Retórica do ódio – O ataque do heteroterrorismo ao Queermuseu do Santander

Por Walter Silva
Publicado pelo portal Symposium – Histórias, crítica e reflexão, em 

Alemanha, 1933. A destruição da cultura gay.

De tempos em tempos ao longo dos séculos a cultura e história sexo-gênero desviante são silenciadas e deliberadamente destruídas.  O acadêmico Rictor Norton escreveu um ensaio sobre essa censura sistemática apontando que a primeira resposta a qualquer manifestação cultural das minorias sexuais é quase sempre a acusação de ”obscenidade”, inclusive independente da existência de elementos sexuais explícitos, dado que a sexualidade desviante é  previamente lida como ”imoralidade”. Ele revela que os efeitos dessa supressão da história e cultura gay são os mesmos do imperialismo cultural e faxina étnicas;  e observa que a censura da sexualidade raramente é levada tão a sério quanto a censura política ou da religião. Com efeito, leis  que conduzem à restrições nos usos e costumes religiosos com base no secularismo via de regra são consideradas algum tipo de censura ou opressão pelo senso comum. A própria revolução Iraniana foi em parte uma resposta daquela sociedade  ao laicismo e modernização autoritária implementados pelo Xá Mohammad Reza Pahlavi.   No Brasil, a religião cristã impõe feriados nacionais ignorando outras manifestações religiosas, enfia goela abaixo símbolos místicos em repartições públicas ou nas cédulas de dinheiro e celebra discursos missionários dentro de clínicas, em metrôs, em ônibus, nas casas legislativas, nas praças e empresas. Toda tentativa de invocar o laicismo é imediatamente rechaçada sob a queixa de que se trata de um tipo de ”censura”. No que concerne à cultura gay, porém, historicamente o tratamento oferecido é completamente diferente.

Apenas para citar alguns exemplos famosos:

-Em 1923 os escritores portugueses Antonio Botto e Raul Leal escreveram sobre o homoerotismo de forma mais explícita e corajosa naquilo que foi chamado de ”literatura de Sodoma”; em resposta um grupo de estudantes  reacionários de Lisboa instigados pela  Igreja católica comandou uma reação violenta contra os dois autores a partir de então, culminando em censura, perseguições e ataques a livrarias. Como resultado de tais manifestações, o governo proibiu a a exposição e venda dos livros em março, instalando uma censura oficial que não era praticada desde os tempos da revolução constitucionalista de 1820 (Literatura, homoerotismo e expressões homoculturais, 2015).

-Na Índia, da década de 20 até os anos 40, Gandhi enviou esquadrões de devotos para destruir imagens homoeróticas em templos hindus, como parte de uma estratégia para fazer crer que a homossexualidade era uma imoralidade importada do ocidente. A profanação das imagens foi interrompida parcialmente pelo poeta Rabindranath Tagore, mas retomada por Jawaharlal Nehru. Como resultado concreto, atualmente muitos hindus acreditam que homossexuais originalmente não existiam na Índia (Rictor Norton, “The Suppression of Lesbian and Gay History”, 12 de fevereiro de 2005, atualizado em 21 de fevereiro de 2010 )

-No dia 06 de Maio de 1933 a juventude Hitlerista organizou um ataque ao ”Institut für Sexualwissenschaft” (Instituto para o estudo da sexualidade) fundado pelo pioneiro do movimento gay Magnus Hirschfeld. A biblioteca do Instituto, criada por ele, era o maior arquivo ”LGBT” do mundo naquela altura; um acervo gigantesco de 20 mil livros e revistas, 55 mil fotografias e filmes. No dia 10 de Maio em frente à praça da Universidade de Berlim os estudantes da juventude hitlerista queimaram publicamente todo o acervo da biblioteca (Rictor Norton, “The Suppression of Lesbian and Gay History”, 12 de fevereiro de 2005, atualizado em 21 de fevereiro de 2010 ).

Diante do exposto não é nenhuma surpresa o episódio lastimável ocorrido recentemente após uma mostra intitulada ”Queer Museu” (que incluiu nomes do calibre de Volpi, Pedro Américo e Portinari) ter sido inaugurada em Porto Alegre. Setores conservadores e reacionários de imediato se manifestaram em redes sociais e sites de internet, bem como presencialmente, causando tumultos e assédio, e conseguiram impor a supressão da exposição sob o argumento de que ela ”promove pedofilia, pornografia e arte profana” (originalidade nunca foi o forte do ativismo de ódio).  Os ataques heteroterroristas ao Queermuseu foram orquestrados pelo ”MBL” (Movimento Brasil Livre):

”Segundo o MBL, algumas obras expostas fazem apologia à pedofilia e zoofilia. Em um vídeo com mais de 400.000 visualizações, desde o último sábado, integrantes do MBL visitam o Santander Cultural e dizem que “só tem putaria, só tem sacanagem” que é “reconhecida como arte”. “Há pouco tinha crianças olhando essa ‘arte’ escarnecendo a Cristo”, diz o blogueiro Felipe Diehl no vídeo. “O curador dessa obra, Gaudêncio Fidelis, esse cara deveria estar preso”, acrescenta Diehl. “Olha o Satanás no meio”, diz Rafinha BK, outro blogueiro do MBL. “Isso aqui é praticamente prostituição infantil”, diz outro simpatizante do movimento apontando para uma obra alusiva ao meme “Criança Viada” (http://veja.abril.com.br/blog/rio-grande-do-sul/apos-protesto-do-mbl-santander-fecha-exposicao-sobre-diversidade/).

Projeto MailArt – Gay-I-Vota’, do artista plástico Rogério Nazari, 1981. Obra que estava em exposição na mostra ‘Queermuseu’ e foi censurada por liberais fascistas. Quantas produções artísticas criadas por homens gays foram silenciadas pelo MBL?

O Santander Cultural divulgou nota, se desculpando pela exposição, pasme.

“O objetivo do Santander Cultural é incentivar as artes e promover o debate sobre as grandes questões do mundo contemporâneo, e não gerar qualquer tipo de desrespeito e discórdia”, diz o texto. “Desta vez, no entanto, ouvimos as manifestações e entendemos que algumas das obras da exposição Queermuseu desrespeitavam símbolos, crenças e pessoas, o que não está em linha com a nossa visão de mundo. Quando a arte não é capaz de gerar inclusão e reflexão positiva, perde seu propósito maior, que é elevar a condição humana”, afirma a nota da instituição. – Jornal do Comércio.

Aprendemos portanto que ”elevar a condição humana” inclui a supressão e silenciamento da cultura gay, lésbica e transgênero.

Brasil, 2017.

Chapeuzinho vermelho com o lobo travestido na cama: Gustave Doré sobreviveria ao crivo censório do MBL?

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