Você continua existindo em nós…

Por Caroline Moura

Certa vez ouvi falar que saudade é o amor que fica, é um paradoxo, ao mesmo tempo que aperta o coração o preenche de uma forma inexplicável. Hoje eu venho falar de Leonardo Moura. Meu Léo, nosso Léo, venho falar dessa saudade que não é mais dor, não é mais revolta. O tempo nos ensina a olhar essa falta com atenção e gratidão, nos ensina a separar saudade da dor. Gratidão por ter vivido a sua presença, a sua alegria, por ter bebido da fonte do amor mais verdadeiro, porque se existiu alguém que sabia amar, esse era o Léo. Vamos aprendendo a cuidar desse elo de conexão, pois por mais que ele não esteja em presença física, nós sabemos e sentimos: o espírito de Leonardo Moura não morreu, não morrerá.

Ah, menino de riso doce, abraço apertado e jeito meigo. Ah, Léo quanta falta você faz! Se eu pudesse, conseguisse escrever um pouco mais, se a emoção não arrebatasse, se o peito não apertasse quando eu lembro daquele 11 de julho de 2016… Eu não disse que não choraria, meu choro não é de dor, não mais; eu choro a saudade que eu sinto e a saudade é o amor que fica!

E pra que minha saudade não seja “esquecida”, clamamos justiça, pedimos que a balança de nobre cobre nos dê respostas e a morte de Leonardo não siga impune. A minha saudade não tem revolta, mas tem sede de justiça!

Kabiêcile!!

#somostodosleomoura #juntosporjustica #queremosrespostas

George Lakoff explica por que o discurso do ódio não é liberdade de expressão

Publicado pelo portal Pensar Contemporâneo

Por George Lakoff

A liberdade em uma sociedade livre é para todos. Portanto, a liberdade exclui a imposição da liberdade dos outros. Você é livre para andar na rua, mas não para impedir que outros o façam.

A imposição à liberdade de outros pode vir de forma física imediata e evidente – bandidos vindo atacar com armas. A violência pode ser uma espécie de expressão, mas certamente não é “liberdade de expressão”.

Como a violência, o discurso de ódio também pode ser uma imposição física à liberdade dos outros. Isso porque a linguagem tem um efeito psicológico imposto fisicamente – no sistema neural, com efeitos incapacitantes a longo prazo.

Aqui está o motivo:

Todo pensamento é realizado por circuitos neurais – não flutua no ar. A linguagem ativa neuralmente o pensamento. A linguagem pode, assim, mudar o cérebro, tanto para o melhor quanto para o pior. O discurso de ódio muda o cérebro dos odiados para o pior, criando estresse tóxico, medo e desconfiança – tudo físico, tudo no circuito neural ativo todos os dias. Este dano interno pode ser ainda mais grave do que um ataque com um punho. Ela impõe a liberdade de pensar e, portanto, age livre de medo, ameaças e desconfiança. Ela impõe a capacidade de pensar e agir como um cidadão totalmente livre por muito tempo.

É por isso que o discurso do ódio impõe a liberdade daqueles que são alvo do ódio. Uma vez que ser livre em uma sociedade livre não requer a imposição da liberdade dos outros, o discurso de ódio não se enquadra na categoria da liberdade de expressão.

Discurso de ódio também pode mudar o cérebro daqueles com preconceito leve, movendo-se para o ódio e a ação ameaçadora. Quando o ódio está fisicamente em seu cérebro, então você pensa que odeia e sente ódio, você é movido a agir para realizar o que você fisicamente, em seu sistema neural, pensa e sente.

É por isso que o discurso de ódio não é “mero” discurso. E uma vez que impõe a liberdade dos outros, não é um exemplo de liberdade.

Os efeitos físicos de longo prazo, muitas vezes incapacitantes, do discurso de ódio sobre os sistemas neurais dos odiados não têm status na lei, já que nossos sistemas neurais não têm status em nosso sistema legal – pelo menos não ainda. Essa é uma lacuna entre a lei e a verdade.

George Lakoff é “Richard e Rhoda Goldman Distinguished Professor of Cognitive Science e Linguistics” na Universidade da Califórnia em Berkeley, onde leciona desde 1972.

A cuarte versus a cufobia – quem vai derrubar Bolsonaro?

Leandro Colling, professor da UFBA e coordenador do Núcleo de Pesquisa e Extensão em Culturas, Gêneros e Sexualidades (NuCuS)
Publicado pelo portal iBahia, em 9 de março de 2019

 

No finalzinho do Carnaval de 2019,  o mundo foi sacudido por um tuite do presidente Jair Bolsonaro, que comentou e replicou uma performance realizada por duas pessoas na passagem do BloCU, no centro de São Paulo. A cena já é super conhecida e nem precisa ser descrita em detalhes aqui. Os meus objetivos aqui são outros: 1) defender as pessoas artistas da performance; 2) defender o caráter político da performance; 3) defender que essa performance gerou efeitos imensos, maiores do que muitas outras petições, abaixo assinados, paradas LGBT e demais manifestações contra os preconceitos, o conservadorismo, o fundamentalismo e a eleição de Bolsonaro.

O que significa o insulto “vai tomar no cu” para quem tem o cu como um importante elemento da sua vida sexual? No Carnaval, enquanto ditos/as progressistas opositores/as do governo de Jair Bolsonaro enchiam os pulmões nos quatro cantos do país para mandar o presidente tomar no cu, duas pessoas artistas resolveram atacar o conservadorismo que se alastra no país e que se manifesta inclusive entre aqueles e aquelas que julgam combatê-lo. Vocês querem me insultar ao tomar no cu? Pois eu enfio meu dedo no meu próprio cu e gozo. Mudem os seus insultos, mudem as suas estratégias, pois elas têm um caráter cufóbico (nem se trata só de homofóbico porque milhares de pessoas heterossexuais também fazem sexo anal). A nossa luta é contra a castração dos nossos respectivos cus. Gozem sem impedimentos. Essa é a mensagem política da performance dessas duas pessoas.

Mas, ao que parece, o dedo no cu foi suplantado pela chuva dourada. O próprio presidente não sabia o que, em outros termos, tem feito na cabeça de brasileiros/as a décadas. A prática de urinar em outra pessoa, conhecida em determinados circuitos das dissidências sexuais e de gênero, das quais as pessoas artistas fazem parte, também nos dá muito sobre o que pensar. Não é incrível que em um jornal de grande circulação no país, em uma reportagem sobre o caso, um profissional do campo da saúde defenda que a prática não é uma doença e sequer transmite doenças e um conhecido militante do movimento GGGG (que se diz LGBT mas, na verdade, é gay) critica a performance das pessoas artistas? Isso nos diz muito sobre várias coisas, sobre como o conservadorismo se consolidou na mente de tantos de nós. Mas vamos para outras perguntas geradas por esse caso: por que uma chuva dourada, consentida e em um ato artístico, frisa-se, causa tanto espanto? Por que o presidente e os tais representantes dos movimentos sociais e demais pessoas ditas progressistas não se espantam e protestam quando um homem retira o coração de uma travesti para matá-la (sim, esse caso ocorreu em janeiro de 2019!!! Vejam https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/noticia/2019/01/21/homem-e-preso-em-campinas-apos-matar-e-guardar-coracao-da-vitima-em-casa.ghtml)? Por que uma mijada consentida provoca um tsunami e esse caso e centenas de outros motivados por feminicídio e transfobia já foram praticamente esquecidos? Sangue sem consentimento pode e xixi consentido não pode?

Essas e outras perguntas (vou parar por aqui) não deixam dúvidas de que as artes das dissidências sexuais e de gênero possuem um potencial imenso e inesgotável para combater o fundamentalismo e, até, pasmem, derrubar o presidente da República! Um jurista chegou a defender que Bolsonaro poderia sofrer um processo de impeachment por falta de decoro, lembrem disso. Quando foi que duas pessoas conseguiram gerar tanto debate em torno de dissidências sexuais e de gênero no Brasil? Na história recente, a travesti crucificada em um trio elétrico na parada LGBT de São Paulo talvez tenha causado impacto próximo do que vimos nesses últimos dias. Nem as históricas e louváveis manifestações do Ele Não conseguiram gerar o impacto causado pela performance tuitada por Bolsonaro. Enquanto isso, algumas pessoas ainda apostam em petições, abaixo assinados e, pasmem, tentativas de diálogo com um governo ultraconservador que zomba, diariamente, das questões de sexualidade e de gênero.

Por último, uma breve reflexão que talvez seja a mais importante e que explique muita coisa. Cada período histórico produz determinados processos de subjetivação, determinadas subjetividades, entendidas aqui em sentido amplo, em especial a produção de sentimentos, formas de ser e estar no mundo, formas de se sentir frente ao mundo. Não há dúvidas de que temos vivido, nos últimos dez anos, as consequências de uma produção de subjetividade reativa, gerada pela rearticulação das forças conservadoras e fundamentalistas, no Brasil e em várias partes do mundo, que passaram a eleger como inimigos/as especialmente as pessoas da chamada diversidade sexual e de gênero. Mas, ao mesmo tempo, um imenso grupo de artistas, ligados de formas diversas e em intensidades variadas às chamadas dissidências sexuais e de gênero, têm reagido à essa produção de subjetividades. Nesse grupo existem pessoas artistas que já chegaram a participar de programas da TV Globo. Mas existem outras pessoas artistas querem é acabar com a TV Globo. O que essa cena artística poderá gerar no futuro? Não sei, mas já sabemos o que ela gerou, e não foi pouca coisa.

OBS: optei por não revelar o nome das pessoas artistas em respeito à solicitação delas próprias, expressas em uma reportagem publicada no jornal Folha de S. Paulo.

Por que Jean Wyllys precisa ir embora

Wilson Gomes
Publicado pela Revista Cult, em 25 de janeiro de 2019

O deputado federal Jean Wyllys anunciou nesta quinta (23) que vai entregar o mandato e deixar o Brasil (Foto Diego Bresani/Revista CULT)

Em um dia particularmente triste deste terrível quinquênio da política nacional, Jean Wyllys, a liderança mais notável da nova geração de políticos brasileiros, decide que entre viver e assumir o terceiro mandato como deputado federal, prefere continuar vivendo. Não se trata de renúncia, fuga ou desistência, mas de avaliar as circunstâncias e reconhecer que não se tem de fato escolha se a morte ou a violência se tornam um perigo real e imediato com a permanência dele nessa nau de insensatos em que se tornou o Brasil. Ofensas, insultos, mentiras e ameaças despejados em moto contínuo, nas ruas e nas redes, em tal volume e intensidade, já seriam suficientes para rebaixar a qualidade de vida e o prazer de viver de qualquer um, ainda mais quando injustos e imerecidos. Quando as ameaças ganham forma e matéria à nossa frente, é hora de ir-se.

Nos grupos de WhatsApp da malta bolsonarista, que monitoramos por dever de ofício, Jean é considerado o arqui-inimigo do bolsonarismo, rivalizando apenas com Lula e, secundariamente, com Dilma Rousseff. O seu fracasso, derrota ou morte eram um dos prêmios mais cobiçados no ciclo eleitoral de 2018. O ódio a Jean, explicitamente manifestado em augúrios de morte matada e insultos escabrosos, é um dos traços básicos da própria identidade da militância bolsonarista, espécie de senha por meio da qual a adesão do bolsonarismo é checada e certificada: quem não odeia Jean, ou pelo menos não o despreza, não é bolsonarista o suficiente.

Fala-se muito, hoje, do antipetismo, mas não menos intenso e decisivo para o identitarismo de direita (sim, temos isso também) no Brasil tem sido o sentimento anti-Jean Wyllys. O bolsonarismo, como se sabe, precisa de inimigos, a sua retórica básica consiste na identificação de um inimigo considerado opressor contra o qual a matilha precisa reagir. Neste sentido, se Lula e o PT são os inimigos do ponto de vista das políticas públicas e práticas de governo, se são, para eles, a materialização da “corrupção” e do “comunismo”, Jean Wyllys e Maria do Rosário são a materialização da “perversão moral”, do “desregramento como modo de vida”, do “fim da família e dos valores tradicionais”. As figuras de Jean e de Maria do Rosário funcionam paradigmaticamente para sintetizar o inimigo insidioso, poderoso e ousado dos ultraconservadores que reivindicaram e conseguiram o poder juntamente com Bolsonaro. Daí a tamanha importância que foi atribuída – nos grupos de WhatsApp coordenados e atiçados pelos filhos de Bolsonaro, e que foram tão decisivos nesta eleição – à distorção proposital, caricatural, das posições defendidas por Jean na esfera pública política. Jean precisava ser construído – e o foi – como o monstro liberal que avançava sobre os “valores tradicionais”, quer dizer, sobre o estilo de vida dos ultraconservadores, particularmente dos que pertencem ao fundamentalismo neopentecostal.

Anos de fake news e outras formas de difamação online, com o enorme reforço, nos últimos seis meses, de bots e outras formas automatizadas de distribuição de conteúdo, pregaram na imagem de Jean todas as monstruosidades que ao bolsonarismo interessava para o fim de criação de identidade das próprias hordas. Jean foi transformado pela propaganda bolsonarista em coisas tão estapafúrdias como apologista da pedofilia, profanador das Sagradas Escrituras, mentor e divulgador de um kit para induzir crianças à homossexualidade, filósofo da chamada “ideologia de gênero”, dentre outras coisas aberrações que a nossa imaginação sequer alcança. Não é incoerente, portanto, que desde que anunciou que não assumiria o terceiro mandato circule incessantemente em mídias sociais a notícia forjada de que estaria fugindo do Brasil “porque se descobriu que foi ele quem mandou esfaquear Bolsonaro em Juiz de Fora”.

O ódio a Jean vem de antes do bolsonarismo e chega a este por duas vias. Primeiro, por meio da militância homofóbica do fundamentalismo evangélico, que se aglutinava ao redor de líderes como Marco Feliciano e Silas Malafaia e mais uma dezena de “pastores” e “missionários”. Gente que vem há anos alimentando uma rede conservadora online para a qual enfrentar e repelir o avanço da agenda homossexual no que tange a direitos, à estima social e à representação na mídia brasileira é uma missão existencial e religiosa dos crentes. Falo de “militância” com absoluta consciência do sentido do termo, vez que se trata de uma reação organizada, planejada, que demanda engajamento, comprometimento e uma identificação entre os envolvidos na luta. Pois bem, quando esta gente, que por algum tempo orbitou em torno do mandato de Marco Feliciano e, depois, de Eduardo Cunha, desembarca, aí por volta de 2017, no bolsonarismo, levou consigo o ódio a Jean Wyllys como o arqui-inimigo defensor público da agenda política homossexual.

A outra fonte é o próprio Jair Bolsonaro, quando este vai, pouco a pouco, alargando a sua agenda original de defensor dos militares e, agora se sabe, dos milicianos, e de apologista da ditadura, para se aproximar dos conservadores religiosos. Bolsonaro é o anti-Jean Wyllys por excelência e grande parte da sua fama recente nas hostes conservadores se deve à construção de um confronto belicoso com Jean e com Maria do Rosário. Naturalmente, no nível Bolsonaro de incontinência verbal, desrespeito e vilania. Bolsonaro faturou imensamente, portanto, não apenas assumindo o papel de inimigo público número um da agenda pró-direitos e pró-respeito dos homossexuais (e de qualquer outra minoria), mas principalmente no papel de arruaceiro e provocador pessoal dos que se envolviam diretamente nestas agendas no Congresso, a saber, Jean Wyllys, Maria do Rosário, Erika Kokay e Chico Alencar. Naquele tempo não havia ainda os penduricalhos do Posto Ipiranga e de Sérgio Moro, de que a classe média precisava para desembarcar no bolsonarismo e ainda se considerar limpinha. Era o bolsonarismo roots – quer dizer, ogro, sujo, bruto – funcionando à base de insultos e declarações que ninguém mais ousaria fazer em público. Bolsonaro viabilizou-se eleitoralmente justamente fazendo o trabalho sujo dos ultraconservadores, dando voz aos feios, sujos e malvados, e justamente tendo Jean como o seu principal contraponto.

Quando o Brasil surta em 2018 e Bolsonaro chega à presidência, esperava-se que amainasse o ânimo e, de algum modo, contido pelos freios e cerimônias do cargo, fosse “presidencializado”, quer dizer, polido, educado. Tudo indica que estamos longe disso. Bolsonaro praticamente terceirizou tudo do seu governo (a infraestrutura ficou com os generais, a economia coube a Guedes, a lei e ordem está com Moro), mas guardou para si a coordenação da guerra cultural ultraconservadora. E o direito de ser o porta-voz da parte sombria da sociedade que o elegeu.  Assim os bolsonarista, os novos e os velhos, continuaram considerando como parte essencial do seu trabalho de salvar o país e modificar-lhe os costumes a manutenção de Jean como o monstro conveniente para assombrar a massa e justificar as medidas que o talibanismo bolsonarista pretende implementar. Desta forma, em princípio qualquer “cidadão de bem” do bolsonarismo ganhou uma autorização social da matilha para odiar Jean Wyllys. E, por consequência, principalmente agora que se consideram no direito de fazer o que querem, a passar do ódio às providências: o insulto e a ameaça pessoalmente dirigidas a Jean, o assédio em lugares públicos, a veiculação de mentiras voltadas a destruir a sua imagem e ofender a sua honra e, por que não, à violência exercida contra ele.

A isto se somam algumas circunstâncias singulares da conjuntura política e policial brasileira recente. Nesta semana, os jornais empilharam indícios que põem a família Bolsonaro em contato com o submundo de pelo uma das milícias do Rio de Janeiro. Tudo começou com Queiroz, até agora indicado pelo jornalismo como o testa de ferro de Flávio Bolsonaro, amigo de Jair por 35 anos, reconhecido policial-matador, acoitado pelo Escritório do Crime (sic!) na favela de Rio das Pedras, na cidade do Rio. E continuou com a divulgação, por jornais impressos e telejornais, de que o chefão da milícia teve parte da sua família empregada e sustentada pelo gabinete Flávio-Queiroz. Sem mencionar fatos publicados pelo jornalismo investigativo, que nas últimas semanas voltou a dar as caras nas redações dos jornalões, como as homenagens e condecorações oficiais promovidas por Flávio para milicianos reconhecidos, inclusive o chefão do Escritório, agora foragido. Ou os inúmeros discursos proferidos das tribunas das casas parlamentares e do Youtube, por Flávio e por Jair, em defesa direta das milícias ou do modus operandi miliciano.

Ninguém está dizendo que a família Bolsonaro operou milícias, mas há demasiado número de indícios de interações estreitas entre o Gabinete de Queiroz & Flávio na Alerj com o Escritório. E é hoje claríssimo que uma das bases eleitorais mais importantes e uma das fontes mais ativas de militantes do bolsonarismo, em todo o Brasil, vem de profissionais com porte de armas: bombeiros, policiais da ativa e aposentados, militares em geral, profissionais de segurança. Que, não por coincidência, é a mais composição desta forma de crime organizado que são as milícias. Ao que parece, o Escritório de Ódio das fakes news e dos grupos de WhatsApp acabaram de alguma forma convergindo com o Escritório do Crime, milicianos e militantes, juntos, para eleger o Mito.

Agora, imagine que você foi escolhido pela alcateia o arqui-inimigo da família presidencial e do movimento social e político que tomou posse com ele. Que se tornou oficialmente o alvo preferencial deste movimento de ódio, vencedor na última eleição. Movimento que, por isso mesmo, dedicou-se a tornar a sua vida um inferno. E, por fim, descobre que foram detectados tentáculos poderosos envolvendo familiar e pessoas do círculo presidencial às máfias milicianas da sua cidade. Como viver nessas condições? Alguém tem dúvida de que Jean foi compelido à decisão que tomou?

Sim, infelizmente alguém duvida. Do lado dos bolsonaristas, não apenas há festa e júbilo, mas se tratou de virar o jogo: o inimigo está fugindo porque foi ele o mandante do crime contra o Mito. Deveria era ser investigado e preso, isto sim. Mas isso era certamente de se esperar. Os bolsonaristas não conhecem limites morais e encontraram um meio de disseminação que não repele qualquer conteúdo. A conjunção perfeita de bolsonarismo e WhatsApp é o mais letal porte de armas neste país. E o assassinato de reputação dos adversários virou esporte nacional, de baixo risco, custo ainda menor, e de grande eficiência.

Do outro lado, naturalmente, há muita compreensão com relação ao gesto de Jean e muitas lamentações de quem viu nesta decisão o mais agudo e triste sintoma da deterioração da vida pública e democrática brasileiro até agora. Mas nem todo mundo pensa assim. Ontem mesmo um eminente intelectual de esquerda de reconhecimento nacional publicava no Facebook a sua decepção com falta de fibra da esquerda (ex-querda, dizia ele) brasileira.

“A indulgência com o gesto de Jean Wyllys confirma: a esquerda brasileira atinge o nível mais profundo de desorientação, em toda a sua história. Desde quando a ação política de esquerda é ou pode ser segura? O risco não é inerente a essa posição política, em qualquer conjuntura ou circunstância? Torçamos para que o autoritarismo instalado não derive para a ditadura aberta.

Serão necessários líderes e militantes de uma têmpera que, pelo visto, não existe mais”.

Indulgência! Como alguém pode não aceitar o risco iminente do martírio?

Há uma esquerda no Brasil que não tem conserto. Tem razão Nietzsche quando desconfia que o martírio procurado ou defendido não passa da mais pura vontade de poder. O sujeito considera a causa mais importante de que a própria vida e a vida dos outros, e é pela causa que o seu apetite por domínio se satisfaz. Na verdade, a busca e o incentivo do martírio serve apenas para fanáticos. A apologia do martírio só produz fanatismos, fundamentalismo, dogmáticos e outros psicopatas-de-causas. E, naturalmente, é fácil demais defender que sejam os outros a colocar a própria vida em jogo e não nós mesmos.

E mesmo de um ponto de vista meramente tático, que vantagem há em demandar que as pessoas ponham em risco a sua própria vida, quando a ameaça é real e imediata? De quanto tempo se precisa para se formar uma liderança como Marielle Franco (que não teve sequer a chance de decidir se assumia o risco de morrer ou não), Marcelo Freixo (que também está na linha de fogo) ou Jean Wyllys? Se pudéssemos ter preservado a preciosa vida de Marielle Franco, teria sido um ganho enorme para todos, inclusive para as causas que ela defendia. Como é possível que não se enxergue isso?

Vá, Jean, a sua vida e a sua felicidade nos interessam. Vá e volte, porque não há noite que dure para sempre, e você será ainda mais necessário do que nunca quando vierem dias melhores. Um abraço, meu amigo.

A (mal-disfarçada) ideologia de gênero de Damares

Sua fala explica o óbvio: gênero e sexualidade dizem respeito às relações de poder. Não é uma discussão biológica, mas sobre quem está autorizado a decidir – e quais identidades não podem existir.

por Berenice Bento
Publicado pelo portal Outras Palavras, em 14 de janeiro de 2019

https://outraspalavras.net/feminismos/a-mal-disfarcada-ideologia-de-genero-de-damares/

“Todos os dias, nas maternidades brasileiras, mães, pais e profissionais de saúde lidam com o dilema de terem diante de si corpos que encarnam os limites do dimorfismo sexual”

Metáfora, aquilo que não é, mas torna-se por analogia.  Uma mistura de deboche e incredibilidade foram as reações às declarações efusivas da ministra Damares Alves que decretou uma Nova Era no Brasil. Seria ela uma ministra de Estado? O grotesco de sua declaração de que a Era do binarismo de gênero ocupará a centralidade de sua gestão seria apropriado para uma Ministra de Estado? Após uma onda piadas, memes e artigos a ministra explicou melhor: usou as cores (“menino usa azul, menina usa rosa”) como metáfora. O que então, a Ministra queria dizer? O que a analogia com as cores nos revela?

1º) Um recado, principalmente, para os movimentos trans, de que no governo Bolsonaro não haverá qualquer espaço para o debate ou formulação de políticas públicas para assegurar o bem-estar físico e mental desta população. A metáfora da ministra se materializou imediatamente em ato político: a não inclusão da população LGBT na nova estrutura organizacional do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos e a retirada da cartilha “Homens Trans: vamos falar sobre prevenção de infecções sexualmente transmissíveis” do site do Ministério da Saúde.

2º) Há muito que diversas correntes de feminismo vem discutindo os efeitos nefastos das assimetrias hierarquizadas de gênero. Seja nos espaços públicos ou privados, o feminino é construído como o lócus da passividade, emotividade, irracionalidade. Em contrapartida, ao masculino são reservados os espaços de poder na esfera pública porque se supõe que a masculinidade seria a morada natural dos atributos necessários para lidar com tomada de decisões (racionalidade, frieza, atividade). No entanto, a organização dos coletivos T (mulheres transexuais, homens transexuais, travestis, transgêneros) e dos não–binários empurrou o debate para outro nível. A condição para se ter reconhecimento social seria, nos termos da metáfora das cores da ministra, ter um corpo sexuado (menino-pênis, menina-vagina) que lhes daria a permissão de fala. Nos últimos anos as identidades trans e as não-binárias passaram a estruturar novas gramáticas morais que deslocam os sentidos hegemônicos das identidades de gênero. Não se trata mais de se ter um “corpo sexual coerente” que seguiria esta linha de continuidade:

vagina = mulher = feminilidade = maternidade

pênis = homem = masculinidade = paternidade

As existências trans demandam que o Estado reconheça as diferenças das identidades de gênero, sem ter como passaporte autorizativo para transitar no mundo público a posse de um corpo-sexuado “coerente”, como o defendido pelos ideólogos da “ideologia de gênero”.

3º) As políticas públicas, no que se referem ao gênero e sexualidade, estarão voltadas para pôr ordem ao caos, restabelecer o desejo da natureza, porque ela sabe tudo: os corpos são naturalmente heterossexuais. A natureza aqui pode ser substituída por “Deus”. Será que os/as porta-vozes da natureza sabem que todos os dias nas maternidades brasileiras nascem bebês sem a prevalência de características biológicas de um determinado sexo? Todos os dias, mães, pais, enfermeiras, médicos lidam com o dilema de terem diante de si corpos que encarnam os limites do dimorfismo sexual.  Nestes corpos os padrões anatômicos, a mais sólida convicção dos ideólogos da “ideologia de gênero” para se definir o sexo da criança na certidão de nascimento, evapora-se no ar. A mãe que esperou ansiosa a sábia natureza fazer seu trabalho, frustra-se. Não é uma menina porque tem o clitóris com alguns milímetros a mais do estabelecido pelo poder médico. Tampouco é menino porque tem um pênis menor do o convencionado. Esta é apenas uma das múltiplas variações dos caracteres sexuais que não estão “em conformidade” com o dimorfismo sexual hegemônico. A intersexualidade é o lugar onde a tese dos ideólogos da “ideologia de gênero” colapsa definitivamente. E quem irá “consertar” os erros da natureza? Serão as instituições sociais que se encarregarão de produzir feminilidade ou masculinidade, dependendo da escolha que se faça sobre o destino de gênero da criança.

4º) A fala da saltitante ministra explicita o óbvio: gênero e sexualidade dizem respeito às relações de poder. Aliás, a todo o momento os ideólogos da “ideologia de gênero” reafirmam o que dizem combater. Quando esbravejam: “A família é a responsável por discutir sexualidade e gênero!!”, estão reafirmando que a produção destas identidades é função de uma instituição social: a família. Não se trata de uma discussão biológica, mas de quem pode falar sobre, quem tem autorização para decidir. O que está posto é uma disputa política de quais identidades de gênero e sexuais têm direito a existência, quais serão objeto de politicas públicas. De certa forma, é um tipo de reedição dos debates que marcaram a história do Brasil sobre quais sujeitos merecem habitar o Estado-Nação, quais serão objeto de cuidado pelo Estado e quais devem ser eliminados.

5º) O que muda? Agora o Poder Executivo se posicionou abertamente a favor de uma determinada concepção de gênero e sexualidade, que tem como fundamento para suas “teorias” a Bíblia.

As cores são a metáfora de uma concepção de gênero e sexualidade que nega direitos fundamentais àqueles que divergem da posição dos ideólogos da “ideologia de gênero”. E qual seria a melhor metáfora para explicar a Ministra? Ao tentarmos encontrar uma política, uma estadista, que entende o caráter laico do Estado, nos termos da Constituição Federal, encontramos uma pastora que declarou aos gritos de “aleluia” e “glória a Deus”, que “o Estado é laico, mas esta Ministra é terrivelmente cristã”, numa alusão a orientação que deverá permear a gestão Bolsonaro nas questões que dizem respeito a laicidade do estado brasileiro. Não se trata, portanto, de uma metáfora mas de uma antítese. E aqui talvez tenhamos que sair do mundo das figuras de linguagens, para entrar no mundo das figuras grotescas.

Analfabeto funcional: Depois de passar vergonha, coordenador do Enem apaga blog

Por Joaquim de Carvalho
Publicado pelo portal Diário do Centro do Mundo, em 7 de janeiro de 2019

Murilo Resende Ferreira, o recém-nomeado diretor Inep, que organiza o Enem, já se tornou uma unanimidade negativa. Do MBL às associações de professores universitários, ele é considerado inepto, incapaz para exercer a função. “É um maluco completo, fora da realidade”, disse um dos fundadores da entidade de extrema direita, ao revelar que Murilo foi expulso do MBL de Goiás.

Entre os professores e intelectuais, a crítica é melhor fundamentada. Um deles foi à fonte — o blog de Murilo — e detalhou o grau de despreparo do jovem economista. “O sujeito que vai cuidar, entre outras coisas, do Enem e Saeb, tem um blog com postagens alucinadas como ‘Descartes: pai da ideologia de gênero’”, conta Hélio Alves, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Guilherme de Almeida, que se define ironicamente como “falso intelectual”, escrutinou outro texto — sobre aborto — e encontrou pérolas como considerar o personagem de um livro de Dostoievski escrito em 1866 (Crime e Castigo) como um típico estudante esquerdista influenciado pelos delírios de Nietzsche. “Para quem leu romance, sabe que o personagem Raskolnikov (o personagem de Dostoievski) é quase o oposto do que socialismo quer”, disse Guilherme. Além disso, Nietzsche não era de esquerda nem tampouco era conhecido na época em que o livro de Dostoievski veio à luz. A primeira obra de Nietzsche é de 1872.

Os textos de Murilo revelam que ele é um analfabeto funcional. Não sabe sequer interpretar um texto. Quando sua inépcia se tornou pública, no fim de semana, Murilo tratou de sair das redes sociais. Seu blog também não pode mais ser acessado.

Ao mesmo tempo, com o novo coordenador do Enem nocauteado pelas críticas, coube ao clã Bolsonaro defendê-lo. Talvez seja a primeira vez na história que um presidente vem a público para defender o terceiro escalão do governo. “Murilo Resende, o novo coordenador do Enem, é doutor em economia pela FGV e seus estudos deixam claro a  priorização do ensino ignorando a atual promoção da ‘lacração’, ou seja, enfoque na medição da formação acadêmica e não somente o quanto ele foi doutrinado em salas de aula”, escreveu Jair Bolsonaro.

Já o filho, Eduardo, avisou: “Atenção, professores: seu aluno q inicia agora o 1º ano do ensino médio não precisa saber sobre feminismo, linguagens outras q não a língua portuguesa ou história conforme a esquerda, pois o vestibular dele será em 2021 ainda sob a égide de pessoas da estirpe de Murilo Resende.”

Para o cientista político Luís Felipe Miguel, o caso de Murilo é mais grave do que simples falta de preparo ou ignorância. E o apoio que lhe dá a família Bolsonaro mostra a importância do projeto de desconstrução das escolas em geral — e da universidade em particular. “Busca eliminar do ambiente escolar qualquer traço de pensamento crítico. (…) Não se trata de combater apenas o marxismo ou o feminismo, mas qualquer traço de reflexão crítica sobre a realidade”, disse. Com isso, se fecha a conta. “Liberal na economia e conservador nos costumes”, como apregoa a propaganda bolsonarista, significa “naturalizar uma instituição produzida historicamente (o mercado) e os comportamentos suscitados por ela”.

Com pessoas como Murilo em postos-chave do Ministério da Educação, se procura criar um ambiente que “impeça questionamentos e a produção de uma nova e mais igualitária ordem social”. É, em essência, o objetivo do movimento “Escola sem partido”. Quem achou que Bolsonaro nos levaria de volta a 1964 agora já sabe que o bilhete prevê uma viagem de volta ao passado bem mais longa. O destino final fica atrás do Renascimento. Mas ainda dá tempo de parar esse trem.

Mensagem à ministra: “Quem definirá o que cada um será é a própria pessoa”

À Excelentíssima Sra. Ministra Damares Regina Alves

Venho, por meio desta, explicitar meu profundo lamento frente a vossa postura e fala que estão materializadas nos canais de comunicação e que copio aqui nesta mensagem (https://oglobo.globo.com/sociedade/menino-veste-azul-menina-veste-rosa-diz-damares-alves-em-video-23343024). Ao tratar da sexualidade humana, Vossa Excelência saltita e grita, em postura descabida, falando sobre cores de vestimentas e papeis a serem desempenhados por crianças.

http://www.huffpostbrasil.com/salomao-cunha-lima/o-ativismo-lgbt-comeca-na-palma-das-maos_a_22108417/

GETTY IMAGES/ISTOCKPHOTO

Infelizmente, ou a senhora não sabe nada do desenvolvimento humano e das questões de gênero ou a sua égide ideológico-religiosa lhe cega. Isso é grave, visto que, as suas funções de Ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos impossibilitam tais posturas, tais falas e tais posicionamentos. Esse agir é incongruente com o seu papel.

Essa nova pasta, que foi criada pelo atual governo, vincula nela os Direitos Humanos que, inoportunamente, recebem deboches e desdéns de muitos dos seus correligionários e de vários da bancada do atual governo. Assusta-me perceber que Vossa Excelência também debocha deles. A sua função é justamente defender esses direitos e qualquer cidadão. Independente de vestir “azul” ou “rosa” e de ser “príncipe” ou “princesa”, ele/ela precisa dessa proteção de forma igualitária. Vossa Excelência se perde e acaba sendo desnuda com tais devaneios. A referência às cores (azul e rosa) e aos títulos (príncipe e princesa) reduz as demandas de gênero a um maniqueísmo tosco, tolo e perverso.

Entenda uma coisa Excelência – não é a senhora, não sou eu e nem será ninguém os responsáveis por definir a sexualidade de alguém. Quando a senhora afirma que agora menino e menina “veste isso ou aquilo” e que serão “isso ou aquilo outro”, Vossa Excelência traz para si uma presunção arrogante de controle. Não Excelência! Quem definirá o que cada um será é a própria pessoa. E quer saber, ele e ela poderão ser o que quiserem. É direito de cada um ter o arbítrio de escolher. É direito de cada um o ato de ser feliz. É direito de cada um ser o que é. Ele e ela vestirão a cor que desejarem. As suas identidades de gênero são escolhas somente deles e tais escolhas não são formatadas e modificadas por rompantes externos. Desse modo, não há cura para aquilo que não é doença.

Então, Excelentíssima Ministra deixo aqui o meu repúdio. Quero acreditar que tal postura não paire no seu consciente, mas sim que venha por impulsos inconscientes não analisados, pois, se assim for, será menos grave. Todavia, a despeito do motivador mental da senhora, quero registar que tal postura é perversa. Já que a senhora faz analogias com cores, eu terminarei essa carta com um trecho de uma bela música, intitulada alma não tem cor, que foi cantada por vários artistas brasileiros. Portanto, Alma não tem cor. Por que eu sou branco? Alma não tem cor. Por que eu sou negro? Entenda Excelentíssima Sra. Ministra Damares Alves que nós somos multicolor, pois o amor não tem cor específica, sobretudo em se tratando de gênero.

Régis Eric Maia Barros
Médico Psiquiatra
Mestre e Doutor em Saúde Mental pela FMRP- USP

Brasil, um país do passado

No Brasil, está na moda um anti-intelectualismo que lembra a Inquisição. Seus representantes preferem Silas Malafaia a Immanuel Kant. Os ataques miram o próprio esclarecimento, escreve o colunista Philipp Lichterbeck.

Publicado na coluna Cartas do Rio, do portal Deutsche Welle

Partidários de Bolsonaro comemoram vitória eleitoral no fim de outubro, Rio de Janeiro

É sabido que viajar educa o indivíduo, fazendo com que alguém contemple algo de perspectivas diferentes. Quem deixa o Brasil nos dias de hoje deve se preocupar. O país está caminhando rumo ao passado.

No Brasil, pode ser que isso seja algo menos perceptível, porque as pessoas estão expostas ao moinho cotidiano de informações. Mas, de fora, estas formam um mosaico assustador. Atualmente, estou em viagem pelo Caribe – e o Brasil que se vê a partir daqui é de dar medo.

Na história, já houve momentos frequentes de regresso. Jared Diamond os descreve bem em seu livro Colapso: Como as sociedades escolhem o fracasso ou o sucesso. Motivos que contribuem para o fracasso são, entre outros, destruição do meio ambiente, negação de fatos, fanatismo religioso. Assim como nos tempos da Inquisição, quando o conhecimento em si já era suficiente para tornar alguém suspeito de blasfêmia.

No Brasil atual, não se grita “herege!”, mas “comunismo!”. É a acusação com a qual se demoniza a ciência e o progresso social. A emancipação de minorias e grupos menos favorecidos: comunismo! A liberdade artística: comunismo! Direitos humanos: comunismo! Justiça social: comunismo! Educação sexual: comunismo! O pensamento crítico em si: comunismo!

Tudo isso são conquistas que não são questionadas em sociedades progressistas. O Brasil de hoje não as quer mais.

Porém, a própria acusação de comunismo é um anacronismo. Como se hoje houvesse um forte movimento comunista no Brasil. Mas não se trata disso. O novo brasileiro não deve mais questionar, ele precisa obedecer: “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”.

Está na moda um anti-intelectualismo horrendo, “alimentado pela falsa noção de que a democracia significa que a minha ignorância é tão boa quanto o seu conhecimento”, segundo dizia o escritor Isaac Asimov. Ouvi uma anedota de um pai brasileiro que tirou o filho da escola porque não queria que ele aprendesse sobre o cubismo. O pai alegou que o filho não precisa saber nada sobre Cuba, que isso era doutrinação marxista. Não sei se a historia é verdade. O pior é que bem que poderia ser.

A essência da ciência é o discernimento. Mas os novos inquisidores amam vídeos com títulos como “Feliciano destrói argumentos e bancada LGBT”. Destruir, acabar, detonar, desmoralizar – são seus conceitos fundamentais. E, para que ninguém se engane, o ataque vale para o próprio esclarecimento.

Os inquisidores não querem mais Immanuel Kant, querem Silas Malafaia. Não querem mais Paulo Freire, querem Alexandre Frota. Não querem mais Jean-Jacques Rousseau, querem Olavo de Carvalho. Não querem Chico Mendes, querem a “musa do veneno” (imagino que seja para ingerir ainda mais agrotóxicos).

Dá para imaginar para onde vai uma sociedade que tem esse tipo de fanático como exemplo: para o nada. Os sinais de alerta estão acesos em toda parte.

O desmatamento da Floresta Amazônica teve neste ano o seu maior aumento em uma década: 8 mil quilômetros quadrados foram destruídos entre 2017 e 2018. Mas consórcios de mineradoras e o agronegócio pressionam por uma maior abertura da floresta.

Jair Bolsonaro quer realizar seus desejos. O próximo presidente não acredita que a seca crescente no Sudeste do Brasil poderia ter algo a ver com a ausência de formação de nuvens sobre as áreas desmatadas. E ele não acredita nas mudanças climáticas. Para ele, ambientalistas são subversivos.

Existe um consenso entre os cientistas conhecedores do assunto no mundo inteiro: dizem que a Terra está se aquecendo drasticamente por causa das emissões de dióxido de carbono do ser humano e que isso terá consequências catastróficas. Mas Bolsonaro, igual a Trump, prefere não ouvi-los. Prefere ignorar o problema.

Para o próximo ministro brasileiro do Exterior, Ernesto Araújo, o aquecimento global é até um complô marxista internacional. Ele age como se tivesse alguma noção de pesquisas sobre o clima. É exatamente esse o problema: a ignorância no Brasil de hoje conta mais do que o conhecimento. O Brasil prefere acreditar num diplomata de terceira categoria do que no Instituto Potsdam de Pesquisa sobre o Impacto Climático, que estuda seriamente o tema há trinta anos.

Araújo, aliás, também diz que o sexo entre heterossexuais ou comer carne vermelha são comportamentos que estão sendo “criminalizados”. Ele fala sério. Ao mesmo tempo, o Tinder bomba no Brasil. E, segundo o IBGE, há 220 milhões de cabeças de gado nos pastos do país. Mas não importa. O extremista Araújo não se interessa por fatos, mas pela disseminação de crenças. Para Jared Diamond, isso é um comportamento caraterístico de sociedades que fracassam.

Obviamente, está claríssimo que a restrição do pensamento começa na escola. Por isso, os novos inquisidores se concentram especialmente nela. A “Escola Sem Partido” tenta fazer exatamente isso. Leandro Karnal, uma das cabeças mais inteligentes do Brasil, com razão descreve a ideia como “asneira sem tamanho”.

A Escola Sem Partido foi idealizada por pessoas sem noção de pedagogia, formação e educação. Eles querem reprimir o conhecimento e a discussão.

Karl Marx é ensinado em qualquer faculdade de economia séria do mundo, porque ele foi um dos primeiros a descrever o funcionamento do capitalismo. E o fez de uma forma genial. Mas os novos inquisidores do Brasil não querem Marx. Acham que o contato com a obra dele transformaria qualquer estudante em marxista convicto. Acreditam que o próprio saber é nocivo – igual aos inquisidores. E, como bons inquisidores, exortam à denúncia de mestres e professores. A obra 1984, de George Orwell, está se tornando realidade no Brasil em 2018.

É possível estender longamente a lista com exemplos do regresso do país: a influência cada vez maior das igrejas evangélicas, que fazem negócios com a credulidade e a esperança de pessoas pobres. A demonização das artes (exposições nunca abrem por medo dos extremistas, e artistas como Wagner Schwartz são ameaçados de morte por uma performance que foi um sucesso na Europa). Há uma negação paranoica de modelos alternativos de família. Existe a tentativa de reescrever a história e transformar torturadores em heróis. Há a tentativa de introduzir o criacionismo. Tomás de Torquemada em vez de Charles Darwin.

E, como se fosse uma sátira, no Brasil de 2018 há a homenagem a um pseudocientista na Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul, que defende a teoria de que a Terra seria plana, ou “convexa”, e não redonda. A moção de congratulação concedida ao pesquisador foi proposta pelo presidente da AL e aprovada por unanimidade pelos parlamentares.

Brasil, um país do passado.

______________

Philipp Lichterbeck queria abrir um novo capítulo em sua vida quando se mudou de Berlim para o Rio, em 2012. Desde então, ele colabora com reportagens sobre o Brasil e demais países da América Latina para os jornais Tagesspiegel (Berlim), Wochenzeitung (Zurique) e Wiener Zeitung. Siga-o no Twitter em @Lichterbeck_Rio.

A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas. 

Nomeação de Damares Alves é expressão perversa da política feita por homens

Em sua coluna desta semana, Debora Diniz comenta escolha da pastora para o Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos

Debora Diniz
Publicado pelo portal Marie Claire, em 11 de dezembro de 2018

A pastora Damares Alves (Foto: Daniel Marenco/Agência O Globo)

A nomeação da pastora Damares Alves como ministra é uma das expressões mais perversas da política feita por homens. Se sua presença responde ao clamor por representatividade feminina na política, por ser uma pastora, sua voz conformará o tom evangélico aos direitos humanos. O título Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos não poderia ser mais honesto para a cruzada evangelizadora – direitos humanos será apenas o cosmético vocabulário para a política familista de enquadramento das mulheres.

A pastora não esconde suas pretensões de iniciar uma “revolução cultural” e explica seus princípios – “meninos entregarão flores às meninas nas escolas” para que entendam “que meninos e meninas não são iguais”. A desigualdade a que se refere é simples: “meninas são mais frágeis que meninos”. O uso da linguagem formal de direitos humanos e, em particular, à menção ao princípio da igualdade, não é inocente. Não há teoria de gênero que sustente igualdade de matéria entre os corpos, essa é uma fantasia erótica dos que acreditaram em kit gay ou se arrepiam em imaginar que há crianças transexuais no mundo.

Mulheres são diferentes de homens, velhos de crianças. Há matéria nos corpos e ela é tangível – o que as normas de gênero nos provocam a pensar é sobre os sentidos da matéria para as formas de existir. Nem todas as mulheres terão filhos, nem todos os homens honrarão com sua responsabilidade parental. Foram os estudos de gênero que nos ajudaram a desvincular a matéria dos corpos dos destinos da reprodução – foi uma conquista civilizatória não mais morrer no parto após uma dúzia de filhos como fizeram nossas bisavós ou avós.

A confusão entre matéria e existência é um jogo de linguagem para esvaziar a luta por igualdade entre os homens e as mulheres no mundo. Por isso, não foi por acaso que as primeiras palavras da ministra foram sobre aborto e família. A centralidade da luta feminista no direito ao planejamento familiar tem uma razão evidente, pois é pela naturalização dos corpos que se controlam as mulheres, mantendo-as como cuidadoras e reprodutoras. A pastora reduz as mulheres ao seu papel reprodutivo, em uma caricatura do feminino que nem mesmo corresponde às personagens da ficção do ciclo do açúcar no Brasil – “meu sonho era ficar na rede à espera de joias do marido”, disse ela.

Não se trata apenas de uma narrativa do século 19 em uma mulher na política do século 21. Há perversidade na composição da personagem que, em sua complexidade, transforma os direitos humanos em uma cruzada evangélica sobre como devem se comportar as mulheres, como sexualidade ou aborto devem ser temas prioritários à política familista. Por isso, os primeiros pronunciamentos da ministra pastora não foram sobre os temas vergonhosos da agenda de direitos humanos no país, como o encarceramento ou a violência urbana, mas sobre gênero e sexualidade. Sua ousadia em declarar que “gravidez é um problema que só dura 9 meses, e aborto é para toda a vida” é um sinal de como ignora que a maternidade é um projeto existencial eterno para as mulheres. Ser mãe é uma decisão que só há data de início e o prazo de validade só termina com a orfandade dos filhos.

A razão de tamanha ousadia contra as mulheres é simples – haverá uma divisão de tarefas na agenda de direitos humanos. Caberá ao ministro Moro atuar no campo dos direitos humanos como política criminal; à pastora Damares, a fragmentação da agenda de direitos humanos tendo os direitos reprodutivos das mulheres como objeto da guerrilha moral. A estratégia é cruel e desonesta. O homem do combate ao crime é um herói, a mulher do cuidado da família é uma personagem caricata que balbucia princípios de direitos humanos como fingimento para as entrelinhas missionárias.

A revanche dos ressentidos

Depois da eleição de Bolsonaro, os demônios interiores saíram para passear

Eliane Brum
Publicado pelo portal El País, em 7 de novembro de 2018

Eleitores comemoram vitória de Bolsonaro (F. Maia / EFE)

Eu acompanhava uma amiga no aeroporto, em São Paulo. Os elevadores que levavam do estacionamento aos terminais demoraram. Quando finalmente entramos, estava lotado. Um homem com um bebê no colo, possivelmente seu neto, gritou: “Quando Bolsonaro assumir, isso aqui vai andar rápido!”. E acrescentou: “Pá! Pá! Pá!”. Abri a boca para perguntar: “Você está atirando no seu neto?”. E então percebi que não poderia fazer isso sem me arriscar a sofrer violência. O homem e a família que o rodeava realmente pareciam acreditar que Bolsonaro dará “um jeito em tudo”, dos “comunistas” que supõem existirem aos milhões, à velocidade dos elevadores.

A eleição de Jair Bolsonaro, o populista de extrema direita que será o próximo presidente do Brasil, liberou algo no país. Um ressentimento contido há muito – por muitos. Todo o tipo de recalque emergiu dos esgotos do inconsciente e hoje desfila euforicamente pelas ruas, escolas, universidades, repartições públicas, almoços de família.

Gays são ameaçados de espancamento se andarem de mãos dadas, ou simplesmente por existir, mulheres com roupa vermelha são xingadas por motoristas que passam, negros são avisados que devem voltar para a senzala, mulheres amamentando são induzidas a esconder os seios em nome da “decência”. Aquele amigo de infância de quem se guardava uma boa lembrança escreve no Facebook que chegou a sua vez de contar o quanto o odiava em segredo e que pretende exterminá-lo junto com a sua família de “comunistas”. Um conhecido que passou a vida adulta acreditando merecer mais sucesso e reconhecimento do que tem, agora espalha sua barriga no sofá da sala e vocifera seu ódio contra quase todos. Outro, que se sempre se sentiu ofendido pela inteligência alheia, sente-se autorizado a exibir sua ignorância como se fosse qualidade.

Mensagens no Facebook anunciam que vão caçar todos os que votaram contra Bolsonaro e jogá-los na fronteira. Aqueles que se opuseram ao autoritarismo são tratados por essa multidão enraivecida como se fossem estrangeiros – e o país tivesse deixado de pertencer também a eles. Como nos princípios do regime totalitário do cada vez mais atual 1984, clássico de George Orwell: “Guerra é paz. Liberdade é escravidão. Ignorância é força”.

A atmosfera tóxica do Brasil atual pode ser resumida por um trecho da carta que chegou ao Centro Acadêmico da Geografia, na Universidade Federal do Pará, em Altamira: “Bem vindos ao fascismo! Agora é a nossa vez, agora é o nosso momento, vocês vão ter que engolir porque vamos passar por cima de cada um de vocês, cada gay, cada sapatão, preto e preta. Vamos exterminar cada um de vocês. (…) Vão morrer um por um, cada preto e preta que acham que podem sair da senzala”. A carta anônima termina com: “Viva Bolsonaro! Viva a ditadura! Viva o Fascismo! Viva o Carlos Alberto Brilhante Ustra!”.

Como as palavras se esvaziaram de sentido no Brasil, “comunismo” e “comunista” virou o nome para tudo e todos que se odeia, seja pela orientação sexual, pela cor da pele ou pela atuação política. O termo não tem mais nenhuma relação com seu conceito, mas foi apropriado como o pecado da parcela da população que denunciou o autoritarismo criminoso de Bolsonaro, um apologista da tortura e dos torturadores. E assim o Brasil inaugura um outro tipo de Guerra Fria.

O pacto civilizatório, aquele que permitia a convivência, já vinha sendo rompido nos últimos anos no país. Agora foi rasgado por completo. Este é o primeiro sinal.

Carta aberta aos familiares e amigos que apoiam o psicopata fascista

Gésner Braga*

https://voyager1.net/historia/a-historia-do-macarthismo-no-brasil/attachment/ovo-da-serpente/

Fonte da imagem: Voyager

Há quatro dias, agi por conta própria e me dirigi a uma emergência psiquiátrica onde fui diagnosticado com quadro depressivo. Ao longo de aproximadamente uma hora de atendimento, narrei os acontecimentos das minhas últimas semanas, em meio a um choro convulsivo. Foram prescritas medicações para controle de ansiedade, insônia e depressão, os quais já estou fazendo uso. Também foi recomendado iniciar um tratamento imediato, o que acatarei.

Sempre me considerei uma pessoa muito resistente e superei as condições de vida mais adversas de forma independente, como sucessivos bullyings vividos no ambiente escolar dos cinco aos quinze anos de idade, além de tristezas profundas e consequentes sensações de morte iminente, fatos que minha família desconhece, justamente porque eu sempre fiz questão de resolvê-los pelos meus esforços.

Mas agora é diferente. O que me angustia e me leva ao fundo do poço da depressão não são questão que dizem respeito somente a mim e ao meu estar no mundo. É algo muito além do que sou, é exercício de alteridade em sua magnitude mais ampla. De fato, desde o primeiro turno das eleições, eu embarquei numa batalha diuturna contra o psicopata fascista, a bosta n’água que quer brincar de presidente de República com seus asseclas descerebrados.

Não, eu não penso em mim. Eu penso em centenas de milhares de pessoas LGBT+ que conquistaram direitos a duras penas, como casar, adotar filhos, ser tratadas pelo nome com que se identificam, ter esses nomes registrados formalmente em certidão de nascimento, documento de identidade e outros, ter atendimento médico respeitoso e adequado à condição em que se apresentam e outras tantas vitórias que nos são muito caras. E todos esses direitos podem ser caçados ou perseguidos por um néscio soldadinho de chumbo se ele for vitorioso. Pensei no extermínio da população negra que já é flagrante e tenderá a aumentar pelo gatilho do racismo institucional. Pensei na cruel violência diária contra mulheres, agora legitimada pelo discurso machista e misógino do verme. Pensei em outras tantas barbaridades.

Por tais dilemas, minha pressão tem se mantido alta e o sono foi embora. Como não suportava mais noites em claro, fui à emergência psiquiátrica e o resto vocês já sabem. Uma ira incontida me domina e me afunda ao perceber que uma onda fascista, da espécie mais abjeta, tem crescido ao longo dos últimos anos. O sinal mais emblemático da instalação definitiva da degradação política no Brasil se deu nas eleições de 2014, cujos eleitos foram empossados em 1º de janeiro de 2015, formando o Congresso mais conservador da história daquela casa legislativa desde a redemocratização do país, nos anos 80.

A mesma história se repete agora em 2018, e as eleições catapultaram para o Congresso de 2019 embustes que venceram ao lançar mão de uma velha tática para ganhar visibilidade e consequente eleitorado: a forma mais execrável de polêmica, baseada em mentiras e difamações infundadas. Figuras de competência bem questionável ou nula como Alexandre Frota, Eduardo Bolsonaro, Isidório, Kim Kataguiri e Marco Feliciano (só para citar alguns, mas a lista é vastíssima) têm suas cadeiras garantidas a partir de 1º de janeiro do próximo ano.

Foi também em 2014 que Jair Messias Bolsonaro – a quem carinhosamente trato pelo codinome “Já ia mansinha a bosta n’água” – anunciou seu desejo em subir a rampa do Palácio do Planalto com as honrarias de presidente eleito. Contumaz no uso excessivo da mesma prática de mentiras, polêmicas e incitação ao ódio, ele conhece bem como funciona a grande mídia (tanto quanto Hitler dominava a comunicação de massas) e dá o que ela quer: polêmica = audiência = vendas.  Ao longo do tempo, vi sua popularidade crescer muito rapidamente, como era de se esperar que acontecesse.

Era de se esperar? Não. Todos os meus amigos a quem revelei meu temor pela possível eleição de um psicopata fascista ao cargo de presidente da República foram unânimes em dizer que ele não conseguiria tal feito. Aleguei que tempos sombrios já se delineavam há longa data, que a composição do Congresso Nacional em 2015 demonstrava que o ovo da serpente foi cuidadosamente incubado e começava a romper sua casca. Mesmo a eleição de um lunático à Presidência dos Estados Unidos não conseguiu dobrar o ceticismo dos meus amigos sobre um desfecho semelhante ou muito pior no Brasil. Foi necessário chegarmos ao resultado do primeiro turno das eleições presidenciais para que eu pudesse finalmente provar aos meus amigos que eu não era um visionário. Eles que eram ingênuos. Receio que agora seja tarde demais para reparar o erro da indiferença quanto ao abismo à frente.

Se, por um lado, tenho amigos que, antes apáticos, agora reforçam às trincheiras no combate ao avanço do fascismo, tenho outros tantos familiares e amigos que acreditam ser o psicopata despótico a solução para todos os seus males, como um elixir vendido pelas Organizações Tabajara. Nitidamente movidos por um ódio antipetista, simplesmente ignoram tudo o que de perverso, leviano, odioso, sórdido e falacioso o mito (lá deles) diz e faz. Não importa que ele autodeclare seu racismo, machismo, misoginia, homofobia e transfobia, que declare seu desprezo a pobres e índios, que apoie a tortura e o extermínio de inimigos ou que decida acabar com toda e qualquer forma de ativismo social, justamente uma das expressões da voz popular. O que importa é a hombridade que ele representa. Oi? Será que eu entendi direito? Vejamos…

Curiosamente, esses meus familiares e amigos apoiadores do fascismo expresso no discurso de ódio ardiloso de um tirano ignoram as evidências de uma campanha construída na estratégia de difusão de mentiras pelas redes sociais, especialmente WhatsApp. Teoria da conspiração? Pesquisem sobre Steve Bannon e a bem sucedida campanha de Donald Trump à Presidência dos Estados Unidos. Mas eu dou umas dicas: todo mundo com um smartphone tem WhatsApp, aplicativo que virou uma ferramenta de comunicação moderna e indispensável. Portanto, o perfil de usuário é diverso, incontável. É também um recurso próprio para notícias rápidas, com capacidade de difusão veloz e sem limites. Como o alcance é o mais amplo possível e muito veloz, as notícias veiculadas nem sempre ou quase nunca são objeto de averiguação de veracidade. Vivemos imersos em uma cultura acrítica. As pessoas não têm costume ou vontade de avaliar as informações que chegam em suas mãos. Por essa razão, o WhatsApp se tornou o maior vetor de notícias falsas. Os apoiadores do fascista sabem disso e tiram grande proveito.

Ah, essas mesmas pessoas devem estar ignorando por completo a denúncia de caixa 2 que a campanha de Bolsonaro usou e abusou para difundir mentiras à exaustão. Onde foi mesmo que ficou a honestidade do candidato de vocês? Ah, já sei! Vocês vão dizer que isso tudo é invenção de mídia golpista, provavelmente financiada por petralhas. Aliás, devem estar achando que eu também me enquadro nesta categoria. Danem-se!

Sim, digo e repito: danem-se todos vocês familiares e amigos que apoiam um lunático, farsante, fascista, que incita ódio e violência. Danem-se, pois, desde o final de semana do primeiro turno das eleições, a minha vida se tornou um caos. Eu constatei que a cultura fascista ganhou corpo em todo o país e as pessoas não têm mais vergonha de se mostrar racistas, machistas, homofóbicas, transfóbicas, violentas, cruéis e assassinas. Tornar-se opressor virou status e eu sou um dos alvos preferenciais.

É triste perceber que o que há de mais vil em política no mundo é considerado mito por uma multidão de acéfalos movidos pelo ódio e, portanto, cegos. O verme é tão desprezível e tão ultradireita que até a extrema direita o repudia. Ele só tem mesmo o apoio de militares truculentos e arrogantes, de salafrários evangélicos neopentecostais, de empresários sonegadores, do partido com uma das maiores quantidades de políticos caçados, do atual mentor da Ku Klux Klan e de pessoas desequilibradas iguais a ele.

Tenho assistido o recrudescimento da violência motivada pelo ódio gratuito contras pessoas LGBT+. Tenho recebido relatos diários de amigos meus ameaçados em casa, na rua, no trabalho. Tenho visto o horror tomar conta do dia-a-dia dessas pessoas. Já estávamos habituados a violências físicas e psicológicas, algumas fatais, mas a situação fugiu do controle e tomou proporções gigantescas e preocupantes. É flagrante que os pregadores de fúria (como o fascista candidato à presidência) consideram homossexuais e transexuais a escória humana, aquele tipo de gente que eles preferem distante ou mesmo morta. Pois esse discurso deflagra e legitima uma série de ações violentas contra pessoas LGBT+, inclusive homicídios motivados exclusivamente por ódio.

Quando eu digo a amigos meus, principalmente aqueles apoiadores da bosta n’água, que a eleição de um fascista transformará o Brasil numa Rússia que tem a LGBTfobia como política de governo, o povo acha que é exagero meu. Os atos de violência perpetrados diuturnamente pelas gangues bolsonaristas são o prenúncio de que a violência contra pessoas LGBT+, que já é grande, aumentará ainda mais e se tornará ainda mais cruel. E eu posso ser uma vítima. Nunca esqueçam disso!

Por tudo isso, estou realmente abalado, mas o medo não se apossou de mim. Eu estou irado, possesso, virado no cão, com sangue nos olhos e com vontade de voar em muita jugular. Mas medo não! O medo vai me fragilizar, vai me sufocar, vai frear meus instintos e minha sede de reação! Sou da luta e dela não saio. Daqui em diante, estarei sempre em posição de combate, pois o que vem por aí não é nada bom independente do resultado das eleições. Se eu caí em depressão, ela não conseguiu me imobilizar e esse texto é prova disso. Busquei ajuda por conta própria, solicitei prescrição de medicamentos que não me dopassem e que me mantivessem alerta. E ante tal diagnóstico, decidi romper com circunstâncias que podem me adoecer. Evitarei a convivência com aprendizes de fascista. Cortarei relações para ficar longe das bestas feras e isolar essas energias nefastas.

Portanto, bye, bye, babies. A quem couber essa carapuça, recomendo esquecer minha existência.

Gésner Braga é gay, jornalista e ativista do movimento LGBT+

“O sangue de toda uma geração poderá cair em nossas mãos”

Carta aberta aos pastores e igrejas que apoiam Bolsonaro

Por Hermes C. Fernandes
Publicado no Facebook, em 21 de setembro de 2018

Senhores (as) líderes evangélicos, graça, paz e discernimento!

https://www.facebook.com/hermesfernandesreal/posts/1147253275434814As eleições se avizinham, e boa parte dos pastores de nosso país tem manifestado seu apoio à candidatura de Jair Bolsonaro. A maioria alega ser ele o que melhor representa os anseios do povo evangélico, principalmente devido ao seu discurso favorável à família tradicional e aos valores morais tão caros ao cristianismo.

De repente, sinto-me como se houvesse viajado no tempo e revivesse os dias da guerra fria, quando o mundo se via ameaçado pela eclosão de uma guerra nuclear envolvendo as duas potências mundiais: A União Soviética e os Estados Unidos. Colegas vociferam de seus púlpitos sobre o perigo do comunismo que ronda a nossa sociedade. Pergunto-me em que mundo estamos vivendo, afinal? Qualquer um que levante sua voz a favor do pobre, do excluído, do oprimido, logo é tachado de esquerdopata, comunista, “agente do inferno”, e coisa parecida.

Os senhores já pararam para se perguntar sobre o que estaria por trás deste discurso ultraconservador? Há uma onda conservadora varrendo a Europa e os EUA, suscitando velhos rancores contra os imigrantes, os homossexuais, as minorias, a classe operária, etc.

No meio desta avalanche de intolerância, eis que uma voz destoante se faz ouvir mundo afora. Não de um pastor como foi nos dias de Luther King nos EUA, ou de Bonhoeffer na Alemanha, mas de um Papa, líder da instituição mais conservadora do mundo. Por ironia, justamente o primeiro Papa latino-americano se levanta contra tudo e contra todos os que insistem em ressuscitar um discurso que há décadas parecia ter sido abandonado e enterrado. Enquanto isso, a igreja evangélica, que por tanto tempo esteve na vanguarda na luta pelos direitos humanos passa a se aliar com o que há de mais retrógrado e ultrapassado. Que vergonha! Tudo em nome de nossos escrúpulos moralistas.

Conseguiram a façanha de diluir o puro Evangelho da graça num discurso de ódio e intolerância.

Esquecemo-nos dos colegas que foram perseguidos, torturados, e, alguns até mortos e desaparecidos, durante o regime militar. Justificamo-nos no fato de que o tal candidato defenda os mesmos valores. Será que ser a favor da tortura soa menos cruel quando se é contrário ao aborto? Será que ser a favor do armamento da população condiz com o que foi ensinado por Jesus? Afinal, bem-aventurados são os pacificadores ou os que pretendem armar a população? Ser pela família tradicional abona a conduta de quem se revela contrário aos direitos trabalhistas conquistados a duras penas? Se você, pastor, é contra tais direitos, recomendo que não aceite mais dízimos de décimo-terceiro ou de férias de seus membros.

Não ajamos como o profeta Natan que encorajou a Davi a construir o templo, afirmando-lhe categoricamente que Deus o havia escolhido para aquela empreitada. Porém, o Senhor não o tinha autorizado a fazer tal coisa, de modo que, mesmo constrangido, teve que retornar ao rei e dizer-lhe a verdade. Por causa do sangue que havia em suas mãos, Deus não o designou para edificar Sua casa, ainda que já houvesse levantado todos os recursos para tal, e recebido do Senhor a planta, caberia ao seu sucessor tocar a obra.

Quem somos nós para abençoar o que Deus não abençoou? Quem somos nós para encorajar o que contraria frontalmente a Sua vontade?

Sei que muitos alegarão que tudo não passa de manipulação da mídia esquerdista. Mas basta assistir aos inúmeros vídeos de discursos e entrevistas do candidato para verificar que exatamente assim que ele pensa. Ele mesmo afirma que o trabalhador terá que escolher entre ter seus direitos assegurados ou o emprego. Ele é quem diz com todas as letras que o Estado não é laico, mas cristão e que as minorias terão que se dobrar à vontade das maiorias. Ele diz que seria incapaz de amar um filho homossexual e que a homossexualidade é falta de p*rrada na infância. Diz que não empregaria uma mulher, já que esta engravida. Diz que educou seu filhos para que jamais namorassem negras. Diz que em seu governo os índios não receberiam nem mais um centímetro de terra. Se ele é a favor da família tradicional, por que disse que usava o apartamento para “comer gente”? Como defender quem diz que uma mulher não merecia ser estuprada por ser feia? Como apoiar quem defende o uso da tortura se somos seguidores de um Cristo torturado e morto numa cruz? Como apoiar quem diz que ordenaria que helicópteros metralhassem uma favela se os criminosos não se rendessem? Será que na favela só mora bandido? Com que cara visitaremos os presídios para pregar o amor de Cristo depois de apoiar que tem como slogan “bandido bom é bandido morto”?

O sangue de toda uma geração poderá cair em nossas mãos!

Se você é pastor de uma pequena congregação, talvez esteja indo na onda de grandes líderes que já manifestaram seu apoio a Bolsonaro. Não seja ingênuo. Muitos deles o fazem, não por convicção, mas por conveniência, movidos por interesses nem sempre louváveis (alguns até sórdidos).

Lembre-se de quem nos considerou fiéis, pondo-nos em seu ministério (1 Timóteo 1:12), e que um dia, teremos que prestar contas (Hebreus 13:17).

Por isso, deixo aqui uma recomendação que deveria perturbar o sono de todos os que levam a sério o ministério pastoral:

“Pastoreiem o rebanho de Deus que está aos seus cuidados. Olhem por ele, não por obrigação, mas de livre vontade, como Deus quer. Não façam isso por ganância, mas com o desejo de servir. Não ajam como dominadores dos que lhes foram confiados, mas como exemplos para o rebanho.” 1 Pedro 5:2,3

Não compete a pastor algum dizer em quem seu rebanho deve votar. Mas compete-nos instrui-los a reconhecer os riscos por trás de todo discurso de ódio e intolerância.

Jesus disse que enquanto o bom pastor dá a vida pelas ovelhas, o ladrão, ao ver o lobo, foge e deixa suas ovelhas à mercê do perigo. Portanto, cumpramos nosso papel. Pois cuidar das ovelhas que nos foram confiadas é a melhor maneira de dizer: TU SABES QUE TE AMO, SENHOR.

“O mundo bolsonarista será muito mais injusto e mais perigoso para os homossexuais”

Wilson Gomes
Publicado no Facebook, em 15 de outubro de 2018

https://www.facebook.com/wilson.gomes.9883/Perguntaram-me hoje qual é o meu maior medo em um futuro governo Bolsonaro. Se é para escolher apenas uma coisa, não tenho dúvida: é o fato de que o mundo bolsonarista será muito mais injusto e mais perigoso para os homossexuais. Parece-me plausível imaginar que aparecerão milicianos empoderados em toda parte para agredir, ofender e humilhar LGBTs.

O modo como a artilharia bolsonarista no WhatsApp gastou energia e recursos para destruir a reputação e as chances eleitorais de Jean Wyllys, uma das campanhas mais brutais a que já assisti, demonstra a centralidade do ódio aos homossexuais na construção da sua identidade. Difícil mesmo dizer se há entre eles mais ódio a Lula e ao PT ou ao meu amigo Jean. Está todo mundo falando, com razão, do antipetismo, mas para o estrato mais radical do bolsonarismo, Jean virou a quintessência das pautas morais que eles abominam. Para o bolsonarismo hard core, Jean é uma metonímia da mentalidade liberal e progressista contra a qual eles reagem com fúria existencial, como esta fosse um luta que vale a vida.

Mas, por que isso? Uma razão, já está apresentada acima: o bolsonarismo hard core é um reacionarismo extremado, uma luta de vida ou morte contra os valores liberais. Sentiam-se uma ilha oprimida cercada de Jeanwyllies por todos os lados, mas, na sua fantasia doentia, agora têm uma chance de retaliação que não podem deixar de escapar. O fim político de Jean, com efeito, era o prêmio que gostariam de ter obtido nesta eleição e que lhes escapou por pouco.

A segunda razão é que o núcleo radical do bolsonarismo é o principal desaguadouro de uma militância anti-homossexuais que vem de longe. Desde 2010, pelo menos. Sentiram-se derrotados várias vezes, nas decisões do Supremo, na reeleição de Jean em 2014 com recorde de votação, na presença de Jean na esfera pública à medida em que foi se tornando a principal voz pública na luta por direitos e reconhecimento para os LGBTs, no engajamento de Jean em questões de gênero, laicismo, religiões afro. O ascensão de Jean Wyllys na esfera pública e nas instituições da política foi experimentada por essa gente sombria como ofensa e como afronta.

Como agora sentem que deram a volta por cima e ganharam o jogo, tenho mais medo da arraia miúda do bolsonarismo e do seu senso de empoderamento do que do próprio Bolsonaro – que estará atado, pelo menos inicialmente, a algumas amarras institucionais. Temo que o Brasil de 2019 venha a ser um lugar muito mais perigoso para minorias, a começar pelos homossexuais. Rezo para estar errado. De qualquer modo, pelo menos sabemos de que lado estaremos. Eu, pelo menos, não tenho dúvida.

Um protesto histórico, menos na tevê

Ao reunir dezenas de milhares, #EleNão provoca maior manifestação liderada só por mulheres no Brasil mas é quase ignorado na tevê

José Roberto de Toledo
Publicado pelo portal Piauí, em 29 de setembro de 2018

Manifestantes do #EleNão ocupam o Largo da Batata, no sábado à tarde, em São Paulo (Foto: Eduardo Anizelli/Folhapress)

Dezenas de milhares de mulheres saíram às ruas para bradar #EleNão neste sábado, em cidades de todas as regiões do Brasil. Juntas, produziram as maiores manifestações populares desta eleição presidencial, de longe. Não se sabem números exatos porque a polícia, sintomaticamente, não contou na maioria das cidades. Mas as manifestantes ocuparam densamente amplas áreas da Cinelândia, no Rio, e do Largo da Batata, em São Paulo, para citar só duas. Em uma campanha na qual rarearam os comícios, tamanha aglomeração de gente contra um candidato é notícia. E foi: em inglês, francês, árabe. Mas o brasileiro que passou o dia na frente da tevê não ficou sabendo. A menos que tivesse um celular na mão.

O episódio sintetiza todas as principais marcas da eleição presidencial de 2018 no Brasil. Em lugar da propaganda eleitoral televisiva, quem mobilizou os eleitores contra e a favor de candidatos foram as mídias sociais, notadamente o WhatsApp. Foi uma hashtag distribuída via Twitter, Facebook e Instagram que levou as maiores multidões à rua, não foram anúncios de tevê.

Os efeitos mais profundos dessa mudança são potencialmente revolucionários, pois todo o jogo de poder dentro dos partidos políticos gira em torno da distribuição do tempo de propaganda eleitoral e das verbas públicas. Se a tevê perde influência, perdem junto os caciques partidários que controlam a distribuição de tempo de câmera entre seus correligionários. Também perdem poder de barganha partidos que só existem para negociar minutos de tevê ao formarem coligações eleitorais.

Principal propaganda desse novo jeito de fazer campanha política é o candidato que lidera as pesquisas de intenção de voto e tem menos de 10 segundos por dia de propaganda na tevê. Perca ou ganhe, Bolsonaro é o personagem do ano por ter sido o único candidato capaz de surfar até o fim a onda de conservadorismo que tomou o país como um tsunami, e numa prancha de isopor: sem propaganda de tevê, sem marqueteiro, sem partido. Mas o fez destilando tanto ódio contra tantas minorias que a reação a ele acabou provocando a maior manifestação de rua de toda a eleição.

Não é de agora o movimento de mulheres contra Bolsonaro. Desde o começo da campanha, o capitão reformado sempre teve muito mais dificuldade de vender suas ideias repressivas ao eleitorado feminino do que ao masculino. O #EleNão catalisou o sentimento contra Bolsonaro e transformou algo difuso em uma ação simultânea e concreta de dezenas de milhares de mulheres. Só não foi maior porque a cobertura da campanha eleitoral na tevê é deliberadamente omissa e limitada. Não faz reportagem, entrevista; não investiga, divulga agendas.

Se parte dessa omissão pode ser explicada pelas limitações impostas pela legislação eleitoral que tange o direito à informação dos telespectadores, nem tudo, porém, cai nessa conta. A falta de cobertura ao vivo dos atos do #EleNão e, mais grave, a ausência de contextualização e ênfase nas raras reportagens sobre a mais importante manifestação de rua da campanha eleitoral de 2018 até agora não se deve ao departamento jurídico das emissoras. O movimento não é partidário nem promove nenhuma candidatura específica. É contra um candidato, sim, mas não prega que é melhor votar neste ou naquele outro.

O resultado dessa omissão e falta de contextualização é que coisas diferentes são tratadas como iguais. Uma manifestação de dezenas, no máximo centenas de pessoas em um lugar é apresentada da mesma maneira e com a mesma magnitude que dezenas de milhares de mulheres em dúzias de cidades. Na tela da tevê, o ato solitário pró-Bolsonaro em Copacabana foi equivalente à maior manifestação popular capitaneada por mulheres na história do Brasil. Felizmente, a internet provê o que a tevê omite.

José Roberto de Toledo (siga @zerotoledo no Twitter)
Jornalista da piauí, foi repórter e colunista de política na Folha e no Estado de S. Paulo e presidente da Abraji

Qual o sentido de um cristão apoiar a tortura?

Por Joel Zeferino
Publicado pelo Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil, em 11 de setembro de 2018

http://www.conic.org.br/portal/images/2017/202288_Illustration_Image_.jpg

Foto: Anistia Internacional

A gente sempre acha que não dá mais para se surpreender, mas se surpreende. E até se assusta. Estou assustado com a maneira avassaladora como a “igreja brasileira” – usando um termo bastante impreciso para me referir a esse grande fenômeno de massa que ocupa enormes espaços na mídia, arrebanha multidões, e que tem um projeto claro de aparelhamento dos espaços de decisão, inclusive com representações nas câmaras, parlamentos e outros espaços da política nacional, como o Judiciário – vem dando mostras escancaradas de engajamento não apenas político, mas partidário.

Pois essa “igreja brasileira” – formada por uma salada infinita, que vai do fundamentalismo protestante e seus derivados, até as novíssimas igrejas pentecostais-neo-pós-tudo, e que se somam a um grande contingente de católicos (no plural mesmo, pois longe da uniformidade pensada, o Catolicismo se constitui de numerosíssimos movimentos que guardam entre si uma relação muito mais simbólica, posto que no campo das ideias e práticas são absurdamente diferentes, divergentes e contraditórios) – está se superando a cada dia que passa em seus malabarismos bíblico-teológicos para escancarar o seu apoio a um candidato que apoia abertamente a tortura e a eliminação de grupos divergentes.

Qual o sentido de um cristão apoiar um candidato que se dizendo cristão, faz apologia à TORTURA???

Não há sentido bíblico, ao menos não à luz da pessoa e das obras do Jesus de Nazaré. Como combinar “Bandido bom é bandido morto” com o “Ouvistes o que foi dito: ‘Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo’. Eu, porém, vos digo: Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem” (Mt. 5:43-44)? Simplesmente não dá para “esticar” o texto para desdizer o óbvio ululante. Ou você apoia o candidato-torturador e abre mão de ser discípulo do nazareno, ou vice-versa.

Não há, certamente, um sentido lógico. Minimamente uma reflexão lógica há de nos fazer refletir que, por exemplo, dois erros não fazem um acerto. Não é possível achar que por termos uma situação de violência vamos aumentar a violência para diminuir a violência. Não faz sentido.

Não há sentido ético. Se pensamos ética como uma busca pela realização humana, como é possível combiná-la com ideais de eliminação da diferença, imposição de uma moral estrita, e falta de respeito às diferenças?

Resta o sentido histórico… Sim, talvez seja isso. Pois se lembrarmos que grandes porções dos “cristãos” ao longo da história apoiaram as Cruzadas, apoiaram a Inquisição, participaram das Guerras de Religião, da Caça às Bruxas, estiveram do lado de Hitler e de Mussolini, participaram e participam da “guerra contra o mal” empreendida pelo “gigante protestante” que são os EUA, matando com bombas e disfarçando com bíblias…

Sim, sim… Há um sentido histórico naqueles que cantam louvores ao Jesus, preso, torturado e morto como um bandido entre bandidos, mas que apoiam os torturadores e seus apoiadores de plantão. Talvez retorne aqui a frase de Nietzsche, que dizia lavar as mãos depois de apertar as mãos de um cristão. No caso atual, talvez seja por que essas mãos estão cobertas de sangue.

Joel Zeferino é pastor na Igreja Batista Nazareth