todos os temas, sobretudo os que se referem a questões contemporâneas e, por isso, é importante delimitar as posições, para deixarmos claro que declarações como as que foram feitas neste vídeo não representam o espiritismo.

Dessa forma, rebatemos alguns pontos da referida entrevista:

1) Divaldo referiu-se à República de Curitiba e a seu suposto “presidente”, Sérgio Moro. Não existe uma República de Curitiba, pois segundo nossa Constituição só há uma República a ser reconhecida em nosso território, e é a República Federativa do Brasil. E a referência a um juiz federal de primeiro grau como o Presidente desta acintosa República é um grave desrespeito ao Estado, à nação brasileira, atribuindo a tal república poderes inexistentes em nossa Constituição. Além dessa nociva postura marcadamente messiânica e de culto à personalidade, pode dar a entender que o restante do povo brasileiro não presta e que não há pessoas boas espalhadas pelo Brasil dando o melhor de si.

2) Divaldo chama esse mesmo juiz de “venerando” – o que é altamente questionável, dadas as críticas de grandes juristas nacionais e internacionais à parcialidade desse juiz e a seus atos de ilegalidade, que feriram a Constituição, e às notícias que correm na mídia de seu conluio com determinados segmentos e partidos.

3) Divaldo assume uma postura claramente partidária, contrária ao PT – o que é de seu pleno direito, mas nunca em nome do espiritismo – fazendo, porém, uma crítica rasa, com uma miscelânea conceitual, chamando o governo desse partido de marxista e assumindo um discurso próprio da polarização extremista, manipulada e sem consistência que invade nossas redes sociais e nossa vida política, contribuindo para os momentos de incertezas e de medos em que vivemos.

4) Há uma fala extremamente problemática que se refere à chamada “ideologia de gênero”. Não existe “ideologia de gênero” – este é um termo criado por setores fundamentalistas da Igreja Católica e depois adotado pelas Igrejas Evangélicas. Existe sim uma área de pesquisa no mundo que se chama “Estudos de Gênero” – que teve influência de Michel Foucault, Simone de Beauvoir e Judith Buttler. Os “Estudos de Gênero” se dedicam a procurar entender como se constitui a feminilidade e a masculinidade do ponto de vista social, se debruçam sobre questões de orientação sexual, hetero, homo, transsexualidade – ou seja, todos fenômenos humanos, que estão diariamente diante de nossos olhos. Podemos concordar com algumas dessas conclusões, discordar de outras, deixar em suspenso outras tantas. Esse olhar é muito recente na história e ainda estamos apalpando questões profundas e complexas – e em nosso ponto de vista espírita, não é possível ter plena compreensão delas sem a chave da reencarnação. Uma abordagem puramente materialista jamais vai dar conta do pleno entendimento do psiquismo humano. Mas estamos muito longe de ter gente reencarnacionista competente, fazendo pesquisa séria, para dialogar com pesquisadores com abordagens meramente sociológicas ou psicológicas. Então, nós espíritas, não temos ainda melhores respostas que os outros e não podemos, por cautela, seguir a cartilha dos setores conservadores mais radicais de generalizar esses estudos sob o termo, usado aqui pejorativamente, de ideologia, para desqualificá-los como “imoralidade ímpar”. Parece-nos que uma dose de humildade científica, prudência filosófica e bom-senso faria bem a todos nesse ponto, especialmente quando o domínio sobre os corpos e a sexualidade sempre foi um ponto central para as religiões ocidentais.

5) Divaldo revela também completo desconhecimento dessa área de estudos de gênero, alinhando-a ao marxismo e ao comunismo. As grandes lideranças desses estudos estão nos Estados Unidos e na Europa. Aliás, os estudiosos desse tema encontram-se em diversas correntes de pensamento, desde marxistas até pós-modernos de diferentes matizes e até liberais. Ao fazer isso, mais uma vez, mostra a adesão a um discurso pronto, midiático, que ressoa nos setores evangélicos e católicos mais radicais, que primam por taxar qualquer ideia ou debate que lhes desagrade com o termo “comunista” – um grande espantalho generalizante, simplista e esvaziado de sentido, mas que tem sido eficaz, ao longo dos tempos, para dar forma a medos sociais e, assim, orientar o ódio e o ressentimento das pessoas contra certos alvos.

Por fim, deixamos aqui as seguintes afirmações:

• Nenhum médium ou orador pode falar em nome de todos os espíritas ou em nome do espiritismo. Isso é, por si só, desonestidade intelectual;

• Quando um espírita, sobretudo se tem influência sobre a comunidade, manifesta uma ideia ou uma opinião, tem por dever se informar sobre os temas de que está falando, usar referências confiáveis e estar em consonância com a lógica, com a ciência e com o bom senso.

• Deve também, preferencialmente, defender os direitos dos mais fragilizados socialmente, no caso, as mulheres, as crianças, os membros da comunidade LGBT+, que são objeto dessas discussões dos estudos de gênero, justamente por estarem vulneráveis a todo tipo de violência e desrespeito em nossa sociedade, além dos negros e negras, as juventudes periféricas e as pessoas com deficiência.

• Não deve alimentar discursos de ódio partidário e nem medidas punitivas contra quem quer que seja: nossa bandeira é a da educação, da fraternidade entre todos e da paz, comprometidos com a democracia, a justiça social e a regeneração da sociedade.

Adriana Jaeger Santos, RS
Agnes Vitória Cabral Rezende, MT
Alana de Andrade Santana, BA
Alessandro Augusto Arruda Basso, SP
Alessandro Cesar Bigheto, SP
Alexandre Mota, SP
Alexandro Chazan, SP
Álvaro Aleixo Martins Capute, MG
Amauri Ramos, SP
Bernardo Gonçalves, SP
Carlos Augusto Pegurski, PR
Carlos Sérgio da Silva, SP
Claudia Gelernter, SP
Claudia Mota, SP
Cynthia Maria Fiorini Santos, SP
Dalva de Souza Franco, SP
Dalva Radeschi, SP
Dennylson de Lima Sepulvida, SP
Dora Incontri, SP
Douglas Neman, SP
Eduardo Alves de Oliveira, SP
Eduardo Lima, CE
Erica de Oliveira, SP
Felipe Gonçalves, SP
Felipe Sellin, ES
Fernando Fernandes, SP
Franklin Felix, SP
Gilmar da Cunha Trivelatto, SP
Glauco Ribeiro de Souza, SP
Hélio Ribeiro, MG
Izaias Lobo Lannes, MG
João Carlos de Freitas, SP
Jandyra Abranches, ES
Juçara Silva Volpato, ES
Larissa Blanco
Leandro Piazzon Correa, SP
Litza Amorim, SP
Lorisani Marisa de Leão de Souza, RS
Luciano Sérgio Ventin Bomfim, BA
Luis Gustavo Carvalho Ruivo Andrade, SP
Luis Márcio Arnaut, SP
Luziete Maria da Silva del Poggetto, SP
Marcel Pordeus, CE
Marcelo Henrique Pereira, SC
Marcos Wilian Silva MT
Maristela Viana França de Andrade de Aragarças GO
Maristela Viana França de Andrade, GO
Maurício Zanolini, SP
Murilo Negreiros, SP
Patrícia Imperato Malite, SP
Pedro Camilo, BA
Raphael Faé, ES
Roberto Colombo, SP
Samantha Lodi, SP
Sebastião do Aragão, SC
Sérgio Aleixo, RJ
Silvia Bueno, SP
Sinuê Neckel Miguel, RS
Suzana Leão, RS
Tatiane Braz Comitre Basso, SP
Thiago Rosa, SP
Tiago Fernandes, PR
Vinicius Lara, MG
Willan Silva, ES
Yuri David Esteves, SP

Confira o vídeo da entrevista:

https://www.youtube.com/watch?v=n7NXgIvnNDM

Fonte: Dora Incontri

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=10211379842353905&set=a.1879932680173.2093270.1296969972&type=3&theater

2017 foi marcado pela intolerância; especialistas temem repetição em 2018

Por meio de discursos do ódio, aversão às diferenças e desrespeito aos direitos humanos, a intolerância imperou no Brasil e no mundo

JC Juliana Cipriani
Publicado pelo portal Estado de Minas, em 31 de dezembro de 2017

Carlos Magno, conselheiro nacional de direitos humanos e secretário da ABGLT, espera tempos melhores
(foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press)

Racismo, injúria, homofobia, xenofobia, assédio e censura às artes. O ano de 2017 ficará marcado por discursos de ódio e desrespeito às diferenças tanto no Brasil como pelo mundo afora. Seja em razão do aumento do número de casos de agressão, seja devido a um maior visibilidade deles, a intolerância explodiu. Na avaliação de especialistas ouvidos pelo Estado de Minas, o uso das redes sociais e o contexto em que as minorias ganharam mais espaço contribuíram para a exacerbação dos ânimos e opiniões conflitantes. Por mais que esse clima tenha assustado alguns, a tendência é de que as ações e reações continuem fortes em 2018.

O país sofreu um choque ao ver Titi, a filha do casal de atores Bruno Gagliasso e Giovana Ewbank, ser atacada na internet por preconceito racial. Também nos assustamos com a decisão de um juiz permitindo o tratamento da cura gay e com os protestos que se multiplicaram pelo Brasil taxando obras de arte de estimular a pedofilia. No mundo, o assédio que agrediu mulheres durante anos e foi descortinado pelas denúncias de atrizes em Hollywood. Com o governo de Donald Trump nos Estados Unidos, ganhou força a intolerância aos povos, ante a proibição de entrada de muçulmanos no país e os ataques aos mexicanos.

A explicação para tantos retrocessos pode estar num fenômeno conhecido como “backlash”. Trata-se de um conceito que explica a atração entre os extremos. Quando existe algum tipo de progresso, normalmente existe uma onda contrária. “Nos últimos anos as ações feministas, LGBTQI e anti-racistas, entre outras, têm sido amplificadas e o backlash acontece. Isso ocorre combinado a uma situação econômica difícil, capaz de fazer com que certos segmentos da população, que antes se sentiam mais poderosos e agora começam a perder espaço para uma sociedade mais igualitária, tentam recuperar a posição que tinham antes”, explica a cientista política Larissa Peixoto Gomes. Para ela, a intolerância é um fenômeno global, que atinge vários países, se concretizando, por exemplo, na eleição de Donald Trump e na saída do Reino Unido da União Europeia.

A socióloga Daniele Cireno Fernandes também acredita que as maiorias estejam se sentindo agredidas e ameaçadas. “Ontem eles podiam chamar uma pessoa de mulata gostosa e hoje não podem mais passar na rua e chamar alguém de viado. As reservas de vagas, para eles, estão tirando suas vagas, é uma reação de raiva mesmo”, avalia. Para a especialista, as redes sociais contribuem para esse clima. “É onde você cria sua própria comunidade virtual e exclui pessoas que pensam diferente. Isso estimula muito as atitudes extremistas”, diz.

O conselheiro nacional de direitos humanos e secretário de formação da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Intersexos (ABGLT), Carlos Magno, diz que a intolerância tem muito a ver com o momento político por que passa o Brasil. “Houve uma ruptura democrática com o golpe (impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT) e, com isso, uma espécie de autorização para que emergissem todas as forças conservadoras. A disputa política construiu um ódio muito grande e ajudou a fazer surgir esse fascismo, porque a intolerância é uma prática fascista”, disse.

Carlos Magno espera tempos melhores em 2018, especialmente depois das eleições, mas a opinião de sociólogos e cientistas políticos não é tão otimista. A cientista política Larissa Gomes está convencida de que a amplificação das lutas sociais e políticas tende a permanecer no mundo on-line e no offline. “Ainda estamos discutindo pontos como as consequências da escravidão e da exclusão da mulher na política. Há muita coisa para extravasar e consertar”, disse.

Para o sociólogo Luiz Alberto Oliveira Gonçalves, a intolerância ficou mais evidente em 2017 e deve ficar cada vez mais visível. “A intolerância já está em um nível altíssimo e, para mim, já tinha de ter nos assustado há muito tempo. O que me assusta é a gente se acostumar com isso, achar que é natural. Tenho visto pouca reação”, disse. O sociólogo afirma que é preciso ficar mais atento e crítico aos movimentos que estão surgindo e trabalhar para construir uma sociedade onde as pessoas possam dialogar.

O mestre em ciência política Lucas Cunha também acredita que o clima seja de continuidade nessa polarização de opiniões, principalmente na campanha eleitoral. “Acredito que deve haver uma agudização no ano que vem dessa polarização, que agora não está mais no plano dos partidos, mas tende a ocorrer com outros elementos. A gente tem por exemplo um debate no Brasil sobre os direitos que estão sendo violados, como os trabalhistas e os previdenciários, nessas propostas do governo, e até outros que ainda nem foram consolidados, como o de moradia. Essa pauta deve nortear a decisão do eleitor”, afirmou.

Calendário de ataques

1) Racismo e injúria

No fim de novembro, uma socialite ofendeu Titi, filha dos atores Bruno Gagliasso e Giovana Ewbank, chamando-a de macaca. O caso foi denunciado pelos pais da menina à polícia e gerou grande comoção nacional. No mesmo mês, a atriz Taís Araújo havia contado que já viu muita gente mudar de calçada para evitar seu filho negro e anônimo.

2) Homofobia

Em setembro, o juiz Waldemar Cláudio de Carvalho autorizou psicólogos a realizarem o procedimento da cura gay, com vistas a auxiliar os homossexuais a mudar sua orientação com a terapia de reversão sexual. O caso gerou várias reações de famosos e anônimos nas redes sociais.

3) Xenofobia

O presidente Donald Trump anunciou a criação de um muro para impedir os mexicanos de entrar nos Estados Unidos, alegando que eles levam drogas e estupradores ao seu país. Em junho, deu ordem para impedir cidadãos do Irã, Líbia, Somália, Sudão, Síria e Iémen de ingressar em solo americano. Refugiados de países não cristãos também sofreram a restrição.

4) Assédio

No Brasil, as mulheres se uniram em abril na campanha Mexeu com uma mexeu com todas em resposta ao assédio praticado pelo ator José Mayer a uma camareira. Em outubro, foi a vez das atrizes de Hollywood denunciarem o produtor Harvey Weinstein pela violência contra as mulheres. O ator Kevin Spacey também foi punido perdendo o papel de protagonista na série House of Cards por ter assediado rapazes. No Brasil, houve uma onda de homens ejaculando em mulheres em ônibus. Somente após pressão popular eles foram presos.

5) Censura às artes

Em setembro, a mostra Queermuseu foi cancelada em Porto Alegre sob acusação de conter cenas de pedofilia e zoofilia. Outra mostra condenada foi a que trouxe uma interação entre um homem nu e uma criança no Museu de Arte Moderna (MAM), em São Paulo. Em uma audiência pública na Câmara, um deputado provocou confusão ao dizer que gostaria de ver a mãe do ministro da Cultura, Sérgio Leitão, exposta com as pernas abertas.

6) Intolerância religiosa

Em novembro, um atirador usou um rifle para disparar sobre fiéis em uma igreja batista no Texas, matando 26 pessoas e deixando outras 20 feridas. Na última sexta-feira, um homem matou ao menos nove pessoas e feriu outras seis em uma igreja cristã do Cairo, no Egito. O atentado foi assumido pelo Estado Islâmico.

Comissão da Diversidade Sexual da OAB/BA emite nota pública contra decisão judicial que suspendeu espetáculo teatral em Salvador

NOTA PÚBLICA

https://botadentro.wordpress.com/2017/05/21/salve-rainha-renata-carvalho-encarna-jesus-cristo-travesti-em-espetaculo/

Renata Carvalho em cena (Ligia Jardim/Divulgação)

A Comissão da Diversidade Sexual e Enfrentamento à Homofobia da OAB BA vem mostrar sua preocupação diante da decisão liminar da lavra do juiz Paulo Henrique Albiani Alves na ação tombada na 12ª Vara Cível e Comercial de Salvador sob o n.0566408-05.2017.8.05.0001, em que determina a suspensão da apresentação da peça teatral “O Evangelho segundo Jesus, Rainha do Céu”, em flagrante censura.

A peça cuja apresentação foi suspensa se propunha a promover uma “reflexão sobre a intolerância sofrida por transgêneros e minorias em geral”, conforme divulgação dos produtores, e para isso representava Jesus Cristo na atualidade como uma mulher trans. O texto, escrito por uma dramaturga trans e encenado por uma atriz trans, vale-se da liberdade de expressão encontrada em sua manifestação mais ampla nas artes não para debater religião ou gerar questionamentos e críticas ao cristianismo, e sim para pregar a liberdade, a igualdade e o respeito à diferença como lições éticas universais.

A liberdade de expressão artística é constitucionalmente garantida, embora não seja absoluta. Ela encontra limite em direitos e garantias fundamentais alheios, como a liberdade religiosa e de credo. Não pode ela, portanto, ser usada como álibi ou fundamento para ataques ou ofensas à fé alheia. De outro lado, não se pode confundir posições e percepções individuais com a religião a ser protegida. A mera reinterpretação de símbolos religiosos, especialmente os que estão tão profundamente integrados à cultura, não pode ser considerada ofensiva à liberdade religiosa por afrontar o gosto ou a percepção de alguns fiéis, se não se dá de forma jocosa ou depreciativa. Mais que demonstrar a força e integridade da própria fé, a indignação com a encenação de um Jesus atual por uma mulher transexual, que propõe uma reflexão de combate à intolerância contra as minorias marginalizadas, evidencia o preconceito e a lgbtfobia, pois tal indignação não se apresenta quando se propõem outras representações de Jesus, como um homem heterossexual eventualmente casado. Vale relembrar que a mesma indignação por ver a imagem de uma mulher trans crucificada causa repulsa, enquanto a mesma imagem crucificada de um astro de futebol numa capa de revista é vista com maior naturalidade, mesmo ambas se valendo de um símbolo originalmente cristão que foi assimilado culturalmente por força da tradição, para representar e transmitir uma mensagem de perseguição e sofrimento, como a sofrida por Jesus.

A proteção à liberdade religiosa é defendida de forma intransigente pela OAB, como deve ser por qualquer instituição democrática. A liberdade de expressão também. E do mesmo modo que não se deve permitir que a liberdade de expressão seja invocada para sustentar e autorizar ofensas deliberadas e depreciativas contra qualquer religião, também não se pode aceitar que a liberdade religiosa seja usada como escudo jurídico para a prática da discriminação e preconceito racial, étnico, de gênero ou de orientação sexual, como se afigura no caso. Condutas precipitadas, como a do magistrado, apenas corroboram para o resgate de práticas tendentes ao totalitarismo.

Para Nietzsche, a força criativa do humano que está presente na arte (como em nenhum outro recurso) é o que nos dá condições para enfrentar os momentos difíceis da vida.  Noutras palavras: a arte é um recurso humano para lidar com a dificuldade e ao proibir a encenação artística o Estado-juiz está retirando o direito das pessoas (inclusive das pessoas LGBT, que são diariamente atacadas, em especial as próprias pessoas trans) de terem a oportunidade de lidar com a violência de modo criativo, com potência para criar possibilidades. A vivência democrática é intrinsecamente complexa e plural, diversificada, e, portanto, difícil. O desejo por um mundo mais simples, com uma harmonia “pacífica” e sem quaisquer atritos pode levar a posturas intolerantes e ditatoriais.

É de se salientar, também, que a arte não está comprometida com a realidade. Ao contrário: ela é escape do real, daí porque ficcional, e trabalha com a metáfora e com o simbólico, traduzindo sentimentos, percepções, interpretando e reinterpretando fatos da vida. Por isso, a representação reinterpretada de uma figura religiosa histórica serve justamente à transmissão de uma mensagem sob outra forma, e que no caso em tela era justamente uma mensagem de amor, tolerância e inclusão, não devendo ser proibida se não adotar, como de fato não adotou, qualquer tom jocoso, de mero deboche ou depreciativo. Aliás, a percepção de que a encenação de Jesus por uma atriz trans é depreciativo só pode ser fruto da visão marginalizada e discriminatória dedicada às pessoas trans.

Nenhum direito é absoluto e é no convívio democrático entre direitos e entre pessoas que se constrói uma sociedade livre e justa. Por isso, não se pode admitir a censura prévia de um espetáculo privado, reservado, com acesso dirigido apenas àqueles que quiserem assisti-lo, sem divulgação ostensiva de seu conteúdo, em razão do sentimento particular de alguns de violação de sua fé. Àqueles que não gostaram da proposta teatral, lhes assiste o direito constitucional de não comparecer ao evento ou expressar livremente sua oposição. Não é democrático encerrar a possibilidade de convívio harmônico de dois direitos fundamentais, mediante o cerceamento de um deles, quando não comprovado o seu abuso. Não se pode admitir, enfim, o uso de um direito fundamental digno de respeito e preservação como ferramenta de opressão à diversidade na expressão artística.

Registramos, por todo o exposto, nossa indignação com a referida decisão liminar, ao tempo em que a OAB adotará as medidas cabíveis buscando salvaguardar a Constituição, a ordem jurídica do Estado democrático de direito e os direitos humanos, conforme preconiza o art. 44, I, do Estatuto da Advocacia e a Ordem dos Advogados do Brasil (Lei. 8.906/1994).

Salvador-BA, 30 de Outubro de 2017.

Filipe de Campos Garbelotto
Presidente da Comissão da Diversidade Sexual e Enfrentamento à Homofobia (OAB BA)

Leandro Lopes Pontes Paraense
Vice-presidente da Comissão da Diversidade Sexual e Enfrentamento à Homofobia (OAB BA)