A revolta de Porto Sauípe: a força popular que desafia o preconceito revestido de dogma religioso

Por Gésner Braga*

Porto Sauípe é um distrito do município de Entre Rios, litoral norte da Bahia, a 82 km de Salvador. Em julho deste ano, o lugar de praias paradisíacas ganhou notoriedade nacional por motivos nada nobres. O pastor da Igreja Batista Bíblica Salem, cujo nome faço questão de ignorar, ostentava na parede externa do templo placas em que declarava que homossexuais deveriam ser mortos, em uma atitude de preconceito desmedido e irresponsável. Clique aqui e saiba mais sobre o fato.

Porém, algo saiu da ordem prevista pelo tal “religioso”, especialmente no dia 30 de julho, quando dezenas de moradores de Porto Sauípe seguiram em marcha pelas ruas do lugar em protesto contra a arrogância e sordidez daquele que se declara servo de Deus, mas que destila ódio publicamente e sem o menor constrangimento. Veja abaixo as fotos do empolgante ato popular.

Segundo declarações de habitantes do distrito, as placas que trazem dizeres bíblicos notoriamente alterados ao bel prazer do pastor para torná-las ainda mais ofensivas era hábito há cerca de seis anos, mesmo com insistentes reclamações. Mas o que terá mudado para a população enfim se insurgir contra esse abuso e intolerância?

portosauipe37Tudo começou no dia 13 de julho, quando recebi de um amigo que lá reside uma foto (ao lado) contendo duas placas. Numa delas, está dito que, “se um homem tiver relações com outro homem, os dois deverão ser mortos por causa desse ato nojento; eles serão responsáveis por sua própria morte”. A placa traz referência a Levítico, livro bíblico, porém com transcrição bastante alterada. Noutra, é dito: “você é livre para fazer suas escolhas, mas não é livre para escolher as consequências”.

Prontamente, denunciei o caso em um grupo do WhatsApp que reúne ativistas LGBT e representantes do poder público, como promotores de Justiça e defensores públicos, além deadvogados, médicos, psicólogos, assistentes sociais, jornalistas, entre outros. Com a ajuda do meu amigo, tornei pública a localização precisa da igreja e adicionei novas fotos às quais a promotora de Justiça Márcia Teixeira teve acesso. Vocês percebem? Tudo começou num grupo do WhatsApp! Vejam a seguir a força que temos.

A partir desse grupo virtual criado pela coordenadora do coletivo Mães pela Diversidade na Bahia, Inês Silva, o Ministério Público Estadual iniciou as investigações. Mas o pontapé inicial para a necessária visibilidade ao caso aconteceu com a publicação de notícia no site Blasting News, em 21 de julho, pelo jornalista Jan Penalva que também compõe o grupo do aplicativo. A partir daí, a denúncia ganhou o mundo, as coberturas da imprensa cresceram e as pessoas, até então desconhecidas, começaram a se manifestar sobre o assunto, sempre com posições contrárias ao pastor.

A promotora de Justiça Márcia Teixeira, que atua em Salvador, acionou o promotor responsável pelo município de Entre Rios, Dário José Kist, e também concedeu entrevistas esclarecedoras à imprensa sobre o caso. O presidente da Comissão de Diversidade Sexual e Combate à Homofobia da Ordem dos Advogados do Brasil – Seção Bahia, Filipe Garbelotto, também se manifestou radicalmente contrário à exposição das placas. Pressionado pelo Ministério Público, o pastor foi obrigado a retirar a placa que fazia defesa da morte de homossexuais, restando apenas a segunda que, isolada, tem conteúdo irrelevante.

Ao perceber que não estavam sós, os moradores do distrito tomaram as ruas com faixas, cartazes e palavras de ordem contra a LGBTfobia e toda forma de preconceito e discriminação. Mas alegam que nem sempre foi assim. A indignação contra o pastor sempre existiu e sempre tentaram fazer algo contra as atitudes ofensivas da igreja, mas se sentiam fracos, isolados e desistiam. Agora, depois que o fato ganhou repercussão e sua gravidade se tornou notória, perceberam-se mais fortes e reuniram-se num ato histórico.

Morador de Porto, Enéas Schramm é um dos entusiastas do ato político por considerar fundamental enfrentar o ódio e empoderar a voz de lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e de toda pessoa que divirja da heteronormatividade dominante.  “Amei a manifestação. Hoje senti verdadeiramente a importância do significado político que uma parada LGBT deve ter. Tivemos momentos lúdicos, tivemos música, mas também tivemos momentos de discurso, para falar desse ódio que precisa cessar”, registrou.

Yuri de Lemos também participou do ato e reconhece o caráter ainda modesto do evento. Ainda! Mas considera que, apesar de não ter sido um ato de grandes proporções, foi seguramente causador degrande impacto positivo. “Sair às ruas celebrando a diversidade e as múltiplas formas de identidade e de amor em momentos em que o ódio gratuito ao outro tem se tornado recorrente, principalmente levando em consideração o conteúdo homofóbico da placa, é uma forma de mostrar que não apenas existimos, nós resistimos. Ver parte da comunidade sentada na praça podendo acompanhar as narrativas das nossas vivências e, num sentimento de alteridade, nos aplaudindo, fez com que nós ficássemos com a sensação de dever cumprido. Foi lindo”, afirmou.

Pois a história não deve parar aqui. O ato do último sábado deve agora fazer parte de um calendário fixo. Por que não adotar sempre o último sábado ou domingo de julho para novas marchas contra o preconceito em Porto Sauípe? A ideia está lançada e está mais que provado que a coragem e a mobilização popular são transformadoras. Tenho tido muitas provas disso ultimamente.

Gésner Braga é gay, ativista social, jornalista e mantem o site Clipping LGBT

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