A ira que me move

Clique na imagem para acessar o vídeo

Este vídeo é dedicado ao meu amigo Wendell Moura, assassinado no dia 29 de dezembro de 2020 e sepultado na primeira manhã do primeiro dia de 2021. Começamos muito mal.

O tema do vídeo, “a ira que me move”, pode parecer estranho a princípio, mas o assassinato de Wendell explicará onde quero chegar. No último dia de 2020, quando soube do ocorrido, fui tomado por uma raiva intensa e movido por ela em busca de informações e soluções que garantissem um inquérito policial eficaz e célere. Sosseguei um pouco quando, durante o sepultamento, soube que o melhor amigo de Wendell é advogado e acompanhará o inquérito, não o deixando cair no esquecimento ou ser tomado pela negligência.

E assim sou eu no ativismo social LGBT+, uma pessoa movida por um desejo de justiça social, mas contaminada de ira por força das circunstâncias. Porém, minha ira é ética e racional, por mais paradoxal que isso pareça. Eu quero justiça nos limites da lei. Quero que os assassinos do meu amigo Wendell sejam identificados, julgados, condenados e cumpram as penas impostas pela lei. Só isso. Não me interessa justiça pelas próprias mãos ou tortura dos assassinos no sistema prisional. Aí já não seria ira; seria vingança.

Minha ira também não é seletiva. Não é voltada apenas para quem comete latrocínios, inclusive porque sei que essas pessoas também são vítimas de um sistema social que as violenta. Tenho raiva do atual Congresso que patrocinou a descontinuidade do auxílio emergencial – em plena pandemia que não chegou ao fim – o que aumentará as desigualdades e violências sociais. Tenho ódio da corrupção nos governos, dos crimes de colarinho branco, que seguem impunes. Tive profunda ira ao perceber que a sociedade de gado verde-amarelo nos empurrava ao abismo, fato consumado com a eleição de um doente.

A ira me adoeceu e continua a me adoecer, mas não posso cruzar os braços, entoar um mantra e supor que está tudo bem ao meu redor. Minha luta por justiça social continuará e eu tenho certeza que despertará minha ira milhares de vezes mais. Que assim seja, mas eu não vou desviar nem um milímetro do meu caminho.

Você continua existindo em nós…

Por Caroline Moura

Certa vez ouvi falar que saudade é o amor que fica, é um paradoxo, ao mesmo tempo que aperta o coração o preenche de uma forma inexplicável. Hoje eu venho falar de Leonardo Moura. Meu Léo, nosso Léo, venho falar dessa saudade que não é mais dor, não é mais revolta. O tempo nos ensina a olhar essa falta com atenção e gratidão, nos ensina a separar saudade da dor. Gratidão por ter vivido a sua presença, a sua alegria, por ter bebido da fonte do amor mais verdadeiro, porque se existiu alguém que sabia amar, esse era o Léo. Vamos aprendendo a cuidar desse elo de conexão, pois por mais que ele não esteja em presença física, nós sabemos e sentimos: o espírito de Leonardo Moura não morreu, não morrerá.

Ah, menino de riso doce, abraço apertado e jeito meigo. Ah, Léo quanta falta você faz! Se eu pudesse, conseguisse escrever um pouco mais, se a emoção não arrebatasse, se o peito não apertasse quando eu lembro daquele 11 de julho de 2016… Eu não disse que não choraria, meu choro não é de dor, não mais; eu choro a saudade que eu sinto e a saudade é o amor que fica!

E pra que minha saudade não seja “esquecida”, clamamos justiça, pedimos que a balança de nobre cobre nos dê respostas e a morte de Leonardo não siga impune. A minha saudade não tem revolta, mas tem sede de justiça!

Kabiêcile!!

#somostodosleomoura #juntosporjustica #queremosrespostas

Carnaval em Salvador: saiba como agir no caso de violência, discriminação ou preconceito

É Carnaval e todo mundo tem o direito de se divertir sem sofrer preconceito algum. O Centro de Promoção e Defesa dos Direitos das Pessoas LGBT, em Salvador, divulga algumas orientações no caso de ocorrências de agressões na capital baiana. Verifique as ilustrações abaixo e confira a lista de locais de plantão de atendimento caso você precise ou saiba de alguém que necessite.

Defensoria Pública do Estado da Bahia – DPE/BA
O plantão teve início em 28 de fevereiro, a partir das 15h, e vai até a Quarta-feira de Cinzas, às 15h.
Rua Pedro Lessa, 123 – Canela.
Telefones: (71) 3116.0511 e 99913.9108
A DPE também estará nos postos fixos da DEAM – Delegacia de Atendimento à Mulher, Centro Integrado da Infância e no Núcleo da Prisão em Flagrante.

Posto da Polícia Civil de Atendimento a Vítimas de Racismo e Intolerâncias
Largo 2 de Julho.
Telefone: (71) 3321-4167

Ministério Público do Estado da Bahia – MPE/BA
Localização dos postos fixos de atendimento do MPE/BA:
• Rua Arquimedes Gonçalves, 142 – Jardim Baiano/Nazaré.
Telefone: (71) 3321.1979
• Centro Integrado de Atendimento ao Adolescente, Av. Bonocô, s/n.
Telefone: (71) 3321.1949
• Central de Flagrantes, Plantão do Judiciário, incluindo Audiências de Custódia
Rua Antônio Carlos Magalhães, 4425
Telefone: (71) 3116.4699

DEAM – Delegacia Especial de Atendimento à Mulher
Com plantões de 24 horas, as DEAMs estarão em funcionamento nas unidades fixas e postos instalados no circuito do carnaval.
Unidades fixas da DEAM:
• DEAM – Rua Padre Luiz Figueira, 180 – Engenho Velho de Brotas.
Telefone: (71) 3116.7000
• DEAM – Rua Dr. Almeida, 72 – Periperi.
Telefone: (71) 3117. 8203
Três postos foram instalados no circuito do carnaval, são eles: Ondina (Gordinhas), Barra (Rua Airosa Galvão) e Largo dos Aflitos.

Hospital da Mulher
Em casos de violência sexual (estupro) de adolescentes, mulheres cis e transexual.
Rua Barão de Cotegipe, 1153 – Roma/Cidade Baixa.
Telefone: (71) 3034.5005

Serviço Viver
Em funcionamento na sede do Instituto Médico Legal (IML), das 8h às 17h, é unidade para acolhimento e referenciamento em caso de estupro. Também disponibiliza a profilaxia pós-exposição.
Av. Centenário, 990 – Vale dos Barris.

Hospital Municipal de Salvador (HSM)
O hospital fará atendimento especializado para meninas menores de 12 anos e meninos de 0 a 16 anos vítimas de violência sexual durante o carnaval.
2207, Via Coletora B, Cajazeiras, 1933 – Fazenda Cassange.
Telefone: (71) 3202.3500

Disque Denúncia de violência contra a Mulher e a população LGBT
• Disque 180
• Disque 100

UPA (Unidade de Pronto Atendimento)
Funcionamento 24 horas. Em casos de possível exposição ao vírus da aids (HIV), hepatites e outras IST, a profilaxia pós-exposição deverá ser realizada em até 72 horas nas seguintes UPAs:
• Vale dos Barris: Praça Dr. João Mangabeira, 102 – Barris
• Prof. Adroaldo Albergaria: Rua das Pedrinhas, s/n – Periperi
• Alfredo Bureau: Rua Jaime Sapolnik, Marback – Stiep
• Valéria: Rua do Lavrador, s/n – Valéria
• Hélio Machado: Rua da Cacimba, s/n – Itapuã

Secretaria de Políticas para as Mulheres – SPM
Unidade móvel para orientações e encaminhamentos.
Ponto de referência: esculturas das Gordinhas, em Ondina.
Telefones: (71) 986257654 e 999139108

Perda de documentos
Os documentos perdidos e encontrados poderão ser pegos na Guarda Civil Municipal (GCM), na Avenida San Martin, ao lado do Colégio Modelo Luís Eduardo Magalhães, das 8h às 17h, até o dia 15 de março. A relação de documentos achados é atualizada diariamente e fica disponível no site da GCM.

Delegacia Digital
Em caso de perda de documentos, objetos e furtos, você pode fazer o registro da ocorrência por meio do site da Delegacia Digital: www.delegaciadigital.ssp.ba.gov.br

Revistas
A eventual revista do público feita por agentes de segurança é prevista em lei, não se negue em caso de abordagem. Mas atenção! Ela deve ser feita de forma respeitosa, sem constrangimentos e excessos. Mulheres devem ser revistadas apenas por mulheres e a sua identidade de gênero é definida por você e deve ser respeitada!

“Vou sequestrar e estuprar sua mãe”. Veja as ameaças que Jean recebeu

Parlamentar chegou a seu limite quando mensagens passaram a falar em explosões e decapitações de familiares

Por Thaís Chaves
Publicado pelo portal Carta Capital, em 25 de janeiro de 2019

Um e-mail apócrifo com destino aos assessores. Foi dessa forma que duas horas após a publicação, na última quinta-feira (24), da entrevista que anunciava a renúncia ao seu terceiro mandato como deputado federal e sua saída do Brasil devido às ameaças de morte que recebia, que Jean Wyllys (PSOL), recebeu a seguinte mensagem:

“Nossa dívida está paga. Não vamos mais atrás de você e sua família, como prometido. Mesmo após quase dois anos, estamos aqui atrás de você e a polícia não pôde fazer nada para nos parar”.

Transportado por dois carros blindados e três agentes federais, desde março de 2018 o deputado recebe escolta policial. Entretanto, é desde 2011, quando assumiu seu primeiro mandato, que recebe ameaças. Foi em dezembro de 2016 que Jean diz ter recebido a mensagem que mais lhe assustou. Com o título “bichona”, o texto do e-mail dizia: “Você pode ser protegido, mas a sua família não. Já pensou em ver seus familiares estuprados e sem cabeça?”.

Poucos dias depois, o mesmo remetente enviou a Wyllys e seus irmãos endereços e placas de carro dos membros da família. Mas as ameças não pararam por aí. Em 15 de março de 2017, o deputado recebeu mais um e-mail, desta vez, com seus dados pessoais, endereço, placa de seu veículo, nomes de seus familiares e para intimidá-lo, informações de como elaborar explosivos:

“Eu vou espalhar 500 quilos de explosivo triperóxido de triacetona, explosivo tão perigoso e potente que é chamado de mãe de Satan pelos terroristas do Estado Islâmico. […] Se vocês duvidam que tenho capacidade para fazer isto, apenas vejam como é fácil produzir o explosivo”.

A mãe do deputado também sofreu ameaças na mesma mensagem:

“Vamos sequestrar a sua mãe, estuprá-la, e vamos desmembrá-la em vários pedaços que vamos te enviar pelo Correio pelos próximos meses. Matar você seria um presente, pois aliviaria a sua existência tão medíocre. Por isso vamos pegar sua mãe, aí você vai sofrer”.

Em entrevista à reportagem do jornal O Globo, que revelou estas e outras ameaças, um dos assessores do deputado afirma que o endereço de IP do dispositivo que disparou esta mensagem é da Califórnia, nos EUA. Outro assessor do deputado confirmou a Carta Capital a veracidade de todas as mensagens publicas. Segundo o assessor, todas as mensagens estão em posse da Polícia Federal, que já abriu cinco investigações sobre esses conteúdos. “Vou te matar com explosivos”, “já pensou em ver seus familiares estuprados e sem cabeça?”, “vou quebrar seu pescoço”, “aquelas câmeras de segurança que você colocou não fazem diferença” foram algumas das ameaças que o deputado recebeu.

Na entrevista, o deputado conta que desde o assassinato da colega de partido, Marielle Franco, em março de 2018, saía pouco de casa e sempre com o objetivo de cumprir compromissos do trabalho. A assessoria do deputado revelou também que em 20 de março de 2018, durante o ato ecumênico que marcou os sete dias do assassinato da vereadora, ele recebeu uma mensagem que sabiam onde ele estava e que “deveria tomar cuidado porque seria o próximo”.

A Polícia Federal confirmou que parte das ameaças que Jean recebia partiram da quadrilha de Marcello Valle Silveira Mello, que havia sido preso em maio de 2018 pela Operação Bravata, condenado por associação criminosa, divulgação de imagens de pedofilia, racismo, coação, incitação ao cometimento de crimes e terrorismo cometidos na internet.

Em 2012, Marcello já havia sido investigado pela Polícia Federal na Operação Intolerância, por realizar postagens incitando o ódio contra negros, judeus, mulheres, homossexuais e nordestinos. Ele era um dos principais agressores online de Dolores Aronovich, famosa ativista feminista do país.

Segundo a assessoria do deputado, na época da investigação da Operação Tolerância, a Câmara dos Deputados havia flagrado que a quadrilha a que Marcello pertencia havia estado nas dependências do anexo 4 do Congresso Nacional com o objetivo de testar e conhecer a segurança do local. A assessoria reforça a gravidade das ameaças a Jean a partir de um caso que veio a público: em outubro de 2018, André Luiz Gil Garcia, de 29 anos, rapaz que fazia parte da quadrilha, atirou contra uma moça em Penápolis (SP) e fugiu. Ao ser encontrado pela Polícia Militar, se matou, tendo atirado contra o próprio peito. A cantora Simony e a neta da apresentadora Monique Evans também já haviam sido ameaçadas por membros da quadrilha.

No mesmo mês, Jean recorreu a Comissão Interamericana de Direitos Humanos relatando as ameaças sofridas e a ausência de medidas protetivas do Estado brasileiro. A Comissão chegou a se manifestar em favor do deputado, mas não o cerceou de alternativas.

Quem assume o mandato de Jean Wyllys é seu suplente, David Miranda (PSOL), vereador pelo Rio de Janeiro desde 2016. David, que assim como Jean, é LGBTI, se manifestou nas redes sociais na tarde da última quinta-feira (24) defendendo o colega de partido e rebatendo um tweet do presidente Jair Bolsonaro.

Documentário “A Facada no Mito” é impressionante e exige resposta da PF

Ao terminar de assistir “A Facada no Mito”, quero dizer que ficou abalada a minha convicção inicial de que era impossível o atentado a Bolsonaro ter sido uma armação

Publicado pelo Blog do Rovai, coluna política do portal Fórum, em 30 de dezembro de  2018

https://www.revistaforum.com.br/blogdorovai/2018/12/30/documentario-a-facada-no-mito-e-impressionante-e-exige-resposta-da-pf/

A partir de uma matéria originalmente publicada na Rede Brasil Atual, caí no canal do YouTube “True or Not” que foi criado apenas para divulgar o documentário anônimo “A Facada no Mito”. A primeira impressão é de que assistiria a um vídeo amador mal feito e que não mereceria qualquer credibilidade. Vamos dizer que há meia verdade na minha primeira impressão.

O documentário é de fato amador, provavelmente feito por pessoas sem formação em audiovisual ou jornalismo. Não é narrado. É baseado em imagens do dia do atentado a Bolsonaro, acompanhado de música e textos que questionam o que de fato aconteceu.

A questão é que mesmo sendo totalmente amador, o vídeo conduz quem assiste a uma série de dúvidas sobre o tal atentado e merece ser tratado como um novo objeto nas investigações acerca do que ocorreu naquele 6 de setembro.

Sua tese central é de que o atentado foi uma grande armação. Muita gente já achava isso naqueles dias. E o jornalista que escreve nunca deu bola para essa suspeita, entre outras coisas, porque fabricar um atentado envolvendo hospitais não me parece algo possível.

Ainda acho a hipótese muito improvável, mas ao terminar de assistir “A Facada no Mito” quero dizer que minha convicção inicial ficou abalada. E que a partir de agora considero importante que a sociedade tenha respondida uma série de questões realizadas pelo documentário.

Porque, entre outras coisas, o vídeo mostra cenas de uma primeira tentativa de ataque de Adélio Bispo que teria sido assistida por vários dos seguranças de Bolsonaro. E que teria ocorrido após uma contagem regressiva de um deles com os dedos de uma das mãos que começa cheia, com cinco dedos e vai diminuindo um a um até chegar no zero. Momento em que Adélio parte para o ataque.

Essas pessoas que estão o tempo todo próximas a Adélio são marcadas em atos suspeitos no vídeo e parecem de fato ter agido em conjunto com ele. No momento da segunda tentativa de agressão, que foi a que teria ferido Bolsonaro, são elas que prendem Adélio e o protegem de ser agredido e morto ali no local da ação.

Além de mostrar um a um esses supostos envolvidos, o vídeo também aponta contradições em relação ao ferimento e à faca que foi apontada como a usada. E defende a tese de que o instrumento utilizado não seria o apresentado, mas sim um “folding knife”, uma faca dobrável. E que por isso não há sangue no ferimento, já que a facada não teria ocorrido.

Os argumentos e as cenas apresentadas por incrível que possa parecer fazem muito sentido. Mas não explicam algo fundamental, se o evento foi produzido com tanta gente envolvida por que até agora a armação não veio à tona?

De qualquer maneira, há uma outra questão que o documentário chama atenção e que não havia sido tratada com importância devida. No dia do atentado, um fotógrafo do jornal Tribuna de Juiz de Fora, Felipe Couri, estava produzindo imagens. No exato momento em que Bolsonaro é atacado ele teve sua atenção desviada e não conseguiu fazer a foto que provavelmente o levaria a ganhar prêmios de jornalismo, mas mesmo assim foi retirado do local por um segurança de Bolsonaro de forma agressiva.

O jornal Tribuna de Juiz de Fora registrou o fato da seguinte forma:

A matéria pode ser lida neste link.

É imprescindível que a Polícia Federal responda as questões apresentadas no vídeo. E que as pessoas citadas como parte da ação de Adélio Bispo venham a público dizer o que ocorreu naqueles minutos entre o primeiro ataque, o segundo ataque e a prisão do esfaqueador.

Sem essas respostas, o atentado a Bolsonaro entra para o rol daqueles eventos em que a gente nunca sabe direito se ocorreu da forma como se diz.

Autor de assassinato homofóbico na Paulista diz que estava brincando

Homem que matou o cabeleireiro Plínio Henrique de Almeida Lima disse que “fez uma brincadeira” quando disparou ofensas homofóbicas à vítima e seu marido

Publicado pelo portal Fórum, em 26 de dezembro de 2019

(Foto: reprodução)

O cozinheiro Fúvio Rodrigues de Matos foi preso e confessou ter assassinado o cabeleireiro Plínio Henrique de Almeida Lima, na última sexta-feira (21), na Avenida Paulista com a Brigadeiro Luís Antônio, em São Paulo. O autor do crime disse à Polícia que fez “uma brincadeira” com a vítima, seu marido e mais um casal de amigos.

De acordo com o delegado Hamilton Costa Benfica, do 78º Distrito Policial (DP), nos Jardins, “Fúvio disse que subia com um colega de trabalho a [Avenida] Brigadeiro, fez uma brincadeira quando uma pequena chuva começou, e nessa brincadeira [disse]: ‘anda que nem homem’. Os rapazes que também subiam à [Avenida] Paulista, o casal homossexual, com outros dois colegas, ali eles teriam ouvido essa frase e começou um desentendimento”.

O marido de Plinio e os dois amigos “falam com muita clareza que o tempo todo Fúvio vinha falando frases de cunho homofóbico, provocando, falando frases bem fortes, tipo: ‘seus bichinhas etc’, e no final falou ainda: ‘gays têm de morrer’. E foi o momento do entrevero entre as partes, e que Fúvio acabou desferindo com canivete, ferindo o peito da vítima”.

O canivete que matou Plinio foi apreendido com o autor do assassinato. A Justiça decretou a prisão temporária de 30 dias do investigado, que deverá ser indiciado pela polícia por homicídio qualificado por motivo fútil.

Para a polícia, o cozinheiro teve a intenção de matar o cabeleireiro pelo fato de ele ser homossexual. Segundo a investigação, testemunhas contaram que a vítima, o marido dela e um casal de amigos gays foram vítimas de xingamentos homofóbicos. “É um homicídio no meu entender de forma qualificada porque a questão homofóbica é o motivo fútil”, disse. “Uma pena muito alta: 12 a 30 anos, que é justificada por tirar a vida de uma pessoa por um fato tão banal”.

Homofobia mata

Relatório do Grupo Gay da Bahia (GGB), entidade que levanta dados sobre assassinatos da população LGBT no Brasil há mais de 30 anos, mostrou que em 2017, 445 lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais (LGBTs) foram mortos em crimes motivados por homofobia. O número representa uma vítima a cada 19 horas.

O estado com maior registro de crimes de ódio contra a população LGBT foi São Paulo (59), seguido de Minas Gerais (43), Bahia (35), Ceará (30), Rio de Janeiro (29), Pernambuco (27) e Paraná e Alagoas (23).

Os dados de 2017 representam um aumento de 30% em relação a 2016, quando foram registrados 343 casos. Em 2015 foram 319 LGBTs assassinados, contra 320 em 2014 e 314 em 2013. Ainda não foram divulgados os números de 2018.

Mãe e padrasto são acusados de matar garoto de 10 anos após ele dizer que “gostava de meninos”

Anthony Avalos teria sido torturado e morto semanas depois de dizer que “gostava de meninos” (Foto: Acervo Pessoal)

Por Rangel Querino
Publicado pelo portal Observatório G, em 29 de junho de 2018

Um caso de homofobia brutal contra um menino de dez anos chocou a população dos Estados Unidos por ter a autoria da própria mãe e o padrasto. A motivação para o crime teria sido o menino dizer que “gostava de meninos”. A polícia de Los Angeles está investigando o ocorrido que teria a hipótese de tortura antes do assassinato.

A polícia local atendeu a um chamado de emergência, ao chegar lá, Heather Barron alegou que o filho Anthony Avalos havia sofrido uma queda. O menor apresentava lesões e marcas de queimaduras de cigarro por todo corpo que indicaria sessões de tortura as quais foi submetido. A criança foi socorrida, mas não resistiu aos ferimentos.

De acordo com o diretor do Departamento de Serviços para Crianças e Famílias da Cidade norte-americana, Brandon Nichols, o garoto havia dito que “gostava de garotos” semanas antes da morte e os investigadores analisam se a homofobia foi um fator determinante para o crime.

O casal já havia respondido por pelo menos 16 denúncias de abuso infantil. Sendo 13, queixas que envolviam Anthony e outros três tiveram como vítima os outros filhos do casal. Os registros foram feitos em 2013, ano que a vítima tinha sido sexualmente abusada por um dos seus avôs.

Como se não bastasse, Brandon conta que o casal negava alimentação às crianças, que também sofriam agressões dos responsáveis, como o fato de pendurá-los de cabeça para baixo e também comerem lixo.

Depois do Atentado

Como a morte de Marielle Franco mudou nossas vidas

Antonia Pellegrino*
Publicado pelo portal Piauí, em abril de 2018

Ilustração: Laerte

Faz um ano que eu entrei em uma sala de cinema com Marcelo Freixo. Estávamos nos conhecendo de novo, e pela primeira vez. Desde sua campanha à Prefeitura do Rio em 2012, a gente se cruzava em atos, eventos e reuniões. Até uma noite de Carnaval mudar a forma como sempre nos olhamos.

Era assunto entre nossos amigos o filme Eu Não Sou Seu Negro. E naquele entardecer abafado de março, sua escolta nos deixou na porta da pequena sala gelada da Candido Mendes, em Ipanema. À medida que a projeção narrava, nas palavras do escritor James Baldwin, a morte de líderes negros em luta pelos direitos humanos, minha voz sumiu. Era como se o destino falasse comigo.

Um ano depois, o que havia de trágico no filme se impôs. Na noite de 14 de março eu estava no meu quarto, recostada numa poltrona, com minha filha no colo e as pernas esticadas sobre o colo do Marcelo. Falávamos sobre as eleições de 2018 e a decisão que seria anunciada na semana seguinte: Marielle Franco seria candidata à vice-governadora pelo partido deles, o PSOL.

Desde a primeira noite em que dormimos juntos, Marcelo me avisou que nunca desliga o telefone. “Rebelião em presídio não tem hora”, justificou ele. Eram nove e meia da noite quando o telefone dele apitou como um grilo. A tela escura do iPhone vibrou com o nome Arlei. “É o chefe de gabinete da Mari”, ele disse, sem atender. Um segundo depois, Arlei. Havia urgência no toque. “Atende, aconteceu alguma coisa”, eu disse.

O pranto agônico de Arlei inviabilizava a comunicação. Coloquei minha filha na cama e liguei a televisão baixinho. Me aproximei do Marcelo e do telefone para tentar ouvir. Arlei balbuciava que havia acontecido alguma coisa. Um assalto, um tiroteio, ninguém sabia direito. Mas Marielle, uma assessora e o motorista estavam no carro alvejado.

A primeira pessoa para quem Marcelo ligou naquela noite foi o novo chefe da Polícia Civil, Rivaldo Barbosa. Depois houve outro telefonema para Arlei, em que Marcelo perguntava de uma forma que só quem é íntimo da morte tem coragem: “Mas mataram a Mari? Ela está morta?”

Doze anos atrás Marcelo perdeu um irmão assassinado pela milícia, alvejado por alguém em uma moto que emparelhou com o carro dele, perto do prédio onde morava. Cotidianamente, Marcelo recebe na Comissão de Direitos Humanos do Rio de Janeiro o refugo da guerra às drogas: familiares de policiais mortos, mulheres vítimas de estupro coletivo, ativistas ameaçados, mães destroçadas por tiros de fuzil. Como 80% dos homicídios no Brasil, o do irmão do Marcelo nunca foi esclarecido e julgado. Ele sente saudades, e a gente sabe que essa saudade não passa.

Sua luta por justiça acontece na institucionalidade. No trabalho de parlamentar, na comissão ou em CPIs, como a das milícias. Graças a esta CPIs, faz uma década que Marcelo convive com ameaças, seguranças e carro blindado. Naquela manhã de 14 de março, havia saído uma reportagem sobre os dez anos da CPI. E ele me encaminhou o link junto com um áudio explicando que pedira ao jornalista para não centrar a narrativa nele, porque queria ter uma vida mais normal comigo. Seus olhos estavam esgazeados quando ele desligou o telefone, dizendo: “Mataram a Marielle.”

Às 22h01, já na Lagoa Rodrigo de Freitas, eu tentava digitar no Waze o endereço que mudaria as nossas vidas, quando o ativista Raull Santiago escreveu em um grupo de WhatsApp: “Gente. Pelo amor de Deus, alguém aí? Tudo bem no Rio???” Era um grupo do qual Marielle fazia parte. Uma pessoa perguntou: “Em que sentido?” Raull seguiu perguntando com pontos de interrogação cada vez mais numerosos: “Todos do nosso grupo estão bem?????” Comecei a digitar “ela foi…”, mas a palavra assassinada é brutal demais. Desesperado, Raull dizia que tinha recebido uma informação grave, que precisava confirmá-la porque podia ser trote. Eram 22h05 quando ele perguntou por Marielle. Eu respirei, segurei o telefone com alguma firmeza e fui até o fim: ela foi assassinada.

A rua Joaquim Palhares fica atrás do prédio da Prefeitura. É uma área pouco movimentada à noite. À sua direita, tem uma rua larga chamada João Paulo I. Naquela noite a rua com nome de papa estava iluminada pelas luzes vermelhas da sirene da polícia. Marcelo estacionou sua viatura, como ele chama, paralela ao Agile branco com o vidro estilhaçado. Atravessamos o asfalto vazio até cruzarmos a fita de contenção. Tive um pranto súbito ao ver o motorista morto com a cabeça caída e a boca aberta, e Marielle desabada com tiros na cabeça no banco de trás.

“Por que ela? Por que fizeram isso com a Mari? Eu não vou mais ver minha amiga”, eram as frases que Marcelo repetia abraçado a mim, numa vertigem de emoções que estaria apenas começando. “Por quê, meu Deus? Por que ela? A minha amiga… Ela era a nossa madrinha.”

Minha história com a Marielle começa em 2013 no apartamento do Jaílson e da Eliana Souza Silva, ambos lideranças na favela da Maré, onde ela nasceu e foi criada. Àquela época, Mari era casada com o então chefe de gabinete do Marcelo. Na minha memória ela usava os cabelos longos e alisados. Sempre foi grandona, exuberante e carismática. Tinha aquele sorriso de corpo inteiro que explodia na boca. Mas ainda não brilhava tanto. Sua cintilância veio com o empoderamento.

A partir dos últimos meses de 2015, o Brasil foi tomado, nas ruas e nas redes, pela onda feminista. E Marielle foi uma das que fez a onda acontecer. Clássica articuladora de atos e da militância, sua candidatura brotou do seu desejo de colorir o espaço legislativo e representar as negras, os favelados, as mulheres, os LGBT, as jovens, os militantes de direitos humanos. “Eu sou porque nós somos” era seu slogan de campanha, em cujo material impresso aparecia sua figura altiva de cabeleira crespa. Acho que nesta época a Mari ficou até mais alta, não sei se pelo salto ou pela postura que se abriu.

Nossos pés sempre pisaram em salas muito diferentes, embora tenhamos nos formado, em épocas distintas, no mesmo curso de ciências sociais da PUC-Rio. Eu sou uma filha do privilégio. E Marielle era cria da favela da Maré. Sendo quem eu não era, ela era o meu desejo de democracia para o Brasil. O melhor que nós temos como sociedade. Impossível não participar de sua campanha a vereadora. Estive presente em um dos seus primeiros comícios domésticos, na casa da mãe da minha amiga Lola Werneck. Saí de lá com a data para um comício na minha casa, a ser feito em dupla com Nilcea Freire, também candidata. Era o auge da polarização entre coxinhas e mortadelas, e eu convidei minha lista quase inteira de contatos. Sabia que muitos não iriam, mas boa parte sublinharia o nome de uma ou outra em suas anotações mentais.

Foi uma bela noite, de sala cheia. Depois, filmamos uma entrevista para a Mídia Ninja, na qual ela me contou sua história. Mari passou a colaborar com o #AgoraÉQueSãoElas, blog da Folha de S.Paulo que edito. E na noite em que o cometa Marielle Franco cruzou o céu da política carioca com seus mais de 46 mil votos, fui à Lapa comemorar. Nos abraçamos.

história do Marcelo com a Marielle é de vida. De professor e aluna no pré-vestibular comunitário. De militância dela na primeira campanha dele a deputado estadual. De coordenadora da comissão por ele presidida. De cria política, de herdeira, de filha, de amiga. Suas muitas camadas de afeto e construção coletiva não cabem em poucas linhas. É uma história de amor. Onde o combinado sempre foi falar sobre todos os assuntos, mas nunca deixar de conversar sobre a vida pessoal.

Foi numa destas conversas, no início de 2017, que a Marielle disse: “Você devia namorar alguém tipo Antonia Pellegrino.” Semanas depois, na primeira madrugada de Carnaval, durante a concentração do bloco Amigos da Onça, quando Marcelo me viu, a frase da Marielle ecoou como um raio.

Agora ela já não fala mais. Seu corpo está inerte, embaixo de um plástico preto, estendido sobre a calçada. A polícia já isolou o carro, as cápsulas de bala, os estilhaços. Fomos removidos para a esquina, onde ninguém corre o risco de ver imagens fortes. Há espanto, medo e perplexidade nos olhos de quem chora nesta cena do crime. Uma execução política feita com pistola 9 milímetros e nenhuma ameaça. Um recado direto, enviado não se sabe por quem, mas que ameaça a todos.

Sentamos no meio-fio. Passo água na nuca do Marcelo, o abraço, beijo seu rosto. De repente, homens comemoram um gol. Logo ali, a vida seguia alheia. Marcelo levanta e segura a onda. De si e de todos. Conversa com a polícia, organiza com o vereador Tarcísio Motta como serão os velórios, providencia a ida da testemunha para a delegacia, fala com a imprensa. É abraçado pelos amigos, que desabam. E me fala que precisamos conversar em casa.

São duas da manhã quando o corpo é levado para o IML e não há mais o que fazer ali. Como naquela sessão de cinema, fico sem voz. Choro do Estácio até minha casa. Abro a porta do blindado com o pé e vou buscar uma bolsa com roupa. Sobre a minha cama, minha filha dorme. Sento ao lado dela, faço um carinho no rosto. Não quero que ela acorde e me veja coberta de lágrimas, mas é impossível sair de perto dela naquele momento. Ela é pura vida. Os limites do seu futuro estão sendo definidos pelo que aconteceu hoje. Ela abre os olhos, cheia de sono. Eu sou toda a desesperança do mundo. Faço carinho em seu rosto. Ela coloca o travesseiro entre as pernas, vira para o lado e volta a sonhar.

A imagem do carro alvejado com os cadáveres não desgruda da minha cabeça. Entendo e não entendo o que está acontecendo. Limpo o rosto. Respiro. E pela primeira vez naquela noite, entro nas redes sociais. Não era só a gente que não dormia. Uma convulsão devorava as timelines. Marielle começava a ressuscitar.

No apartamento do Marcelo, o gás do banheiro não funciona. Depois do horror, o banho gelado. A água cai sobre minhas costas, quando ele diz: “Eu sei que você me ama, mas eu entendo se você quiser se separar. Você não precisa viver comigo.” Sabemos sobre o que ele fala. Só no ano retrasado, um defensor de direitos humanos morreu no Brasil a cada cinco dias; ao todo, foram 66 vítimas. Boa parte delas são pessoas que, como a Marielle e o Marcelo, nasceram nas periferias e não tiveram outra opção senão lutar. Pelo mínimo: ser tratados como gente e ter direitos. Mas o mínimo, no Brasil, é excesso de ousadia.

Às seis da manhã o celular começa a tocar. São jornalistas dos programas de rádio de todo o país, jornalistas da grande mídia, jornalistas do periódico estudantil de uma cidade obscura, jornalistas. Todos querem saber quem matou Marielle, como se Marcelo fosse da polícia. Todos querem saber qual a linha de investigação, como se isso pudesse ser dito. Algumas pessoas completamente sem noção também ligam, mas ele não atende. Sem noção absoluta, elas insistem duas, três vezes. Cato o telefone e começo a filtrar as ligações com o que me resta de voz.

Na frente do prédio da Polícia Civil, no Centro do Rio, eu desço do carro na manhã do dia 15 de março e me lembro de ter encontrado a Mari naquela esquina, distribuindo os leques da sua campanha Carnaval Sem Assédio. Agora estamos ali para cobrar o esclarecimento da morte dela e do motorista Anderson Pedro Gomes.

Músculos, ternos e homens com um distintivo pendurado no pescoço. Essa é a paisagem da sala do chefe da Polícia Civil, amigo de longa data do Marcelo. Eles conversam sobre como as pessoas pensam que defensores de direitos humanos e policiais não dialogam. Marcelo observa que, no Brasil, trabalhar com direitos humanos é trabalhar com homicídio. “Meus amigos na Europa não vivem assim”, diz ele. E completa: “Essa execução política abre um novo campo de disputa civilizatória: entre a barbárie e a democracia. A linha que divide estes dois campos está sobre o corpo da Mari: são os direitos humanos.”

Vou ao banheiro da vice-diretora da Polícia Civil e, pela primeira vez depois de horas, me olho no espelho. Não me reconheço no olhar aflito, a cara pálida, as olheiras e o cabelo desgrenhado muito além do normal. O teto do mundo ficou mais baixo de um dia para o outro. Dou um jeito no cabelo. Mando mensagem para amigas pedindo uns óculos escuros. Uso a maquiagem da vice-diretora para recuperar alguma dignidade. De volta à sala de reunião, a imprensa já está organizada para o pronunciamento das autoridades. Eles garantem que o crime não vai ficar impune. Não vai. Saio dali com os telefones de quatro delegados registrados no celular. Em que momento eu cruzei essa linha de onde já não é mais possível voltar atrás?

Ainda é de manhã, mas a bateria do telefone já precisa ser recarregada. As mensagens não param de chegar, por todos os inboxes possíveis. Na rede, um paiol de Marielles explodiu. O carro estaciona na lateral da Câmara dos Vereadores. Vamos de mãos dadas entre as pessoas, em direção à Sala Inglesa onde nossos amigos aguardam os caixões de Marielle e Anderson para o velório. Nas paredes da entrada da Câmara, há três painéis de pastilhas coloridas que mostram imagens de um Brasil da inocência: um homem pescando, um homem na lavra, uma lenha sendo cortada. Depois da noite passada, tudo isso ficou para trás.

A Sala Inglesa é ampla e toda forrada com madeira escura. Lá estão aqueles que quem matou a Marielle deve chamar de feminazis, preto imundo, mulher que pensa que é homem, veado, favelado, mulher que beija mulher, essa gente toda errada que ousa dizer que as desigualdades brasileiras não são normais. Novamente a espiral de soluços, e por quê, meu Deus, por que a Mari? O horror percebe onde há força, e ataca. O recado inequívoco passado na execução instaura o medo. A rajada que assassinou a Marielle e o Anderson atinge em cheio as muitas mulheres negras que trabalham em seu gabinete e outras tantas parceiras de militância. Atinge a força motriz dos mais velhos, com décadas de vida dedicadas à segurança pública e aos direitos humanos. Atinge a todos. Para ninguém cair, os corpos chacoalham nos abraços e o desespero encontra algum abrigo.

Monica Benício, companheira da Marielle, chega com um vestido longo e branco sobre o corpo trêmulo. Marcelo a abraça. Coloco as mãos nas costas dele, nas costas dela. Somos uma rede de acolhimento. Na nuca dela, o cabelo revela a tatuagem: amor fati. Duas palavras, uma ode de amor ao destino, um pacto de aceitação integral da vida com seus aspectos mais cruéis e dolorosos. Em que momento ela anteviu seu fado e respondeu na pele?

Marcelo me conduz pela mão e vamos caminhando com passos rápidos entre a multidão, até entrarmos em outra sala, onde a gravidade é mais intensa. É a sala onde estão os familiares. A mãe, Marinete da Silva, é uma senhora bonita, de expressão forte, com os mesmo traços da filha morta. Aos 66 anos, ela passa as mãos de dedos longos e unhas bem-feitas sobre o rosto, incrédula. Sentada em uma cadeira, diz que nunca quis que a filha entrasse para a política. Do outro lado, Luyara Santos, a filha de 19 anos, com a cara redonda de criança e aparelho fixo nos dentes, grita num lamento sentido: “Eu quero a minha mãe, eu quero a minha mãe de volta.” “Tiraram um pedaço de mim”, repete a mãe. “Eu quero um abraço da minha mamãe”, diz a filha. Sobre a enorme mesa de jacarandá, na cabeceira mais distante, vejo um bebê negro deitado com as pernas gordinhas para cima, prestes a ser amamentado pela mãe que tira o peito para fora. De onde eu venho, a gente não tem amigos assassinados e acha que “gente é pra brilhar”, como dizem os versos da canção. De onde a Marielle, o Anderson e provavelmente aquele bebê vêm, todas as tias já limparam sangue da calçada. Metade dos amigos do Marcelo está morta. A outra metade virou pastor, traficante ou professor. A cidade onde todos nós vivemos é disfuncional. O Rio concentra mais armamento pesado que um país em guerra e tem dois aplicativos que avisam onde há tiroteio. Aqui, preto é cor de elemento suspeito, e elemento suspeito tem 23,5% mais chance de morrer jovem, porque a gente elimina.

“Os corpos estão chegando”, nos avisam. Não tenho ideia de que horas são quando descemos as escadarias do Palácio Tiradentes em direção à rua. Faz sol e uma multidão está lá fora, ocupando a praça da Cinelândia. O burburinho dá lugar a um silêncio solene enquanto o Marcelo atravessa o espaço aberto para a passagem dos caixões. Vamos até onde aguardam os outros deputados e vereadores do partido da Marielle. A comoção é geral.

Sem comer há muitas horas, vou ao pipoqueiro, peço uma pipoca salgada, enquanto tomo um Guaravita com gosto de chiclete. Um helicóptero sobrevoa a praça. O som da hélice lança uma urgência estável que aumenta a angústia. É aqui que ouço pela primeira vez uma mulher gritar no microfone: “Marielle!” E a multidão responder: “Presente!”

A brutalidade da sua ausência me leva aos prantos enquanto cato centavos na carteira. Choro por trás dos óculos escuros, me forçando a comer pipoca, enquanto observo as centenas de pessoas que pararam suas vidas para estar ali. São muitas mulheres, mulheres negras, mulheres negras lésbicas, mulheres negras de favela, mulheres brancas trans, homens negros, jovens de favela, são muitas Marielles no desejo de cada uma daquelas centenas de pessoas que ocupam e choram e fazem unidas o seu luto em praça pública.

“Há instantes privilegiados em que um destino pessoal se dissolve no movimento da história. Nesses instantes, a formidável alquimia da história faz refulgir, com luz imperecível, o destino no qual toca”, escreveu meu avô, Hélio Pellegrino, sobre a morte do estudante Edson Luís, cujo velório aconteceu neste mesmo palácio, há exatos cinquenta anos, no mês de março. Mas estas palavras também poderiam ter sido escritas para Marielle.

Um segurança me segue entre as pessoas até o Marcelo. Vejo os carros da funerária se aproximando. A gente se olha nos olhos. Toda a descarga emocional até aqui foi uma preparação para o que ainda virá. Quando os veículos encostam onde estamos, me vejo entre o grupo de mulheres que vai levar o caixão de Marielle, com o Marcelo e David Miranda à frente, segurando a parte mais pesada do corpo, a cabeça. No momento em que o porta-malas é aberto e o caixão fechado começa a ser retirado toda a espécie de firmeza que consegui manter se esvai pelas minhas pernas trêmulas.

Minha mão direita segura a alça dourada do caixão. Dai-me força, dai-me força é o mantra que me vem. Mantenho a mão firme e o resto do corpo é tomado por um pranto incontrolável. Começamos a andar com pequenos passos para que todos possam se despedir, inclusive nós. Olho ao redor e vejo desespero, bocas abertas, um choro que faz o corpo arquear. Falta ar naquela praça aberta cujo silêncio dolorido é atravessado pela rajada do helicóptero. Estamos todos com um espinho enfiado na carne.

Depois que atravessamos as escadarias e os corredores de volta ao Palácio Tiradentes, finalmente deixamos o caixão sobre o apoio, onde a família pode velar o corpo. Anielle Silva, a irmã de Marielle, é a pessoa da família que consegue se manter mais inteira e ancorar minimamente os seus. Há sempre alguém que assume este papel. E ela o desempenha como uma leoa.

Peço ao Marcelo para sairmos dali. Estou completamente esgotada. Vamos descendo e encontramos Alenice, a mãe dele. Uma senhora de 77 anos, que acabou de enterrar o marido da vida toda, mas cruzou as águas da Baía da Guanabara numa barca porque queria abraçar a mãe da Marielle. Fico num sofá por alguns minutos enquanto eles somem de volta ao velório. Apago num sono profundo que deve ter durado quinze minutos e, quando acordo, Alenice está sentada perto de mim, chorando. Ela diz, com voz mansa: “Eu sei o que a mãe dela está sentindo, eu também perdi um filho assim.” No Brasil, em 2016, 61 mil mães perderam filhos assassinados. As balas que mataram esses milhares de pessoas ficaram cravadas nos corações de seus familiares. Não foi uma ou duas vezes que vi o Marcelo dizer que a doença do pai dele foi fruto da tragédia que arrancou a vida de seu irmão.

Deixamos a mãe do Marcelo na barca e tentamos ir para o enterro, no Cemitério do Caju. O trânsito nos impede. Seguimos para o ato. Ainda não é luta, é luto. Está em nossas mãos morrer com a Marielle, ou ressuscitar com ela. Marielle era uma pessoa política, fruto da construção coletiva e do mérito. Fazia política com radicalidade, no melhor e mais nobre sentido da palavra. Mãe, negra, favelada, de axé, bissexual, feminista, de esquerda. Marielle era muitas, cabe em quase todos nós. Ela era a face luminosa dos excluídos da política, na política. Sua eleição foi uma das contundentes respostas ao “Não me representa” de 2013. Marielle era a renovação política brasileira encarnada. Daí brota seu enorme poder. Sua morte enche nossa esperança de balas. Sua morte enfiou tanto o espinho na carne que parece ter tirado o país da dormência. Sua morte nos comoveu, e nos moveu.

Até ontem os dias seguiam seu fluxo normal. Agora é possível tocar a fragilidade da vida com as mãos. Ainda é cedo para entendermos o quanto tudo mudou, mas houve um descarrilhamento. Nada vai voltar a ser como antes. Decido que não importa o tempo que tenhamos pela frente, quero que ele seja vivido ao lado do Marcelo. Sua presença amorosa, apaixonada, cuidadosa e cheia de luz me fez perceber que amar é ainda melhor que o amor. Estamos juntos há um ano, com aliança nos dedos há duas semanas. Decido que é hora de irmos morar juntos. O amor nunca vai deixar de ser uma resposta à brutalidade. E é disso que falamos quando, em todos os atos do país, unidos pelo luto, mas para dizer, eu luto, gritamos: Marielle presente, Marielle sempre.

* Antonia Pellegrino é escritora e roteirista de televisão e cinema

Cinco dos acusados pela morte da travesti Dandara são condenados

Travesti Dandara dos Santos foi torturada e assassinada em fevereiro de 2017 em Fortaleza. Crime foi filmado e compartilhado em redes sociais.

Publicado pelo portal G1, em  6 de abril de 2018

http://mobile.opovo.com.br/noticias/fortaleza/2017/03/travesti-e-espancada-ate-a-morte-no-bom-jardim.htmlCinco dos oito acusados pelo assassinato de Dandara dos Santos foram sentenciados na madrugada desta sexta-feira (6). Todos os réus julgados foram condenados com as qualificadoras de motivo torpe (homofobia), meio cruel e sem chance de defesa para a vítima.

As penas, contudo, foram individualizadas, de acordo com a participação de cada um no crime. Francisco José Monteiro de Oliveira Junior foi condenado a 21 anos em regime fechado por ter atirado em Dandara. Jean Victor Silva Oliveira teve pena de 16 anos por usar a tábua no espancamento. Rafael Alves da Silva Paiva também foi condenado a 16 anos, mas por ter agredido a vítima com chutes. Francisco Gabriel dos Reis cumprirá pena de 16 anos por ter agredido Dandara com chineladas. Por fim, Isaías da Silva Camurça foi punido com 14 anos e 6 meses por ter proferido palavas e frases ofensivas durante o ataque. As defesas de Jean e Rafael vão recorrer da decisão, por entenderem que a pena foi elevada, justificando que a agressão causada por eles não foi determinante para a morte de Dandara.

O julgamento teve início às 9h46 desta quinta-feira (5) e durou 14 horas e 45 minutos até a leitura da sentença, terminando por volta da 0h30 desta sexta-feira (6). O processo aconteceu no 1º Salão do Júri do Fórum Clóvis Beviláqua, em Fortaleza.

Dandara dos Santos foi agredida com socos, chutes e golpes de pau e pedra em fevereiro de 2017, em Fortaleza. Os acusados foram condenados por crime triplamente qualificado: sem chance de defesa à vítima, motivo torpe e crueldade. Enquanto espancavam Dandara, um dos acusados filmou o crime com um celular, imagem que foi compartilhada em redes sociais. Eles confessaram participação na agressão contra Dandara, mas negaram a intenção de matá-la.

Dos 12 acusados de participar do crime, quatro são menores que cumprem medida socioeducativa. Dois estão foragidos. Um deles, Júlio Cesar Braga, conseguiu ser retirado do julgamento por falta de provas. Outros cinco foram julgados nesta quinta.

Ação de ativistas

Um grupo de ativistas que defendem gays e travestis realizou um protesto em frente ao Fórum Clóvis Beviláqua, onde ocorreu o julgamento. Alisson Silva, que faz parte do Grupo Integrante do Coletivo Polo Trans, reforça que é importe os grupos coletivos participarem dos julgamentos e de protestos. “Para gente que somos dos coletivos dos grupos de resistência e temos como pauta essas questões LGBTs, para gente é muito importante está presente poder ver a Justiça sendo feita”.

Mãe e filha sofrem ataque homofóbico em shopping de Brasília

As duas estavam abraçadas, quando foram agredidas por um homem de cerca de 50 anos, que achou que se tratava de um casal gay.

Publicado pela Revista Fórum, em 2 de outubro de 2017

https://www.revistaforum.com.br/2017/10/02/mae-e-filha-sofrem-ataque-homofobico-em-shopping-de-brasilia/Um misto de revolta e tristeza levou uma mulher chamada Solange a gravar um vídeo emocionado, relatando um ataque homofóbico que sofreu, porque estava andando abraçada com sua filha, em um shopping de Brasília. “Moro em Brasília e ontem na Asa Norte no shopping Liberty Mall eu e minha filha fomos atacadas por um louco que achou que éramos um casal gay”, disse ela.

Ela conta que saiu do cinema com a filha de 20 anos e, ao final do filme, quando ambas estavam andando pelo shopping, foram atacadas por um homem de cerca de 50 anos, que achou que se tratava de um casal gay. Primeiramente foram ataques verbais e depois ele chegou a agredir a mãe no rosto, chamando as duas de “cretinas e safadas”.

Solange disse que resolvei gravar o vídeo, pois acha um absurdo que duas pessoas não possam andar abraçadas, mesmo que sejam homossexuais, sem serem atacadas. Ela chamou a segurança do shopping e foram todos para a delegacia, onde ela prestou queixa.

Assassinos de cabeleireiro dizem que não se arrependem e que “fariam melhor”

Publicado pelo Diário On Line, em 19 de julho de 2017

http://m.diarioonline.com.br/noticias/policia/noticia-434617-.html

(Foto: Ney Marcondes/Diário do Pará)

A crueldade da morte do cabeleireiro Akio Willy Costa Cruz chocou até os policiais que estiveram no local do crime, um quarto de quitinete de um residencial em Ananindeua, na madrugada de ontem (18).

Em depoimento, eles não demostraram qualquer arrependimento. O adolescente de 16 anos chegou a confessar que faria tudo de novo e faria melhor. “Afirmou que foi ele mesmo quem arrancou os olhos e levou no bolso de recordação. Mas os olhos não foram localizados ainda, porque diz que jogou no mato depois que a polícia chegou à casa dele”, disse a delegada Larisse Torres, da Divisão de Atendimento ao Adolescente (Data).

O rapaz relatou que já esteve internado por duas vezes no Centro de Internação Masculino (Ciam) e estava em liberdade assistida, semelhante à liberdade condicional. O outro preso, Marcelo José Souza Sacramento, disse lembrar de tudo e que o fez conscientemente. Em poucas palavras, disse não se arrepender do que fez. Marcelo foi autuado em flagrante pelo crime de homicídio triplamente qualificado.

(Com informações de Emily Beckman/Diário do Pará)

Policial suspeito de matar travesti na Paraíba confessa que “matou por não gostar de homossexual”, diz Polícia Civil

Vítima foi ferida a tiros quando se aproximou de sargento reformado da PM, enquanto ele bebia.

Publicado pelo portal G1, em 11 de julho de 2017

http://abcnews.go.com/Politics/hillary-clinton-slammed-characterization-supreme-court-gun-ruling/story?id=42965863

(Imagem: abcnews.go.com)

Um sargento reformado da Polícia Militar da Paraíba foi preso suspeito de matar uma adolescente travesti de 16 anos. O crime ocorreu na cidade de João Pessoa, no último sábado (8), e o policial foi preso nesta terça-feira (11), na cidade de Teixeira, no Sertão paraibano. O policial teria confessado o crime, na delegacia, e dito que “matou por não gostar de homossexual”, segundo informou a Polícia Civil.

O assassinato aconteceu em uma praça do bairro Funcionários II, em João Pessoa. De acordo com informações da Polícia Civil, o sargento reformado da PM estava bebendo, quando a adolescente travesti se aproximou dele. O sargento teria levantado da mesa, sacado a arma e atirado várias vezes contra a vítima, que morreu ainda no local, conforme informou a polícia.

Ainda de acordo com a Polícia Civil, depois de cometer o crime, o suspeito teria fugido da cidade. O sargento foi preso na casa de um parente na cidade de Teixeira, após o órgão receber uma denúncia anônima.

Depois de ser preso no Sertão pelo delegado Reinaldo Nóbrega, o policial foi levado até a Central de Polícia de João Pessoa, no Geisel, para prestar depoimento. Na delegacia, segundo a Polícia Civil, ele confessou o crime e alegou que foi motivado “por não gostar de homossexual”.

Por ser policial militar, o sargento foi encaminhado para o 1º Batalhão da Polícia Militar, no Centro de João Pessoa, e, nesta quarta-feira (12), será apresentado ao juiz na audiência de custódia.

Vidas LGBTs: movimento levanta a bandeira contra a impunidade e a LGBTfobia

Protesto reuniu mais de 100 pessoas no Rio Vermelho que pediram justiça no caso do jovem trans Têu Nascimento

Publicado pelo portal Correio, em 13 de maio de 2017

Coletivos LGBTs protestaram no Rio Vermelho em passeata pela avenida principal contra a LGBTfobia
(Foto: Arisson Marinho/ Correio)

Coletivos LGBTs se reuniram no Rio Vermelho em protesto contra a LGBTfobia. Concentrados em frente ao Clube San Sebastian, com velas e cartazes nas mãos, o grupo formado por cerca de 100 pessoas seguiu até a Praça da Vila Caramuru.  A mobilização foi motivada após no ultimo final de semana, o jovem trans Têu Nascimento ser tirado de dentro de casa, espancado e morto a tiros no bairro de São Cristóvão.

O caso ainda está sendo investigado pelo Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP). Segundo a mãe de Têu, Rosângela Maria, a polícia vai pedir a quebra do sigilo das redes sociais da vítima para descobrir se há algum envolvimento de alguém que com quem Têu conversava pela internet. “Estou cobrando da Secretaria de Segurança Pública uma resposta pela morte do meu filho, pois até o momento não tem nenhuma informação sobre o que aconteceu com ele”.

As entidades cobraram ainda durante a manifestação, uma posição do poder público sobre iniciativas que possam combater e criminalizar a LGBTfobia. Segundo a coordenadora do Coletivo Famílias pela Diversidade, Inês Silva, o ato é em busca de respeito. “Parem de matar nossos filhos. O Nosso objetivo aqui hoje é cobrar do poder publico respeito para com a população LGBT. Não é possível que a cada 27 horas morra um LGBT por um motivo torpe que é o ódio e que a gente não tenha o desdobramento destas investigações. Não geramos filhos para virar estatística”, disse.

Mulher trans e integrante do Movimento LGBT, Milena Passos, também reforçou a bandeira contra a violência e a impunidade. “Estamos aqui juntos para exigir que esse crime não fique impune. Já chega”, acrescentou. Para o jovem trans, Diego Nascimento que foi mais um a participar do protesto, a população LGBT está sendo exterminada. “Estamos morrendo por ser a gente. Nossas mortes são extermínios”.

Mortes
Infelizmente, Têu não está sozinho nas estatísticas. Henrique Assis das Neves, 30 anos, foi morto em um assalto na Praça da Piedade. Leo Moura foi assassinado depois de sair de uma boate no Rio Vermelho. Os casos de Têu, Henrique e Leo engrossam uma a violência criminosa contra população LGBTs. Dados do Grupo Gay da Bahia indicam que só este ano 117 pessoas LGBTs já foram assassinadas. Os números deste ano são alarmantes já que 144 pessoas transexuais e travestis mortas no Brasil em 2016 – um aumento de 22% em relação a 2015.

Segundo a Secretaria de Segurança Pública do Estado, todas as medidas cautelares necessárias para a elucidação do crime estão sendo realizadas pelo DHPP e que a investigação já está em estado avançado. No entanto, as informações não podem ser divulgadas em detalhes para não atrapalhar a resolução do caso que envolve a morte de Têu.

Cerca de 100 pessoas participaram do ato que pediu medidas efetivas do poder público contra a violência (Foto: Arisson Marinho)

Com informações de Jorge Gauthier

Homem trans tem casa invadida e é encontrado morto na Bahia

Jorge Gauthier
Publicado pela coluna Me Salte, do portal Correio, em 7 de maio de 2017

“Sou feito de amor, principalmente de amor próprio”. Essas foram as últimas palavras publicadas pelo homem trans Thadeu Nascimento, ou Têu Nascimento como gostava de ser chamado, em uma rede social na noite de quinta-feira (04). No dia seguinte, ele seguiria para o trabalho como vendedor, mas não chegou para trabalhar. Amigos tentaram contactá-lo, mas não tiveram sucesso. Sua casa, no bairro da Fazenda Grande 3 (Cajazeiras), foi invadida. Levaram uma televisão, reviraram o imóvel mas deixaram a mochila onde estava até a marmita que ele levaria o trabalho. O corpo de Têu foi encontrado no bairro de São Cristóvão, em Salvador, por volta das 7h da última sexta-feira (05) na rua da Rodagem, segundo registro feito pela central das polícias civil e militar.

Os amigos e familiares procuram por Têu desde então, mas seu corpo só foi localizado na noite deste sábado (06) no Instituto Médico Legal Nina Rodrigues. O corpo tinha marcas de espancamento e de tiros na cabeça.  O Departamento de Polícia Técnica (DPT) informou neste domingo (07) que os resultados da perícia no corpo de Têo devem ficar prontos em até 30 dias. Até o momento não há informações sobre a motivação e autoria do crime. O caso deverá ser investigado pelo Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP).

O Centro Municipal de Referência LGBT (CMRLGBT) de Salvador informou que na noite de sábado (06) foi encaminhada a denúncia do desaparecimento de Thadeu, homem trans, através da militante Andressa Belut. “Logo entramos em contato com a 13ª delegacia (Cajazeiras),  onde fomos informados que o apartamento estava revirado, informação essa dada pela família. Após três horas fomos comunicados por familiares que infelizmente havia sido encontrado sem vida”, afirmou Vida Bruno, coordenador do CMRLGBT.

Em contato com o Me Salte, familiares de Têu preferiram não comentar sobre a morte dele pois, obviamente, estão muito sentidos com o acontecimento. Ainda não há informações sobre o horário e local de sepultamento de Têu que era tido entre os amigos com uma pessoa alegre e solicita. Um amigo de Têu, que prefere não se identificar, lembra com carinho do amigo. “Conheci Tadeu num curso criado para jovens trans. Ele sempre ajudava os meninos novos, que chamamos de pré T ( que ainda não se hormonizam) com dúvidas, orientações etc. Ele sempre se fez presente na hora de ajudar os meninos. Lembro de uma vez que ele estava sem trabalhar, começou o curso de barbeiro e achou o trabalho atual (em uma loja de informática). Ele saia da loja e ia pro curso. Vivia postando fotos. Há alguns dias ele disse : gente tô pensando em tirar um dia pra gente se reunir pra cortamos os cabelos de graça, tô precisando treinar.Tem outros meninos que são barbeiros e a idéia dele todo mundo adorou, infelizmente ele não vai poder realizar”, lamenta o amigo.

A sensação dos amigos é de incredulidade. “Ele era tão gente boa. Não consigo entender como isso aconteceu com ele e porque. Ele sempre compartilhava os resultados da academia com a gente, sempre que podia interagia. Anteontem eu marquei ele em uma conversa num grupo de WhastsApp para perguntar o que ele tomava pra proteger o fígado e ele não respondeu, possivelmente ele estava tentando de proteger das violências sofridas”, relembra o amigo.

O coletivo De Transs Pra Frente, que é voltado para o desenvolvimento de ações para a população trans e travesti na Bahia, em nota publicada pelo Facebook, se solidarizou com a família do Têu e pediu justiça. “Perdemos nosso querido Têu Nascimento para a violência… Nossa solidariedade à família e amigos e acompanharemos as investigações em busca de justiça. Siga em paz, Têu!”. Diante de mais uma morte envolvendo uma pessoa trans, a coordenadora do Grupo Famílias Pela Diversidade, Inês Silva, questionou: “Todo dia acontece um caso de violência. Até quando?”.

Pelas redes sociais, a militante Eide Paiva, que é irmã de santo de Têu, escreveu: “Estou profundamente triste. Conheci Têu há pouco mais de três anos, quando ele voltou a morar em Salvador cheio de vida, e de planos. Ele era de fé, do trabalho e da luta. Chegamos a planejar discutir a transfobia e a lesbofobia em nossa casa, em outros terreiros, mas não tivemos tempo. Meu irmão não teve tempo nem mesmo de ser aceito e respeitado por todas as pessoas que ele amava e respeitava. Sua juventude foi roubada logo cedo no jogo duro da desigualdade, onde o racismo e sexismo o transformaram em escravo do sistema, mas não lhe tiraram o riso largo, a capacidade de sonhar e lutar pelo seus ideais. Agora recebo essa notícia triste. A transfobia ceifou a vida do meu irmão, e eu choro por ele, por mim, por nós… Que Olorum o receba em paz, que suas dores sejam curadas!! Que meu irmão descanse e que a justiça de Xangô se faça!! Que Orixás me protejam na luta pelo fim da LGBTfobia, pelo bem viver”, escreveu.

Quando vai parar?

O contador de morte de pessoas LGBTs no Brasil não para. Ele segue com uma velocidade entristecedora. Dados do Grupo Gay da Bahia indicam que só este ano 117 pessoas LGBTs já foram assassinadas. Os números deste ano são alarmantes já que 144 pessoas transexuais e travestis mortas no Brasil em 2016 – um aumento de 22% em relação a 2015. O risco de uma pessoa trans ou travesti ser assassinada é 14 vezes maior do que um gay. Segundo agências internacionais, a exemplo da Trans Respect Versus Transphobia World Wide , mais da metade dos homicídios de transexuais do mundo ocorrem no Brasil.

A Secretaria da Segurança Pública da Bahia, através da Superintendência de Prevenção à Violência, informou, em janeiro em nota enviada ao Me Salte, que está em processo de implantação do Núcleo de Atendimento Qualificado à s Vítimas de Preconceito Racial, Intolerância Religiosa e da População LGBT, que funcionará no âmbito da Polícia Civil, reforçando o suporte a estes públicos desde o primeiro atendimento na delegacia até o acolhimento na rede de apoio constituída por diversos órgãos estaduais. Isso ainda não saiu do papel.

Saiba mais sobre a realidade de pessoas trans e travestis no especial Identidade Trans 

Estamos apurando mais detalhes do caso de Têu. Mais informações em breve