Exposição Fotográfica “Avessos Inauditos: os outros que me habitam”

O Congresso Internacional LGBTI+ reuniu participantes da América do Sul, Caribe e Brasil, em diálogos entre os movimentos sociais e a academia, relacionados a gêneros, sexualidades, identidades, interseccionalidades e outros temas. O evento aconteceu em Curitiba (PR), entre os dias 13 e 15 de novembro de 2019, e contou com a exposição do fotógrafo e psicólogo Leandro Rodrigues Dias (@leandrorodriguesdias) e do performer e doutorando em psicologia Rogério Melo (@rogerio.melo.982).

A exposição teve como objetivo, ampliar as discussões sobre corpo e suas possibilidades, desmistificando as expectativas, limites e (im)possibilidades que a cisheteronormatividade articula através das suas estratégias biopolíticas. A arte vem nesse momento, contribuir com a multiplicidade de expressividades, deslocamentos e movimentos que um corpo pode transitar e se permitir, independente da sua identidade generificada. Ensaio rico em cores, movimentos, expressões e sensibilidades que provocam múltiplas experiências e inquietudes. A pergunta que atravessa todo ensaio e que foi seu fio condutor continua ecoando em cada fotografia: “O que pode um corpo?”

 

Ensaio fotográfico queer desmistifica questões de gênero e heteronormatividade

Publicado pela Revista Lado A, em 7 de Agosto de 2019.

Rogério Amador de Melo é psicólogo e pesquisador da UNESP de Assis, em São Paulo. Como continuidade de um de seus trabalhos de pesquisa, Melo realizou um ensaio queer. A obra do autor remete a experiências e estudos sobre gênero, sexualidade e heteronormatividade. Conforme escreveu o artista e pesquisador, a inspiração para esse trabalho veio dos processos que ele mesmo enfrenta. Enquanto homem cis, “bixa”, como ele se intitula, psicólogo e pesquisador, foi possível se inspirar.

O trabalho foi inspirado também na obra “Inquietações de uma bicha: rastros de um futuro pesquisador”, que faz parte de sua pesquisa de mestrado, em 2016. Melo se apoia nessas reflexões de arte, pesquisa, possibilidades infinitas de existência para dar vida a novos trabalho. É o caso de seu ensaio fotográfico intitulado “Fazendo a lôca em uma gongação dos gêneros: um bafo de (re)existência”.

O ensaio é uma busca do autor por uma narrativa artística para problematizar e desmistificar o corpo que obedece aos padrões de gênero estabelecidos. Sua base teórica inclui as obras de Judith Butler, grande estudiosa contemporânea das questões de gênero. De acordo com Butler, não há necessidade de o gênero se limitar a dois, masculino e feminino. A autora aborda ainda a flexibilidade queer e a possibilidade de diversas interpretações de gênero. Nesse sentido, Melo buscou inspiração nessa fluidez de infinitas possibilidades para realizar suas pesquisas e seu trabalho fotográfico. “Esse posicionamento ético/político/estético vai se tornando mais explícito e contundente, ao fazer do meu corpo canal de passagem desses trânsitos, desses movimentos de (des)construções e fluxos.”, escreveu Melo.

ENSAIO 1 – Fazendo a lôca em uma gongação dos gêneros: um bafo de (re)existência

ENSAIO 2 – Avessos inauditos: @s outr@s que me habitam

 

 

 

 

 

 

 

Blue Queen comanda programa de entrevistas no YouTube

Blue Queen é uma drag movida pelo amor. Sua maior paixão é conhecer pessoas, penetrando profundamente em seus interiores, suas histórias de vida e suas culturas. O outro é outro universo. Desde 2010, Blue é apresentadora do Blue Entrevê, programa de entrevistas em seu canal no YouTube: Blue Queen.

Dotada de rara sensibilidade, Blue consegue compreender o outro e revelá-lo para o público de maneira surpreendente. Blue já entrevistou personalidades do cinema, da moda, do teatro, da televisão, do esporte, da medicina, da política e do jornalismo.

Interessada em temáticas como arte, cultura, espiritualidade, astrologia, psicologia, filosofia, história e política, Blue dedica-se a estabelecer um diálogo com a sociedade para contribuir com o aumento de consciência de todos. Blue acredita que ser drag queen é algo TRANScendental. Seu estado natural de transicionar do masculino ao feminino, de um corpo a outro, desdobra-se na capacidade de transpor limites interiores, transcender a si mesma e acessar os mais diversos aspectos da experiência humana.

Blue é apresentadora, artista e apaixonada por pessoas. Recentemente produziu a playlist: TRANSposição – Entrevistas pela Diversidade, em parceria com a Conferência Internacional [SSEX-BBOX].

É preciso marcar posição neste momento político delicado, com ameaça de retrocesso. Mas a população – diversa sexual, étnica e socialmente – começou a entender que todos têm direitos. Não há mais como impedir a inclusão.

Blue Queen mantém sua posição TRANS. Subversiva duplamente, por tocar em temas espinhosos e por fazê-lo com inteligência e elegância. Transgressora, por ultrapassar estereótipos e simplesmente fazer seu trabalho: entrevistas de alto nível, em parceria com a 3ª Conferência Internacional [SSEX-BBOX], durante o Festival Mix Brasil 2017.

As entrevistas são postadas em vídeos aos domingos no canal BLUE QUEEN no YouTube. Os entrevistados são personalidades ligadas à diversidade, à arte e à ação social, como Assucena Assucena; Aretha Sadick; Jean Wyllys; Gaudêncio Fidélis; Ellen Oleria; Priscilla Bertucci; André Fischer; Isaac Silva; Guilherme Werneck; Claire Rumore; Natalia Mallo; Lara Pertille; Emma Frankland; Júlia Rosemberg e Ashley Davis.

ACESSE:

Instagram: www.instagram.com/blueartnlove

YouTube: http://www.youtube.com/BlueQueen

“Aquele último verão” estreia em maio no Teatro Gamboa Nova, em Salvador

Espetáculo aborda a relação de amor entre dois homens e o reencontro de ambos após mais de duas décadas

Espetáculo teatral dirigido pelo também ator e artista de visualidades Roberto Laplagne e primeiro texto de sua autoria, “Aquele último verão” estreia no próximo dia 2, no Teatro Gamboa Nova, e permanecerá em cartaz durante todo o mês de maio, às quartas e quintas-feiras, a partir das 19h. No elenco, Gésner Braga, Mário Bezerra e participação especial de Hamilton Lima.

“Aquele último verão” expõe a amizade que transcende o tempo, o espaço e as adversidades. Narra a história de dois amigos de adolescência que viveram intensamente a amizade e acabam por perceber que outro sentimento os envolvia, até que um deles se afasta sem um motivo aparente. Eles se reencontram após duas décadas, longa ausência provocada pelas escolhas conflitantes de cada um. O acaso os reúne outra vez numa festa de colegas do colégio, quando então relembram – através das histórias vividas, das músicas que ouviam na época e dos lugares que frequentaram – a amizade nascida na juventude, com momentos divertidos e felizes, mas que deixou pendências a ser resolvidas.

A encenação adota uma construção realista na interpretação das personagens Pedro e Luiz, ressaltando o plano da memória por meio das situações que eles viveram, das músicas que ouviam na adolescência e de espaços da cidade de Salvador. Na peça, serão utilizados elementos tecnológicos para que a trilha sonora, composta por canções da MPB, seja operada pelos próprios atores.

A ambientação cênica também segue um conceito realista, além de minimalista, com o uso de um praticável como elemento cenográfico que remete às balaustradas das praias de Salvador. Em harmonia com a proposta geral, o figurino é concebido com trajes contemporâneos, utilizando uma paleta de cores que permita uma identificação imediata das personagens e suas personalidades. O projeto de iluminação reproduz o horário em que acontece a ação dramática, assim como as mudanças de atmosfera de acordo com as nuances do texto e da proposta da direção.

Com esta montagem, Roberto Laplagne encena um texto dramático de sua autoria depois de ter dirigido “Dois perdidos numa noite suja”, que teve a sua estreia em dezembro de 2016, em Aracaju, Sergipe, tendo sido também apresentado em Salvador, no Teatro Gamboa Nova, em março de 2018.

FICHA TÉCNICA:

Dramaturgia, direção e figurinos: Roberto Laplagne
Atuação: Gésner Braga, Mario Bezerra e participação especial de Hamilton Lima
Iluminação: Victor Hugo Sá
Operação de luz: Luna Rocha
Cenografia: Roberto Laplagne e Maurício Pedrosa (cenógrafo associado)
Assessoria em voz e movimento: Roberto Lúcio
Produção executiva: Matheus Menezes

SERVIÇO:

AQUELE ÚLTIMO VERÃO
Estreia 02/05/2019 e continua em cartaz todas as quartas e quintas de maio, às 19h
Teatro Gamboa Nova (Gamboa de Cima, 3 – Aflitos)
Ingressos: R$20,00 (inteira) e R$10,00 (meia)
Vendas online: www.sympla.com.br/aqueleultimoverao

REDES SOCIAIS

Instagram: www.instagram.com/aqueleultimoverao/
Facebook: www.facebook.com/Espetáculo-Aquele-Último-Verão-438088170098792

A cuarte versus a cufobia – quem vai derrubar Bolsonaro?

Leandro Colling, professor da UFBA e coordenador do Núcleo de Pesquisa e Extensão em Culturas, Gêneros e Sexualidades (NuCuS)
Publicado pelo portal iBahia, em 9 de março de 2019

 

No finalzinho do Carnaval de 2019,  o mundo foi sacudido por um tuite do presidente Jair Bolsonaro, que comentou e replicou uma performance realizada por duas pessoas na passagem do BloCU, no centro de São Paulo. A cena já é super conhecida e nem precisa ser descrita em detalhes aqui. Os meus objetivos aqui são outros: 1) defender as pessoas artistas da performance; 2) defender o caráter político da performance; 3) defender que essa performance gerou efeitos imensos, maiores do que muitas outras petições, abaixo assinados, paradas LGBT e demais manifestações contra os preconceitos, o conservadorismo, o fundamentalismo e a eleição de Bolsonaro.

O que significa o insulto “vai tomar no cu” para quem tem o cu como um importante elemento da sua vida sexual? No Carnaval, enquanto ditos/as progressistas opositores/as do governo de Jair Bolsonaro enchiam os pulmões nos quatro cantos do país para mandar o presidente tomar no cu, duas pessoas artistas resolveram atacar o conservadorismo que se alastra no país e que se manifesta inclusive entre aqueles e aquelas que julgam combatê-lo. Vocês querem me insultar ao tomar no cu? Pois eu enfio meu dedo no meu próprio cu e gozo. Mudem os seus insultos, mudem as suas estratégias, pois elas têm um caráter cufóbico (nem se trata só de homofóbico porque milhares de pessoas heterossexuais também fazem sexo anal). A nossa luta é contra a castração dos nossos respectivos cus. Gozem sem impedimentos. Essa é a mensagem política da performance dessas duas pessoas.

Mas, ao que parece, o dedo no cu foi suplantado pela chuva dourada. O próprio presidente não sabia o que, em outros termos, tem feito na cabeça de brasileiros/as a décadas. A prática de urinar em outra pessoa, conhecida em determinados circuitos das dissidências sexuais e de gênero, das quais as pessoas artistas fazem parte, também nos dá muito sobre o que pensar. Não é incrível que em um jornal de grande circulação no país, em uma reportagem sobre o caso, um profissional do campo da saúde defenda que a prática não é uma doença e sequer transmite doenças e um conhecido militante do movimento GGGG (que se diz LGBT mas, na verdade, é gay) critica a performance das pessoas artistas? Isso nos diz muito sobre várias coisas, sobre como o conservadorismo se consolidou na mente de tantos de nós. Mas vamos para outras perguntas geradas por esse caso: por que uma chuva dourada, consentida e em um ato artístico, frisa-se, causa tanto espanto? Por que o presidente e os tais representantes dos movimentos sociais e demais pessoas ditas progressistas não se espantam e protestam quando um homem retira o coração de uma travesti para matá-la (sim, esse caso ocorreu em janeiro de 2019!!! Vejam https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/noticia/2019/01/21/homem-e-preso-em-campinas-apos-matar-e-guardar-coracao-da-vitima-em-casa.ghtml)? Por que uma mijada consentida provoca um tsunami e esse caso e centenas de outros motivados por feminicídio e transfobia já foram praticamente esquecidos? Sangue sem consentimento pode e xixi consentido não pode?

Essas e outras perguntas (vou parar por aqui) não deixam dúvidas de que as artes das dissidências sexuais e de gênero possuem um potencial imenso e inesgotável para combater o fundamentalismo e, até, pasmem, derrubar o presidente da República! Um jurista chegou a defender que Bolsonaro poderia sofrer um processo de impeachment por falta de decoro, lembrem disso. Quando foi que duas pessoas conseguiram gerar tanto debate em torno de dissidências sexuais e de gênero no Brasil? Na história recente, a travesti crucificada em um trio elétrico na parada LGBT de São Paulo talvez tenha causado impacto próximo do que vimos nesses últimos dias. Nem as históricas e louváveis manifestações do Ele Não conseguiram gerar o impacto causado pela performance tuitada por Bolsonaro. Enquanto isso, algumas pessoas ainda apostam em petições, abaixo assinados e, pasmem, tentativas de diálogo com um governo ultraconservador que zomba, diariamente, das questões de sexualidade e de gênero.

Por último, uma breve reflexão que talvez seja a mais importante e que explique muita coisa. Cada período histórico produz determinados processos de subjetivação, determinadas subjetividades, entendidas aqui em sentido amplo, em especial a produção de sentimentos, formas de ser e estar no mundo, formas de se sentir frente ao mundo. Não há dúvidas de que temos vivido, nos últimos dez anos, as consequências de uma produção de subjetividade reativa, gerada pela rearticulação das forças conservadoras e fundamentalistas, no Brasil e em várias partes do mundo, que passaram a eleger como inimigos/as especialmente as pessoas da chamada diversidade sexual e de gênero. Mas, ao mesmo tempo, um imenso grupo de artistas, ligados de formas diversas e em intensidades variadas às chamadas dissidências sexuais e de gênero, têm reagido à essa produção de subjetividades. Nesse grupo existem pessoas artistas que já chegaram a participar de programas da TV Globo. Mas existem outras pessoas artistas querem é acabar com a TV Globo. O que essa cena artística poderá gerar no futuro? Não sei, mas já sabemos o que ela gerou, e não foi pouca coisa.

OBS: optei por não revelar o nome das pessoas artistas em respeito à solicitação delas próprias, expressas em uma reportagem publicada no jornal Folha de S. Paulo.

Não te rendas

Por Mario Benedetti

Não te rendas, ainda é tempo
De se ter objetivos e começar de novo,
Aceitar tuas sombras,
Enterrar teus medos

Soltar o lastro,
Retomar o voo.

Não te rendas que a vida é isso,
Continuar a viagem,
Perseguir teus sonhos,
Destravar o tempo,
Correr os escombros
E destapar o céu.

Não te rendas, por favor, não cedas,
Ainda que o frio queime,
Ainda que o medo morda,
Ainda que o sol se esconda,
E o vento se cale,

Ainda existe fogo na tua alma.
Ainda existe vida nos teus sonhos.

Porque a vida é tua e teu também o desejo
Porque o tens querido e porque eu te quero
Porque existe o vinho e o amor, é certo.
Porque não existem feridas que o tempo não cure.
Abrir as portas,
Tirar as trancas,
Abandonar as muralhas que te protegeram,

Viver a vida e aceitar o desafio,
Recuperar o sorriso,
Ensaiar um canto,
Baixar a guarda e estender as mãos
Abrir as asas
E tentar de novo
Celebrar a vida e se apossar dos céus.

Não te rendas, por favor, não cedas,
Ainda que o frio te queime,
Ainda que o medo te morda,
Ainda que o sol ponha e se cale o vento,
Ainda existe fogo na tua alma,
Ainda existe vida nos teus sonhos
Porque cada dia é um novo começo,
Porque esta é a hora e o melhor momento
Porque não estás sozinho, porque eu te amo

Pabllo Vittar: A voz da resistência

Após superar seus ídolos e se tornar uma estrela internacional, Pabllo Vittar usa o espaço que conquistou para defender o público LGBTQ do preconceito

André Sollitto
Publicado pelo portal IstoÉ, em 30 de novembro de 2018

Ser a drag queen mais seguida do mundo é uma responsabilidade que Pabllo Vittar leva muito a sério. Em 2018, a cantora de 24 anos, natural de São Luís, no Maranhão, consolidou uma carreira de rápida ascensão. Com sete milhões de fãs no Instagram, onde aparece tanto com quanto sem maquiagem, superou sua maior inspiração, RuPaul. Tem mais de um bilhão de visualizações em seus vídeos combinados, e lançou seu segundo disco, “Não Para Não”, que chegou ao topo das paradas brasileiras duas horas após o lançamento. Todas as 10 canções do álbum ficaram no Top 40 do Spotify brasileiro. Desfilou no Carnaval carioca pela Beija-Flor e tornou-se ainda a primeira drag queen a ser indicada para o Grammy Latino por “Sua Cara”, parceria com Anitta e Major Lazer.

Sua transformação em estrela pop e ícone midiático aconteceu ao mesmo tempo em que o preconceito direcionado a membros da comunidade LGBTQ, em sua avaliação, ficou mais forte. Pabllo se tornou a voz do que chama de “resistência”. “Ser uma artista LGBTQ no Brasil é incrível. Mas tenho que matar um leão por dia”, disse ela à “Vogue” americana. “Passei por muitas situações complicadas, mas sou grata porque elas me tornaram uma pessoa mais forte e confiante”. Em apenas três anos, desde que começou a cantar profissionalmente, fica claro seu amadurecimento profissional e pessoal.

Além da militância, Pabllo usa o espaço que conquistou como estrela da música para levar elementos da cultura brasileira para o mundo. Alguns de seus maiores sucessos mesclam a estética pop americana com batidas do tecnobrega, levando um estilo regional nascido no Pará para uma audiência internacional que a conhece principalmente pelas parcerias com artistas como Major Lazer e Charlie XCX. Em entrevista a sites internacionais ela costuma repetir que se orgulha de apresentar a cultura musical em que cresceu. “Não é suficiente amar outras culturas e ignorar a sua”, disse ao site “Remezcla”. Sente que é seu dever oferecer um modelo que ela mesma nunca teve quando cresceu, e fica feliz com as mensagens positivas que recebe. “Meu trabalho é divertido”, disse à “Vogue”, “mas saber que minha música pode mudar vidas é a melhor parte”.

Portal Vice comparou os planos de governo de Haddad e Bolsonaro para jovens, mulheres, LGBT+ e mais

Fernando Haddad (PT) e Jair Bolsonaro (PSL). Ilustrações por Cassio Tisseo/VIC

Uma dichavada rápida no que cada presidenciável botou no papel na hora de pensar o futuro do Brasil.

Por Amauri Gonzo
Publicado em 9 de outubro de 2018

Passado o primeiro turno, o Brasil se encaminha para uma disputa entre a extrema-direita representada pelo PSL de Jair Bolsonaro e a centro-esquerda petista com Fernando Haddad. Sabendo que os planos de governo de cada candidato — o que eles dizem e também o que deixam de dizer em seus compromissos — podem afetar diretamente a vida dos nossos jovens leitores, demos uma esmiuçada e comparamos o que cada um dos presidenciáveis colocou no papel a respeito de tópicos importantes. Abaixo, por tópico, estão os resumos das propostas. Você também pode encontrar a íntegra dos planos de Haddad e Bolsonaro no site do TSE.

JOVENS

Haddad

O programa do petista, intitulado “O Brasil Feliz de Novo”, foca em diversos problemas que afligem os jovens brasileiros. Promete criar o Programa Meu Emprego de Novo, com foco nos jovens, procurando uma inserção qualificada no mercado de trabalho. Também diz que vai aumentar o número de vagas no ensino superior e nos ensinos técnico e profissional. Por fim, diz apoiar a participação direta dos jovens na política, e que quer a presença deles na elaboração do Plano Nacional de Juventude e do Sistema Nacional de Juventude.

Bolsonaro

Seu plano de governo, chamado “Projeto Fênix”, não conta com tópico específico para a maioria dos temas aqui listados — além de estar cheio de inverdades. No que tange diretamente ao jovem, a única proposta clara é a redução da maioridade penal para 16 anos.

MULHERES

Haddad

Promete melhorar a vida das mulheres em diferentes frentes: buscar igualdade salarial entre mulheres e homens no mercado de trabalho, ampliar o valor e o tempo do seguro-desemprego para gestantes e lactantes, ampliar a Casa da Mulher Brasileira (reforçando a proteção das mulheres vítimas de violência) e reforçar a aplicação da Lei Maria da Penha, além de garantir a saúde integral da mulher, inclusive no “exercício dos seus direitos sexuais e reprodutivos”.

Bolsonaro

Não dedica nenhum ponto específico de políticas para mulheres. O único momento em que “mulher” é citado no documento, é num gráfico que mostra o índice de estupros contra mulheres e crianças no Brasil, sem uma explicação clara para a sua presença ali.

DIREITOS TRABALHISTAS

Haddad

Uma série de propostas sobre o tema “trabalho” estão espalhadas ao longo do seu programa. Além de políticas voltadas a diferentes áreas da sociedade, propõe a criação do programa Salário Mínimo Forte, que muda a regra constitucional do reajuste do salário mínimo para a inflação do ano anterior mais o crescimento do PIB de dois anos antes. Quer também revogar a reforma trabalhista atual para instituir um novo Estatuto do Trabalho, modernizando a CLT com um diálogo entre toda a sociedade, incluindo cláusulas para incentivar o contínuo aperfeiçoamento dos trabalhadores através do estudo, além de promover um debate na sociedade para tentar reduzir a jornada de trabalho. Por fim, ainda promete criar o já citado programa Meu Emprego de Novo, com retomada de investimento para criar novos postos de trabalho.

Bolsonaro

Promete criar uma “carteira de trabalho verde-e-amarela”, que funcionaria em paralelo com a carteira de trabalho atual, onde prevaleceria a “negociação” entre trabalhador e patrão e não a legislação trabalhista. Essa carteira seria escolhida pelo jovem no começo da carreira e pode contribuir para a morte da CLT na prática, assim que os patrões comecem a contratar apenas trabalhadores que concordem em ser contratados sem as garantias da CLT.

IGUALDADE RACIAL

Haddad

A questão da desigualdade racial ainda é muito importante no Brasil. O quesito cor deve entrar nas campanhas de saúde, buscando uma maior representatividade da população, e até no atendimento pelo SUS, além de ampliar a política de cotas para cargos públicos. Em seu plano o ex-prefeito de São Paulo promete adotar medidas, não especificadas, para melhorar a equiparação salarial de negros e negras e sua presença em postos de chefia na iniciativa privada. Para fechar, ainda promete um Plano Nacional de Redução da Mortalidade da Juventude Negra e Periférica, que deve ser criado com a participação toda a sociedade civil.

Bolsonaro

Não existe nenhum ponto específico sobre a promoção da igualdade racial no plano de Bolsonaro — no máximo um ponto genérico que diz que “qualquer forma de diferenciação entre os brasileiros não será admitida” — ou seja, promete o mínimo do mínimo.

LGBT+

Haddad

Para a população LGBT+, o plano inclui criar uma nova lei que tipifique os crimes de ódio, incluindo a LGBTIfobia. Além disso, promete criar a Rede de Enfrentamento à Violência contra LGBTI+ com a participação de órgãos federais, estaduais e municipais, além de expandir nacionalmente o projeto Transcidadania, aplicado durante sua gestão na Prefeitura de São Paulo, para garantir bolsa de estudos a pessoas travestis e transexuais em situação de vulnerabilidade.

Bolsonaro

Além da “não-diferenciação” citada acima, há apenas uma menção veladamente negativa à população LGBTI, quando o candidato se posiciona contra uma suposta “doutrinação” e a “sexualização precoce” que supostamente aconteceria nas escolas brasileiras.

CULTURA

Haddad

Considera o “acesso pleno aos bens e serviços culturais como uma garantia de cidadania”. Bem completo, promete revisar uma série de pontos abandonados pela gestão Temer, como o Plano Nacional de Cultura e o Sistema Nacional de Cultura, além de aumentar progressivamente os recursos destinados ao Ministério da Cultura, até chegar a 1% do orçamento da União. Outros pontos importantes são a garantia da aplicação da Lei Cultura Viva, que facilita a operação dos Pontos de Cultura, a consolidação de uma Política Nacional para o Livro, Leitura e Literatura, além de reforço ao setor audiovisual e da política nacional de museus e proteção e promoção do patrimônio cultural.

Bolsonaro

Não há nenhuma menção à políticas culturais no plano de governo de Bolsonaro. Talvez seja o momento em que ele saca o revólver.

DROGAS

Haddad

Para Haddad, a atual política de drogas no Brasil é “equivocada, injusta e ineficaz”. O petista diz claramente que vai focar menos no pequeno traficante desarmado, principal vítima da explosão do encarceramento no Brasil, e enfrentar diretamente os grupos organizados e facções do tráfico nacional e internacional. A prevenção ao uso de drogas se dará nas áreas de saúde e educação, além de se comprometer a estudar as experiências internacionais de descriminalização do uso de entorpecentes.

Bolsonaro

Não há nenhuma menção direta a uma política de drogas no plano do capitão da reserva, apenas uma tentativa de ligar as drogas à esquerda, onde diz que “o avanço das drogas e da esquerda são prevalentes nas regiões mais violentas do mundo: Honduras, Nicarágua, El Salvador, México e Venezuela”. É importante anotar que Honduras desde 2010 é governado pelo conservador Partido Nacional, enquanto o México ainda é governado por Henrique Peña Nieto, do neoliberal PRI, depois de ter passado de 2000 a 2012 pelo comando do partido direitista PAN.

DIREITOS HUMANOS

Haddad

Vai resgatar e atualizar o Programa Nacional de Direitos Humanos, incluindo uma conferência popular que inclua diferentes setores da sociedade, como jovens, LGBT+s, idosos, portadores de deficiência e povos originários. Além disso, pretende recriar as pastas de Direitos Humanos, Políticas para Mulheres e Promoção da Igualdade Racial, todas com status de ministério, e reintegrar o Brasil no Sistema Internacional de Direitos Humanos — para o candidato, democracia e direitos humanos são “interdependentes”.

Bolsonaro

Não existe nenhuma seção especifica na questão dos direitos humanos no plano de governo de Bolsonaro, apenas um ponto nas conclusões da seção dedicada à segurança pública: “redirecionamento da política de direitos humanos, priorizando a defesa das vítimas da violência.”

Documentário “Para Além dos Seios” agora disponível no Vimeo on Demand

“Para Além dos Seios” é uma produção cinematográfica independente e documentário memorável do cineasta Adriano Big, que vem construindo uma história de êxito desde outubro de 2015, quando foi lançado na Sala Walter da Silveira, em Salvador. Agora, o sucesso está disponível para locação no Vimeo on Demand, inclusive com legendas em inglês e francês. A locação sai por menos de R$ 10,00 e uma promoção neste mês de agosto garante 30% de desconto para quem digitar o código naoaoescolasempartido.

Clique nos links abaixo e confira:

Página em português: https://vimeo.com/ondemand/paraalemdosseios

Página em inglês: https://vimeo.com/ondemand/beyondthebreasts

Página em francês: https://vimeo.com/ondemand/audeldesseins

Em 2016, o documentário permaneceu por mais de três meses em cartaz no Cinema do Museu, na capital baiana. Também foi exibido em Belo Horizonte (MG), Brasília (DF), Joenville (SC), Natal (RN), Santa Maria (RS), Londres e Amsterdam. Curiosamente, a primeira locação do filme com legendas em inglês ocorreu na Arábia Saudita.

“Para além dos seios” discute questões de gênero num momento em que tais assuntos encaram reação refratária de um conservadorismo crescente no país. A obra aborda as relações com o corpo e gênero na contemporaneidade a partir do seio enquanto significante do feminino. O filme põe na ordem do dia assuntos como mastectomia, transgeneridade, violência contra mulher, cirurgias estéticas, amamentação, parto humanizado, entre outros. Além disso, traz à tona discussões sobre aborto, liberação da maconha e seu uso medicinal, teoria queer, representações midiáticas, opressão das ideologias religiosas sobre os corpos e tantas outras que não podem ser ignoradas.

Ao longo de aproximadamente 70 minutos, o espectador é presenteado com uma profusão de belíssimas imagens e verdades que saem das “bocas” de seios que dizem tudo aquilo que a cultura machista reprime e represa, mas que é preciso bradar a plenos pulmões. “Para além dos seios” é uma obra prima e uma abordagem altamente qualificada da sexualidade humana sob diversas óticas, todas elas com acabamento caprichoso e responsável. Altamente didático e esclarecedor, ele é capaz de abrir as visões mais resistentes ou de nos tirar da nossa zona de conforto, levando-nos a inevitáveis reflexões.

2017 foi marcado pela intolerância; especialistas temem repetição em 2018

Por meio de discursos do ódio, aversão às diferenças e desrespeito aos direitos humanos, a intolerância imperou no Brasil e no mundo

JC Juliana Cipriani
Publicado pelo portal Estado de Minas, em 31 de dezembro de 2017

Carlos Magno, conselheiro nacional de direitos humanos e secretário da ABGLT, espera tempos melhores
(foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press)

Racismo, injúria, homofobia, xenofobia, assédio e censura às artes. O ano de 2017 ficará marcado por discursos de ódio e desrespeito às diferenças tanto no Brasil como pelo mundo afora. Seja em razão do aumento do número de casos de agressão, seja devido a um maior visibilidade deles, a intolerância explodiu. Na avaliação de especialistas ouvidos pelo Estado de Minas, o uso das redes sociais e o contexto em que as minorias ganharam mais espaço contribuíram para a exacerbação dos ânimos e opiniões conflitantes. Por mais que esse clima tenha assustado alguns, a tendência é de que as ações e reações continuem fortes em 2018.

O país sofreu um choque ao ver Titi, a filha do casal de atores Bruno Gagliasso e Giovana Ewbank, ser atacada na internet por preconceito racial. Também nos assustamos com a decisão de um juiz permitindo o tratamento da cura gay e com os protestos que se multiplicaram pelo Brasil taxando obras de arte de estimular a pedofilia. No mundo, o assédio que agrediu mulheres durante anos e foi descortinado pelas denúncias de atrizes em Hollywood. Com o governo de Donald Trump nos Estados Unidos, ganhou força a intolerância aos povos, ante a proibição de entrada de muçulmanos no país e os ataques aos mexicanos.

A explicação para tantos retrocessos pode estar num fenômeno conhecido como “backlash”. Trata-se de um conceito que explica a atração entre os extremos. Quando existe algum tipo de progresso, normalmente existe uma onda contrária. “Nos últimos anos as ações feministas, LGBTQI e anti-racistas, entre outras, têm sido amplificadas e o backlash acontece. Isso ocorre combinado a uma situação econômica difícil, capaz de fazer com que certos segmentos da população, que antes se sentiam mais poderosos e agora começam a perder espaço para uma sociedade mais igualitária, tentam recuperar a posição que tinham antes”, explica a cientista política Larissa Peixoto Gomes. Para ela, a intolerância é um fenômeno global, que atinge vários países, se concretizando, por exemplo, na eleição de Donald Trump e na saída do Reino Unido da União Europeia.

A socióloga Daniele Cireno Fernandes também acredita que as maiorias estejam se sentindo agredidas e ameaçadas. “Ontem eles podiam chamar uma pessoa de mulata gostosa e hoje não podem mais passar na rua e chamar alguém de viado. As reservas de vagas, para eles, estão tirando suas vagas, é uma reação de raiva mesmo”, avalia. Para a especialista, as redes sociais contribuem para esse clima. “É onde você cria sua própria comunidade virtual e exclui pessoas que pensam diferente. Isso estimula muito as atitudes extremistas”, diz.

O conselheiro nacional de direitos humanos e secretário de formação da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Intersexos (ABGLT), Carlos Magno, diz que a intolerância tem muito a ver com o momento político por que passa o Brasil. “Houve uma ruptura democrática com o golpe (impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT) e, com isso, uma espécie de autorização para que emergissem todas as forças conservadoras. A disputa política construiu um ódio muito grande e ajudou a fazer surgir esse fascismo, porque a intolerância é uma prática fascista”, disse.

Carlos Magno espera tempos melhores em 2018, especialmente depois das eleições, mas a opinião de sociólogos e cientistas políticos não é tão otimista. A cientista política Larissa Gomes está convencida de que a amplificação das lutas sociais e políticas tende a permanecer no mundo on-line e no offline. “Ainda estamos discutindo pontos como as consequências da escravidão e da exclusão da mulher na política. Há muita coisa para extravasar e consertar”, disse.

Para o sociólogo Luiz Alberto Oliveira Gonçalves, a intolerância ficou mais evidente em 2017 e deve ficar cada vez mais visível. “A intolerância já está em um nível altíssimo e, para mim, já tinha de ter nos assustado há muito tempo. O que me assusta é a gente se acostumar com isso, achar que é natural. Tenho visto pouca reação”, disse. O sociólogo afirma que é preciso ficar mais atento e crítico aos movimentos que estão surgindo e trabalhar para construir uma sociedade onde as pessoas possam dialogar.

O mestre em ciência política Lucas Cunha também acredita que o clima seja de continuidade nessa polarização de opiniões, principalmente na campanha eleitoral. “Acredito que deve haver uma agudização no ano que vem dessa polarização, que agora não está mais no plano dos partidos, mas tende a ocorrer com outros elementos. A gente tem por exemplo um debate no Brasil sobre os direitos que estão sendo violados, como os trabalhistas e os previdenciários, nessas propostas do governo, e até outros que ainda nem foram consolidados, como o de moradia. Essa pauta deve nortear a decisão do eleitor”, afirmou.

Calendário de ataques

1) Racismo e injúria

No fim de novembro, uma socialite ofendeu Titi, filha dos atores Bruno Gagliasso e Giovana Ewbank, chamando-a de macaca. O caso foi denunciado pelos pais da menina à polícia e gerou grande comoção nacional. No mesmo mês, a atriz Taís Araújo havia contado que já viu muita gente mudar de calçada para evitar seu filho negro e anônimo.

2) Homofobia

Em setembro, o juiz Waldemar Cláudio de Carvalho autorizou psicólogos a realizarem o procedimento da cura gay, com vistas a auxiliar os homossexuais a mudar sua orientação com a terapia de reversão sexual. O caso gerou várias reações de famosos e anônimos nas redes sociais.

3) Xenofobia

O presidente Donald Trump anunciou a criação de um muro para impedir os mexicanos de entrar nos Estados Unidos, alegando que eles levam drogas e estupradores ao seu país. Em junho, deu ordem para impedir cidadãos do Irã, Líbia, Somália, Sudão, Síria e Iémen de ingressar em solo americano. Refugiados de países não cristãos também sofreram a restrição.

4) Assédio

No Brasil, as mulheres se uniram em abril na campanha Mexeu com uma mexeu com todas em resposta ao assédio praticado pelo ator José Mayer a uma camareira. Em outubro, foi a vez das atrizes de Hollywood denunciarem o produtor Harvey Weinstein pela violência contra as mulheres. O ator Kevin Spacey também foi punido perdendo o papel de protagonista na série House of Cards por ter assediado rapazes. No Brasil, houve uma onda de homens ejaculando em mulheres em ônibus. Somente após pressão popular eles foram presos.

5) Censura às artes

Em setembro, a mostra Queermuseu foi cancelada em Porto Alegre sob acusação de conter cenas de pedofilia e zoofilia. Outra mostra condenada foi a que trouxe uma interação entre um homem nu e uma criança no Museu de Arte Moderna (MAM), em São Paulo. Em uma audiência pública na Câmara, um deputado provocou confusão ao dizer que gostaria de ver a mãe do ministro da Cultura, Sérgio Leitão, exposta com as pernas abertas.

6) Intolerância religiosa

Em novembro, um atirador usou um rifle para disparar sobre fiéis em uma igreja batista no Texas, matando 26 pessoas e deixando outras 20 feridas. Na última sexta-feira, um homem matou ao menos nove pessoas e feriu outras seis em uma igreja cristã do Cairo, no Egito. O atentado foi assumido pelo Estado Islâmico.

Apoie a campanha coletiva para distribuição do filme “Para Além dos Seios”; confira vídeo

Publicado pelo Sindipetro, em 6 de dezembro de 2017

Que tal contribuir com apenas R$1,00 para garantir a circulação e distribuição de um filme feito por um cineasta baiano sobre assuntos de saúde e de gênero que precisam ser debatidos pela sociedade de forma mais profunda como a luta pelos direitos das mulheres, a ditadura da imagem, o empoderamento feminino e o câncer de mama?

Trata-se do documentário ‘Para Além dos Seios”, do cineasta Adriano Big, que foi lançado em Salvador no ano passado, e apesar de ser uma produção totalmente independente, conseguiu chamar a atenção de um grande público, chegando a ser o filme de maior bilheteria no circuito SaladeArte de cinema nas primeiras seis semanas.

Em sua fanpage no facebook, o filme já tem mais de 4 mil seguidores. Mas o cineasta quer mais, ele tem um projeto coletivo para o documentário, “queremos expandir, alcançar o maior número possível de pessoas. Nossa ideia é que esse documentário cumpra um papel social e educativo, provoque debates reflexões e mudanças e que os temas abordados por ele possam ser discutidos nas escolas, nos sindicatos, associações, em ongs, universidades e bairros. E que possa ser usado, inclusive, para pesquisas”, esclarece Adriano.

Para contribuir basta acessar a plataforma de financiamento coletivo “apoia-se”, através do seguinte endereço na internet https://www.apoia.se/paraalemdosseios

De acordo com Big “a primeira meta não tem a ver com dinheiro e sim com pessoas, pois com esse número de envolvidos, já temos como demonstrar o interesse do público pelo filme e isso abrirá portas para parcerias de divulgação, apoiadores e pequenos patrocinadores”. O objetivo é atingir inicialmente 2 mil pessoas. Quem contribuir ainda receberá uma contrapartida:

Contribuição de R$1,00 – Você recebe o link privado do filme um mês antes de ele ser liberado na internet.

R$ 5,00 – Você recebe, além do link antecipado, os extras do filme dois meses antes de estar liberado na internet.

R$ 10,00 – Além de todas as recompensas anteriores, será enviado para você, em formato digital, um cartaz A3 do filme, com o seu nome em destaque como apoiador, que você pode imprimir, postar, etc.

R$ 20,00 – Para essa contribuição, além das anteriores, você vai ganhar acesso ao grupo de WhatsApp, onde será  postado em tempo real as novidades sobre a campanha.

Você pode acompanhar também no YouTube, o programa “Diário de uma distribuição alternativa”, através de uma série de vídeos que vai mostrar os detalhes dessa estratégia de distribuição. Nesses programas, além de entrevistas e de contar a trajetória do filme até aqui, você pode ficar por dentro dos avanços do processo e das novas parcerias que estão sendo feitas.

“A Lágrima de Deus” estreia em Salvador, no dia 30/11

O holocausto perpetrado pelo regime nazista, na Alemanha, e as barbáries cometidas em seus campos de concentração são fatos que envergonham a história da humanidade e dela não poderão jamais ser apagados. Este é o mote do espetáculo teatral “A Lágrima de Deus”, que estará em cartaz no Galpão Wilson Melo, no Forte do Barbalho, de 30 de novembro a 15 de dezembro de 2017, às quintas e sextas-feiras, às 20h, sendo que também haverá sessões às 18h, nos dias 14 e 15 de dezembro. O Forte do Barbalho fica na Rua Marechal Gabriel Botafogo, s/n, Barbalho, em Salvador A entrada é gratuita.

Júlio Cesar Ramalho assina a direção do espetáculo, que traz em seu elenco os veteranos atores Dado Ferreira, Edielson de Deus e Gésner Braga. “A Lágrima de Deus” é a segunda montagem do Núcleo de Pesquisas Cênicas, que já encenou “O Esgoto de Deus”, em 2015, produção pela qual Edielson de Deus foi indicado ao Prêmio Braskem na categoria “Ator Revelação”.

A peça narra a história de três prisioneiros de um campo de concentração, no ano de 1934, que experimentam momentos de necessária sanidade para manter-se vivos, mas também arroubos de loucura deflagrados pela persistente iminência da morte. Uma testemunha de Jeová, um deficiente físico e um homossexual dividem um pequeno galpão de confinamento onde tentam vencer as diferenças e arquitetar um plano de fuga na esperança de sobreviver ao cenário de horrores.

Segundo o autor, Ari Barranquilha, “a peça traz um recorte bastante específico do holocausto. Quando tratamos dos horrores da Segunda Guerra Mundial, costumamos nos referir sempre ao hediondo massacre de milhares de judeus. Mas esquecemos que também foram vítimas dessa barbárie homossexuais, testemunhas de Jeová, polacos, ciganos, deficiente físicos, entre outros. Nossa ‘Lágrima’ busca resgatar a história muitas vezes condenada à invisibilidade”.

O texto traz diversos aspectos da condição humana, não apenas aqueles vividos no contexto de guerra, nos anos 30 e 40. Ele também faz uma analogia com a opressão vivida, na atualidade, por minorias reféns nos campos de concentração da vida urbana marcada por violências, onde a desesperança e o medo são dominantes.

SERVIÇO

A LÁGRIMA DE DEUS

30 de novembro a 15 de dezembro de 2017, às quintas e sextas-feiras, às 20h. Sessões também às 18h, nos dias 14 e 15 de dezembro.

Galpão Wilson Melo, Forte do Barbalho, Rua Marechal Gabriel Botafogo, s/n, Barbalho, Salvador, Bahia.

Entrada franca.

TEXTO:
Ari Barranquilha

DIREÇÃO:
Júlio César Ramalho

ELENCO:
Dado Ferreira (Kurt)
Edielson de Deus (Hans)
Gésner Braga (Luber)

FICHA TÉCNICA:
Produção – Dado Ferreira
Cenografia – Júlio César Ramalho
Figurino – Júlio César Ramalho
Iluminação – Luciano Reis
Trilha sonora e edição de som – Charles Batista
Maquiagem – Roberto Laplagne
Fotografia – Charles Batista
Projeto gráfico – Charles Batista
Assessoria de imprensa – Gésner Braga

PÁGINA NO FACEBOOK:
https://www.facebook.com/alagrimadedeus/

Retórica do ódio – O ataque do heteroterrorismo ao Queermuseu do Santander

Por Walter Silva
Publicado pelo portal Symposium – Histórias, crítica e reflexão, em 

Alemanha, 1933. A destruição da cultura gay.

De tempos em tempos ao longo dos séculos a cultura e história sexo-gênero desviante são silenciadas e deliberadamente destruídas.  O acadêmico Rictor Norton escreveu um ensaio sobre essa censura sistemática apontando que a primeira resposta a qualquer manifestação cultural das minorias sexuais é quase sempre a acusação de ”obscenidade”, inclusive independente da existência de elementos sexuais explícitos, dado que a sexualidade desviante é  previamente lida como ”imoralidade”. Ele revela que os efeitos dessa supressão da história e cultura gay são os mesmos do imperialismo cultural e faxina étnicas;  e observa que a censura da sexualidade raramente é levada tão a sério quanto a censura política ou da religião. Com efeito, leis  que conduzem à restrições nos usos e costumes religiosos com base no secularismo via de regra são consideradas algum tipo de censura ou opressão pelo senso comum. A própria revolução Iraniana foi em parte uma resposta daquela sociedade  ao laicismo e modernização autoritária implementados pelo Xá Mohammad Reza Pahlavi.   No Brasil, a religião cristã impõe feriados nacionais ignorando outras manifestações religiosas, enfia goela abaixo símbolos místicos em repartições públicas ou nas cédulas de dinheiro e celebra discursos missionários dentro de clínicas, em metrôs, em ônibus, nas casas legislativas, nas praças e empresas. Toda tentativa de invocar o laicismo é imediatamente rechaçada sob a queixa de que se trata de um tipo de ”censura”. No que concerne à cultura gay, porém, historicamente o tratamento oferecido é completamente diferente.

Apenas para citar alguns exemplos famosos:

-Em 1923 os escritores portugueses Antonio Botto e Raul Leal escreveram sobre o homoerotismo de forma mais explícita e corajosa naquilo que foi chamado de ”literatura de Sodoma”; em resposta um grupo de estudantes  reacionários de Lisboa instigados pela  Igreja católica comandou uma reação violenta contra os dois autores a partir de então, culminando em censura, perseguições e ataques a livrarias. Como resultado de tais manifestações, o governo proibiu a a exposição e venda dos livros em março, instalando uma censura oficial que não era praticada desde os tempos da revolução constitucionalista de 1820 (Literatura, homoerotismo e expressões homoculturais, 2015).

-Na Índia, da década de 20 até os anos 40, Gandhi enviou esquadrões de devotos para destruir imagens homoeróticas em templos hindus, como parte de uma estratégia para fazer crer que a homossexualidade era uma imoralidade importada do ocidente. A profanação das imagens foi interrompida parcialmente pelo poeta Rabindranath Tagore, mas retomada por Jawaharlal Nehru. Como resultado concreto, atualmente muitos hindus acreditam que homossexuais originalmente não existiam na Índia (Rictor Norton, “The Suppression of Lesbian and Gay History”, 12 de fevereiro de 2005, atualizado em 21 de fevereiro de 2010 )

-No dia 06 de Maio de 1933 a juventude Hitlerista organizou um ataque ao ”Institut für Sexualwissenschaft” (Instituto para o estudo da sexualidade) fundado pelo pioneiro do movimento gay Magnus Hirschfeld. A biblioteca do Instituto, criada por ele, era o maior arquivo ”LGBT” do mundo naquela altura; um acervo gigantesco de 20 mil livros e revistas, 55 mil fotografias e filmes. No dia 10 de Maio em frente à praça da Universidade de Berlim os estudantes da juventude hitlerista queimaram publicamente todo o acervo da biblioteca (Rictor Norton, “The Suppression of Lesbian and Gay History”, 12 de fevereiro de 2005, atualizado em 21 de fevereiro de 2010 ).

Diante do exposto não é nenhuma surpresa o episódio lastimável ocorrido recentemente após uma mostra intitulada ”Queer Museu” (que incluiu nomes do calibre de Volpi, Pedro Américo e Portinari) ter sido inaugurada em Porto Alegre. Setores conservadores e reacionários de imediato se manifestaram em redes sociais e sites de internet, bem como presencialmente, causando tumultos e assédio, e conseguiram impor a supressão da exposição sob o argumento de que ela ”promove pedofilia, pornografia e arte profana” (originalidade nunca foi o forte do ativismo de ódio).  Os ataques heteroterroristas ao Queermuseu foram orquestrados pelo ”MBL” (Movimento Brasil Livre):

”Segundo o MBL, algumas obras expostas fazem apologia à pedofilia e zoofilia. Em um vídeo com mais de 400.000 visualizações, desde o último sábado, integrantes do MBL visitam o Santander Cultural e dizem que “só tem putaria, só tem sacanagem” que é “reconhecida como arte”. “Há pouco tinha crianças olhando essa ‘arte’ escarnecendo a Cristo”, diz o blogueiro Felipe Diehl no vídeo. “O curador dessa obra, Gaudêncio Fidelis, esse cara deveria estar preso”, acrescenta Diehl. “Olha o Satanás no meio”, diz Rafinha BK, outro blogueiro do MBL. “Isso aqui é praticamente prostituição infantil”, diz outro simpatizante do movimento apontando para uma obra alusiva ao meme “Criança Viada” (http://veja.abril.com.br/blog/rio-grande-do-sul/apos-protesto-do-mbl-santander-fecha-exposicao-sobre-diversidade/).

Projeto MailArt – Gay-I-Vota’, do artista plástico Rogério Nazari, 1981. Obra que estava em exposição na mostra ‘Queermuseu’ e foi censurada por liberais fascistas. Quantas produções artísticas criadas por homens gays foram silenciadas pelo MBL?

O Santander Cultural divulgou nota, se desculpando pela exposição, pasme.

“O objetivo do Santander Cultural é incentivar as artes e promover o debate sobre as grandes questões do mundo contemporâneo, e não gerar qualquer tipo de desrespeito e discórdia”, diz o texto. “Desta vez, no entanto, ouvimos as manifestações e entendemos que algumas das obras da exposição Queermuseu desrespeitavam símbolos, crenças e pessoas, o que não está em linha com a nossa visão de mundo. Quando a arte não é capaz de gerar inclusão e reflexão positiva, perde seu propósito maior, que é elevar a condição humana”, afirma a nota da instituição. – Jornal do Comércio.

Aprendemos portanto que ”elevar a condição humana” inclui a supressão e silenciamento da cultura gay, lésbica e transgênero.

Brasil, 2017.

Chapeuzinho vermelho com o lobo travestido na cama: Gustave Doré sobreviveria ao crivo censório do MBL?

Bruta Moda

Por Yuretta Sant’Anna

Dessa garganta
tudo se canta.
E se a sentença
ao meu canto marginal
for o silêncio,
seguirei cantando muda
neste mundo
em que tudo muda,
toda muda brota
e a arte, mesmo imunda,
toca.
Se perguntarem o porquê
da minha arte,
direi que não sou parte,
nem estou à parte.
Sou a arte que dou!

E deixo que pensem,
que digam e que falem.
O velho samba me ensinou
que nem toda opinião vale a pena
de servir um sistema
morto, estéril, sem eira nem beira.
Parafraseando o poeta Dall’orto
se der bobeira
que me julguem em Marte!
Porque aqui na Terra
as suas leis
não julgam nossa arte!

Publicado originalmente na página Vale dos Alfarrábios

Primeiro clipe de rapper transgênero exige respeito com pessoas LGBT+

Filmado durante seis dias, primeiro videoclipe de Triz propõe reflexão sobre diversidade de gênero. “Elevação Mental” é um grito contundente por uma sociedade com mais empatia.

Por Xandra Stefanel
Publicado pelo portal Rede Brasil Atual, em 28 de julho de 2017

http://www.redebrasilatual.com.br/entretenimento/2017/07/primeiro-clipe-de-rapper-transgenero-exige-respeito-com-pessoas-lgbt“Família, primeiramente, eu queria deixar bem claro que eu não estou aqui para representar o rap feminino, não, certo?! Muito menos o masculino. Eu estou aqui para representar o rap nacional. E eu peço que respeitem a minha identidade de gênero”. É com essa mensagem que Triz começa seu primeiro videoclipe – Elevação Mental –, que acaba de ser lançado em seu canal do YouTube. O filme é dirigido por Cesar Gananian, com produção musical de Pedro Santiago e direção de fotografia de Davi Valente e Camila Picolo.

Paulista de 18 anos, a/o rapper é transgênero não-binário ou neutro, que não se identifica com o gênero feminino nem com o masculino. Exatamente por sofrer na pele a discriminação, Triz apresenta uma letra potente e de levada forte. A música é um grito por respeito com a população LGBT+. “O preconceito não te leva a nada. Não seja mais um babaca de mente fechada porque o ódio mata, mas o amor sara. De qual lado ‘cê’ vai ficar?”, canta no refrão.

Com participação de várias pessoas transgênero, letra e vídeo fazem um apelo para que todos e todas sejam tradados com equidade, independentemente de orientação sexual, raça ou aparência. “Brasil, país que mais mata pessoas trans. Espero que a estatística não suba amanhã. Me diz, por que o jeito de alguém te incomoda? F*da-se se te incomoda, é o meu corpo, é minha história. E sobre a minha carne você não tem autoridade. Não seja mais um covarde de zero mentalidade. Seja inteligente, abra sua mente: o mundo é de todos, não seja prepotente. Seja gay, seja trans, negro ou oriental, coração que pulsa no peito é de igual pra igual”, rima.

Ao mesmo tempo que a letra de Elevação Mental é um tapa na cara do preconceito e dos preconceituosos, é também um pedido de paz. É isso que ela/ele pede em sua página do Facebook: “Compartilhem e espalhem a paz”.

A ideia do clipe nasceu quando o diretor Cesar Gananian viu um vídeo caseiro de Triz cantando a música. O filme foi gravado em seis dias em estúdio e várias locações, com uma equipe de 40 pessoas, drones e outros equipamentos usados geralmente em grandes produções cinematográficas. “Multiplicamos a imagem de Triz com uso de espelhos e projeções, criando assim um efeito que acredito revelar a infinitude de ‘eus’ que carregamos dentro de nós”, afirma o diretor.