Vacina inédita contra HIV tem resultados promissores em estudo de fase 1

Imunizante desenvolvido pela Iniciativa Internacional pela Vacina da Aids (Iavi) e o Scripps Research Institute estimulou produção de anticorpos potentes contra o vírus em 97% dos voluntários.

Publicado pelo portal Gay1, em abril de 2021

Imagem de computador da proteína imunoestimulante usada na vacina. (Foto: Joseph Jardine, Sergey Menis, e William Schief of Scripps Research/IAVI)

Resultado de uma parceria entre a Iniciativa Internacional pela Vacina da Aids (Iavi) e o Scripps Research Institute, nos Estados Unidos, uma vacina inédita contra o HIV apresentou resultados promissores em estudo de fase 1.

O imunizante é apontado por pesquisadores como um dos primeiros a superar um dos maiores desafios no desenvolvimento de compostos contra o vírus: estimular a produção pelo organismo dos chamados anticorpos amplamente neutralizantes – ou BNAbs.

Consideradas raras, essas proteínas são capazes de neutralizar diversas cepas de um vírus, mecanismo que representa a principal forma de combater o HIV – uma vez que o agente infeccioso sofre mutações com velocidade notável. Nesta primeira etapa da pesquisa, dos 48 adultos saudáveis que receberam o imunizante, os anticorpos foram observados em amostras sanguíneas de 97% dos voluntários.

Um ponto-chave foi responsável para atingir tal feito, segundo William Schief, diretor executivo do Centro de Anticorpos Neutralizantes (NAC) da Iavi, cujo laboratório foi responsável pela elaboração da vacina: ativar com precisão os linfócitos B, células que estão por trás da secreção dos BNAbs. “Os dados deste ensaio afirmam a capacidade do imunógeno da vacina de fazer isso”, assegura o imunologista, em nota à imprensa.

Chamada de “direcionamento de linha germinativa”, a estratégia adotada pelos pesquisadores consiste em direcionar a produção de células B virgens com propriedades específicas, capazes de atacar diferentes variações do HIV. E a aplicação do método, segundo os pesquisadores, pode ir além do vírus causador da aids: vacinas contra outros patógenos desafiadores, como gripe, dengue, zika, hepatite C e malária poderão se beneficiar da técnica.

“Acreditamos que esse tipo de engenharia de vacina pode ser aplicado de forma mais ampla, inaugurando uma nova era na vacinologia”, avalia Dennis Burton, presidente do Departamento de Imunologia e Microbiologia da Scripps Research Institute.

Próximas etapas

Apesar de promissores, os testes com a vacina deverão ter sua eficácia comprovada nos estudos posteriores correspondentes às fases 2 e 3, que envolvem um número maior de voluntários.

Além disso, a Iavi e o Scripps Research afirmam ter acordado uma parceria com a empresa de biotecnologia Moderna para desenvolver e testar uma vacina semelhante a essa, mas usando RNA mensageiro (RNAm) – o que, espera-se, pode acelerar o progresso do produto contra o HIV.

Molécula que leva instruções para a síntese proteica e cria anticorpos contra vírus, o RNAm é aplicado, por exemplo, no imunizante da farmacêutica norte-americana contra a Covid-19. “[Isso] será tremendamente capacitador para acelerar futuras pesquisas de vacinas contra o HIV”, diz Mark Feinberg, presidente da Iavi, em comunicado.

Defesa dos direitos LGBT+ agora tem WhatsApp

Desde o último dia 12, está em operação o número de WhastApp do Centro de Promoção e Defesa dos Diretos LGBT, em Salvador. Anote: (71) 99606-5505. Com isso a comunidade LGBT+ da Bahia ganha mais um aliado no acolhimento de denúncias, reclamações e solicitações de atendimento jurídico, psicológico e de serviços sociais.

Toma lá, da cá – O presidente, o Congresso e a velha política

Clique na foto para acessar o vídeo.

Na última segunda-feira, 1º de fevereiro de 2021, os comandos das duas casas legislativas do Congresso Nacional mudaram de mãos.

Rodrigo Pacheco (DEM-MG) sucedeu David Alcolumbre (DEM-AP) na Presidência do Senado. Ele recebeu 57 votos, contra 21 da senadora Simone Tebet (MDB-MS), abandonada pelo próprio partido. Favorito do presidente da Republica, o bosta n’água, Pacheco também goza de curiosa simpatia de partidos opositores do chefe do Executivo, a exemplo do PT e do PDT. Com isso, opera um estranho milagre.

Já a disputa pela Presidência da Câmara dos Deputados exigiu do presidente bosta n’água um trabalho de corpo-a-corpo e um investimento da ordem de mais de 3 bilhões de reais em recursos públicos, para convencer parlamentares a votarem em sua galinha dos ovos de ouro. E conseguiu: dos 505 votantes, o deputado federal Arthur Lira (PP-AL) assume a Câmara até 2023, após somar facilmente 302 votos, quase todos comprados, contra 145 de Baleia Rossi (MDB/SP).

Para ter um aliado na Câmara dos Deputados e facilitar votações de seu interesse, o presidente da República, o bosta n’água, abriu as torneiras de favores em cifras bilionárias de um dinheiro que é nosso. Conforme noticiado pelo jornal O Estado de S.Paulo, o governo federal abriu os cofres de recursos públicos e destinou R$ 3 bilhões para 250 deputados e 35 senadores aplicarem em obras em seus redutos eleitorais. O dinheiro saiu do Ministério do Desenvolvimento Regional.

Ou seja, 3 bilhões oriundos no Ministério do Desenvolvimento Regional para aplicação em obras diversas. Até aí tudo bem, tudo parece dentro da legalidade, de uma lógica, de uma coerência, mas não é. Parece ético, mas não é. É legal, mas é imoral, pois acontece em um momento inapropriado: às vésperas das votações às presidências das casas legislativas do Congresso, cujo resultado é decisivo para o poder de influência do presidente bosta n’água em um local onde ele não deve mandar, pois contraria o princípio da independência dos três poderes. Imoral, sim, porque os recursos serão usados nos currais eleitorais dos beneficiados, em troca de votos para o candidato do presidente. E nós sabemos muito bem como recursos públicos são utilizados por políticos em seus currais.

Arthur Lira, novo presidente da Câmara dos Deputados, tem a prerrogativa de definir as pautas de votação do plenário e que é de enorme interesse do presidente bosta n’água, além de ter autonomia para decidir ou não sobre um
possível processo de impeachment para afastar o presidente da República.

E assim bosta n’água pode dormir com um sorriso de orelha a orelha por mais essa vitória que ele conquistou com custo nosso, contribuindo para desgastar ainda mais a imagem do Congresso Nacional como um enorme balcão de negócios onde interesses escusos dão o tom do que ali se negocia. O velho toma-lá-dá-cá, o velho modus operandi da velha política. Nada mudou e nós continuamos a posar de babacas.

Nós não! Os palermas que acreditaram que um homem que nada fez ao longo de mais de 30 anos de vida pública, de encosto na política, seria capaz de fazer alguma coisa de novo pelo país. Fez, mas nada de exemplar: tirou direitos com a reforma da Previdência, queimou a Amazônia e deu espaço para a grilagem, além de ter protagonizado o pior exemplo no mundo de política pública de combate à pandemia da COVID-19. E agora por fim, mostra sua gana para fazer o jogo sujo da compra e venda de votos, do toma-lá-dá-cá, onde o cidadão comum nunca sairá ganhando.

E àqueles que supostamente acreditaram no salvador da pátria transformado em mártir sem sangue em uma facada mal contada, quero dizer olhando nos olhos: ou vocês são iguais aos políticos recém-comprados e estão mancomunados com a pilantragem ou fazem parte de uma classe média-alta que quer manter seus privilégios a qualquer custo ou são esquedofóbicos que não podem ver uma camisa vermelha que logo têm urticária ou são os babacas sem cérebro, sem visão, sem senso crítico e sem maturidade política e de qualquer natureza.

A ira que me move

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Este vídeo é dedicado ao meu amigo Wendell Moura, assassinado no dia 29 de dezembro de 2020 e sepultado na primeira manhã do primeiro dia de 2021. Começamos muito mal.

O tema do vídeo, “a ira que me move”, pode parecer estranho a princípio, mas o assassinato de Wendell explicará onde quero chegar. No último dia de 2020, quando soube do ocorrido, fui tomado por uma raiva intensa e movido por ela em busca de informações e soluções que garantissem um inquérito policial eficaz e célere. Sosseguei um pouco quando, durante o sepultamento, soube que o melhor amigo de Wendell é advogado e acompanhará o inquérito, não o deixando cair no esquecimento ou ser tomado pela negligência.

E assim sou eu no ativismo social LGBT+, uma pessoa movida por um desejo de justiça social, mas contaminada de ira por força das circunstâncias. Porém, minha ira é ética e racional, por mais paradoxal que isso pareça. Eu quero justiça nos limites da lei. Quero que os assassinos do meu amigo Wendell sejam identificados, julgados, condenados e cumpram as penas impostas pela lei. Só isso. Não me interessa justiça pelas próprias mãos ou tortura dos assassinos no sistema prisional. Aí já não seria ira; seria vingança.

Minha ira também não é seletiva. Não é voltada apenas para quem comete latrocínios, inclusive porque sei que essas pessoas também são vítimas de um sistema social que as violenta. Tenho raiva do atual Congresso que patrocinou a descontinuidade do auxílio emergencial – em plena pandemia que não chegou ao fim – o que aumentará as desigualdades e violências sociais. Tenho ódio da corrupção nos governos, dos crimes de colarinho branco, que seguem impunes. Tive profunda ira ao perceber que a sociedade de gado verde-amarelo nos empurrava ao abismo, fato consumado com a eleição de um doente.

A ira me adoeceu e continua a me adoecer, mas não posso cruzar os braços, entoar um mantra e supor que está tudo bem ao meu redor. Minha luta por justiça social continuará e eu tenho certeza que despertará minha ira milhares de vezes mais. Que assim seja, mas eu não vou desviar nem um milímetro do meu caminho.

A ameaça teocrática no Brasil

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Calma! Coloquemos essa “ameaça teocrática” exatamente assim: entre aspas. Neste vídeo, eu não trato de uma iminente ameaça de mudança do regime político no País. Eu abordo o crescimento vertiginoso, há algumas décadas, de correntes religiosas e seus projetos de poder econômico e político, da sua ideologia (esta sim) teocrática e de suas práticas retrógradas e anacrônicas.

Ao apresentar os perfis (criminosos inclusive) de alguns desses religiosos/políticos (ou políticos/religiosos, como queiram), demonstro a mais absoluta contradição entre a filosofia cristã do amor ao próximo e o que realmente move a vida dessas pessoas: cobiça por poder e fortuna, infinitamente pior que as dos mercadores citados no Novo Testamento e que causaram a revolta de Jesus.

Quanto ao nosso regime político, não há qualquer ameaça à vista. Nossa Constituição Federal prevê em seu artigo 1º: “a República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito”. Ou seja, para se instituir um novo regime político no país, qualquer que seja, será necessário convocar uma nova Assembleia Nacional Constituinte, redigir uma nova Constituição e promulgá-la. Eu nem preciso dizer o quanto isso será quase impossível.

Só não digo que é totalmente impossível por que minha confiança nos parlamentares do Congresso é quase zero. Lembremos que, em novembro de 2019, quando o STF enfim reconheceu que a prisão de Lula era inconstitucional, à luz do artigo 5º, LVII (“ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória”), houve uma movimentação no Congresso por uma nova assembleia constituinte, visto que o artigo 5º é cláusula pétrea e não pode ser alterado. Ou seja, para manter Lula preso, seria necessária uma nova Constituição. Foi o que o Congresso atual tentou fazer, mas deu com os burros n’água.

Mas ainda colhendo os frutos do espírito natalino, de confraternização universal e amor ao próximo, tratarei de algo positivo, alegre, pra cima: a prisão Marcelo Crivella, prefeito do Rio de Janeiro! Sim, ele foi preso no dia 22 de dezembro de 2020, sob acusação de chefiar o “QG da Propina” na Prefeitura, tendo sido levado para a Delegacia Fazendária, na CIDPOL (Cidade da Polícia), em Jacarezinho. Veja a notícia no portal da Agência Brasil.

Porém, sabemos que Crivella é rico (muito rico) e tem grana suficiente para bancar excelentes advogados que conhecem as leis em detalhes e suas brechas. Como resultado, Crivella voltou para casa no dia seguinte à prisão, para cumprir pena domiciliar, com uso de tornozeleira eletrônica. Nem preciso dizer o quanto essa opção deve ser mais cômoda se considerarmos sua residência. Confira a notícia no portal O Dia.

Cri Cri Velinha, como passarei a tratá-lo a partir de agora, de forma simpática e respeitosa, foi preso nove dias antes de deixar o cargo de prefeito do Rio de Janeiro e passar o bastão para Eduardo Paes. Porém, descaradamente, ele tentou a reeleição, tendo chegado ao 2º turno, mas sendo derrotado felizmente. Imaginem se o plano de Cri Cri tivesse dado certo.

Além da acusação de chefiar uma quadrilha, Cri Cri Velinha é, no momento e por mais alguns dias apenas, prefeito afastado do Rio de Janeiro. Afastado, mas ainda prefeito. Ele é filiado ao partido Republicanos, foi senador e é bispo evangélico. Ele é a Universal! Por tudo isso, Cri Cri Velinha é um exemplo bem acabado do quanto o pensamento teocrático na política é socialmente nocivo, porque não tem nada de cristão, dessa história de amor ao próximo, de desapego. Tudo isso é falácia, hipocrisia. Eles querem é poder a qualquer custo, às custas do jogo sugo e até do crime. Estou fazendo pré-julgamentos? Bom, não fui eu que dei ordem de prisão a Cri Cri Velinha.

Cri Cri não está só e há outros inúmeros exemplos de religiosos que misturam descaradamente política e corrupção. Por exemplo, a deputada federal Flordelis dos Santos de Souza (PSD-RJ) é acusada de ser mandante do assassinato do próprio marido, o pastor Anderson do Carmo, morto com mais de 30 tiros, em 16 de junho de 2019. Ela é ré no processo junto com outros sete filhos e um neto, entre outros envolvidos. De todos esses, apenas ela não está presa, por ter imunidade parlamentar, mas está sendo monitorada por tornozeleira eletrônica. Por uma curiosa ironia, a igreja comandada pela deputada se chama Ministério Flordelis – Cidade do Fogo. Sim, do Fogo. Da arma de fogo que matou o marido.

Outro exemplo é o pastor Everaldo Pereira, da Assembleia de Deus, que também tem um currículo invejável. Ele foi candidato à presidência em 2014, pelo Partido Social Cristão – PSC e é apontado como líder uma organização criminosa. No dia 28 de agosto de 2020, ele e seus dois filhos foram presos na operação que apura corrupção na área da saúde no Estado do Rio de Janeiro e que afastou Wilson Witzel do governo. Leia a notícia no portal G1.

É, no mínimo, curioso observar como esses três exemplos demonstram as relações intrínsecas, imorais e nocivas entre religião, política e corrupção. Com isso, quero destacar os alguns tipos de religiosos que conquistam a carreira política no Brasil. Mas eu não devo generalizar. Eu desconheço a atuação de todos os políticos religiosos no país: no Congresso, nas assembleias legislativas, nas câmaras municipais, no comando de prefeituras e governos de estado, bem como em cargos públicos por indicação política. Deve haver pessoas com caráter, porém não se destacam tanto quanto os canalhas, cujas canalhices ganham visibilidade na mídia.

Apesar disso, os exemplos de canalhice de religiosos na política são muitos. Porém, eu quero tratar do ovo da serpente: o segmento evangélico neopentecostal, um câncer social que já deveria ter sido extirpado, mas que mantém seu projeto de poder econômico e político há décadas. É bom lembrar que, por exemplo, a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), comandada por Edir Macedo foi fundada em 9 de julho de 1977. A IURD é o exemplo mais emblemático desse projeto de poder, que gera inclusive disputas interna, cujas dissidências fizeram surgir a Igreja Mundial do Poder de Deus, comandada por Valdomiro Queiroz, que dispensa comentários, e a Igreja Internacional da Graça de Deus, comandada por R. R. Soares, cuja biografia e patrimônio acumulado merecem uma boa pesquisa.

Voltando à Universal, considero o exemplo mais emblemático de projeto de poder econômico e político da pior espécie em razão dos muitos exemplos dados ao longo da sua história, mas especialmente agora, após a perda do controle brasileiro sobre as igrejas da IURD, em Angola, por decisão do governo local, que desmascarou a ambição desmedida de Edir Macedo naquele país. Na verdade, ele apenas desmascarou o óbvio. O braço angolano da IURD foi acusado de crimes como lavagem de dinheiro, evasão de divisas e expatriação ilícita de capitais, racismo, discriminação, abuso de autoridade, entre outras denúncias. Acesse as informações no portal The Intercept.

E, como era de se esperar, Edir Macedo teve o apoio incondicional do presidente bosta n’água. Nós, no Brasil, vivemos numa democracia e não numa teocracia. Porém, isso não anula o fato de que, em inúmeros aspectos, assistimos à ascensão ao poder de correntes religiosas que produzem retrocessos e representam forte ameaça às instituições democráticas e aos direitos individuais e coletivos. Tentativas nesse sentido têm sido freadas no âmbito do Judiciário, especialmente no STF.

Em outro vídeo por mim produzido – Necropolíticas de um psicopata – eu denuncio a imensurável ameaça que significa a revogação de portarias do Ministério da Saúde e o encerramento de programas e políticas de saúde mental no SUS. Repito: tal iniciativa, se consumada, abrirá espaço para a ocupação dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPs) por instituições religiosas de caráter duvidoso e práticas igualmente duvidosas. Isso também significará aumento de rebanho dessas instituições, bem como de dízimo, de poder econômico, de poder político e de dominação.

Já elegemos uma besta quadrada como presidente. Daí a elegermos uma besta fera evangélica neopentecostal pode ser apenas um passo, visto que nosso eleitorado pode continuar a seguir o berrante em 2022.

As condenações das transexualidades

(Clique na imagem e acesse o vídeo)

A inspiração deste vídeo surgiu a partir do caso de Joana Magalhães, pessoa de 34 anos, que se define como alguém de gênero fluido, ou seja, que transita entre os gêneros masculino e feminino e não se identifica rigorosamente com nenhum deles. Joana foi aprovada no curso de medicina da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), na cota de pessoas trans. Sua matrícula ocorreu em maio de 2019, no campus de Teixeira de Freitas. Porém, a UFSB a cancelou no último dia 11, alegando procedimento fraudulento.
 
Joana teve sexo e gênero masculinos atribuídos ao nascer, mas hoje ostenta nome feminino, que abrevia para Jô Magalhães, nome neutro adequado à sua fluidez de gênero. Apesar do nome feminino, Joana mantém uma aparência andrógina, barba e cabelos curtos. Ela também não fez transformações corporais radicais, típicas de mulheres trans, tampouco tratamento hormonal ao que perece.
 
Em resposta a publicações que fiz no Facebook, algumas pessoas afirmaram categoricamente que se trata, sim, de um caso de fraude já comprovado, sendo Joana um “gay cis fanfarrão”. Mas quem comprovou? Se a resposta é a UFSB, está correta. Porém, as notícias a que tive acesso não trazem provas. O ideal para uma informação e afirmação PRECISAS seria o acesso ao processo administrativo que levou ao cancelamento da matrícula, mas é desnecessário dizer o quanto isso é difícil ou impossível até mesmo para a imprensa.
 
E o que eu posso afirmar de tudo isso? Como comprovei acima, não tenho instrumentos para avaliar o caso de forma objetiva e definitiva. Eu não compus a comissão que analisou a denúncia no âmbito administrativo da UFSB. As notícias a que tive acesso, como já disse, trazem depoimentos muito reticentes da instituição de ensino, que não geraram certezas absolutas em mim. Por isso, não tenho obrigação de comprar a decisão da UFSB, divulgada na mídia, sem questionamentos.
 
Eu também não convivo com Joana Magalhães para saber se o exercício do gênero fluído é uma experiência social constante que justifique sua transgeneridade. Assim, não cabe a mim concluir que a matrícula de Joana na cota de pessoas trans foi uma fraude. Isso coube à UFSB, que já julgou o caso, e caberá à Justiça, se ele for levado ao âmbito judicial.
 
Em meio às discussões no Facebook, houve quem afirmasse que a transexualidade é necessariamente binária. Discordo! A cisgeneridade corresponde a uma condição de perfeita adequação e convergência entre o sexo e gênero atribuídos no nascimento e aqueles exercidos ao longo da vida. Eu, por exemplo, sou um homem gay cisgênero. Já mulheres e homens trans são pessoas que vivem uma identidade de gênero oposta ao sexo e gênero atribuídos no nascimento. Neste sentido, eu concordo que uma MULHER TRANS é binária. Eu concordo que um HOMEM TRANS é binário. Mas afirmar que uma pessoa não binária é binária e cisgênera é paradoxal. O mesmo raciocínio se aplica ao caso de uma pessoa de gênero fluido. Binária? Cisgênera? Como assim? Uma pessoa de gênero fluído ou não binária demonstra claramente que a convergência a que me referi não existe. Portanto, são pessoas TRANSGÊNERAS.
 
Aliás, essa discussão me remeteu a um episódio em uma conferência LGBT+ na Bahia, em que uma pessoa não binária reclamava espaço e voz. Em resposta, uma mulher trans afirmou que pessoas não binárias não sabem o que querem, estão em processo de transição e que, no futuro, poderão se definir como homem ou como mulher. Ou seja, essa mulher trans, condenada ao longo da vida por preconceitos, discriminações e invisibilidade, condenou a pessoa não binária à mesma sorte. Ou melhor, azar. Porém, ela foi refutada imediatamente.
 
Por tudo isso, eu afirmo no vídeo e repito aqui: o caso de Joana Magalhães foi o meu mote para uma análise muito além do fato. Afinal, a invisibilidade, o apagamento e a condenação de pessoas transgêneras, entre elas as pessoas não binárias e de gênero fluido, são uma constante e vitima um número infinito de pessoas. É nisso que eu me prendo: na análise da precipitação dos julgamentos morais e do lamentável exercício do preconceito.
 
As transformações corporais, muitas vezes agressivas, são uma imposição social para que uma pessoa trans seja reconhecida como homem ou mulher, reforçando o conceito cultural binário de sexualidade (homem x mulher, masculino x feminino, macho x fêmea, pênis x vagina). A não binariedade e a fluidez de gênero nos liberta dessas imposições. E se essa fluidez, se essa TRANSIÇÃO é habitual em Joana, se é assim que ela se apresenta socialmente, não há o que se questionar da sua transgeneridade, justamente porque não existem apenas duas formas de vivenciá-la. Há inúmeras.
 
FRAUDE OU NÃO, o caso de Jô Magalhães traz ao debate a possibilidade de se vivenciar a sexualidade de maneira plural, porém ainda não absorvida socialmente. E, ao que tudo indica, o caminho é longo.

Necropolíticas de um psicopata

O vídeo acima (clique na imagem) é um típico vídeo 4 em 1. Foram tantos acontecimentos do desgoverno bosta n’água em tão pouco tempo e todos correlatos, que eu fui obrigado a fazer um único vídeo, porque eu não tenho condição de produzir um a cada dia, o que seria o caso.

Os quatro assuntos são correlatos justamente porque são reveladores da necropolítica institucional. Ei-los:

1. Desgoverno só compra vacina se houver demanda. Então o desgoverno desconhece os quase 45 mil novos casos de COVID-19 no Brasil? Está à espera de um milagre que erradique a doença no País, inclusive acreditando que a pandemia está chegando no finalzinho? Talvez por isso não possui quantidade suficiente de seringas e agulhas se tivesse um plano de vacinação.

2. Desgoverno deixa contrato vencer e exames de HIV e hepatite C pelo SUS são suspensos. Seguramente porque ainda acredita que HIV é coisa de homossexuais. Alguém precisa alertá-lo que a disseminação do vírus se dá em maior número entre heterossexuais, se considerarmos valores absolutos.

3. Desgoverno revogará portarias e encerrará programas de saúde mental no SUS. Essa iniciativa tem endereço certo: habilitar os “centros de recuperação” comandados por religiosos, especialmente evangélicos, que estavam fora dos CAPs (Centros de Atenção Psicossocial), por estarem irregulares, por adotarem métodos de tratamento questionáveis e até mesmo criminosos, entre outras razões.

d) Desgoverno isentará armas de imposto de importação. Aí eu já considero um problema no nível do fetiche psicopata, além de querer transformar o país em uma praça de guerra. Até hoje, ele não entende que violência gera violência, por mais exemplos que tenhamos flagrados por câmeras de segurança e/ou registrados em boletins de ocorrência. Simples assim.

Racismo (desta vez, sem cólera)

Em vídeo anterior, que publiquei na segunda-feira, 23/11/2020, eu contestei as falas do presidente e do vice-presidente da República, bem como do presidente da Fundação Palmares, sobre o assassinato de João Alberto Silveira Freitas, homem negro espancado e asfixiado até a morte por seguranças de uma loja da rede Carrefour, em Porto Alegre, na quinta-feira, 19/11/2020.

Todas as três falas, que reproduzo abaixo, foram lamentáveis por negar descaradamente o racismo no Brasil e ditas em plena comemoração do Dia da Consciência Negra.

Eu sou ativista LGBT+ e os movimentos sociais são pares, porque lutam por igualdade e justiça social. Por conta disso, meu discurso foi muito mais uma catarse e destilação do meu ódio que necessariamente uma contestação fundamentada contra os discursos negacionistas dos três patetas do governo.

Por isso, resolvi fazer este novo vídeo, mais argumentativo e pontuado que o anterior, apesar de ainda estar presente a sensação do meu sangue que ferve ao tratar do assunto. Não à toa. Vocês entenderão quando lerem as falas que transcrevo abaixo.

Jair Bolsonaro, presidente da República
Reunião do G20, sábado, 21 de novembro
Quero fazer uma rápida defesa do caráter nacional brasileiro, em face das tentativas de3 importar para o nosso território tensões alheias à nossa história. O Brasil tem uma cultura diversa, única entre as nações. Somos um povo miscigenado. Brancos, negros e índios edificaram o espírito de um povo rico e maravilhoso. (…) Foi a essência desse povo que conquistou a simpatia do mundo. Contudo há quem queira destruí-la e colocar em seu lugar um conflito, o ressentimento, o ódio e a divisão entre raças, sempre mascarados de luta por igualdade ou justiça social, tudo em busca de poder.”
Fonte: PR BOLSONARO DISCURSO G20 1 – YouTube

Hamilton Mourão, vice-presidente da República
Sexta-feira, 20 de novembro, Dia da Consciência Negra
“Pra mim, no Brasil, não existe racismo. Isso é uma coisa que querem importar aqui no Brasil. Isso não existe aqui. (…) Eu morei nos Estados Unidos. Racismo tem lá. Eu morei dois anos nos Estados Unidos. Na minha escola que eu morei lá, o pessoal de cor andava separado. Eu nunca tinha visto isso aqui no Brasil. Saí do Brasil, fui morar lá, adolescente, e fiquei impressionado com isso aí. Isso no final da década de 60. Mais ainda: o pessoal de cor sentava atrás do ônibus. Não sentava na frente do ônibus. Isso é racismo. Aqui não existe isso.”
Em outro momento ele se compara com uma pessoa da sua equipe, certamente branco, dizendo que ele, miscigenado, é pelo duro, enquanto a outra pessoa é um pelo mais sofisticado.
Fonte: Mourão diz que não existe racismo no Brasil – YouTube

Sérgio Camargo, presidente da Fundação Palmares
Sexta-feira, 20 de novembro, Dia da Consciência Negra
“Não existe racismo estrutural no Brasil; o nosso racismo é circunstancial – ou seja, há alguns imbecis que cometem o crime. A ‘estrutura onipresente’ que dia e noite oprime e marginaliza todos os negros, como defende a esquerda, não faz sentido nem tem fundamento”.
Fonte: Racismo estrutural não existe, diz Sérgio Camargo da Fundação Palmares (uol.com.br)

Maricas

Mais uma vez, o presidente bosta n’água lança uma pérola de ignorância para servir de cortina de fumaça e encobrir as falcatruas da sua família de milicianos. E mais uma vez, ele lança mão de um termo do seu repertório homofóbico: maricas.

O que vem a ser maricas? Segundo o dicionário Aurélio é um sujeito efeminado ou medroso. Ao afirmar que o Brasil não é um país de maricas, o presidente bosta n’água possivelmente quis se dizer que o povo brasileiro não tem medo e é capaz de enfrentar a COVID-19 sem as “desnecessárias” restrições impostas a todos. Desnecessárias para ele, que é irresponsável.

Mas ele também traz à tona o outro significado, “efeminado”, termo pejorativo usado de forma recorrente para desqualificar homens gays. Pois eu estou aqui para ressignificar esse termo e dizer do orgulho que tenho de ser como sou.

Gésner Braga
15 de novembro de 2020

Depressão e suicídio

Aqui eu abordo dois temas cáusticos sob uma ótica muito pessoal: depressão e suicídio.

Tenho recebido várias mensagens de apoio, nas quais as pessoas afirmam ser apenas uma fase. Sim, eu tenho a mais absoluta certeza de que a depressão pela qual eu passo agora é mais uma fase, como também foi a depressão que tive em maio e junho de 2019. Tal certeza se dá pelo meu diagnóstico de transtorno bipolar, em que a minha mente intercala fases de ansiedade e depressão com regularidade.

Sobre o vídeo, é uma característica minha transformar em bandeiras todos os meus problemas ou aquilo que em mim as pessoas consideram um problema. Outros tantos vídeos virão com o mesmo propósito. Partilhar conhecimento é bom para ajudar pessoas em situações semelhantes ou idênticas.

Neste vídeo, por exemplo, eu deixou como recado a necessidade de fortalecer elos afetivos para pessoas depressivas encontrarem razão para não tomar atitudes drásticas, mesmo que eu não considere essas atitudes censuráveis, pois cada um sabe a dor que tem e qual sua capacidade de suportá-la.

Gésner Braga
2 de novembro de 2020

Unijorge lança núcleo de diversidade focado na assistência jurídica e psicológica para a comunidade LGBTQIA+ em Salvador

Iniciativa da Coordenação do Curso de Direito do Centro Universitário Jorge Amado – Unijorge, em Salvador, o AMADO – Núcleo de Apoio à Comunidade LGBTQIA+ busca reforçar o campo de atuação e a responsabilidade social na temática da diversidade dentro da Unijorge. A ideia é promover assistência jurídica e psicológica, além da integração da comunidade acadêmica, que será sensibilizada das múltiplas vulnerabilidades sofridas pela população LGBTQIA+.

O núcleo trabalhará com o eixo estratégico de integração com outros grupos, redes, conselhos e comitês institucionais do Poder Executivo Municipal e Estadual e da sociedade civil, somando esforços em rede para a promoção da diversidade. Esse trabalho incluirá o mapeamento da rede existente em órgãos públicos e da sociedade civil, voltados a população LGBTQIA+ na cidade de Salvador, com a finalidade de parcerias e fortalecimento da rede.

O evento de lançamento do AMADO acontece no próximo dia 10, com transmissão pelo Teams. Quem tiver interesse em integrar o grupo ou curiosidade em saber mais sobre essa temática, pode fazer a sua inscrição através do Sympla: https://www.sympla.com.br/lancamento-do-amado—nucleo-de-apoio-a-comunidade-lgbtqia__958120

Convidados do evento de lançamento no dia 10/10 às 17h:
Luis Carlos Laurenço – Coordenador do Curso de Direito;
Kátia Jane Chaves Bernardo – Coordenadora de Psicologia;
Sóstenes Jesus dos Santos Macêdo – Coordenador do Núcleo AMADO;
Débora Ferraz – Psicóloga – Doutora em Antropologia;
Edvaldo Gomes Vivas – Promotor de Justiça da 29ª Promotoria de Justiça de Assistência de Salvador e Coordenador do Centro de Apoio Operacional dos Direitos Humanos;
Sellena Ramos – Graduanda em Direito, pesquisadora do Grupo de Estudos de Criminologia Feminista, idealizadora e coordenadora do Centro de Cultura e Acolhimento LGBTQIA+ Casa Aurora;
Roberto Ney Araújo – Advogado e professor especializado em Direitos Humanos e Democracia pela Universidade de Coimbra. Vice Presidente da Comissão de Diversidade Sexual da OAB/BA;
Gabriel Teixeira – Psicólogo pela UNIFACS, Coordenador de Políticas LGBT da Superintendência de Apoio e Defesa dos Direitos Humanos (SUDH);
James Azevedo – Guarda Municipal e Encarregado da Coordenadoria de Assuntos Jurídicos, membro do Comitê Municipal de Combate à LGBTfobia;

O agendamento para as demandas jurídicas acontece por meio do telefone (71) 99902-8879. Para o atendimento em psicologia, o contato é feito diretamente com o profissional. Conheça os(as) psicólogos(as) disponíveis:
• Andréa Matta (CRP03/20298) – Terça-feira, das 8h às 12h – (71) 988222746
• Tatiane Alves Santos (CRP: 03/19117) – Terça-feira das 18h às 21h – (71) 997414982
• Letícia Menezes Valadares Coelho (CRP03/20272) – Quarta-feira das 8h às 12h – (71) 985003097

Os atendimentos estarão disponíveis a partir da data de lançamento, dia 10/09/2020.

Por que 29 de agosto é o Dia Nacional da Visibilidade Lésbica?

Entenda porque esta foi a data escolhida para celebrar as lésbicas e debater as questões mais importantes para elas.

Por Isabela Villa
Publicado pelo portal M de Mulher, em 29 de agosto de 2018

O Dia Nacional da Visibilidade Lésbica no Brasil é comemorado em 29 de agosto. A data foi escolhida por causa do 1º Seminário Nacional de Lésbicas (SENALE), que aconteceu em 1996. Organizado pelo Coletivo de Lésbicas do Rio de Janeiro (COLERJ), grupo que existia na época, usou o tema de “Visibilidade, Saúde e Organização” para falar sobre sexualidade, prevenção de ISTs e HIV/AIDS, trabalho e cidadania. Por causa do importante marco para a história dos avanços de direitos das mulheres lésbicas, este foi o dia escolhido para representar a importância do combate à lesbofobia.

Todo ano, entidades como a Articulação Brasileira de Lésbicas (ABL), ABGLT, Liga Brasileira de Lésbicas, Rede Afro LGBT, Coletivo Nacional de Lésbicas Negras Autônomas (Candace Br), Sapatá, Núcleo de Gênero e Sexualidade da Universidade Estadual da Bahia, Núcleo de Pesquisas em Sexualidade da Universidade Federal do Tocantins e Secretaria de Estado de Políticas para as Mulheres, Igualdade Racial e Direitos Humanos se unem para uma agenda de eventos, palestras, mesas e oficinas.

E é sempre bom lembrar que agosto inteiro é chamado de “Mês da Visibilidade Lésbica”, pois também dia 19 de agosto é nomeado de Dia Nacional do Orgulho Lésbico. Neste dia, em 1983, Rosely Roth articulou, junto de outras mulheres da comunidade LGBT+ e até de membros da OAB, uma série de protestos na frente do “Ferro’s Bar”, por não permitirem a distribuição de um dos boletins do Grupo Ação Lésbica-Feminista, do qual ela fazia parte. O bar paulistano era um conhecido point de mulheres lésbicas, mesmo com a represália dos donos. Após ações na justiça, foi permitida a venda livre do boletim.

Por Rosely ser uma famosa ativista LGBT, 13 anos após seu suicídio, que ocorreu em agosto de 1990, escolheram a data do protesto organizado por ela, 19 de agosto, para ser o Dia Nacional do Orgulho Lésbico, com a ideia de respeito e valorização do orgulho das mulheres lésbicas.

Escritora Van Amorim perde Processo de Transfobia contra a Unifacs e diz que vai recorrer ao STF

“Quero que a justiça seja feita e que isso nunca mais aconteça com ninguém.”

Escritora Van Amorim perde processo de transfobia contra a Unifacs e diz que vai recorrer ao STF (Supremo Tribunal Federal), na 3ª instância. “Quero que a justiça seja feita e que isso nunca mais aconteça com ninguém.”

Publicado pelo portal Salvador Notícias, em 22 de julho de 2020

O processo de transfobia movido pela escritora Van Amorim ganha seu mais novo e dramático capítulo. Vanessa tem 27 anos e obteve êxito no processo em primeira instância. A juíza de direito do Juizado Especial de Defesa do Consumidor condenou a Unifacs a pagar R$ 8 mil em indenização por danos morais, ocorre que a universidade recorreu ao processo e acabou vencendo na 2° instância. A Turma Recursal ENTENDEU que “NÃO HOUVE TRANSFOBIA POR PARTE DA UNIVERSIDADE” e “MUITO MENOS DANOS MORAIS.” Os juízes deram provimento ao recurso da FACS, suspendendo a indenização outrora concedida em primeiro grau. Agora eu te pergunto… COMO NÃO HOUVE TRANSFOBIA, meretíssimos?

Vanessa Amorim teve o nome retificado em novembro de 2018, um  mês após a juíza de primeiro grau conceder uma liminar para a universidade alterar o seu nome em todos os assentamentos e, mesmo assim, enfrentou uma série de constrangimentos dentro e fora da universidade, principalmente quando o caso foi noticiado nos principais veículos de comunicação da Bahia e do País, como: Põe na Roda, Uol/Universa, G1, Bocão News, Leia Mais Bahia, LFnews, Salvador Notícias e entre outros. Van chegou a conceder uma hora de entrevista ao vivo no programa “Entre Elas”, da rádio TV/Câmara Salvador, para esclarecer o ocorrido. Ela conta que foi constrangedor porque é uma artista e ao invés de estar falando sobre sua arte, falou sobre transfobia e não sobre literatura.

A escritora já era pessoa pública e militante dos direitos da comunidade LGBTQ+ e usou a sua imagem e influência para denunciar e chamar a atenção da imprensa. Hoje, Colunista Policial do Salvador Notícias, Vanessa só espera o final da pandemia para lançar o seu primeiro livro físico, “O Eclipse”, um romance policial que se passa na capital baiana e será publicado através da Chiado, uma editora portuguesa, sediada em Lisboa.

Vanessa ficou um mês sem assistir a aulas. Ela conta que, depois da exposição da sua vida na mídia, passou a sentir medo de sofrer rejeição no banheiro em que estava acostumada a transitar NORMALMENTE antes e depois de assistir as aulas ou fazer as provas.

Procurada pelo Bocão News, a advogada da estudante, Fernanda Correa, afirmou que, na época da matrícula, Vanessa tinha nome social, mas não tinha feito a retificação no RG, possuía apenas um cartão do Sistema Único de Saúde (SUS). “A negativa por parte da faculdade ensejou o ajuizamento da demanda, vindicando, sobretudo, a obtenção de uma medida liminar para mudança imediata nos assentamentos/sistemas da faculdade. Juntamos aos autos algumas telas do sistema eletrônico da faculdade demonstrando que ainda estavam utilizando o nome de nascimento dela. Não a identificavam como Vanessa. A decisão liminar prolatada, bem como a sentença de primeiro grau revelam-se como uma grande conquista para o gênero, a qual poderá, inclusive, inibir futuras condutas similares por parte das instituições de ensino.” — Disse a advogada.

“Se eu utilizar esse nome em qualquer outro lugar, eu sou presa, porque não tenho nenhum documento que prove que aquele nome foi meu. E existe uma portaria do MEC que permite que a pessoa trans possa usar o nome social, só que eu não tenho mais nome social. Mesmo que eu tivesse, como pode uma instituição criar sua própria política?” — questiona a estudante. A própria nota da Unifacs divulgada pela imprensa diz que a mesma adota o procedimento de uso de nome social no ato da matrícula “QUANDO DEMANDADA PELO ESTUDANTE, bem como a mudança do nome civil, desde que apresentada documentação comprobatória.”

Relembre o caso: 

No momento em que Van foi fazer a matrícula para a bolsa de 100% no curso de Letras Vernáculas (Literatura Brasileira) pelo PROUNI (Programa Universidade Para Todos), ouviu que a universidade não estava preparada para recebê-la, pois “NAO TINHA COMO” e nem “SISTEMA” para realizar a matrícula com nome social. Era o último dia para a entrega das documentações da bolsa e na hora de assinar os documentos, a escritora foi constrangida e obrigada a assinar o contrato POR EXTENSO, sendo que a sua identidade era rubricada justamente para evitar o constrangimento de assinar seu antigo nome civil. “Se você não desistir de mudar o nome, você vai perder a bolsa”, disse a funcionária da instituição.

Antes de ir para o primeiro dia de aula, Van conta ter recebido a ligação de um representante da instituição, dizendo que estaria a sua espera e que iria com ela até a sala para conversar com o professor e garantir, pelo menos, que ela seria tratada pelo nome correto nas chamadas. Vanessa conta que, quando chegou à Unifacs, perguntou pelo representante com quem conversou e foi informada na sala dele por outros funcionários de que ele já havia ido embora. “Fiquei a ver navios. Passei uns 25 minutos em frente à porta da sala de aula, travada, sem coragem de entrar e sem saber o que fazer”, disse.

Vanessa tinha uma narrativa do dia em que sofreu transfobia logo depois, agora por parte dos seguranças. Ela escreveu suas emoções/aflições e depois arquivou no e-mail e SÓ AGORA decidiu publicar, e é exatamente aí que está o X da questão: Teria mesmo Vanessa sofrido transfobia DENTRO DA UNIFACS?

Narrativa Jurídica: Salvador-BA, 29/11/2018, quinta-feira. Universidade Salvador, Torre Norte.

Estava muito feliz por ter chegado com segurança na universidade, para a almejada aula do tema “Evasão Escolar”. Nunca imaginei que, lá na frente, na recepção, aconteceria o que eu mais temia em toda minha vida: a exposição do antigo nome civil publicamente por parte dos seguranças.

Entrei rapidamente e me aproximei da recepção já constrangida, pois sabia que teria que apresentar minha identidade. Havia dois seguranças atrás do balcão. Eles eram negros, altos e fortes. Todos bem vestidos de terno preto. Um deles era mais velho, pois sua cabeça era inteiramente coberta por cabelos grisalhos. Me aproximei deles e disse:

— Boa tarde! Sou “ALUNA” da universidade e preciso que liberem a minha entrada, por gentileza.

O segurança mais jovem rapidamente hesitou:

— Preciso do seu documento com foto.

Apesar de conhecer o procedimento da universidade, tinha esperança de que eles me liberassem sem ao menos checar o meu documento, pois estavam acostumados a me ver entrar desde o dia 8 de agosto. Mas, para a minha surpresa, enquanto remexia a minha bolsa em busca da identidade, o segurança grisalho falou de longe em alto bom som:

— É Ivanilson, não é? Acho que esse é o nome “DELE” — Disse com tamanha satisfação.

Esse não era o meu nome antigo nome, claro, mas, quando ele disse isso, eu paralisei. Senti meu corpo tremer e gelar completamente, enquanto subia um frio dos pés à cabeça, eu quase não consegui falar, apenas expressei insatisfação com os olhos no primeiro momento.

Aquele segurança me perseguia. Ora, por que se daria ao trabalho de memorizar o meu antigo nome civil dentre milhares de alunos? Olhei para ele revoltada e disse:

— Desculpa! Mas o senhor está equivocado. Esse não é o meu nome. — Falei entregando a minha identidade para o outro. O segurança grisalho ficou perplexo me encarando. Parecia mesmo ter absoluta certeza de que aquele realmente era o meu nome. Mas rapidamente o outro esclareceu a sua dúvida dizendo:

— Hehe. Você chegou perto, cara. O nome “DELE” é Vanildo. — Disse alto, rindo.

Nessa hora eu perdi o controle e disse que eles não podiam fazer isso, pois já havia processado a universidade por esse erro e que agora eles estavam me dando mais um motivo. E quando falei isso, o segurança mais velho, “primeiro agressor”, aproximou-se rapidamente tentando conversar comigo e reverter a situação calamitosa que criou. Ele disse:

— Calma. Não precisa se exaltar. “Estou tentando ser seu amigo.” — Disse liberando a catraca.

— Infelizmente, o senhor não conseguiu. Só precisava ser profissional. — Falei morrendo de raiva.

Nessa hora, antes que eu pudesse passar a catraca, o segurança mais jovem disse bem alto:

— É cara. NÃO CUSTA NADA TE LEMBRAR SEU NOME. — Disse com PRAZER e ironia.

Quando ouvi isso, para mim foi mais uma dor profunda e incomparável. O chão parecia nunca ter existido. Olhei à minha volta rapidamente e vários universitários me olhavam perplexos, tentando entender o que estava acontecendo. Então… Hesitei nervosa:

— Eu já disse. Esse não é o meu nome. Meu nome está junto com o RG, escrito no cartão do sus. — Falei passando a catraca.

“Eu ponho o cartão do sus retificado em cima da foto do RG para escondê-la, mantendo o nome social para cima, de fácil acesso.”

Após ter transpassado, o segurança mais velho se aproximou tentando manter um diálogo e me acalmar. Eu continuei andando, enquanto ele me seguia. Ele tentou falar comigo de novo e cega de raiva disse:

— Eu vou resolver isso judicialmente, não se preocupem. — Falei seguindo na direção do elevador.

— Então vá lá. Boa sorte. — GRITOU ríspido. Finalizei a discussão dizendo:

— Já ganhei. Obrigada!

Dei as costas e entrei no elevador. Fui para a minha sala, no 4° andar da torre norte, ainda em choque e incrédula com o que acabara de acontecer. Sentei no banco e comecei a chorar no final do corredor. Eu chorei muito!

Um grupo de universitários que saíram da sala ao lado em prova me olharam e ficaram distantes. Duas garotas cochicharam, se aproximaram de mim e sentaram ao meu lado, mas não tiveram coragem de falar comigo, talvez por eu ter conseguido me controlar. Depois, por fim, peguei um livro de Machado de Assis na minha bolsa para disfarçar uma leitura, mas não conseguia ler uma frase sem me lembrar de me sentir vazia, diminuída, como um lixo. Foi quando recebi uma ligação do meu ex-marido, Guto Cardoso (hoje meu Agente Literário) onde pude verter toda minha dor até ele conseguir me acalmar e fazer eu me sentir especial de novo antes de começar a aula.

Para a minha surpresa, procurei a professora no final da aula para pedir ajuda e relatar o que havia acontecido, mas ela já sabia. Mas como? Ela disse que o segurança mais velho havia lhe procurado para contar a sua versão, mas que ela não poderia conversar comigo naquele momento porque não daria tempo de fazer o amigo secreto, mas que, na próxima aula, com certeza sentaria para me ouvir e me dizer o que ele disse.

Como que eles sabiam que aquela mulher era a minha professora? Como não me sentir perseguida por eles depois de tudo? Por fim, me pergunto angustiada: como entrarei na universidade novamente para a próxima aula? Me sinto constrangida, com medo e intimidada por eles.

Na próxima aula, a professora foi me encontrar na saída e me disse que estava muito triste com o que tinha acontecido e lamentou muito. Ela disse que, antes de tudo acontecer, no início do semestre, ela procurou o segurança mais velho (grisalho) para informá-lo que tinha uma aluna trans e que se ele encontrasse alguma coisa divergente na minha documentação, que era para ele liberar a minha entrada, porque a universidade tinha cometido um erro nos meus documentos e estava corrigindo. Ela disse que chegou a falar sobre o processo, tramitando judicialmente.

Se eles já sabiam de tudo, por que criaram toda essa situação de constrangimento? — Questionou.

A professora ficou chocada e nervosa… Pediu a minha identidade nova, minha certidão de nascimento e levou para a diretoria da universidade, e lá ela conseguiu alterar meu nome no Portal do Aluno, mesmo depois da juíza ter concedido uma liminar para que a universidade alterasse o meu nome em todos os sistemas da FACS e, mesmo com uma liminar judicial, eles não alteraram. A minha professora quem conseguiu fazer isso. Na mesma noite, ela me disse que, se eu precisasse que ela testemunhasse ou desse entrevista a meu favor, que ela prestaria.

Eu disse: — Mas isso não vai te prejudicar na universidade? Você pode ser demitida, professora.

— E quem disse que estou preocupada com isso? — Retrucou rapidamente.

Ela falou que não tinha medo e que estava do lado da verdade, que era uma professora séria e muito competente, e que se fosse demitida, seguiria a vida dando aula em outras universidades, como ela sempre fez, desde Minas Gerais, de onde veio. Mas ela não iria admitir e nem compactuar com nada que fosse de cunho desreipeitoso e desumano.

Uma semana depois, mudaram a professora de Campus…

Breve Biografia

A estudante tem todos os documentos retificados desde o início de 2019. Mas Vanessa sempre foi Vanessa. Nas duas primeiras ultrassonografias, o seu sexo deu feminino. Sua mãe, Vânia de Jesus Amorim, escolheu o nome “Vanessa” para quem seria a sua primeira filha. Mais tarde, no último mês de gestação, Manoel Santos de Jesus, pai da escritora, decidiu fazer mais um exame, pois, durante os dois últimos, ela estava o tempo todo sentada, de pernas cruzadas, em posição considerada DELICADA E FEMININA pelos especialistas da época, então os médicos mais experientes disseram que se tratava de uma menina. Quando saiu o resultado da última ultrassom, o casal descobriu que, na verdade, a chegada era socialmente de um “menino” por causa do órgão de reprodução masculina. Manoel e Vânia já haviam comprado e ganhado tudo, “absolutamente TUDO” para a chegada dela. Hoje, Vânia conta que não deu mais trabalho porque a filha tinha ganhado muitas roupas brancas e amarelas, e que serviria para “ELE.” Falou também que Vanessa não sofreria violência psicológica por parte do pai, pois Manoel começou a chamá-la de Van desde bebê, e que só teriam apenas que passar a tratá-la e chamá-la no gênero feminino, ao qual, na verdade, a escritora sempre pertenceu.

“Me lembro bem que quando eu era criança e ia brincar com os meninos, eu era sempre rejeitada. Eles diziam que lá não era o meu lugar, que eu tinha que brincar com as meninas, porque meninas brincam com meninas. Eu ficava confusa, porque, mesmo passando a maior parte brincando com elas, meus pais e o meu irmão mais velho sempre disseram que era para eu brincar com os meninos, pois lá que era o meu lugar. Quando eles finalmente me deixavam brincar, se fosse de Power Rangers, eu era sempre a rosa ou amarela, não porque queria, mas porque era a única condição imposta por eles. Eu era sempre elegida a ser às personagens femininas da turma em todas as brincadeiras. Cresci jogando vídeo game com eles e sendo sempre as personagens femininas lá também. Por que será que os meninos sempre me excluíram das atividades masculinas e diziam que era para eu brincar com as meninas desde criança? Seria mesmo tão explícita assim a minha feminilidade?” — inquiriu.

Maria das Neves, mãe de Vânia, foi a primeira pessoa a quem a escritora levou o laudo endócrino para mostrar. Vanessa sempre teve uma relação linda e forte com a avó, uma senhora de 70 anos. Maria disse que a única preocupação dela era o que a neta iria fazer com o órgão e com a complexidade da cirurgia. Ela foi a pessoa mais velha que Van procurou para juntar o quebra-cabeça do seu passado e confirmar essa história. Maria falou que a família realmente estava preparada para recebê-la, e que de repente tudo mudou, que a melhor parte foi ela manter o nome dado pelos pais, continuar sendo chamada de Van e não ter escolhido outro, como costuma acontecer com outras pessoas trans. Ela confessou também que teria dificuldade em se adaptar a um nome diferente, e que Vanessa deve erguer a cabeça, seguir em frente e sempre se sentir abençoada, pois nem todas as mulheres trans tem a sorte de nascer com tantos privilégios genéticos e sociais como ela. — conta.

Foto em comemoração ao primeiro ano de transição

Laudo Endócrino

A escritora é um caso intrigante na medicina, pois tem laudo endócrino e psicológico que atestam que ela é uma mulher transexual. Vanessa chegou aos 26 anos tendo apenas produzido em toda sua vida 1,728nmol/L de Testosterona TOTAL, sem uso de bloqueadores, sendo que, HOMENS de 18 a 30 anos, tem que ter de 8,98 nmol/L a 28,31 nmol/L e MULHERES de 0,00 nmol/L a 2,60 nmol/L, tendo Vanessa A VIDA INTEIRA, naturalmente, estado dentro dos padrões hormonais femininos, como consta no resultado do laudo abaixo:

O resultado da testosterona LIVRE de Vanessa foi: 0,027 nmol/L. Referência: HOMENS saudáveis de 17 a 65 anos: Menor igual a 0,637 nmol/L e MULHERES saudáveis de 17 a 50 anos: Menor igual a 0,039 nmol/L.

A endocrinologista Dra. Luciana Borges Oliveira ficou impressionada com os resultados dos exames dela, dizendo que Vanessa é um caso raro na medicina e que, se fosse em uma avaliação, ela teria nota máxima, pois seu laudo endócrino e os exames físicos comprovaram a sua existência. No exame físico, atestou ainda que, por falta de testosterona no corpo, havia uma deficiência na genitália da escritora, pois sua miniatura de testículo e do órgão genital nunca haviam desenvolvido. A médica usou um orquidômetro (aparelho medidor de testículos) para examiná-la e concluiu que se trata de hipogonadismo hipogonadotrófico.

O Hipogonadismo é uma doença na qual as gônadas (testículos nos homens e ovários nas mulheres) não produzem quantidades adequadas de hormônios sexuais, como a testosterona nos homens e o estrogênio nas mulheres. Além dos hormônios, os testículos podem não produzir espermatozoides adequadamente. Geralmente ocorre quando a testosterona está menor que 300 ng/dl e/ou livre menor que 6,5 ng/dl. Van tem quase nível zero: Livre: 0,027 nmol/L e Total: 1,728nmol/L.

Antes de mais nada, é preciso lembrar que as gônadas funcionam comandadas por uma outra glândula chamada hipófise. Esta glândula fica na base do cérebro e produz hormônios (FSH e LH), que fazem os testículos e ovários funcionarem. Sendo assim, podemos começar a pensar que a causa do mal funcionamento das gônadas da escritora advém da hipófise, por isso ela não produziu hormônio masculino e nem passou pela puberdade na adolescência.

Contudo, para a endocrinologista, não restou dúvidas de que Vanessa nasceu para ser uma mulher Cisgênero: “Não tenho nenhuma dúvida de que você nasceu para ser XX.”

A estudante tomou a primeira injeção da hormonioterapia no dia 01/07/2018, de forma avulsa, pois o ministério da saúde adverte que os endocrinologistas só devem atender e tratar pessoas trans com laudos psicológicos em mãos. O problema é que não existe uma regra e um número de sessões exatas para obter o laudo psicológico. Cada psicólogo precisa ouvir o suficiente para emitir o laudo de transexualidade de acordo com a DEMANDA e disforia que a pessoa traz.

Laudo Psicológico

O Dr. Maurício Cana Brasil, psicólogo da escritora desde 5 de outubro de 2018, disse, no primeiro dia de psicoterapia, que, se dependesse dele, o laudo dela seria emitido naquele mesmo instante, pois, por conta da DEMANDA que ela trouxe, segundo ele, com tudo que ouviu, não lhe restou dúvidas de que estava diante de uma mulher. Mas ela só obteve o primeiro 1/2 laudo psicológico no final de abril de 2019, por isso só começou o tratamento endócrino oficial em julho, um ano após sua primeira aplicação avulsa.

Vanessa completou 2 anos de transição na última quarta-feira 01/07/2020 e hormonalmente está apta para passar pela cirurgia, mas só vai obter o seu último laudo psicológico 2/2, que permite fazer CRS, cirurgia de redesignação sexual (mudança de sexo), em outubro de 2020, quando finalmente completará o tempo de tratamento psicológico e endócrino exigido pelo protocolo da OMS (Organização Mundial da Saúde). Após usar as técnicas (escuta clínica, entrevista estruturada e observação), o psicólogo concluiu no laudo que Vanessa Amorim encontra-se EGOSSINTÔNICA em relação aos seus sentimentos, imagem e comportamentos identificatórios, afastando a existência de QUALQUER quadro psicopatológico.

Egossintônico é um termo que se refere a comportamentos, valores e sentimentos que estão em harmonia com ou aceitáveis para as necessidades e objetivos do ego, ou consistente com o próprio ideal da autoimagem. Entende-se por egossintonia as ideias ou impulsos que são admitidos tanto pelo ego como pelo superego e que se coadunam com o ego ideal, essa imagem do eu que existe isenta de qualquer crítica. Em egossintonia, a atividade mental está em conformidade com o ego. Nestes casos, um sentimento é egossintônico quando está em consonância com a representação que o indivíduo tem de si mesmo. Sendo assim, conclui-se que não há possibilidade de Vanessa não ser uma mulher, pois se encontra egossintônica, segundo o Dr. Maurício Brasil Cana Souza.

Procurada pelo Salvador Notícias, Fernanda Correa, advogada da estudante, preferiu não se manifestar sobre o caso.

A outra parte

Em nota enviada por e-mail à Universa, a UNIFACS disse que adota o procedimento de uso de nome social no ato da matrícula “quando demandada pelo estudante, bem como a mudança do nome civil, desde que apresentada documentação comprobatória.”

Leia a nota:

“Há muitos anos, a UNIFACS desenvolve o fomento à cultura da diversidade envolvendo a área acadêmica e colaboradores, por meio do Comitê da Diversidade, Direitos Humanos e Cultura da Paz, que conta com membros da universidade e representantes da sociedade civil. O Comitê foi reconhecido pelo trabalho que desenvolve, tendo recebido o Prêmio de Honra ao Mérito Cultural LGBTTQIA, concedido pelo Grupo Gay da Bahia (GGB).”

Uma pessoa LGBT+ é agredida no Brasil a cada hora, revelam dados do SUS

Pesquisa inédita mostra que pessoas negras são alvo de metade dos registros de violência contra população LGBT+

Uma pesquisa inédita feita baseado nos dados do Sistema Único de Saúde (SUS) mostrou que a cada uma hora uma pessoa LGBT+ é agredida no Brasil. Entre 2015 e 2017, data em que os dados foram analisados, 24.564 notificações de violências contra essa população foram registradas, o que resulta em uma média de mais de 22 notificações por dia, ou seja, quase uma notificação a cada hora.

O levantamento foi realizado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Secretarias de Atenção Primária em Saúde e de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde,  Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS) e pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Os pesquisadores coletaram as notificações feitas pelo Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), que faz parte do SUS, e que, portanto, inclui diversos casos de violência que não foram denunciados.

A pesquisa mostra um cenário muito pior do que se imaginava, mas os números podem ser ainda maiores. Os pesquisadores dizem que há muitas pessoas que não registram a ocorrência, não procuram o sistema de Saúde e, quando procuram, muitas não colocam sua orientação sexual por medo ou vergonha, o que faz aumentar os casos de subnotificação da violência.

População negra é a mais atingida

De todas as agressões, mais da metade delas são cometidas em pessoas negras.  A identidade de raça ou cor das vítimas foi descrita como branca em 41,4% dos casos, 1,8% amarelos ou índios e em 6,8% foi ignorada a raça.

Os pesquisadores explicam que não há como saber se as pessoas mais atingidas pela violência são negras, porque não há uma medição de quantas pessoas LGBT+ negras existem no Brasil. O estudo apenas descreve o que foi identificado no sistema de informações usado pelo SUS.

Entre adolescentes, a porcentagem de negros é ainda maior: 57%  de LGBT+ de 10 a 14 anos que foram agredidos são pardas ou pretas. Em todas as faixas etárias, a natureza de violência mais frequente foi a física (75%) e, em 66% dos casos, o provável autor é do sexo masculino.

Transsexuais e lésbicas são mais vítimas da violência

Os dados até então apresentados pela Associação Nacional de Travestis e Transsexuais (ANTRA) mostram que o Brasil é dos países que mais mata travestis e transsexuais do mundo, e que elas são as mais atingidas dentro da sigla. E isso foi sustentado pela pesquisa divulgada agora. Das vítimas, 46% eram transexuais ou travestis.

As pessoas homossexuais são 57%, das quais 32% lésbicas e 25% gays, mostrando que a violência contra gênero é algo relevante no quesito da agressão. E não só isso: pesquisadores ressaltam que, além do gênero, a raça e a classe são relevantes para se analisar a violência contra LGBT+.