A execrável obsessão da imprensa em provar que Giane é gay

Explorar a vida sexual de famosos faz a mídia e a sociedade descerem mais degraus rumo ao fosso

Jeff Benício
Publicado pelo blog Sala de TV, em 26 agosto de 2017

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Reynaldo Gianecchini é mais uma vítima da patológica curiosidade em relação à sexualidade de artistas. (Foto: Zé Paulo Cardeal/TV Globo)

Autor da Teoria dos Ídolos, que coloca o homem como um plagiador de comportamentos alheios, o filósofo inglês Francis Bacon escreveu: “a fama é como um rio, que mantém à superfície as coisas leves e infladas, e arrasta para o fundo as coisas pesadas e sólidas”.

Pois foi em águas agitadas – as da badaladíssima Ibiza, na Espanha – que Reynaldo Gianecchini viveu seu momento ‘Daniella Cicarelli’: alguém fez fotos de um suposto flagra do ator na companhia de um rapaz.

Alguns sites imediatamente insinuaram um beijo na boca que não se vê e uma relação homoafetiva. As fotos (e a fofoca) correram pelas redes sociais mais rápido do que as ondas mediterrâneas.

Pela enésima vez a sexualidade de Gianecchini suscita boatos, especulações e julgamentos morais. Estamos mesmo em 2017?

Desde a estreia na TV como coprotagonista de ‘Laços de Família’, no ano 2000, o ator sofre a chamada invasão de privacidade. Há uma obsessão jornalística em provar que ele é gay. Aliás, o jornalismo ainda existe?

A questão é: parte da imprensa que cobre o mundo da televisão e dos famosos não aceita que ele seja ‘apenas’ hétero.

Outra parte vai além: acha que o galã tem obrigação de revelar hipotética bissexualidade ou homossexualidade. A Santa Inquisição acabou mesmo? Certeza?

Truman Capote e Gore Vidal, se estivessem vivos, bocejariam de tédio com a curiosidade pública em relação a quem Gianecchini leva para o mar – e para a cama.

Os dois gênios da escrita, gays assumidos, foram exímios cronistas do lado mesquinho da sociedade americana e, por reflexo, do mundo ocidental.

De acordo com ambos, adoramos bisbilhotar a intimidade alheia – uns para se excitar, outros para demonizá-la com discurso conservador – enquanto fazemos o impossível para manter em segredo nossas fantasias, fetiches e perversões.

E há os que desejam a desmoralização de celebridades como Gianecchini por inveja primitiva do que elas representam: fama, sucesso, beleza, sensualidade, riqueza, glamour, status, aprovação social, autoestima…

Tanta positividade esfregada na nossa cara merece ser castigada, pensam os haters. E dá-lhe expurgação de complexos, traumas e/ou desejos enrustidos por meio de xingamentos previsíveis e textões raivosos.

Flagrada com um namorado no mar de Cádiz, na Espanha, em 2006, Daniella Cicarelli conheceu na prática o machismo, a misoginia e a crueldade coletiva ao ser massacrada por um ato que só dizia respeito a ela.

Agora Gianecchini passa pelo mesmo constrangimento: a vida superexposta, avaliada e sentenciada ao gosto do freguês – quanto pior, melhor, é óbvio. O sadismo pulsa à flor da pele.

Nos tumblrs da vida uma frase popular resume a ópera-bufa: “Hipocrisia é falar mal de quem faz tudo aquilo que você sempre quis fazer, mas tem medo”.

Capote e Vidal estavam certos: somos humanamente deploráveis.

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