A revolta do cuspe

Leandro Colling
Publicado pelo site Cultura e Sexualidade, em 21 de abril de 2016

http://www.ibahia.com/a/blogs/sexualidade/files/2016/04/image-34-600x400.jpegAcho que o fato todas as pessoas já conhecem, mas farei um brevíssimo resumo: no último domingo, depois de votar contra o golpe em curso no Brasil, o deputado federal Jean Wyllys foi novamente violentado pela homofobia do também deputado federal Jair Bolsonaro e reagiu cuspindo no “nobre parlamentar”. Bolsonaro, ao votar, homenageou aquele que foi o torturador da presidenta Dilma durante a ditadura. Não me interessa aqui tratar dos detalhes do que ocorreu, mas de pensar sobre algumas das repercussões e potências do cuspe.

Bolsonaro fez o previsível. Quis sair de vítima e tentou desqualificar Jean, mas o tiro daquele que defende a ditadura, pelo visto, saiu pela culatra. Jean recebeu um imenso apoio, oriundo até de pessoas que apoiaram o golpe fora ou dentro da Câmara dos Deputados. Mas o ato impulsivo de Jean também representou o que muitas pessoas desejavam fazer em relação a Bolsonaro e outros deputados e deputadas.Eu também tenho uma imensa vontade de cuspir em Bolsonaro, mas isso seria pouco. Penso que seria muito mais interessante se nós, pessoas contrárias ao golpe, aproveitássemos esse cuspe de várias formas. Vou aqui citar apenas duas: como uma arma e como uma boa metáfora para pensarmos em uma revolta contra essa violência que estamos assistindo (aliás, violência que as pessoas LGBT já estão denunciando há anos e que foi tema de vários textos aqui em nosso blog, leia aqui um deles sobre o tempo em que os fundamentalistas religiosos ainda estavam no governo e na base aliada).

Vamos ao primeiro ponto, o cuspe como uma arma. Na história de várias revoltas mais espontâneas e populares é recorrente perceber que as pessoas usam armas pouco convencionais, ou melhor, usam as armas que estão ao alcance das suas mãos. Na Intifada, por exemplo, revolta dos palestinos contra a invasão de seus territórios, as pessoas usaram (e ainda usam) pedras. Cuspe todos nós temos ao nosso alcance. Cuspe não mata, mas desmoraliza, repugna, paralisa, atinge a subjetividade da pessoa-alvo.

O cuspe era a única arma que Jean possuía para se defender. O cuspe é uma arma não letal em tempos em que a desobediência civil parece ser nossa última alternativa frente ao golpe em si e tudo o que pode trazer como consequências. Uma delas? Ter Eduardo Cunha como presidente do Brasil, ter todo o governo federal ocupado pelos defensores da Família, Tradição e Propriedade. Para impedir isso vocês acham que bastará pressão sobre senadores, abaixo-assinados, protestos caretas? É tempo de insurgência, meu amor! E desobediência civil é também uma forma de exercer a cidadania (leia texto sobre isso aqui).

Mas o que mais me interessa é pensar na potência do cuspe como metáfora ou símbolo de uma revolta. Símbolos e nomes não são insignificantes nas revoltas. Lembrem dos “cravos”, em Portugal, da Revolta dos Jasmins, como também ficou conhecida a Primavera Árabe, e de nossa Revolta do Buzú e Movimento Passe Livre, aquele grande movimento que se alastrou em 2013 para vários temas e cidades e que até hoje não foi ouvido inclusive por boa parte esquerda e que, é bom lembrar, começou em Salvador em 2003.

E, nesse sentido, o cuspe funciona como uma ótima metáfora de nossos tempos atuais. O cuspe, junto com as fezes, a urina, o sangue, são aquilo que temos de abjeto em nós mesmos, mas paradoxalmente também são coisas que nos constituem e, ao mesmo tempo, não desejamos expelir em praça pública, muito menos no plenário da Câmara dos Deputados. Assim, os abjetos (todos aqueles que não são considerados dignos de respeito e de direitos pela Família, Tradição e Propriedade – clique aqui e leia texto de Berenice Bento sobre isso) usam uma coisa abjeta e nojenta como símbolo de sua revolta. Quer me desrespeitar, violentar, impedir minha vida da forma como eu a desejo? Resisto até o fim, não tenho revólveres ou canhões mas tenho cuspe, merda e mijo para jogar em sua cara. Eis a potência da revolta do cuspe.

E sabe o que mais, muitas pessoas, em especial nós gays, fazemos com o cuspe? Ah fundamentalistas, isso vocês não suportam, é demais para as suas cabecinhas! Lambuzamos nossas genitálias e cus e fodemos bem gostoso. Sim, Bolsonaro, “queimamos nossas roscas sempre que possível”, de preferência todo dia, mas também sabemos produzir muito cuspe para jogar na cara dos golpistas.

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